(Hip-fotos da pintura de armário de cozinha, arte da Mana, mais ensaio para banda desenhada, arte do Mano, duas artes dos finais da década de 1980: Reboliço, orgulhoso.)
domingo, 31 de julho de 2011
sábado, 30 de julho de 2011
Ir à praça
(Hip-foto do berbigão à venda, transformada pelo Picture Show: Reboliço, a cheirar tudo. Sábado de manhã, em Loulé, vai-se à praça. O edifício do mercado municipal, de estiloso estilo neo-árabe, recentemente en-feiado pela substituição das cúpulas na quatro torres de esquina, fica quase desaparecido atrás das bancas de fruta, legumes, enchidos, bacalhau seco, turistas de canones e fujis em riste ou a tiracolo e senhoras que param a contar a eventful week. É uma azafamazinha, pequena como o tamanho da praça, como o tamanho da vila, mas muito azafamada. O peixe, ao sábado, dobra o preço sem precisar de dobrar a qualidade, sempre boa. "Freguesa, não estava à sua espera ao fim-de-semana. Já sabe que tem que vir à sexta comprar o peixe de sábado, que hoje fica-lhe mais caro...")
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Fotos,
Onde andei
quinta-feira, 28 de julho de 2011
O Reboliço descansava muito quieto, ao pé da amendoeira, a cheirar o ar húmido.
- Reboliço, Reboliço, olha o que eu sei!
- Diz lá, respondeu o bicho, com paciência, ao desassossego da peluda.
- "Primeiro de Agosto, primeiro de Inverno." Hein, já sabias, já, já?
- Ainda não veio Agosto, Luca. Mas és capaz de ter razão. Chega o fim de Julho e aí o tens.
De focinho erguido, muito satisfeita, a Luca desarvorou valado acima, a fugir às gotinhas de água que se atropelavam para chegar primeiro à terra seca.
- Reboliço, Reboliço, olha o que eu sei!
- Diz lá, respondeu o bicho, com paciência, ao desassossego da peluda.
- "Primeiro de Agosto, primeiro de Inverno." Hein, já sabias, já, já?
- Ainda não veio Agosto, Luca. Mas és capaz de ter razão. Chega o fim de Julho e aí o tens.
De focinho erguido, muito satisfeita, a Luca desarvorou valado acima, a fugir às gotinhas de água que se atropelavam para chegar primeiro à terra seca.
terça-feira, 26 de julho de 2011
Moinhos na poesia (36)
"Moinho"
Tantos pintores
A realidade comovida agradece
mas fica no mesmo sítio
(daqui ninguém me tira)
chamado paisagem
Tantos escritores
A realidade comovida agradece
e continua a fazer o seu frio
sobre bairros inteiros, na cidade, e algures
Tantos mortos no rio
A realidade comovida agradece
porque sabe que foi por ela o sacrifício
Mas não agradece muito
Ela sabe que os pintores os escritores e quem morre
não gosta da realidade
Querem-na, para um bocado
Não se lhe chegam muito - pode sufocar
Só o velho moinho do acordeão da esquina
rodado a manivela de trabuqueta
sem mesura sem fim e sem vontade
dá voltas à solidão da realidade.
Tantos pintores
A realidade comovida agradece
mas fica no mesmo sítio
(daqui ninguém me tira)
chamado paisagem
Tantos escritores
A realidade comovida agradece
e continua a fazer o seu frio
sobre bairros inteiros, na cidade, e algures
Tantos mortos no rio
A realidade comovida agradece
porque sabe que foi por ela o sacrifício
Mas não agradece muito
Ela sabe que os pintores os escritores e quem morre
não gosta da realidade
Querem-na, para um bocado
Não se lhe chegam muito - pode sufocar
Só o velho moinho do acordeão da esquina
rodado a manivela de trabuqueta
sem mesura sem fim e sem vontade
dá voltas à solidão da realidade.
