O Reboliço está indignado. Pensa que, se não houver em breve um esclarecimento e uma retractação dos senhores da Wordpress responsáveis pela suspensão do utilíssimo lugar de informação sobre o cinema português que é o blogue do Paulo Cunha, se estará perante um grave motivo para greves, petições públicas e pedidos de audiência às autoridades superiores.
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
O Reboliço é um nefelibata (56)
O Reboliço nunca se tinha posto a imaginar como seria um céu de nuvens no Equador, por exemplo.
terça-feira, 6 de setembro de 2011
Le néphélibate bureaucrate (3)
O Reboliço viaja para o bureau de Mercedes com chauffeur. Finíssimo, ele mais umas poucas dezenas de burocratas, felizes com os raios de sol que a cidade acolhe. Senta-se no banco sintético forrado de triângulos às cores, pegas de pvc, botões de stop para o motorista fazer o que lhe pedem, e pedem pouco, barras de metal, conversas à lacerda, caixotes empinados, luvas de boxe e chapéus de côco. Nas horas mais cínicas, acciona o hino das cínicas horas, fecha os olhinhos e deixa-se embalar.
>
Bureau,
Kanye West
sábado, 3 de setembro de 2011
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
Eurydice
(Hip-foto da perdida Eurydice, prestes a tornar-se transparente: Reboliço, na varanda ao sol a ver as sombras.)
domingo, 28 de agosto de 2011
sábado, 27 de agosto de 2011
Da tradução (post dedicado aos alunos da Pós em Editoriação, Univ. Cândido Mendes)
Devemos celebrar as traduções felizes.
Como o Précis de décomposition
de Cioran, convertido
em Breviário de apodrecimento.
Em momentos de máxima insegurança cultural
a arte de traduzir ergue-se
como última forma de conhecimento.
Agora que a torre da história
sofre assédios que podem ser os definitivos
temos de recorrer aos especialistas
e aos que traduzem
sem precipitação e com audácia
intuindo o sentido final dos escritos.
Para compreender tudo
o que se passa nestes anos,
basta este livro
de Arnaldo Momigliano
que trata de uma outra época:
The Alien Wisdom, que alguém traduziu
de forma tão bela por A sabedoria
dos bárbaros.
(Poema de Juan Antonio González Iglesias, versão de LP, citada a partir do seu blogue Do Trapézio Sem Rede, título que é ainda outra descrição do que é traduzir. In Del lado del amor - Poesía reunida (1994-2009), Visor, Madrid, 2010, p. 309.)
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
Com toda a palavra (7)
(Foto do stencil sobre lioz, num prédio da Av. da República em Lisboa: Reboliço, a propósito de nadadores.)
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Fotos
Palavras (inglesas) em vias de extinção
"Other words on the list include 'wittol' – a man who tolerates his wife's infidelity, which has not been much used since the 1940s."
>
o que li
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Melanciómetro*
- Antigamente, Luca, não era preciso nada disso.
- Então como é que sabias se as melancias estavam boas para comer?
- O lavrador que as ia apanhar à terra, ou que as ia comprar, dava um carolo no bico de uma das botas que levava calçadas; a melancia que lhe soasse debaixo dos dedos como o som que eles faziam na bota era a melancia que estava madurinha, pronta a comer.
- Ora, é a mesma coisa: é pelo som que se mede a madurez da melancia, Reboliço.
- Hum... Não deixa de ser bem visto, não senhor... Será cómico ir à praça e ver o pessoal a equilibrar os aparelhinhos em cima das melancias!
- Então como é que sabias se as melancias estavam boas para comer?
- O lavrador que as ia apanhar à terra, ou que as ia comprar, dava um carolo no bico de uma das botas que levava calçadas; a melancia que lhe soasse debaixo dos dedos como o som que eles faziam na bota era a melancia que estava madurinha, pronta a comer.
- Ora, é a mesma coisa: é pelo som que se mede a madurez da melancia, Reboliço.
- Hum... Não deixa de ser bem visto, não senhor... Será cómico ir à praça e ver o pessoal a equilibrar os aparelhinhos em cima das melancias!
