quinta-feira, 30 de junho de 2011

O Reboliço é um nefelibata (51)

Deleita-se a olhar para o céu sobre Lisboa.

Coisas vivas

(Foto da efemeridade encarnada: Reboliço, manifestamente contra lipo-aspirações.
O Reboliço maravilha-se: no mesmo dia em que lhe deram a conhecer um blog interrompido - alas! - pela abrupta interrupção que a morte impõe, descobre que o Thombeau voltou. Fecha os livros, senta-se de patinhas cruzadas em frente ao monitor e já não faz mais nada.)

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Flores amarelas

O Reboliço pergunta-se como será possível contar um cheiro, descrever um odor como o que ontem ao entardecer enchia o ar nos pinhais da ria Formosa: era o cheiro forte das flores amarelas que há nas dunas que separam a laguna do mar. O focinho ficou-lhe doido, a seguir o vento que o Leste trazia e fazia espalhar aquela sensação forte, inescapável, de presença doce e cruel.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Se o Reboliço não vai ao moinho...



(... vem o moinho ao Reboliço, em forma de figuinhos frescos. Hip-foto deles mais das suas folhas, segunda camada da figueira grande: Reboliço, com a pressa de os provar.)

Oh...

Tanto lhe deste imagens...

O Reboliço é um nefelibata (50)

We have seen that when the earth had to be prepared for the habitation of man, a veil, as it were, of intermediate being was spread between him and its darkness, in which were joined, in a subdued measure, the stability and insensibility of the earth, and the passion and perishing of mankind.
   But the heavens, also, had to be prepared for this habitation.
  Between their burning light, – their deep vacuity, and man, as between the earth's gloom of iron substance, and man, a veil had to be spread of intermediate being; – which should appease the unendurable glory to the level of human feebleness, and sign the changeless motion of the heavens with a semblance of human vicissitude.
    Between the earth and man arose the leaf. Between the heaven and man came the cloud. His life being partly as the falling leaf, and partly as the flying vapour.
(John Ruskin, Modern Painters, Part VII. Of Cloud Beauty, Chapter I. The Cloud Balancings, §1.)

("Vimos que, quando precisou de se preparar a terra para habitação do homem, espalhou-se entre ele e a escuridão da terra uma espécie de véu, de essência intermédia, em que se uniam, de modo ténue, a estabilidade e a insensibilidade da terra à paixão e à efemeridade do homem. 
Mas também os céus tiveram de ser preparados para habitação dele.
Entre a sua luz brilhante, – a sua profunda vacuidade, e o homem, assim como entre a escuridão da substância férrea da terra e o homem, teve de se espalhar um véu de intermédia essência; – para atenuar a glória breve do nível da humana fragilidade e assinar o movimento imutável dos céus com uma parecença da vicissitude humana.
Entre a terra e o homem ergueu-se a folha. Entre o céu e o homem veio a nuvem. Porque a sua vida é em parte como a folha a cair e em parte como o vapor em suspensão."
Tradução - ousadia - minha. As imagens dos links reproduzem aguarelas do próprio Ruskin.)

domingo, 26 de junho de 2011

Com toda a palavra (6)

(Hip-foto dos dois azulejos dedicados, escondidos num cantinho do pátio do Victoria & Albert Museum: Reboliço, embevecido.)

Com toda a palavra (5)

 (Hip-foto das costas do casaco desenhado por Yohji Yamamoto, uma das obras expostas no V&A: Reboliço, a querer fazer seja o que for. Claro.
Na fila da bilheteira, três mulheres conversavam: "Oh, I remember, you're the one that's not on Facebook, right?" "..." "What are we goin' to see, anyway?")

sábado, 25 de junho de 2011

O Reboliço é um nefelibata (49)

(Hip-foto das nuvens a fingir que saem da chaminé do edifício da University of the Arts do Chelsea College of Art and Design, em Atterbury St., à saída da Tate Britain: Reboliço, a contar com frio e a bufar de calor.)

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Oh...

Foi-se embora um amigo. Foi encontrar "o bicho branco de adormecer sem facas sobre o colo."