(Mário Cesariny de Vasconcelos, Diário de Notícias, 16 de Julho de 1964. Re-publicado em Poesia Portuguesa do Pós-Guerra 1945-1965, antologia organizada por Afonso Cautela e Serafim Ferreira, Lisboa, Editora Ulisseia, 1965, p. 329.)
segunda-feira, 25 de julho de 2011
Xerém com muxama
No Algarve, que é al-Gharb, o Ocidente, viveram uns setecentos anos seguidinhos muçulmanos, árabes, moçárabes, maometanos, islamitas - os sarracenos, chamavam-lhes gregos e romanos, que com eles também muito se cruzaram. As contas dos Censos não distinguem o que corre no sangue das pessoas, mas aqui vivem ainda, e não só precariamente nas pernas altas que caminham sobre a areia e vendem tapetes, malas, cintos, chinelas de couro. Não vivem só de passagem nem só em pouco numerosas famílias: estão entranhados na boca, nos olhos, nos sentidos todos, nas palavras que aqui se dizem, na comida que aqui se come, nas ruas que aqui se atravessam, na cal das paredes. Viver num lugar não é trair esse lugar. É viver nesse lugar. Habitar, comer, dormir, amar, ter iras, acalmar, gozar, chorar. Viver e deixar viver.
(A muxama, atum seco em salga, é uma iguaria talvez de origem fenícia, trazida para este lugar pelos romanos, e que ganhou dos árabes o nome. O xerém, papa de milho, vem possivelmente do Norte de África - o nome, que o milho, sim, sim, terá vindo das Américas. Uma e outro continuam a comer-se em Portugal - mas não só -, a ser preparados nas casas das famílias e a ser vendidos em muitos mercados. Xerém é ainda nome de projecto e associação cultural. Alô, Jorge Rocha, obrigada!)
(A muxama, atum seco em salga, é uma iguaria talvez de origem fenícia, trazida para este lugar pelos romanos, e que ganhou dos árabes o nome. O xerém, papa de milho, vem possivelmente do Norte de África - o nome, que o milho, sim, sim, terá vindo das Américas. Uma e outro continuam a comer-se em Portugal - mas não só -, a ser preparados nas casas das famílias e a ser vendidos em muitos mercados. Xerém é ainda nome de projecto e associação cultural. Alô, Jorge Rocha, obrigada!)
A noite
O Reboliço não se recorda de ter ouvido com tanta claridade - será o ar mais húmido? - o grito dos pavões, vindo do jardim da Alameda. Ou a humidade ou o desafio que aos pavões fazem as cigarras, a noite toda a crrrrricrrrricrrrrinar. O Reboliço senta-se na varanda, o focinho para lá do fresco parapeito de mármore, e dormita. Sente passar as horas como se levasse à boca mel a escorrer de uma colher com a parte côncava para baixo.
O aquário
Somehow, then, the problem is just how to introject this new and disturbing material into (under?) the skin of the old without changing or irremediably damaging the contours of my subjects or the solution in which they move. The golden fish circling so languidly in their great bowl of light - they are hardly aware that their world, the field of their journeys, is a curved one....
Lawrence Durrell, "Balthazar" [1958], parte III, in
The Alexandria Quartet, 1962, London, Faber & Faber, p. 234.
De certo modo, então, o problema é só saber como introjectar este novo e perturbante material para dentro (para debaixo?) da pele do novo, sem mudar nem irremediavelmente danificar os contornos das minhas personagens nem a solução em que se movem. Os peixinhos dourados que circulam, tão lânguidos, no grande globo de luz - mal se apercebem de como o seu mundo, o campo das suas viagens, é coisa curva....
(Tradução, brincadeira, minha.)
domingo, 24 de julho de 2011
Com os azeites
O Reboliço untou-se, cheirou, deu a cheirar, provou, bebeu, mergulhou o pão, sorveu. Ama o azeite. Os azeites entre conversas.
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Azeite,
Onde andei
Crrrrii, crrrrriiii, crrrrrii
Esta noite cantam as cigarras, Reboliço, a pulmões cheios. O céu tem muitas estrelas, o ar parado e as vozes das pessoas na rua passam à mesma velocidade que os passos que elas dão. Não há vento, não foge uma aragem. Chegou o meio do Verão.
sábado, 23 de julho de 2011
Oh...
(Já sabias, Reboliço: não era flor que se cheirasse.)
(Artigo de Russell Brand no Guardian sobre a doença de que morreu Winehouse e sobre o seu génio: coisas diferentes. Thanks, Olivia.)
sexta-feira, 22 de julho de 2011
Post dedicado à Z., a mais constante leitora das Cartas
(Hip-foto do pormenor da almofadinha com uma Nossa Senhora Desatadora dos Nós: Reboliço, a ver se ajuda a desempeçar.)