(*Nome do aparelhinho, segundo o pai. Dúvida do Reboliço: diz-se melanciómetro, melancinómetro ou melancímetro?)
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
O Reboliço é um nefelibata (55)
(Foto das nuvens em Manaus, sobre o Rio Negro, a acompanhar mais um belo retrato de Alexandra Lucas Coelho: Jordi Burch/Kameraphoto. O Reboliço deleita-se, como se fechasse os olhos e se achasse estirado numa daquelas espreguiçadeiras, lombo sobre a lona branca, olhos no branco das nuvens. Obrigada, Jordi!)
domingo, 21 de agosto de 2011
"A minha musa não é nenhum cavalo,"
... escreveu Nick Cave à MTV, para se escusar a receber o prémio de Melhor Artista Masculino em 1996. Não senhor, cavalo nenhum.
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
Le néphélibate bureaucrate (2)
(Foto das nuvens a embranquecerem ao longe: Reboliço, para assinalar o Dia Mundial da Fotografia. Segunda vez - para a T., que não desarma.)
>
Bureau,
Fotos,
Nefelibata
Fotografia = escrita iluminada
[O Reboliço assinala o Dia Mundial da Fotografia.]
LAPINHA
Para a Lorena
o último pássaro metálico
deixando para trás os portões
encerrados das lagoas.
É um tempo de aranhas
esquecidas das teias, aves
suspensas no voo, amigos
que invocam em silêncio as estações
e recordam ainda a Criação,
camada por camada.
Sobre os homens desce então
uma redoma de nuvens, que a estrela
única vem selar. Cada um risca
as fronteiras do sonho com sebes
de hortênsias ou muros de basalto,
esperando depois que as três
voltas do milhafre não o surpreendam
entre as espigas altas do mundo.
E o medo torna-se subitamente
navegável, mar de minúsculas
e carnudas conchas estendido
a nossos pés, para que possamos
sempre caminhar sobre
as águas.
São Miguel, 14 de Agosto de 2011
quinta-feira, 18 de agosto de 2011
Now that Post-Modernism is Dead, My Life Feels Empty! (*)
(*Glosa do título da hilariante peça de Richard Foreman.)
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
Papéis velhos
(Foto do clip amarfanhado de uma revista, com Rodolfo Valentino e Vilma Bánky, em Son of the Sheik [1926]: Reboliço, amarfanhante.)
terça-feira, 16 de agosto de 2011
Água a cair
O Reboliço gosta de se lembrar de quando o Barranco da Corte fugia, rápido, entre as margens. Ia a correr até lá, atrás das bicicletas, o vento a zunir-lhe nas orelhas e os olhos a perderem-se pelas cores que pintalgavam a Primavera. As maiores quedas de água que conheceu foram as que davam as correntes a saltar pedras e troncos naquele leito. Hoje, já seco o barranquinho da aldeia, entretém-se no pasmo de coisas que nem sabia imaginar. (Muitas graças, F.!).
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
Trinado
(Foto da imagem do bicho passarinha, no verso da moeda de 10 Escudos caboverdianos: Reboliço, a escutar também o vento.)
sábado, 6 de agosto de 2011
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
Le néphélibate bureaucrate (1)
(Hip-foto de três folhas da planta, chamada Mimi, no parapeito do bureau, e onde se avistam também as copas das árvores da rua: Reboliço, a pensar em como se há-de livrar da Mimi, que é muito verdinha mas não, mas não.)
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
Essencial precisão terminológica, relacionada com a fauna entomológica maioritariamente activa e audível durante as noites de calma
O Reboliço, instado, procurou documentar-se. Além do ouvido da experiência, deve falar a persistente e científica voz. O grilo, ou cricket, estridula, comme ça*. A cigarra - cicada orni - faz assim. E os ralinhos também guincham. O Reboliço fecha os olhos pequeninos e abana muito depressa a cabeça, como se quisesse fazer soltar de lá de dentro os barulhos. São quase iguais, todos estridentes. Ficou grilado. Mas à conta da pesquisa descobriu esta magnífica base de dados. (Obrigada, Fernando!)
