quinta-feira, 9 de junho de 2011

Strigae

(Foto das placas de indicação: Maradona - muito obrigada! O Reboliço quis saber de onde viria o estranho nome de Estiramantens. Deu-se conta de que n'A Causa Foi Modificada - que não exibe arquivos - já tinha havido uma referência ao topónimo, igualmente odd, de Estragamantens: essa que está atestada acima. Daí até encontrar uma explicação plausível para os dois nomes foram só passinhos de cão pequeno e a sorte de haver trabalhos disponíveis online. Escreve Luís Fraga da Silva que a divisão fundiária do vale da Asseca, na região de Tavira, tem origem romana e "corresponderá, pela sua forma, ao processo de divisão cadastral em strigae e scamnae. [...] O termo striga poderá estar na etimologia dos lugares de Estiramantens (no limite norte das centúrias balsenses [i.e., de Tavira]) e Estraga Mantens (na Serra), topónimos moçárabes provenientes do latim tardio, quiçá já com o sentido de tiras de terra, longas e estreitas." Diz mais: "A delimitação cadastral nas formas strigae/scamnae aplica-se a vales planos, de valor agro-pecuário, encaixados entre terrenos montanhosos e pobres. A centuriação clássica é impossível nestas topografias, devido à estreiteza e mudanças de direcção da faixa de terra útil. Este processo consistiria na divisão em talhões perpendicularmente a um eixo que pode mudar de direcção (striga em talhões verticais ao longo de um eixo horizontal e scamna, vice-versa). O vale da Asseca estaria assim submetido a um cadastro strigatum, em contraste com o restante território litoral, em que são notáveis os vestígios de centuriações ortogonais clássicas." Tome-se e embrulhe-se, que tudo se conforma ao chão que o Reboliço pisou e de onde colheu ameixas saborosissímas. Fica por saber a origem de -mantens, mas de passagem, ainda conheceu o que significa a palavra gromático - relativo à agrimensão, que lhe recordou Ernst Jünger e Eumeswil - e o sentido preciso de centuriações - as divisões de territórios agrícolas em parcelas, atribuídas aos primeiros colonizadores romanos -, termo que só lhe trazia à ideia outro canito.)

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Mal sabem eles...

Faith Durand, uma das pessoas que escrevem no blogue The Kitchn, tece loas ao polvo assado, às batatas perfeitas.
(O Reboliço comove-se, a pensar que o batatal deste ano no moinho - assim como as uvas, ai, e tantas azeitonas - está comprometido, à conta da saraivada que caiu em Beja domingo passado.)

Boa fruta

(Hip-foto das ameixas de Estiramantens que mataram duas ramadas da árvore com o peso do açúcar: Reboliço, em êxtase calórico com reposição vitamínica. [Ameixas e prato graça do G.])

terça-feira, 7 de junho de 2011

Não interrompam agora.

O Reboliço está a dançar.
(Obrigada, Fátima. E que belo baile!)

domingo, 5 de junho de 2011

O Reboliço é um nefelibata (45)

(Hip-foto da nuvem atrás do Teatro Municipal, com filtro feito com um par de magníficos óculos de sol, à saída do concerto promenade: Reboliço, ainda enternecido com o som da harpa e a caminho do lugar de Estiramantens para uma tarde de dolce far niente.)

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Olhar para o fundo

O Reboliço revels no novo brinquedo de ver quadros de Paula Rego.

domingo, 29 de maio de 2011

Baleia

(Hip-foto da página com a ilustração que Aldemir Martins fez em 1963 para a novela Vidas Sêcas, de Graciliano Ramos: Reboliço, em homenagem à cachorra Baleia, esfaimada, seca daquele sol do sertão nordestino e fiel aos donos. Sacrificada sem compreender porquê, iria dar a um paraíso "todo cheio de preás, gordos, enormes.")

sábado, 28 de maio de 2011

Oh...