Cão de metal

(Foto de uma das esculturas em bronze, da série Círculo de Animais de Ai Weiwei, no pátio da Somerset House: Reboliço, cão de metal, uns dias depois da semi-libertação do artista chinês.)

quinta-feira, 23 de junho de 2011

"O Charlot é que sim"


Creio que uma das muitas pessoas que têm razão no mundo é Charlot.
É certo que passa fome, tem o seu frio no Inverno e as botas todas gastas,
mas ri-se de muita coisa,
despreza admiravelmente a ordem
e vai aguentando as cacetadas e prisões e outras violências.
No entanto,
o multimilionário Rockefeller é que passa por inteligente e empreendedor e grande,
e honesto e moralista,
e benfeitor também quando é preciso.
É evidente que o Rockefeller até trabalha aos domingos,
e que isso vai ficar na história dos grandes feitos de hoje,
mas o que mais me alegra são as vagabundagens do Charlot,
e o orgulho dele contra as moedas acumuladas,
e aquele chuto na ponta do cigarro ao ir para a prisão,
e esse infinito voltar de costas às fardas,
e o comprar comovidamente flores à rapariga cega,
e dar-lhe a mão depois 
e entristecer dos pobres serem tristes.
... É por isso que nunca sonho com o Rockefeller.
(Eduardo Valente da Fonseca, Tempo de Manequins, 1959
[republicado em Poesia Portuguesa do Pás-Guerra: 1945-1965,
organizada por Afonso Cautela e Serafim Ferreira,
Editora Ulisseia, Lisboa, pp. 155-156]. Obrigada, Changuito.)

quarta-feira, 22 de junho de 2011

O Reboliço é um nefelibata (48)

O Reboliço sabe que os bichos pequenos e farejantes não levam a vida de focinho no chão. O gato Fritz, por exemplo, fartou-se de olhar para as nuvens entre 2007 e 2009.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Tirar fotografias ou construir imagens

O Reboliço continua intrigado pelo movimento da agulha da sua atenção, quando olha para as fotografias. São peças incríveis de bem feitas, são montras tremendas do horror.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Oh...

"Por causa de O Sangue, de Pedro Costa (1989), ou de A Idade Maior (1989), de Teresa Villaverde, ou ainda de Xavier, de Manuel Mozos (1992), Pedro Hestnes foi o rosto com que se acendeu, nesses anos 90, uma utopia a que se chamou Cinema Português."
(Vasco Câmara, Público, 20 de Junho de 2011)

O Reboliço é um nefelibata (47)

- Reboliço!, até que enfim. Estava a ficar preocupada: onde é que foste?
- Fui a Bruxelas, Luca. A Fátima levou-me a ver nuvens. Queres que te mostre as fotografias que ela fez? Senta-te aqui quieta. Anda ver. Olha, passa lá a pata sobre as libelinhas...

sábado, 18 de junho de 2011

(Post dedicado)

Sem medo nenhum entrei neste bosque,
Vim sozinha.
Ali vejo Tircis, sem me comover.
Ah! Ah!, não terei nada para ajeitar?
Como é lamentável o jovem coração que não sente!
Não que procure o perigo:
Queria ao menos temê-lo.
(Chaconne de Marc-Antoine Charpentier, tocada e cantado o poema original aqui.)

quarta-feira, 15 de junho de 2011

As patinhas na água, o focinho no mar*

(Hip-foto-tela da areia por baixo da água: Reboliço, em modo Verão, a gozar as curtas noites e à espera que comece o jogo de escondidas.)
*Título roubado a Cesariny, the young.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Em dia

O Reboliço acorda com o romper do sol, senta-se a ler jornais e revistas. A farejar, a farejar, descobre El coloquio de los perros e vêm-lhe ao pensamento dois outros colóquios: o primeiro destes e outro que é mais precisamente uma conferência. De pássaros.

domingo, 12 de junho de 2011

O Reboliço é um nefelibata (46)

(Foto-boomerang: Diana Pimentel, no "lado mais fixe da ilha" da Madeira. Céu encapotado.)
(Hip-muito-hip-foto do pedacinho da praia de Faro que esta manhã coube na nova lente Tejas, com a novazinha película DreamCanvas: Reboliço, le peintre.
Nada de nuvens, Dona Diana. Céu sem um farrapinho.)

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Triste, triste, triste...

"Au Revoir Mon Amour". O Reboliço espera que seja mesmo um até re-ver.

"Completely nuts"

É Denny Crane quem diz de si mesmo que é "louco de carteirinha", ou "doido varrido". O melhor é quando essa qualidade infecta os senhores e as senhoras que fazem a tradução e legendagem de Boston Legal. Eis mais um perfumado exemplo, do final do episódio 12 da 3ª temporada, quando Denny e Alan partilham whiskey e charutos na varanda:

Alan Shore: How did it happen that dissent became some sort of heresy?
Denny Crane: I'm all for dissent [e continua, "especially when I know I'm right."]