* Tem que se procurar na página o link em "night insects", no oitavo parágrafo.
terça-feira, 2 de agosto de 2011
O Reboliço é um nefelibata (54)
(Fotos do final da tarde de ontem, para poente - onde o sol se põe - e para nascente - onde nasce nos vidros dos prédios -, desde a janela da cozinha: Reboliço, em rebuliço. O Reboliço sai, vai para fora de casa, mas leva nas narinas o cheiro da resina dos pinheiros no final da tarde, o silêncio que os pardais e os andorinhões interrompem a acoitar-se, as pilhas de livros à sua frente, com espaço para estarem cada uma no seu canto da sala, o vento que varre a casa, o chão de madeira e a lonjura que vê da janela - coisas que se agarram à pele como a resina, de persistência perfumada.)
domingo, 31 de julho de 2011
Arte da Mana, arte do Mano
(Hip-fotos da pintura de armário de cozinha, arte da Mana, mais ensaio para banda desenhada, arte do Mano, duas artes dos finais da década de 1980: Reboliço, orgulhoso.)
sábado, 30 de julho de 2011
Ir à praça
(Hip-foto do berbigão à venda, transformada pelo Picture Show: Reboliço, a cheirar tudo. Sábado de manhã, em Loulé, vai-se à praça. O edifício do mercado municipal, de estiloso estilo neo-árabe, recentemente en-feiado pela substituição das cúpulas na quatro torres de esquina, fica quase desaparecido atrás das bancas de fruta, legumes, enchidos, bacalhau seco, turistas de canones e fujis em riste ou a tiracolo e senhoras que param a contar a eventful week. É uma azafamazinha, pequena como o tamanho da praça, como o tamanho da vila, mas muito azafamada. O peixe, ao sábado, dobra o preço sem precisar de dobrar a qualidade, sempre boa. "Freguesa, não estava à sua espera ao fim-de-semana. Já sabe que tem que vir à sexta comprar o peixe de sábado, que hoje fica-lhe mais caro...")
>
Fotos,
Onde andei
quinta-feira, 28 de julho de 2011
O Reboliço descansava muito quieto, ao pé da amendoeira, a cheirar o ar húmido.
- Reboliço, Reboliço, olha o que eu sei!
- Diz lá, respondeu o bicho, com paciência, ao desassossego da peluda.
- "Primeiro de Agosto, primeiro de Inverno." Hein, já sabias, já, já?
- Ainda não veio Agosto, Luca. Mas és capaz de ter razão. Chega o fim de Julho e aí o tens.
De focinho erguido, muito satisfeita, a Luca desarvorou valado acima, a fugir às gotinhas de água que se atropelavam para chegar primeiro à terra seca.
- Reboliço, Reboliço, olha o que eu sei!
- Diz lá, respondeu o bicho, com paciência, ao desassossego da peluda.
- "Primeiro de Agosto, primeiro de Inverno." Hein, já sabias, já, já?
- Ainda não veio Agosto, Luca. Mas és capaz de ter razão. Chega o fim de Julho e aí o tens.
De focinho erguido, muito satisfeita, a Luca desarvorou valado acima, a fugir às gotinhas de água que se atropelavam para chegar primeiro à terra seca.
terça-feira, 26 de julho de 2011
Moinhos na poesia (36)
"Moinho"
Tantos pintores
A realidade comovida agradece
mas fica no mesmo sítio
(daqui ninguém me tira)
chamado paisagem
Tantos escritores
A realidade comovida agradece
e continua a fazer o seu frio
sobre bairros inteiros, na cidade, e algures
Tantos mortos no rio
A realidade comovida agradece
porque sabe que foi por ela o sacrifício
Mas não agradece muito
Ela sabe que os pintores os escritores e quem morre
não gosta da realidade
Querem-na, para um bocado
Não se lhe chegam muito - pode sufocar
Só o velho moinho do acordeão da esquina
rodado a manivela de trabuqueta
sem mesura sem fim e sem vontade
dá voltas à solidão da realidade.