Go meet your devil, you devil you. Oxalá reencontres a noite.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

A Poesia e a História

"Existe uma relação da tomada de Santarem, espécie de poema em prosa em que figura o proprio rei narrando as particularidades da empresa. Esta composição é, segundo cremos, obra de um monge de Alcobaça. Postoque não haja absoluta certeza de que ella seja um monumento contemporaneo, é ao menos quasi coeva. E ainda que pelo seu estylo fuja das condições de uma narrativa chan e simples, não nos é lícito omittir as circumstancias do successo ahi referidas, ao menos aquellas que não parece derivarem das fórmas poeticas que predominam nessa memória."
(No prefácio à 4ª edição, de 1875, do I tomo da sua Historia de Portugal - Desde o começo da monarchia até o fim do reinado de Affonso III, coisa que o ocupou entre 1846-1853, Alexandre Herculano defendia que "a poesia na sciencia é absurda". Daí os cuidados. Citado da 5ª edição, Lisboa, Bertrand, s.d., p. 362.)

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Oh...

quarta-feira, 25 de maio de 2011

O Reboliço colecciona calendários (21)

(Fotos do calendário da Dona Ju: Reboliço, acolhido e grato. Hontem, hoje e sempre.)

terça-feira, 24 de maio de 2011

Happy birthday, Bob -

- thought you might like to see yourself in a new darkness.
(Como? Não eras tu? Ah, fiz confusão. Desculpa-me. Vê lá agora.)

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Messi na poesia: “Nem com Rede nem com Tridente”


“Neither With Net nor Trident”
 
The genius, the genius of
Football
In our modern-day life
Utterly
Unpredictable
He doesn’t know
What he’s going to do
So how the hell
Do the defenders
You cannot contain him
With a net
Or a trident
He’s got pace
He’s got power
He’s got vision
Technique!
And he’s got
Finishing power
His cup
Runneth over ...
Magnificent Messi
Wild man
He doth bestride the Earth
Like a Colossus

(Daqui. Post dedicado ao culé mais lindo do planeta do Reboliço, que para mais é Lleidatá apaixonado e belíssimo escrevente.)

Cessar-fogo

                               Ceasefire

                                      I
Put in mind of his own father and moved to tears
Achilles took him by the hand and pushed the old king
Gently away, but Priam curled up at his feet and
Wept with him until their sadness filled the building.

                                      II
Taking Hector’s corpse into his own hands Achilles
Made sure it was washed and, for the old king’s sake,
Laid out in uniform, ready for Priam to carry
Wrapped like a present home to Troy at daybreak.

                                     III
When they had eaten together, it pleased them both
To stare at each other’s beauty as lovers might,
Achilles built like a god, Priam good-looking still
And full of conversation, who earlier had sighed:

                                     IV
‘I get down on my knees and do what must be done
And kiss Achilles’ hand, the killer of my son.’


Cessar-fogo

I
Com o sentido no seu próprio pai, levado às lágrimas,
Aquiles conduziu-o pela mão e afastou o velho rei
Com delicadeza, mas Príamo enrolou-se-lhe aos pés
E chorou com ele até as duas tristezas inundarem o edifício.

II
Tomando nas mãos o corpo de Heitor, Aquiles
Assegurou-se de que fora lavado e, por amor ao velho rei,
Disposto de uniforme, pronto a que Príamo o levasse
Embrulhado como uma oferenda para Tróia, ao amanhecer.

III
Depois de terem comido juntos, deliciaram-se a
Admirar a beleza um do outro, como fariam amantes,
Aquiles de constituição divina, Príamo ainda bem parecido
E conversador, quando antes chorara:

IV
'Ajoelho-me e faço o que deve ser feito,
Beijo a mão de Aquiles, que matou meu filho.'