Verte-se, em português escrito no écrã:

[Alan Shore:] Quando foi que o odor se tornou numa forma de heresia?
[Denny Crane:] Sou a favor do odor.

(O Reboliço também é a favor do odor. Tem um faro muito sensível.) 

Monsieur Daudet sur l'herbe

(Imagem encontrada aqui.)

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Strigae

(Foto das placas de indicação: Maradona - muito obrigada! O Reboliço quis saber de onde viria o estranho nome de Estiramantens. Deu-se conta de que n'A Causa Foi Modificada - que não exibe arquivos - já tinha havido uma referência ao topónimo, igualmente odd, de Estragamantens: essa que está atestada acima. Daí até encontrar uma explicação plausível para os dois nomes foram só passinhos de cão pequeno e a sorte de haver trabalhos disponíveis online. Escreve Luís Fraga da Silva que a divisão fundiária do vale da Asseca, na região de Tavira, tem origem romana e "corresponderá, pela sua forma, ao processo de divisão cadastral em strigae e scamnae. [...] O termo striga poderá estar na etimologia dos lugares de Estiramantens (no limite norte das centúrias balsenses [i.e., de Tavira]) e Estraga Mantens (na Serra), topónimos moçárabes provenientes do latim tardio, quiçá já com o sentido de tiras de terra, longas e estreitas." Diz mais: "A delimitação cadastral nas formas strigae/scamnae aplica-se a vales planos, de valor agro-pecuário, encaixados entre terrenos montanhosos e pobres. A centuriação clássica é impossível nestas topografias, devido à estreiteza e mudanças de direcção da faixa de terra útil. Este processo consistiria na divisão em talhões perpendicularmente a um eixo que pode mudar de direcção (striga em talhões verticais ao longo de um eixo horizontal e scamna, vice-versa). O vale da Asseca estaria assim submetido a um cadastro strigatum, em contraste com o restante território litoral, em que são notáveis os vestígios de centuriações ortogonais clássicas." Tome-se e embrulhe-se, que tudo se conforma ao chão que o Reboliço pisou e de onde colheu ameixas saborosissímas. Fica por saber a origem de -mantens, mas de passagem, ainda conheceu o que significa a palavra gromático - relativo à agrimensão, que lhe recordou Ernst Jünger e Eumeswil - e o sentido preciso de centuriações - as divisões de territórios agrícolas em parcelas, atribuídas aos primeiros colonizadores romanos -, termo que só lhe trazia à ideia outro canito.)

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Mal sabem eles...

Faith Durand, uma das pessoas que escrevem no blogue The Kitchn, tece loas ao polvo assado, às batatas perfeitas.
(O Reboliço comove-se, a pensar que o batatal deste ano no moinho - assim como as uvas, ai, e tantas azeitonas - está comprometido, à conta da saraivada que caiu em Beja domingo passado.)

Boa fruta

(Hip-foto das ameixas de Estiramantens que mataram duas ramadas da árvore com o peso do açúcar: Reboliço, em êxtase calórico com reposição vitamínica. [Ameixas e prato graça do G.])

terça-feira, 7 de junho de 2011

Não interrompam agora.

O Reboliço está a dançar.
(Obrigada, Fátima. E que belo baile!)

domingo, 5 de junho de 2011

O Reboliço é um nefelibata (45)

(Hip-foto da nuvem atrás do Teatro Municipal, com filtro feito com um par de magníficos óculos de sol, à saída do concerto promenade: Reboliço, ainda enternecido com o som da harpa e a caminho do lugar de Estiramantens para uma tarde de dolce far niente.)

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Olhar para o fundo

O Reboliço revels no novo brinquedo de ver quadros de Paula Rego.

domingo, 29 de maio de 2011

Baleia

(Hip-foto da página com a ilustração que Aldemir Martins fez em 1963 para a novela Vidas Sêcas, de Graciliano Ramos: Reboliço, em homenagem à cachorra Baleia, esfaimada, seca daquele sol do sertão nordestino e fiel aos donos. Sacrificada sem compreender porquê, iria dar a um paraíso "todo cheio de preás, gordos, enormes.")

sábado, 28 de maio de 2011

Oh...