Tantos pintores
A realidade comovida agradece
mas fica no mesmo sítio
(daqui ninguém me tira)
chamado paisagem
Tantos escritores
A realidade comovida agradece
e continua a fazer o seu frio
sobre bairros inteiros, na cidade, e algures
Tantos mortos no rio
A realidade comovida agradece
porque sabe que foi por ela o sacrifício
Mas não agradece muito
Ela sabe que os pintores os escritores e quem morre
não gosta da realidade
Querem-na, para um bocado
Não se lhe chegam muito - pode sufocar
Só o velho moinho do acordeão da esquina
rodado a manivela de trabuqueta
sem mesura sem fim e sem vontade
dá voltas à solidão da realidade.
(Mário Cesariny de Vasconcelos, Diário de Notícias, 16 de Julho de 1964. Re-publicado em Poesia Portuguesa do Pós-Guerra 1945-1965, antologia organizada por Afonso Cautela e Serafim Ferreira, Lisboa, Editora Ulisseia, 1965, p. 329.)
segunda-feira, 25 de julho de 2011
Xerém com muxama
No Algarve, que é al-Gharb, o Ocidente, viveram uns setecentos anos seguidinhos muçulmanos, árabes, moçárabes, maometanos, islamitas - os sarracenos, chamavam-lhes gregos e romanos, que com eles também muito se cruzaram. As contas dos Censos não distinguem o que corre no sangue das pessoas, mas aqui vivem ainda, e não só precariamente nas pernas altas que caminham sobre a areia e vendem tapetes, malas, cintos, chinelas de couro. Não vivem só de passagem nem só em pouco numerosas famílias: estão entranhados na boca, nos olhos, nos sentidos todos, nas palavras que aqui se dizem, na comida que aqui se come, nas ruas que aqui se atravessam, na cal das paredes. Viver num lugar não é trair esse lugar. É viver nesse lugar. Habitar, comer, dormir, amar, ter iras, acalmar, gozar, chorar. Viver e deixar viver.
(A muxama, atum seco em salga, é uma iguaria talvez de origem fenícia, trazida para este lugar pelos romanos, e que ganhou dos árabes o nome. O xerém, papa de milho, vem possivelmente do Norte de África - o nome, que o milho, sim, sim, terá vindo das Américas. Uma e outro continuam a comer-se em Portugal - mas não só -, a ser preparados nas casas das famílias e a ser vendidos em muitos mercados. Xerém é ainda nome de projecto e associação cultural. Alô, Jorge Rocha, obrigada!)
(A muxama, atum seco em salga, é uma iguaria talvez de origem fenícia, trazida para este lugar pelos romanos, e que ganhou dos árabes o nome. O xerém, papa de milho, vem possivelmente do Norte de África - o nome, que o milho, sim, sim, terá vindo das Américas. Uma e outro continuam a comer-se em Portugal - mas não só -, a ser preparados nas casas das famílias e a ser vendidos em muitos mercados. Xerém é ainda nome de projecto e associação cultural. Alô, Jorge Rocha, obrigada!)
A noite
O Reboliço não se recorda de ter ouvido com tanta claridade - será o ar mais húmido? - o grito dos pavões, vindo do jardim da Alameda. Ou a humidade ou o desafio que aos pavões fazem as cigarras, a noite toda a crrrrricrrrricrrrrinar. O Reboliço senta-se na varanda, o focinho para lá do fresco parapeito de mármore, e dormita. Sente passar as horas como se levasse à boca mel a escorrer de uma colher com a parte côncava para baixo.
O aquário
Somehow, then, the problem is just how to introject this new and disturbing material into (under?) the skin of the old without changing or irremediably damaging the contours of my subjects or the solution in which they move. The golden fish circling so languidly in their great bowl of light - they are hardly aware that their world, the field of their journeys, is a curved one....
Lawrence Durrell, "Balthazar" [1958], parte III, in
The Alexandria Quartet, 1962, London, Faber & Faber, p. 234.
De certo modo, então, o problema é só saber como introjectar este novo e perturbante material para dentro (para debaixo?) da pele do novo, sem mudar nem irremediavelmente danificar os contornos das minhas personagens nem a solução em que se movem. Os peixinhos dourados que circulam, tão lânguidos, no grande globo de luz - mal se apercebem de como o seu mundo, o campo das suas viagens, é coisa curva....