(Michael Longley, 1994, in The Ghost Orchid)

domingo, 22 de maio de 2011

Quando o segundo sol chegar, ficarão alinhadas as órbitas dos planetas e será inventado o tele-transporte. (Post dedicado aos meninos e meninas da PPGIS da UFSCar, à Laurinha e à Rosane.)

O Reboliço aterra na cidade da ria. A cidade brilhante da ria tem poucos ruídos e ouvem-se todos com nitidez, por não haver o drone das megalópoles. Mas fica-lhe no ouvido da cidade grande um telefone a tocar, de algum lugar por descobrir, e a voz de Cássia. Não tem explicação.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Com toda a palavra (4)

(Foto do aviso no corredor do Departamento de Letras da UFSCar: Reboliço, a verificar.)

domingo, 15 de maio de 2011

Com toda a palavra (3)

(Foto dos botões de madeira sobre fundo de madeira na exposição "Sob o Peso dos Meus Amores", Instituto Itaú Cultural: Reboliço, encantado.)

Com toda a palavra (2)

 (Hip-foto do aviso na banca de feira na pequenina Rua dos Bombeiros, Jardim Paulista: Reboliço, a conter-se.) 

Des Hommes et des Dieux

Uma das coisas de que mais gosto em Des Hommes et des Dieux é que, mesmo ao fim de umas três ou quatro cenas com Lambert Wilson a fazer de frei Christian, não me convenço de que é mesmo ele e está mesmo a fazer de monge trapista. O problema não é o actor: vai tão bem que me custa a crer que não seja a personagem. Disso, dos passeios entre as oliveiras e de um Cristo de Mantegna encarnado pelo terrorista islâmico baleado, sobre uma maca, prestes a ser tratado pelo monge Luc.

sábado, 14 de maio de 2011

Também eu chego à cidade


Moi aussi...
Moi aussi
J’arrive à la ville
Pour y verser
Ma vie
Je monte la rue
Comme un géant
Ça c’est la ville
Et ça…
C’est ma vie

Moi aussi…
Moi aussi
J’arrive en fuyant
Je suis encore
Loin devant
Si la ville me cache
On ne me trouvera pas
Je ne sais pas qui
Je ne sais plus quoi

Moi aussi…
Moi aussi
J’arrive les mains vides
Au sud du nord
Au nord du sud
J’ai un passé
Mais je ne m’en sers pas
Le futur sera mieux
Tellement mieux que ça

Moi aussi…
Moi aussi
J’arrive à la ville
Pour y verser
Ma vie
Je monte la rue
Comme un géant
Ça c’est la ville
Et ça…
C’est ma vie

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Repousado

(Hip-foto do marreco à meia-sombra nos Jardins da Gulbenkian: Reboliço, no intervalo.)

Folgado!

(Hip-foto do bichano a ronhar nos jardins da Gulbenkian: Reboliço, do lado ingrato do vidro. O título do post é da Mulher do Lado.)

terça-feira, 10 de maio de 2011

Moinhos na poesia (35)

O Criador chama o moleiro à sua presença:
- Moleiro anda p’ró Céu!
- Senhor não tenho vagar:
Tenho o fole na moenga
Que está por maquiar.
O Criador:
- Então como fazes a maquia?
- Vem a mulher, tira o que quer,
Vem a Maria, tira a maquia,
Vem o patrão, tira o maquião,
Vem o criado, tira mais um bocado,
E ainda há-de dar p’ro vinho e p’ro tabaco
E p’ra ração do burro qu’anda fraco.
Este saco deita-se p’ra’quele canto
E se o dono demorar,
Tira-se outro tanto,
E não fora contas a Deus ter que dar,
Nem o fole vazio ao freguês ia parar.
Defunto o moleiro, bate às portas do Céu:
- Abre a porta ó S. Pedro!
Abre a porta, deixa-me entrar.
Diz-lhe o Santo: - Tu não entras
Sem o padre te confessar.
Por isso aqui fica à espera
Enquanto um vou procurar.
Volta o Santo afogueado,
Dizendo preocupado,
- Procurei bem procurado,
Em todo o céu, mais algum
Moleiros, ‘inda vi um,
Padres..., é que não vi nenhum!
(Romance de cordel, achado aqui depois de ouvido, em cantiga, da boca do moleiro no filme O Barão.)