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Fotos
domingo, 17 de julho de 2011
"Do uso não histórico da palavra"*
"Levem-me"
Levem-me numa caravela,
Numa velha e doce caravela,
À proa ou, se quiserem, na espuma,
E percam-me, ao longe, ao longe.
No atrelado de uma outra era.
No veludo enganador da neve.
No fôlego de alguns cães reunidos.
Na trupe extenuada das folhas mortas.
Levem-me sem me ferir, nos que se beijam,
Nos seios que se erguem e que respiram,
Sobre os tapetes das palmas e o seu sorriso,
Nos corredores dos ossos largos e das articulações.
Levem-me ou então enterrem-me.
Levem-me numa caravela,
Numa velha e doce caravela,
À proa ou, se quiserem, na espuma,
E percam-me, ao longe, ao longe.
No atrelado de uma outra era.
No veludo enganador da neve.
No fôlego de alguns cães reunidos.
Na trupe extenuada das folhas mortas.
Levem-me sem me ferir, nos que se beijam,
Nos seios que se erguem e que respiram,
Sobre os tapetes das palmas e o seu sorriso,
Nos corredores dos ossos largos e das articulações.
Levem-me ou então enterrem-me.
(Henri Michaux, Mes Propriétés, 1929.
Achado aqui e traduzido - malamente, Michaux, malamente - por mim.
O título do post é, truncado, o que a C. primeiro deu ao post do Dias Felizes. O blogger cortou o final ao que seria "Do uso não histórico da palavra caravela". Da maneira como o acaso e as métricas htm-élicas ditaram tem um ar filosófico que assenta bem sobre um poema em que os sentidos das palavras não se cingem às roupagens do uso. Ou seja, fica ali que nem ginjas. Ginginha. Obrigada, C.)
quarta-feira, 13 de julho de 2011
domingo, 10 de julho de 2011
sábado, 9 de julho de 2011
O céu sobre Coimbra
(Foto da cegonha apanhada entre fios de telefone, ou de electricidade, ou, ou, por baixo do céu de Coimbra: Teresa Valente.
O Reboliço gosta de nuvens, gosta de andar de cabeça no ar, gosta de cegonhas e gosta muito de amigos que lhe oferecem coisas bonitas. Obrigada, Teresa!)
"Primeira Imperial"
Na Cervejaria
um senhor de óculos sem culpa
cabeleira densa e culpada de ir
até à sobrancelhas ligadas
e principais culpadas
da sua estúpida presença
Cara de carnes caídas
a fazerem-no menos novo
do que um queixo entre enérgico e ovo
denuncia
Na Cervejaria
dizia
um senhor e sua mulher de azul e mise exactamente
no momento em que leve
ágil
animal
pisa o chão duro e frio do salão
um valente Rodolfo Valentino conhecido
do casal
Alarga-se o sorriso de gambas róseas
na boca do senhor
um adeusar de sua mão papuda
em louvor
do amigo Rodolfo
Ela de faces em rosácea e alva dentadura
logo revelada
fica enlevada
mas honesta na Cervejaria pensa:
- Meu marido dá-me todo o conforto do lar
dá-me gambas ao jantar
e mais logo dá-me quatro horas de Ben-Hur na plateia
onde a moda nova oferece as minhas pernas
às vistas desarmadas
dá-me futuro
recheio no seguro e o Rodolfo
só me daria aquilo com que sonhei durante
tanto tempo
amor, amor, amor apenas
um senhor de óculos sem culpa
cabeleira densa e culpada de ir
até à sobrancelhas ligadas
e principais culpadas
da sua estúpida presença
Cara de carnes caídas
a fazerem-no menos novo
do que um queixo entre enérgico e ovo
denuncia
Na Cervejaria
dizia
um senhor e sua mulher de azul e mise exactamente
no momento em que leve
ágil
animal
pisa o chão duro e frio do salão
um valente Rodolfo Valentino conhecido
do casal
Alarga-se o sorriso de gambas róseas
na boca do senhor
um adeusar de sua mão papuda
em louvor
do amigo Rodolfo
Ela de faces em rosácea e alva dentadura
logo revelada
fica enlevada
mas honesta na Cervejaria pensa:
- Meu marido dá-me todo o conforto do lar
dá-me gambas ao jantar
e mais logo dá-me quatro horas de Ben-Hur na plateia
onde a moda nova oferece as minhas pernas
às vistas desarmadas
dá-me futuro
recheio no seguro e o Rodolfo
só me daria aquilo com que sonhei durante
tanto tempo
amor, amor, amor apenas
(António Domingues, Poesia Portuguesa do Pós-Guerra 1945-1965,
antologia organizada por Afonso Cautela e Serafim Ferreira,
Lisboa, Editora Ulisseia, 1965, pp. 45-46.)