(Tradução, brincadeira, minha.)
domingo, 24 de julho de 2011
Com os azeites
O Reboliço untou-se, cheirou, deu a cheirar, provou, bebeu, mergulhou o pão, sorveu. Ama o azeite. Os azeites entre conversas.
>
Azeite,
Onde andei
Crrrrii, crrrrriiii, crrrrrii
Esta noite cantam as cigarras, Reboliço, a pulmões cheios. O céu tem muitas estrelas, o ar parado e as vozes das pessoas na rua passam à mesma velocidade que os passos que elas dão. Não há vento, não foge uma aragem. Chegou o meio do Verão.
sábado, 23 de julho de 2011
Oh...
(Já sabias, Reboliço: não era flor que se cheirasse.)
(Artigo de Russell Brand no Guardian sobre a doença de que morreu Winehouse e sobre o seu génio: coisas diferentes. Thanks, Olivia.)
sexta-feira, 22 de julho de 2011
Post dedicado à Z., a mais constante leitora das Cartas
(Hip-foto do pormenor da almofadinha com uma Nossa Senhora Desatadora dos Nós: Reboliço, a ver se ajuda a desempeçar.)
>
Fotos
domingo, 17 de julho de 2011
"Do uso não histórico da palavra"*
"Levem-me"
Levem-me numa caravela,
Numa velha e doce caravela,
À proa ou, se quiserem, na espuma,
E percam-me, ao longe, ao longe.
No atrelado de uma outra era.
No veludo enganador da neve.
No fôlego de alguns cães reunidos.
Na trupe extenuada das folhas mortas.
Levem-me sem me ferir, nos que se beijam,
Nos seios que se erguem e que respiram,
Sobre os tapetes das palmas e o seu sorriso,
Nos corredores dos ossos largos e das articulações.
Levem-me ou então enterrem-me.
Levem-me numa caravela,
Numa velha e doce caravela,
À proa ou, se quiserem, na espuma,
E percam-me, ao longe, ao longe.
No atrelado de uma outra era.
No veludo enganador da neve.
No fôlego de alguns cães reunidos.
Na trupe extenuada das folhas mortas.
Levem-me sem me ferir, nos que se beijam,
Nos seios que se erguem e que respiram,
Sobre os tapetes das palmas e o seu sorriso,
Nos corredores dos ossos largos e das articulações.
Levem-me ou então enterrem-me.
(Henri Michaux, Mes Propriétés, 1929.
Achado aqui e traduzido - malamente, Michaux, malamente - por mim.
O título do post é, truncado, o que a C. primeiro deu ao post do Dias Felizes. O blogger cortou o final ao que seria "Do uso não histórico da palavra caravela". Da maneira como o acaso e as métricas htm-élicas ditaram tem um ar filosófico que assenta bem sobre um poema em que os sentidos das palavras não se cingem às roupagens do uso. Ou seja, fica ali que nem ginjas. Ginginha. Obrigada, C.)
quarta-feira, 13 de julho de 2011
domingo, 10 de julho de 2011
sábado, 9 de julho de 2011
O céu sobre Coimbra
(Foto da cegonha apanhada entre fios de telefone, ou de electricidade, ou, ou, por baixo do céu de Coimbra: Teresa Valente.
O Reboliço gosta de nuvens, gosta de andar de cabeça no ar, gosta de cegonhas e gosta muito de amigos que lhe oferecem coisas bonitas. Obrigada, Teresa!)