domingo, 8 de maio de 2011

Andamos a ler

- Luca, está lá um bocadinho sossegada, a ver se me concentro.
- Para quê? O que estás a fazer?
- Estou aqui a ver se respondo a umas perguntas sobre o que já li, o que estou a ler, coisas que não li, sei lá, é um mundo de perguntas. Foi a Sem-Se-Ver que me passou o desafio, e voltou a insistir hoje, enquanto aproveitávamos o fim da tarde no Jardim da Alameda. As perguntas não foi ela que as fez, são iguais para toda a gente. Deixa lá ver se respondo a tudo.


1 - Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?
O primeiro livro que li mais do que uma vez chama-se O Meu Pé de Laranja Lima. Da segunda vez li-o em voz alta. Depois disso já me apeteceu ler vários vezes repetidas, mas por defeito e boa fortuna profissional os repetidos são quase sempre peças de Shakespeare. Ou romances de Charles Dickens.

2 - Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
É capaz, mas não me lembro. Normalmente, se percebo que não o vou terminar, nem o começo. Mas já houve inúmeros de que li as primeiras frases e não quis continuar. (Lembro-me de um da Lídia Jorge que tinha "gruas" no título, ou "andaimes", qualquer coisa assim.)

3 - Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?
Ler o mesmo livro para o resto da vida? Sei lá. Teria que ser muito divertido, que não deixasse de me divertir. Olha, as Cartas do Meu Moinho, de Alphonse Daudet, seria uma hipótese. Mas para sempre e sem poder ler mais nenhum, não sei - talvez nem o Dom Quixote evitasse que me aborrecesse. Quando não há mais o que ler, a literatura deve ser uma grande chatice.

4 - Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
Não é só um, são imensos. Uma lista interminável daqueles que são considerados clássicos. Os Budenbrooks, por exemplo, ou o Guerra e Paz. Mas só me lembro disso porque aparece aqui uma pergunta assim. Não levo os dias a pensar "que pena não me apetecer mais vezes ler os Budenbrooks".

5- Que livro leste cuja 'cena final' jamais conseguiste esquecer?
Esqueço-me muito dos pormenores dos livros que leio. Também por defeito e sorte da profissão, o epílogo de The Tempest, de Shakespeare, ou as últimas páginas do Heart of Darkness, de Joseph Conrad, tenho-os bem presentes na memória. E são ambos pedaços excepcionais de literatura. Mas há outros igualmente impressionantes (o fim do Sinais de Fogo de Jorge de Sena, ou o do Dom Casmurro, de Machado de Assis). Quando gosto muito de um livro, vou ficando com uma grande frustração à medida que o fim dele se aproxima, porque significa para mim que, de alguma maneira, se vai anunciando o final do prazer de descobrir aquele livro.

6- Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Lia o que apanhava: romances oitocentistas (portugueses e alguns franceses traduzidos), livros de educação infantil, enciclopédias médicas e manuais de enfermagem, livros da Enid Blyton, da Alice Vieira, do José Mauro de Vasconcelos... Era o que havia em casa e na biblioteca da escola. E havia uns folhetins velhos na mercearia do avô Martins, já não me recordo dos títulos, mas eram umas tragédias de chorar baba e ranho e eu lia com avidez as folhas envelhecidas.

7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
Quando tive de ler A Sibila, no liceu, foi custoso. Devo ter desistido e recomeçado umas seis ou sete vezes. Mas tinha que ser, e acabei por lê-lo de uma ponta à outra e de gostar muito de o ler.