sexta-feira, 8 de julho de 2011
O Reboliço não é o único nefelibata
(Foto da nuvem do vaivém a furar a nuvem de ameaça de chuva no Kennedy Space Centre, na Florida: Xeni Jardin. Thanks, Xeni!)
- Lá foram, Luca.
- Para onde é que foram?
- Para o espaço.
- Sim, mas onde é que pousam?
- Não pousam, ou melhor, pousam numa coisa que também está suspensa, a Estação Espacial Internacional.
- E o que é que lá vão fazer?
- Olha, se queres que te diga, não sei bem. Acho que foram afinar instrumentos, levar umas pecinhas novas para a dita estação.
- Explica-me, Reboliço: se eles pousam em cima do que não está pousado, como é que não caem?
- Olha, é assim como aquelas moscas que às vezes a gente vê a voar umas em cima das outras, percebes?
- Hum... Não, mas está bem. Fizeste-me lembrar que tenho que ir a fugir enxotar aquelas que ali andam. Isso é que é a minha missão especial!
UI
O Reboliço anda agitado com todas as google-mexidas e as novidades nos user-interfaces. A sua favorita, para já, é a do amigo Panda Cósmico. Dá para ver os filmes em écrã gigante!
"Cada catchor tem sê sexta-fêra"
Em Reencontro, Djurumani canta e toca - por vezes com Ana Maria Germano, sua querida esposa, outras com Zenaide Chantre, por vezes com Bernardo Sassetti, outras com António Chaínho - temas populares de Cabo Verde, além de belíssimas composições suas, tudo em crioulo de lá, coisa linda. Não há youtubinhos com as cantigas, nem outras coisas disponíveis na net. E comprar o disco é mais bolos, Reboliço: cada cachorro tem a sua sexta-feira, o que pelos vistos significa ter um dia de cão.
quinta-feira, 7 de julho de 2011
O Rafael
(Foto, moldura e tudo: Manuel Leitão, 2006. O Reboliço lembra-se bem deste dia. Um rebuliço pelo Moinho, vão quase cinco anos, muita gente a comemorar o telhado novo, o brilho nas paredes, a engrenagem a funcionar em bom, velas abertas. Um dia de céu limpo, vento calmo - mas lá ventou... - e alegria, muita alegria. Olhou lá para cima, mesmo quando o Manel clicava no botanito da máquina, e piscou o olho ao Rafael.)
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Fotos,
Manuel Leitão,
Moinho
Reencontro
(Hip-foto: Reboliço. O Reboliço ia de passeio pequeno a conduzir o carro da Mana. Ligou o tocador de discos, sem saber que música sairia dali, e quase teve de encostar à berma, da surpresa e da alegria: reencontrara [porque a Mana reencontrara] o Reencontro, o absolutamente extraordinário disco de Djurumani - alô, Germano! - a que há muitos anos perdera o rasto. Caminho todo a cantarolar, pois foi, q'ando mi era galo nobo...)
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Djurumani,
Fotos,
Mana,
O que ouvi
segunda-feira, 4 de julho de 2011
"A dog's life - Charlie Chaplin (1919)"
1.
2.