Go meet your devil, you devil you. Oxalá reencontres a noite.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

A Poesia e a História

"Existe uma relação da tomada de Santarem, espécie de poema em prosa em que figura o proprio rei narrando as particularidades da empresa. Esta composição é, segundo cremos, obra de um monge de Alcobaça. Postoque não haja absoluta certeza de que ella seja um monumento contemporaneo, é ao menos quasi coeva. E ainda que pelo seu estylo fuja das condições de uma narrativa chan e simples, não nos é lícito omittir as circumstancias do successo ahi referidas, ao menos aquellas que não parece derivarem das fórmas poeticas que predominam nessa memória."
(No prefácio à 4ª edição, de 1875, do I tomo da sua Historia de Portugal - Desde o começo da monarchia até o fim do reinado de Affonso III, coisa que o ocupou entre 1846-1853, Alexandre Herculano defendia que "a poesia na sciencia é absurda". Daí os cuidados. Citado da 5ª edição, Lisboa, Bertrand, s.d., p. 362.)

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Oh...

quarta-feira, 25 de maio de 2011

O Reboliço colecciona calendários (21)

(Fotos do calendário da Dona Ju: Reboliço, acolhido e grato. Hontem, hoje e sempre.)

terça-feira, 24 de maio de 2011

Happy birthday, Bob -

- thought you might like to see yourself in a new darkness.
(Como? Não eras tu? Ah, fiz confusão. Desculpa-me. Vê lá agora.)

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Messi na poesia: “Nem com Rede nem com Tridente”


“Neither With Net nor Trident”
 
The genius, the genius of
Football
In our modern-day life
Utterly
Unpredictable
He doesn’t know
What he’s going to do
So how the hell
Do the defenders
You cannot contain him
With a net
Or a trident
He’s got pace
He’s got power
He’s got vision
Technique!
And he’s got
Finishing power
His cup
Runneth over ...
Magnificent Messi
Wild man
He doth bestride the Earth
Like a Colossus

(Daqui. Post dedicado ao culé mais lindo do planeta do Reboliço, que para mais é Lleidatá apaixonado e belíssimo escrevente.)

Cessar-fogo

                               Ceasefire

                                      I
Put in mind of his own father and moved to tears
Achilles took him by the hand and pushed the old king
Gently away, but Priam curled up at his feet and
Wept with him until their sadness filled the building.

                                      II
Taking Hector’s corpse into his own hands Achilles
Made sure it was washed and, for the old king’s sake,
Laid out in uniform, ready for Priam to carry
Wrapped like a present home to Troy at daybreak.

                                     III
When they had eaten together, it pleased them both
To stare at each other’s beauty as lovers might,
Achilles built like a god, Priam good-looking still
And full of conversation, who earlier had sighed:

                                     IV
‘I get down on my knees and do what must be done
And kiss Achilles’ hand, the killer of my son.’


Cessar-fogo

I
Com o sentido no seu próprio pai, levado às lágrimas,
Aquiles conduziu-o pela mão e afastou o velho rei
Com delicadeza, mas Príamo enrolou-se-lhe aos pés
E chorou com ele até as duas tristezas inundarem o edifício.

II
Tomando nas mãos o corpo de Heitor, Aquiles
Assegurou-se de que fora lavado e, por amor ao velho rei,
Disposto de uniforme, pronto a que Príamo o levasse
Embrulhado como uma oferenda para Tróia, ao amanhecer.

III
Depois de terem comido juntos, deliciaram-se a
Admirar a beleza um do outro, como fariam amantes,
Aquiles de constituição divina, Príamo ainda bem parecido
E conversador, quando antes chorara:

IV
'Ajoelho-me e faço o que deve ser feito,
Beijo a mão de Aquiles, que matou meu filho.'

(Michael Longley, 1994, in The Ghost Orchid)

domingo, 22 de maio de 2011

Quando o segundo sol chegar, ficarão alinhadas as órbitas dos planetas e será inventado o tele-transporte. (Post dedicado aos meninos e meninas da PPGIS da UFSCar, à Laurinha e à Rosane.)

O Reboliço aterra na cidade da ria. A cidade brilhante da ria tem poucos ruídos e ouvem-se todos com nitidez, por não haver o drone das megalópoles. Mas fica-lhe no ouvido da cidade grande um telefone a tocar, de algum lugar por descobrir, e a voz de Cássia. Não tem explicação.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Com toda a palavra (4)

(Foto do aviso no corredor do Departamento de Letras da UFSCar: Reboliço, a verificar.)

domingo, 15 de maio de 2011

Com toda a palavra (3)

(Foto dos botões de madeira sobre fundo de madeira na exposição "Sob o Peso dos Meus Amores", Instituto Itaú Cultural: Reboliço, encantado.)