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
Não tenho nenhum livro preferido, ou às vezes tenho. Gosto muito dos livros quando os estou a ler, depois passam a ser livros que me impressionam e estimo de um modo diferente de "gostar de ler". Já houve livros que me deram imenso prazer ler e considero livros menores (os do T. C. Boyle, por exemplo, ou alguns do Paul Auster); dos grandes livros, por vezes não recordo bem o prazer de os ler além de me sentir feliz por os conhecer. Se os livros preferidos são livros que recomendasse, ainda assim faria a recomendação em função do objectivo da leitura de quem ma pedisse. Por outro lado, apetece-me muitas vezes que não tivesse havido na literatura escrita em português nada depois do Machado de Assis.

9. Que livro estás a ler neste momento?
Tenho sobre a mesa de cabeceira dois muito semelhantes, que ando a ler há mais de três quinze dias: The Ballad of Dorothy Wordsworth e Families and How To Survive Them.

10. Indica dez amigos para o Meme Literário.
Dez???  Vão cinco e é um pau: Adriana Nogueira, Ana Cristina Joaquim, Carla Quevedo, CF e Isaïes Fanlo,

sábado, 7 de maio de 2011

50 anos (post dedicado)

(Foto da inscrição na mó: Reboliço. Faz meio século que no moinho se juntaram outros moleiros ao avô, os filhos e amigos, e se mudou mais uma mó. A pedrinha nova, coisa para, em sendo calcário, pesar uma tonelada bem medida, implica a desmontagem das escadas para os dois andares e o atravessamento sobre o pau do mastro principal, junto ao tecto, de um baraço da grossura de um braço de homem forte. O baraço há-de passar pelo buraco da mó e, com os braços de fortes homens a empurrar as varas, do lado da rua, ajudar a içar a pedra para o piso intermédio. A colocação da pedra na horizontal, aprumada a fio e olho, são outros tantos quinhentos de rigor e testa franzida. Como em  todos os trabalhos que exigem atenção e muita gente concentrada, fecha-se com festa e algazarra. Ou espumante e pizza.)

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Três Primaveras, três!

(Hip-foto do pequeno Matias, pouco antes de completar três anos: Vasco Célio.
Parabéns, meu sobrinho!)

terça-feira, 3 de maio de 2011

A boa morte (2)

- Estás a ver, Luca, também se pode morrer como num filme de terror.
- Brrrrrrr!... Alguma vez viste filmes em que ela entra, Reboliço? O ataque da mulher de quantos metros? E O ataque das sanguessugas gigantes?
- Nem pensar!, que medo...

Numa rua de escadas de Lisboa

O Reboliço sobe a rua de escadas, de fôlego recobrado a cada degrau, devagar para não perder o dito. O dia tem um véu de névoa invisível: a chuvada em ameaça suspensa dá aos sons a redondeza que os faz claros, audíveis sem barreira nenhuma. Passa debaixo de uma janela aberta - o véu encerra a cidade, sufoca-a, tira-lhe o ar -, ouve uma voz jovem, de mulher aflita. "Olha, pá, tu se tirares um curso superior vais fazer é o que quiseres, pá. Mas se não tirares, ó pá, fazes o que houver p'ra fazer, 'tás a ver?"
Escapa-te, Reboliço, mora ali um bicho papão.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

A notícia é...

... a notícia.

sábado, 30 de abril de 2011

Jornadas Europeias dos Moinhos

(Os moinhos também vão em jornadas, pensa o Reboliço.)

sexta-feira, 29 de abril de 2011

A boa morte

O Reboliço ouve alguém dizer que teme as mortes tolas e que desejaria uma morte belíssima, como a de Isadora Duncan. Pensa que a beleza da morte, como talvez a beleza seja do que for, está no olhar de quem a contempla. Quem olha para a morte de Duncan vê a dança, vê a beleza, que quer ver.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Fim de festas