Charlie Chaplin, nosso Deus e Senhor, criador de todos
os gags, vendo a nossa rigidez, a nossa militância
nas fileiras do orgulho, enviou-nos o Seu Filho bem
amado, a fim de nos salvar da parvoíce, libertar-nos
da empáfia, pondo à prova a nossa agilidade,
a nossa paciência. Servindo-se de gestos, de cinéticos
enredos, quase sem palavras, Charlot desceu à terra
e pregou pelo exemplo. Assumindo mil disfarces
e parábolas, perseguiu-nos com amor, padeceu no surdo
gelo da nossa indiferença, mostrou-nos com que modos
se suportam os maus tratos, instou-nos a romper
com o barril das enteléquias. Não é um deus de amor,
mas de conflito, o nosso Charlie. Por isso é que
Seu Filho nos soterra sob sacos de centeio, nos derruba
de escadotes, nos atira com tijolos e com tartes,
ananases aguçados; por isso nos abate com tábuas e
martelos, ou nos bole com os nervos nas portas giratórias
dos hotéis. Charlie sabe como a dor nos acrescenta,
sobrepondo novos pisos à morada interior, elevando
o sentimento à dimensão da piedade. Por isso é que
Seu Filho veio a nós, neste século de trevas, disfarçado
de ninguém e decido a instalar a confusão por onde
passa. Pois só da confusão pode nascer a liberdade.
os gags, vendo a nossa rigidez, a nossa militância
nas fileiras do orgulho, enviou-nos o Seu Filho bem
amado, a fim de nos salvar da parvoíce, libertar-nos
da empáfia, pondo à prova a nossa agilidade,
a nossa paciência. Servindo-se de gestos, de cinéticos
enredos, quase sem palavras, Charlot desceu à terra
e pregou pelo exemplo. Assumindo mil disfarces
e parábolas, perseguiu-nos com amor, padeceu no surdo
gelo da nossa indiferença, mostrou-nos com que modos
se suportam os maus tratos, instou-nos a romper
com o barril das enteléquias. Não é um deus de amor,
mas de conflito, o nosso Charlie. Por isso é que
Seu Filho nos soterra sob sacos de centeio, nos derruba
de escadotes, nos atira com tijolos e com tartes,
ananases aguçados; por isso nos abate com tábuas e
martelos, ou nos bole com os nervos nas portas giratórias
dos hotéis. Charlie sabe como a dor nos acrescenta,
sobrepondo novos pisos à morada interior, elevando
o sentimento à dimensão da piedade. Por isso é que
Seu Filho veio a nós, neste século de trevas, disfarçado
de ninguém e decido a instalar a confusão por onde
passa. Pois só da confusão pode nascer a liberdade.
2.
Sabei que Charlot, o nosso Salvador, abomina
sobretudo a servidão. Um só mandamento
exprime a sua doutrina: Não te prendas ao pesado.
Que significa, Não te prendas ao pesado?
Significa: Aceita a mudança e livra-te
de converter em velório o festival dos acidentes.
A vida é uma torrente de oportunidades: moeda
no chão, cigana bonita, perna de presunto,
um par de patins. Atentem nestes exemplos,
concedidos pelo nosso Salvador, e compreendam
que não é nos grandes mas nos pequenos lances
que a vida se joga e se transforma e retribui.
A desmesura é o pecado dos pacóvios.
sobretudo a servidão. Um só mandamento
exprime a sua doutrina: Não te prendas ao pesado.
Que significa, Não te prendas ao pesado?
Significa: Aceita a mudança e livra-te
de converter em velório o festival dos acidentes.
A vida é uma torrente de oportunidades: moeda
no chão, cigana bonita, perna de presunto,
um par de patins. Atentem nestes exemplos,
concedidos pelo nosso Salvador, e compreendam
que não é nos grandes mas nos pequenos lances
que a vida se joga e se transforma e retribui.
A desmesura é o pecado dos pacóvios.
Se o almoço te trouxe meias-solas, alegra-te
primeiro porque não as roubaste a um mais pobre
do que tu; alegra-te segundo porque foram
de graça, e só o que é de graça tem autêntico
sabor; alegra-te terceiro porque a tarde está de sol,
ou de chuva ou de neve, e nada é importante,
nada é decisivo. Neste circo dos graves,
neste palco rotativo, ri melhor quem ri a fundo
e por mais tempo. Até que a morte, de bigodes
retorcidos, nos apanhe e nos aparte do sorriso,
nos expulse do vestíbulo, nos corra a pontapé,
nos desfaça na cabeça o violino.
primeiro porque não as roubaste a um mais pobre
do que tu; alegra-te segundo porque foram
de graça, e só o que é de graça tem autêntico
sabor; alegra-te terceiro porque a tarde está de sol,
ou de chuva ou de neve, e nada é importante,
nada é decisivo. Neste circo dos graves,
neste palco rotativo, ri melhor quem ri a fundo
e por mais tempo. Até que a morte, de bigodes
retorcidos, nos apanhe e nos aparte do sorriso,
nos expulse do vestíbulo, nos corra a pontapé,
nos desfaça na cabeça o violino.