Com toda a palavra (2)

 (Hip-foto do aviso na banca de feira na pequenina Rua dos Bombeiros, Jardim Paulista: Reboliço, a conter-se.) 

Des Hommes et des Dieux

Uma das coisas de que mais gosto em Des Hommes et des Dieux é que, mesmo ao fim de umas três ou quatro cenas com Lambert Wilson a fazer de frei Christian, não me convenço de que é mesmo ele e está mesmo a fazer de monge trapista. O problema não é o actor: vai tão bem que me custa a crer que não seja a personagem. Disso, dos passeios entre as oliveiras e de um Cristo de Mantegna encarnado pelo terrorista islâmico baleado, sobre uma maca, prestes a ser tratado pelo monge Luc.

sábado, 14 de maio de 2011

Também eu chego à cidade


Moi aussi...
Moi aussi
J’arrive à la ville
Pour y verser
Ma vie
Je monte la rue
Comme un géant
Ça c’est la ville
Et ça…
C’est ma vie

Moi aussi…
Moi aussi
J’arrive en fuyant
Je suis encore
Loin devant
Si la ville me cache
On ne me trouvera pas
Je ne sais pas qui
Je ne sais plus quoi

Moi aussi…
Moi aussi
J’arrive les mains vides
Au sud du nord
Au nord du sud
J’ai un passé
Mais je ne m’en sers pas
Le futur sera mieux
Tellement mieux que ça

Moi aussi…
Moi aussi
J’arrive à la ville
Pour y verser
Ma vie
Je monte la rue
Comme un géant
Ça c’est la ville
Et ça…
C’est ma vie

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Repousado

(Hip-foto do marreco à meia-sombra nos Jardins da Gulbenkian: Reboliço, no intervalo.)

Folgado!

(Hip-foto do bichano a ronhar nos jardins da Gulbenkian: Reboliço, do lado ingrato do vidro. O título do post é da Mulher do Lado.)

terça-feira, 10 de maio de 2011

Moinhos na poesia (35)

O Criador chama o moleiro à sua presença:
- Moleiro anda p’ró Céu!
- Senhor não tenho vagar:
Tenho o fole na moenga
Que está por maquiar.
O Criador:
- Então como fazes a maquia?
- Vem a mulher, tira o que quer,
Vem a Maria, tira a maquia,
Vem o patrão, tira o maquião,
Vem o criado, tira mais um bocado,
E ainda há-de dar p’ro vinho e p’ro tabaco
E p’ra ração do burro qu’anda fraco.
Este saco deita-se p’ra’quele canto
E se o dono demorar,
Tira-se outro tanto,
E não fora contas a Deus ter que dar,
Nem o fole vazio ao freguês ia parar.
Defunto o moleiro, bate às portas do Céu:
- Abre a porta ó S. Pedro!
Abre a porta, deixa-me entrar.
Diz-lhe o Santo: - Tu não entras
Sem o padre te confessar.
Por isso aqui fica à espera
Enquanto um vou procurar.
Volta o Santo afogueado,
Dizendo preocupado,
- Procurei bem procurado,
Em todo o céu, mais algum
Moleiros, ‘inda vi um,
Padres..., é que não vi nenhum!
(Romance de cordel, achado aqui depois de ouvido, em cantiga, da boca do moleiro no filme O Barão.)

domingo, 8 de maio de 2011

Andamos a ler

- Luca, está lá um bocadinho sossegada, a ver se me concentro.
- Para quê? O que estás a fazer?
- Estou aqui a ver se respondo a umas perguntas sobre o que já li, o que estou a ler, coisas que não li, sei lá, é um mundo de perguntas. Foi a Sem-Se-Ver que me passou o desafio, e voltou a insistir hoje, enquanto aproveitávamos o fim da tarde no Jardim da Alameda. As perguntas não foi ela que as fez, são iguais para toda a gente. Deixa lá ver se respondo a tudo.


1 - Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?
O primeiro livro que li mais do que uma vez chama-se O Meu Pé de Laranja Lima. Da segunda vez li-o em voz alta. Depois disso já me apeteceu ler vários vezes repetidas, mas por defeito e boa fortuna profissional os repetidos são quase sempre peças de Shakespeare. Ou romances de Charles Dickens.