(Hip-foto do topo do confessionário da igreja de São Marcos da Atabueira, no final da missa da festa do padroeiro: Reboliço, de cravo ao peito a lembrar-se de ter lido no Diário do Alentejo que "Beja não celebra o 25 de Abril", porque este ano até "coincide com a Páscoa". E onde já se viram tamanhas heresias, celebrações religiosas misturadas com coisas laicas!)

domingo, 24 de abril de 2011

Semáforo


(Hip-fotos - nos formatos de lente Kaimal Mark II, Jimmy e John S, e de película Ina's 1969, Kodot XGrizzled e Blanko - do crivo remendado, pendurado junto à porta de trás do moinho: Reboliço, a brincar com o zingarelho.)

sábado, 23 de abril de 2011

"O que chove é oiro!"

(Hip-foto das folhas da figueira grande, com os figos já inchados: Reboliço, a sacudir a bendita.)

terça-feira, 19 de abril de 2011

...

São sete e meia de uma tarde cinzenta a Norte e azul sobre o mar. O Reboliço acaba de descobrir, por um acaso de patinhas sobre as teclas, um atalho lindíssimo e absolutamente inútil: ALT + . para fazer reticências. Está encantado!

segunda-feira, 18 de abril de 2011

É o maior.

(Hip-foto do Sorna a gozar as ervas e o sol: Reboliço, fã.)

Moinhos na poesia (34)

Porque nasci ao pé de quatro montes,
por onde as águas passam a cantar
as canções dos moinhos e das fontes,
ensinaram-me as águas a falar...

Eu sei a vossa língua, água das fontes...
Podeis falar comigo, águas do mar...
E ouço, à tarde, os longínquos horizontes
chorar uma saudade singular...

E, porque entendo bem aquelas mágoas
e compreendo os íntimos segredos
da voz do mar ou do rochedo mudo,

sinto-me irmão da luz, do ar, das águas,
sinto-me irmão dos íngremes penedos
e sinto que sou Deus, pois Deus é tudo...

domingo, 17 de abril de 2011

(Perto de Colchester, c. 1833-35)


(John Constable, "Stanway Mill, near Colchester", c. 1833-35. Aguarela sobre lápis. 14 x 19.7 cm. The Samuel Courtauld Trust, The Courtauld Gallery, Londres.)

sábado, 16 de abril de 2011

O moinho na parede

(Foto da foto que Castanho Gomes fez do Moinho Grande lá para 1976, ou por aí: Carla Martins. Um dia há-de aparecer aqui uma reprodução mais fiel, se o negativo for achado - por agora, a imagem, grande, enfeita a parede da casa do moleiro. Naquela hora o moinho trabalhava, chegava alguém ou partia.)

sexta-feira, 15 de abril de 2011

[Documentário]


Os portugueses, os de cabelo castanho,
divididos
por comunidades de marinheiros e comerciantes
e populações agrícolas do interior.

Audazes os primeiros
tradicionais conservadores os segundos
são como o trigo e os animais
mal sabem o que é o mar ou o comércio.

Tal como as planícies férteis
alternam com a terra montanhosa
bravia.

Fazem debulhas como no Antigo Testamento
cavalos velhos ou mulas andam à roda
de uma eira circular
esperam a ajuda final do vento
e as chuvas.

Os portugueses, os de cabelo castanho.

(João Miguel Fernandes Jorge, À Beira do Mar de Junho, na regra do jogo, Lisboa, 1982, p. 92.)