(José Miguel Silva, 2005. Achado nos Achaques, inédito fora da rede. Obrigada, JMS.)
domingo, 3 de julho de 2011
O Reboliço é um nefelibata (53)
O Reboliço já deveria estar farto de nuvens. Chega, Reboliço - mas nada. Até as das terras ruins, até as dessas terras o maravilham. Olha para as imagens enquanto vai ouvindo cada acorde, badlandly, da bateria de Charlie Watts, tudo em tons de negro. É para o que lhe dá, no domingo fresquinho.
sexta-feira, 1 de julho de 2011
O Reboliço é um nefelibata (52)
- O que me querias mostrar, Reboliço?, perguntou a louca, varrendo o chão com a cauda mal tosquiada e o focinho de azougue.
- Luca, tens de olhar para cima, criatura...
- Ah, uma cabrinha!
- Sim, mas vê as nuvens por cima dela.
- Luca, tens de olhar para cima, criatura...
- Ah, uma cabrinha!
- Sim, mas vê as nuvens por cima dela.
(Foto da estátua de uma cabra, em Spitalfields: Lawrence Wolfman Bogle, a passear por Londres com o Otelo. Thank you, Larry!)
[Uma Arte]
Perdi meu senso de urgência
Não sei se foi antes ou depois
daquela lambida, seus anticorpos
e o meu corpo no que ia
submergindo, derrubando as traves.
Qual o meu interesse
qual o quê eu não sabia
essa casa está doente
e o tamanho da minha mordida
até que todo o mar congele
não será maior do que qualquer estrada.
Aqui dentro não há mais vaga.
Aqui dentro não há mais nenhuma vaga.
Perdi mais objetos que encontrei
e agora a maior parte deles
existe sem o nome que lhes dei.
Volto à sua língua, sua lambida:
corta, abre, costura e fecha.
Não sei se foi antes ou depois
daquela lambida, seus anticorpos
e o meu corpo no que ia
submergindo, derrubando as traves.
Qual o meu interesse
qual o quê eu não sabia
essa casa está doente
e o tamanho da minha mordida
até que todo o mar congele
não será maior do que qualquer estrada.
Aqui dentro não há mais vaga.
Aqui dentro não há mais nenhuma vaga.
Perdi mais objetos que encontrei
e agora a maior parte deles
existe sem o nome que lhes dei.
Volto à sua língua, sua lambida:
corta, abre, costura e fecha.
(Laura Liuzzi, Piauí, 47, Agosto de 2010, p. 42.
Versão recente do poema de Elizabeth Bishop.)
quinta-feira, 30 de junho de 2011
Coisas vivas
(Foto da efemeridade encarnada: Reboliço, manifestamente contra lipo-aspirações.
O Reboliço maravilha-se: no mesmo dia em que lhe deram a conhecer um blog interrompido - alas! - pela abrupta interrupção que a morte impõe, descobre que o Thombeau voltou. Fecha os livros, senta-se de patinhas cruzadas em frente ao monitor e já não faz mais nada.)
O Reboliço maravilha-se: no mesmo dia em que lhe deram a conhecer um blog interrompido - alas! - pela abrupta interrupção que a morte impõe, descobre que o Thombeau voltou. Fecha os livros, senta-se de patinhas cruzadas em frente ao monitor e já não faz mais nada.)
quarta-feira, 29 de junho de 2011
Flores amarelas
O Reboliço pergunta-se como será possível contar um cheiro, descrever um odor como o que ontem ao entardecer enchia o ar nos pinhais da ria Formosa: era o cheiro forte das flores amarelas que há nas dunas que separam a laguna do mar. O focinho ficou-lhe doido, a seguir o vento que o Leste trazia e fazia espalhar aquela sensação forte, inescapável, de presença doce e cruel.
segunda-feira, 27 de junho de 2011
O Reboliço é um nefelibata (50)
We have seen that when the earth had to be prepared for the habitation of man, a veil, as it were, of intermediate being was spread between him and its darkness, in which were joined, in a subdued measure, the stability and insensibility of the earth, and the passion and perishing of mankind.