2 - Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
É capaz, mas não me lembro. Normalmente, se percebo que não o vou terminar, nem o começo. Mas já houve inúmeros de que li as primeiras frases e não quis continuar. (Lembro-me de um da Lídia Jorge que tinha "gruas" no título, ou "andaimes", qualquer coisa assim.)

3 - Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?
Ler o mesmo livro para o resto da vida? Sei lá. Teria que ser muito divertido, que não deixasse de me divertir. Olha, as Cartas do Meu Moinho, de Alphonse Daudet, seria uma hipótese. Mas para sempre e sem poder ler mais nenhum, não sei - talvez nem o Dom Quixote evitasse que me aborrecesse. Quando não há mais o que ler, a literatura deve ser uma grande chatice.

4 - Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
Não é só um, são imensos. Uma lista interminável daqueles que são considerados clássicos. Os Budenbrooks, por exemplo, ou o Guerra e Paz. Mas só me lembro disso porque aparece aqui uma pergunta assim. Não levo os dias a pensar "que pena não me apetecer mais vezes ler os Budenbrooks".

5- Que livro leste cuja 'cena final' jamais conseguiste esquecer?
Esqueço-me muito dos pormenores dos livros que leio. Também por defeito e sorte da profissão, o epílogo de The Tempest, de Shakespeare, ou as últimas páginas do Heart of Darkness, de Joseph Conrad, tenho-os bem presentes na memória. E são ambos pedaços excepcionais de literatura. Mas há outros igualmente impressionantes (o fim do Sinais de Fogo de Jorge de Sena, ou o do Dom Casmurro, de Machado de Assis). Quando gosto muito de um livro, vou ficando com uma grande frustração à medida que o fim dele se aproxima, porque significa para mim que, de alguma maneira, se vai anunciando o final do prazer de descobrir aquele livro.

6- Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Lia o que apanhava: romances oitocentistas (portugueses e alguns franceses traduzidos), livros de educação infantil, enciclopédias médicas e manuais de enfermagem, livros da Enid Blyton, da Alice Vieira, do José Mauro de Vasconcelos... Era o que havia em casa e na biblioteca da escola. E havia uns folhetins velhos na mercearia do avô Martins, já não me recordo dos títulos, mas eram umas tragédias de chorar baba e ranho e eu lia com avidez as folhas envelhecidas.

7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
Quando tive de ler A Sibila, no liceu, foi custoso. Devo ter desistido e recomeçado umas seis ou sete vezes. Mas tinha que ser, e acabei por lê-lo de uma ponta à outra e de gostar muito de o ler.

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
Não tenho nenhum livro preferido, ou às vezes tenho. Gosto muito dos livros quando os estou a ler, depois passam a ser livros que me impressionam e estimo de um modo diferente de "gostar de ler". Já houve livros que me deram imenso prazer ler e considero livros menores (os do T. C. Boyle, por exemplo, ou alguns do Paul Auster); dos grandes livros, por vezes não recordo bem o prazer de os ler além de me sentir feliz por os conhecer. Se os livros preferidos são livros que recomendasse, ainda assim faria a recomendação em função do objectivo da leitura de quem ma pedisse. Por outro lado, apetece-me muitas vezes que não tivesse havido na literatura escrita em português nada depois do Machado de Assis.

9. Que livro estás a ler neste momento?
Tenho sobre a mesa de cabeceira dois muito semelhantes, que ando a ler há mais de três quinze dias: The Ballad of Dorothy Wordsworth e Families and How To Survive Them.

10. Indica dez amigos para o Meme Literário.
Dez???  Vão cinco e é um pau: Adriana Nogueira, Ana Cristina Joaquim, Carla Quevedo, CF e Isaïes Fanlo,

sábado, 7 de maio de 2011

50 anos (post dedicado)

(Foto da inscrição na mó: Reboliço. Faz meio século que no moinho se juntaram outros moleiros ao avô, os filhos e amigos, e se mudou mais uma mó. A pedrinha nova, coisa para, em sendo calcário, pesar uma tonelada bem medida, implica a desmontagem das escadas para os dois andares e o atravessamento sobre o pau do mastro principal, junto ao tecto, de um baraço da grossura de um braço de homem forte. O baraço há-de passar pelo buraco da mó e, com os braços de fortes homens a empurrar as varas, do lado da rua, ajudar a içar a pedra para o piso intermédio. A colocação da pedra na horizontal, aprumada a fio e olho, são outros tantos quinhentos de rigor e testa franzida. Como em  todos os trabalhos que exigem atenção e muita gente concentrada, fecha-se com festa e algazarra. Ou espumante e pizza.)