"Primeira Imperial"
Na Cervejaria
um senhor de óculos sem culpa
cabeleira densa e culpada de ir
até à sobrancelhas ligadas
e principais culpadas
da sua estúpida presença
Cara de carnes caídas
a fazerem-no menos novo
do que um queixo entre enérgico e ovo
denuncia
Na Cervejaria
dizia
um senhor e sua mulher de azul e mise exactamente
no momento em que leve
ágil
animal
pisa o chão duro e frio do salão
um valente Rodolfo Valentino conhecido
do casal
Alarga-se o sorriso de gambas róseas
na boca do senhor
um adeusar de sua mão papuda
em louvor
do amigo Rodolfo
Ela de faces em rosácea e alva dentadura
logo revelada
fica enlevada
mas honesta na Cervejaria pensa:
- Meu marido dá-me todo o conforto do lar
dá-me gambas ao jantar
e mais logo dá-me quatro horas de Ben-Hur na plateia
onde a moda nova oferece as minhas pernas
às vistas desarmadas
dá-me futuro
recheio no seguro e o Rodolfo
só me daria aquilo com que sonhei durante
tanto tempo
amor, amor, amor apenas
um senhor de óculos sem culpa
cabeleira densa e culpada de ir
até à sobrancelhas ligadas
e principais culpadas
da sua estúpida presença
Cara de carnes caídas
a fazerem-no menos novo
do que um queixo entre enérgico e ovo
denuncia
Na Cervejaria
dizia
um senhor e sua mulher de azul e mise exactamente
no momento em que leve
ágil
animal
pisa o chão duro e frio do salão
um valente Rodolfo Valentino conhecido
do casal
Alarga-se o sorriso de gambas róseas
na boca do senhor
um adeusar de sua mão papuda
em louvor
do amigo Rodolfo
Ela de faces em rosácea e alva dentadura
logo revelada
fica enlevada
mas honesta na Cervejaria pensa:
- Meu marido dá-me todo o conforto do lar
dá-me gambas ao jantar
e mais logo dá-me quatro horas de Ben-Hur na plateia
onde a moda nova oferece as minhas pernas
às vistas desarmadas
dá-me futuro
recheio no seguro e o Rodolfo
só me daria aquilo com que sonhei durante
tanto tempo
amor, amor, amor apenas
(António Domingues, Poesia Portuguesa do Pós-Guerra 1945-1965,
antologia organizada por Afonso Cautela e Serafim Ferreira,
Lisboa, Editora Ulisseia, 1965, pp. 45-46.)
sexta-feira, 8 de julho de 2011
O Reboliço não é o único nefelibata
(Foto da nuvem do vaivém a furar a nuvem de ameaça de chuva no Kennedy Space Centre, na Florida: Xeni Jardin. Thanks, Xeni!)
- Lá foram, Luca.
- Para onde é que foram?
- Para o espaço.
- Sim, mas onde é que pousam?
- Não pousam, ou melhor, pousam numa coisa que também está suspensa, a Estação Espacial Internacional.
- E o que é que lá vão fazer?
- Olha, se queres que te diga, não sei bem. Acho que foram afinar instrumentos, levar umas pecinhas novas para a dita estação.
- Explica-me, Reboliço: se eles pousam em cima do que não está pousado, como é que não caem?
- Olha, é assim como aquelas moscas que às vezes a gente vê a voar umas em cima das outras, percebes?
- Hum... Não, mas está bem. Fizeste-me lembrar que tenho que ir a fugir enxotar aquelas que ali andam. Isso é que é a minha missão especial!
UI
O Reboliço anda agitado com todas as google-mexidas e as novidades nos user-interfaces. A sua favorita, para já, é a do amigo Panda Cósmico. Dá para ver os filmes em écrã gigante!
"Cada catchor tem sê sexta-fêra"
Em Reencontro, Djurumani canta e toca - por vezes com Ana Maria Germano, sua querida esposa, outras com Zenaide Chantre, por vezes com Bernardo Sassetti, outras com António Chaínho - temas populares de Cabo Verde, além de belíssimas composições suas, tudo em crioulo de lá, coisa linda. Não há youtubinhos com as cantigas, nem outras coisas disponíveis na net. E comprar o disco é mais bolos, Reboliço: cada cachorro tem a sua sexta-feira, o que pelos vistos significa ter um dia de cão.
quinta-feira, 7 de julho de 2011
O Rafael
(Foto, moldura e tudo: Manuel Leitão, 2006. O Reboliço lembra-se bem deste dia. Um rebuliço pelo Moinho, vão quase cinco anos, muita gente a comemorar o telhado novo, o brilho nas paredes, a engrenagem a funcionar em bom, velas abertas. Um dia de céu limpo, vento calmo - mas lá ventou... - e alegria, muita alegria. Olhou lá para cima, mesmo quando o Manel clicava no botanito da máquina, e piscou o olho ao Rafael.)