But the heavens, also, had to be prepared for this habitation.
Between their burning light, – their deep vacuity, and man, as between the earth's gloom of iron substance, and man, a veil had to be spread of intermediate being; – which should appease the unendurable glory to the level of human feebleness, and sign the changeless motion of the heavens with a semblance of human vicissitude.
Between the earth and man arose the leaf. Between the heaven and man came the cloud. His life being partly as the falling leaf, and partly as the flying vapour.
(John Ruskin, Modern Painters, Part VII. Of Cloud Beauty, Chapter I. The Cloud Balancings, §1.)
("Vimos que, quando precisou de se preparar a terra para habitação do homem, espalhou-se entre ele e a escuridão da terra uma espécie de véu, de essência intermédia, em que se uniam, de modo ténue, a estabilidade e a insensibilidade da terra à paixão e à efemeridade do homem.
Mas também os céus tiveram de ser preparados para habitação dele.
Entre a sua luz brilhante, – a sua profunda vacuidade, e o homem, assim como entre a escuridão da substância férrea da terra e o homem, teve de se espalhar um véu de intermédia essência; – para atenuar a glória breve do nível da humana fragilidade e assinar o movimento imutável dos céus com uma parecença da vicissitude humana.
Entre a terra e o homem ergueu-se a folha. Entre o céu e o homem veio a nuvem. Porque a sua vida é em parte como a folha a cair e em parte como o vapor em suspensão."
Tradução - ousadia - minha. As imagens dos links reproduzem aguarelas do próprio Ruskin.)
Tradução - ousadia - minha. As imagens dos links reproduzem aguarelas do próprio Ruskin.)
domingo, 26 de junho de 2011
Com toda a palavra (6)
(Hip-foto dos dois azulejos dedicados, escondidos num cantinho do pátio do Victoria & Albert Museum: Reboliço, embevecido.)
Com toda a palavra (5)
(Hip-foto das costas do casaco desenhado por Yohji Yamamoto, uma das obras expostas no V&A: Reboliço, a querer fazer seja o que for. Claro.
Na fila da bilheteira, três mulheres conversavam: "Oh, I remember, you're the one that's not on Facebook, right?" "..." "What are we goin' to see, anyway?")
Na fila da bilheteira, três mulheres conversavam: "Oh, I remember, you're the one that's not on Facebook, right?" "..." "What are we goin' to see, anyway?")
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Fotos,
Onde andei
sábado, 25 de junho de 2011
O Reboliço é um nefelibata (49)
(Hip-foto das nuvens a fingir que saem da chaminé do edifício da University of the Arts do Chelsea College of Art and Design, em Atterbury St., à saída da Tate Britain: Reboliço, a contar com frio e a bufar de calor.)
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Fotos,
Nefelibata
sexta-feira, 24 de junho de 2011
Cão de metal
(Foto de uma das esculturas em bronze, da série Círculo de Animais de Ai Weiwei, no pátio da Somerset House: Reboliço, cão de metal, uns dias depois da semi-libertação do artista chinês.)
quinta-feira, 23 de junho de 2011
"O Charlot é que sim"
Creio que uma das muitas pessoas que têm razão no mundo é Charlot.
É certo que passa fome, tem o seu frio no Inverno e as botas todas gastas,
mas ri-se de muita coisa,
despreza admiravelmente a ordem
e vai aguentando as cacetadas e prisões e outras violências.
No entanto,
o multimilionário Rockefeller é que passa por inteligente e empreendedor e grande,
e honesto e moralista,
e benfeitor também quando é preciso.
É evidente que o Rockefeller até trabalha aos domingos,
e que isso vai ficar na história dos grandes feitos de hoje,
mas o que mais me alegra são as vagabundagens do Charlot,
e o orgulho dele contra as moedas acumuladas,
e aquele chuto na ponta do cigarro ao ir para a prisão,
e esse infinito voltar de costas às fardas,
e o comprar comovidamente flores à rapariga cega,
e dar-lhe a mão depois
e entristecer dos pobres serem tristes.
... É por isso que nunca sonho com o Rockefeller.
... É por isso que nunca sonho com o Rockefeller.