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Bolos e Rosas

(Foto do folar que a Rosa fez e lhe ofereceu: Reboliço, no dia em que fez e ofereceu o bolo de cenoura que outra Rosa lhe ensinou.)

terça-feira, 12 de abril de 2011

PASTELARIA

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
– ele há tanta maneira de compor uma estante

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

(Mário Cesariny, Nobilíssima Visão, Guimarães & C.ª Editores, Lisboa, 1975, 2ª. edição, que inclui "só os poemas escritos sob esse título em 1945-46, anos que correspondem a uma leitura do 'país real' topado pelo autor à saída da adolescência linda mas já desconfiada da terra em que assentara os seus projectos de poesia civil: lírica, inocente: dramática.", pp. 18-19.)

domingo, 10 de abril de 2011

"For No Apparent Reason"

 (Hip-foto: Reboliço. Era manhãzinha e o Reboliço caminhou nas ruas inclinadas, cruzadas, da Mouraria; desceu ao Martim Moniz, a praça do que ajudou a ganhar Lisboa à mouraria, cruzou a praça para a Igreja de São Domingos ao Rossio, e entrou nela. Entre as paredes matinais, de luz sobre as colunas escavadas por um incêndio de 1959, ouviu, ainda sem ter ouvido, o ud, o alaúde de messieur Anouar Brahem, num cd que trouxera de empréstimo. Já fora da igreja, nas terras de outra presente mouraria, os sons, ouvidos, fizeram-no ver o mármore das magoadas paredes. Muito obrigada, Changuito!)

sábado, 9 de abril de 2011

(Para o Xana)


(Hip-foto hiper colorida do enésimo bolo de cenoura, decorado com três tulipas de verdade: Reboliço.)

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Contra a arquitectura

Foto: Reboliço. Franco La Cecla escreveu, o Mano traduziu e prefaciou, a Caleidoscópio editou, na colecção "Pensar Arquitectura". "Pensar Arquitectura" faz lembrar talk Aristotle.)

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Violet & Bobby

- Luca, anda ver!
- O que é, Reboliço?
- São falcões a chocar falcõezinhos.
- Mostra, deixa ver. Onde é que estão?
- Estão no topo da biblioteca Bobst, na praça Washington, em Nova Iorque. Cuidado, não empurres, olha que os assustas.
- Mas eles podem ver-nos, Reboliço?
- Claro que sim: isto é um vidrinho fino...

Ode to the Diencephalon (Ode ao Diencéfalo)

(after A. T. W. Simeons)
How can you be quite so uncouth? After sharing
the same skull for all these millennia, surely
you should have discovered the cortical I is
    a compulsive liar.

He has never learned you, it seems, about fig-leaves
or fire or ploughshares or vines or policemen,
that bolting or cringing can seldom earth a
    citizen’s problems.

We are dared every day by guilty phobias,
nightmares of missing the bus or being laughed at,
but goose-flesh, the palpitations, the squitters
    won’t flabbergast them.

When you could really help us, you don’t. If only,
whenever the trumpet cries men to battle,
you would flash to their muscles the urgent order
    ACUTE LUMBAGO!


(a partir de A. T. W. Simeons)
Como podes ser tão deselegante? Tantos
milénios a partilhar o mesmo crânio, terias
com certeza descoberto que o eu cortical é
um mentiroso compulsivo.

Nunca te fez saber, ao que parece, das folhas da figueira
ou do fogo ou dos arados ou das vinhas ou dos polícias,
que a trancar ou a recuar raramente enterram
os problemas de um cidadão.

Todos os dias nos incitam fobias culpadas,
pesadelos de perder o autocarro ou de se rirem de nós,
mas a pele de galinha, as palpitações, as cólicas,
nada disso as espantará.

Quando poderias de facto ajudar-nos, não ajudas. Se ao menos,
sempre que o trompete chame os homens à batalha,
lhes mandasses num flash a mensagem urgente de
LOMBALGIA AGUDA!

(W. H. Auden, 1972. Primeiro poema escolhido para celebrar o mês nacional da poesia, segundo The New York Review of Books. Tradução minha, muito claramente em progresso.)

domingo, 3 de abril de 2011

Para a Ju, que escreveu de uma praia.

(Hip-foto da flor de sabugueiro do moinho, acabada de cortar do ramo, pronta para ser secada e dar infusão reconfortante: Reboliço, cheio de sede.)