>
Fotos,
Manuel Leitão,
Moinho
Reencontro
(Hip-foto: Reboliço. O Reboliço ia de passeio pequeno a conduzir o carro da Mana. Ligou o tocador de discos, sem saber que música sairia dali, e quase teve de encostar à berma, da surpresa e da alegria: reencontrara [porque a Mana reencontrara] o Reencontro, o absolutamente extraordinário disco de Djurumani - alô, Germano! - a que há muitos anos perdera o rasto. Caminho todo a cantarolar, pois foi, q'ando mi era galo nobo...)
>
Djurumani,
Fotos,
Mana,
O que ouvi
segunda-feira, 4 de julho de 2011
"A dog's life - Charlie Chaplin (1919)"
1.
2.
Charlie Chaplin, nosso Deus e Senhor, criador de todos
os gags, vendo a nossa rigidez, a nossa militância
nas fileiras do orgulho, enviou-nos o Seu Filho bem
amado, a fim de nos salvar da parvoíce, libertar-nos
da empáfia, pondo à prova a nossa agilidade,
a nossa paciência. Servindo-se de gestos, de cinéticos
enredos, quase sem palavras, Charlot desceu à terra
e pregou pelo exemplo. Assumindo mil disfarces
e parábolas, perseguiu-nos com amor, padeceu no surdo
gelo da nossa indiferença, mostrou-nos com que modos
se suportam os maus tratos, instou-nos a romper
com o barril das enteléquias. Não é um deus de amor,
mas de conflito, o nosso Charlie. Por isso é que
Seu Filho nos soterra sob sacos de centeio, nos derruba
de escadotes, nos atira com tijolos e com tartes,
ananases aguçados; por isso nos abate com tábuas e
martelos, ou nos bole com os nervos nas portas giratórias
dos hotéis. Charlie sabe como a dor nos acrescenta,
sobrepondo novos pisos à morada interior, elevando
o sentimento à dimensão da piedade. Por isso é que
Seu Filho veio a nós, neste século de trevas, disfarçado
de ninguém e decido a instalar a confusão por onde
passa. Pois só da confusão pode nascer a liberdade.
os gags, vendo a nossa rigidez, a nossa militância
nas fileiras do orgulho, enviou-nos o Seu Filho bem
amado, a fim de nos salvar da parvoíce, libertar-nos
da empáfia, pondo à prova a nossa agilidade,
a nossa paciência. Servindo-se de gestos, de cinéticos
enredos, quase sem palavras, Charlot desceu à terra
e pregou pelo exemplo. Assumindo mil disfarces
e parábolas, perseguiu-nos com amor, padeceu no surdo
gelo da nossa indiferença, mostrou-nos com que modos
se suportam os maus tratos, instou-nos a romper
com o barril das enteléquias. Não é um deus de amor,
mas de conflito, o nosso Charlie. Por isso é que
Seu Filho nos soterra sob sacos de centeio, nos derruba
de escadotes, nos atira com tijolos e com tartes,
ananases aguçados; por isso nos abate com tábuas e
martelos, ou nos bole com os nervos nas portas giratórias
dos hotéis. Charlie sabe como a dor nos acrescenta,
sobrepondo novos pisos à morada interior, elevando
o sentimento à dimensão da piedade. Por isso é que
Seu Filho veio a nós, neste século de trevas, disfarçado
de ninguém e decido a instalar a confusão por onde
passa. Pois só da confusão pode nascer a liberdade.
2.
Sabei que Charlot, o nosso Salvador, abomina
sobretudo a servidão. Um só mandamento
exprime a sua doutrina: Não te prendas ao pesado.
Que significa, Não te prendas ao pesado?
Significa: Aceita a mudança e livra-te
de converter em velório o festival dos acidentes.
A vida é uma torrente de oportunidades: moeda
no chão, cigana bonita, perna de presunto,
um par de patins. Atentem nestes exemplos,
concedidos pelo nosso Salvador, e compreendam
que não é nos grandes mas nos pequenos lances
que a vida se joga e se transforma e retribui.
A desmesura é o pecado dos pacóvios.
sobretudo a servidão. Um só mandamento
exprime a sua doutrina: Não te prendas ao pesado.
Que significa, Não te prendas ao pesado?