(Eduardo Valente da Fonseca, Tempo de Manequins, 1959
[republicado em Poesia Portuguesa do Pás-Guerra: 1945-1965,
organizada por Afonso Cautela e Serafim Ferreira,
Editora Ulisseia, Lisboa, pp. 155-156]. Obrigada, Changuito.)
quarta-feira, 22 de junho de 2011
O Reboliço é um nefelibata (48)
O Reboliço sabe que os bichos pequenos e farejantes não levam a vida de focinho no chão. O gato Fritz, por exemplo, fartou-se de olhar para as nuvens entre 2007 e 2009.
terça-feira, 21 de junho de 2011
Tirar fotografias ou construir imagens
O Reboliço continua intrigado pelo movimento da agulha da sua atenção, quando olha para as fotografias. São peças incríveis de bem feitas, são montras tremendas do horror.
segunda-feira, 20 de junho de 2011
Oh...
"Por causa de O Sangue, de Pedro Costa (1989), ou de A Idade Maior (1989), de Teresa Villaverde, ou ainda de Xavier, de Manuel Mozos (1992), Pedro Hestnes foi o rosto com que se acendeu, nesses anos 90, uma utopia a que se chamou Cinema Português."
(Vasco Câmara, Público, 20 de Junho de 2011)
O Reboliço é um nefelibata (47)
- Reboliço!, até que enfim. Estava a ficar preocupada: onde é que foste?
- Fui a Bruxelas, Luca. A Fátima levou-me a ver nuvens. Queres que te mostre as fotografias que ela fez? Senta-te aqui quieta. Anda ver. Olha, passa lá a pata sobre as libelinhas...
- Fui a Bruxelas, Luca. A Fátima levou-me a ver nuvens. Queres que te mostre as fotografias que ela fez? Senta-te aqui quieta. Anda ver. Olha, passa lá a pata sobre as libelinhas...
sábado, 18 de junho de 2011
(Post dedicado)
Sem medo nenhum entrei neste bosque,
Vim sozinha.
Ali vejo Tircis, sem me comover.
Ah! Ah!, não terei nada para ajeitar?
Como é lamentável o jovem coração que não sente!
Não que procure o perigo:
Queria ao menos temê-lo.
Vim sozinha.
Ali vejo Tircis, sem me comover.
Ah! Ah!, não terei nada para ajeitar?
Como é lamentável o jovem coração que não sente!
Não que procure o perigo:
Queria ao menos temê-lo.
(Chaconne de Marc-Antoine Charpentier, tocada e cantado o poema original aqui.)
quarta-feira, 15 de junho de 2011
As patinhas na água, o focinho no mar*
(Hip-foto-tela da areia por baixo da água: Reboliço, em modo Verão, a gozar as curtas noites e à espera que comece o jogo de escondidas.)
*Título roubado a Cesariny, the young.
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Em dia
O Reboliço acorda com o romper do sol, senta-se a ler jornais e revistas. A farejar, a farejar, descobre El coloquio de los perros e vêm-lhe ao pensamento dois outros colóquios: o primeiro destes e outro que é mais precisamente uma conferência. De pássaros.
domingo, 12 de junho de 2011
O Reboliço é um nefelibata (46)
(Foto-boomerang: Diana Pimentel, no "lado mais fixe da ilha" da Madeira. Céu encapotado.)
(Hip-muito-hip-foto do pedacinho da praia de Faro que esta manhã coube na nova lente Tejas, com a novazinha película DreamCanvas: Reboliço, le peintre.
Nada de nuvens, Dona Diana. Céu sem um farrapinho.)
>
Fotos,
Nefelibata,
Parabéns
sexta-feira, 10 de junho de 2011
"Completely nuts"
É Denny Crane quem diz de si mesmo que é "louco de carteirinha", ou "doido varrido". O melhor é quando essa qualidade infecta os senhores e as senhoras que fazem a tradução e legendagem de Boston Legal. Eis mais um perfumado exemplo, do final do episódio 12 da 3ª temporada, quando Denny e Alan partilham whiskey e charutos na varanda:
Alan Shore: How did it happen that dissent became some sort of heresy?
Denny Crane: I'm all for dissent [e continua, "especially when I know I'm right."]
Verte-se, em português escrito no écrã:
[Alan Shore:] Quando foi que o odor se tornou numa forma de heresia?
[Denny Crane:] Sou a favor do odor.
(O Reboliço também é a favor do odor. Tem um faro muito sensível.)
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