Significa: Aceita a mudança e livra-te
de converter em velório o festival dos acidentes.
A vida é uma torrente de oportunidades: moeda
no chão, cigana bonita, perna de presunto,
um par de patins. Atentem nestes exemplos,
concedidos pelo nosso Salvador, e compreendam
que não é nos grandes mas nos pequenos lances
que a vida se joga e se transforma e retribui.
A desmesura é o pecado dos pacóvios.
Se o almoço te trouxe meias-solas, alegra-te
primeiro porque não as roubaste a um mais pobre
do que tu; alegra-te segundo porque foram
de graça, e só o que é de graça tem autêntico
sabor; alegra-te terceiro porque a tarde está de sol,
ou de chuva ou de neve, e nada é importante,
nada é decisivo. Neste circo dos graves,
neste palco rotativo, ri melhor quem ri a fundo
e por mais tempo. Até que a morte, de bigodes
retorcidos, nos apanhe e nos aparte do sorriso,
nos expulse do vestíbulo, nos corra a pontapé,
nos desfaça na cabeça o violino.
primeiro porque não as roubaste a um mais pobre
do que tu; alegra-te segundo porque foram
de graça, e só o que é de graça tem autêntico
sabor; alegra-te terceiro porque a tarde está de sol,
ou de chuva ou de neve, e nada é importante,
nada é decisivo. Neste circo dos graves,
neste palco rotativo, ri melhor quem ri a fundo
e por mais tempo. Até que a morte, de bigodes
retorcidos, nos apanhe e nos aparte do sorriso,
nos expulse do vestíbulo, nos corra a pontapé,
nos desfaça na cabeça o violino.
(José Miguel Silva, 2005. Achado nos Achaques, inédito fora da rede. Obrigada, JMS.)
domingo, 3 de julho de 2011
O Reboliço é um nefelibata (53)
O Reboliço já deveria estar farto de nuvens. Chega, Reboliço - mas nada. Até as das terras ruins, até as dessas terras o maravilham. Olha para as imagens enquanto vai ouvindo cada acorde, badlandly, da bateria de Charlie Watts, tudo em tons de negro. É para o que lhe dá, no domingo fresquinho.
sexta-feira, 1 de julho de 2011
O Reboliço é um nefelibata (52)
- O que me querias mostrar, Reboliço?, perguntou a louca, varrendo o chão com a cauda mal tosquiada e o focinho de azougue.
- Luca, tens de olhar para cima, criatura...
- Ah, uma cabrinha!
- Sim, mas vê as nuvens por cima dela.
- Luca, tens de olhar para cima, criatura...
- Ah, uma cabrinha!
- Sim, mas vê as nuvens por cima dela.
(Foto da estátua de uma cabra, em Spitalfields: Lawrence Wolfman Bogle, a passear por Londres com o Otelo. Thank you, Larry!)
[Uma Arte]
Perdi meu senso de urgência
Não sei se foi antes ou depois
daquela lambida, seus anticorpos
e o meu corpo no que ia
submergindo, derrubando as traves.
Qual o meu interesse
qual o quê eu não sabia
essa casa está doente
e o tamanho da minha mordida
até que todo o mar congele
não será maior do que qualquer estrada.
Aqui dentro não há mais vaga.
Aqui dentro não há mais nenhuma vaga.
Perdi mais objetos que encontrei
e agora a maior parte deles
existe sem o nome que lhes dei.
Volto à sua língua, sua lambida:
corta, abre, costura e fecha.
Não sei se foi antes ou depois
daquela lambida, seus anticorpos
e o meu corpo no que ia
submergindo, derrubando as traves.
Qual o meu interesse
qual o quê eu não sabia
essa casa está doente
e o tamanho da minha mordida
até que todo o mar congele
não será maior do que qualquer estrada.
Aqui dentro não há mais vaga.
Aqui dentro não há mais nenhuma vaga.
Perdi mais objetos que encontrei
e agora a maior parte deles
existe sem o nome que lhes dei.
Volto à sua língua, sua lambida:
corta, abre, costura e fecha.
(Laura Liuzzi, Piauí, 47, Agosto de 2010, p. 42.
Versão recente do poema de Elizabeth Bishop.)
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