segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Do pai (2)

Uns dias depois de escrever o episódio da Castanha, o pai mostrou este, sobre o Margot. O Reboliço quis saber de onde teria vindo ao cão aquele nome, mas ganhou as mesmas: diz que não se lembra, o pai. Chamavam-lhe margôu, era só isso.

O cão Margot

   Era um grande setter inglês. O rabo creio que fora cortado quando pequenote, tinha menos de um palmo. O pêlo era grande, castanho ondulado. As orelhas penduradas, era meigo e lindo o cão da minha infância.
   Na época das chuvas e na Primavera, quando a erva crescia nas searas, eu e o meu irmão, munidos de sachos e de um saco, íamos apanhar erva para os coelhos nos campos de trigo. O cão sempre nos acompanhava. Colhíamos as ervas: lentugas, cardos brancos, orelha de lebre, serralhas, chapéu de lagarto, etc. - nos catacuzes e nas tengarrinhas os coelhos não pegavam muito. O Margot ia farejando por ali à nossa volta, procurando buracos de ratos do campo, os musaranhos, ou malhada de lebre - só para se distrair, porque na realidade o pobre não tinha pedalada para lebres! Se por adregue em algum desses buracos lhe cheirava que havia rato, o animal esgravatava o terreno, brando por ter sido lavrado e ter humidade, até encontrar o bichinho. Este saltava da toca, cheio de medo, e o cão, furibundo, ia fugindo atrás dele sem o conseguir apanhar. Não era cão para grandes corridas: voltava depois para junto de nós, a abanar a réstia de cauda, como que a dizer que já se tinha divertido.
   O saco cheio das ervas apanhadas, atavamo-lo e colocavamo-lo atravessado sobre o lombo do cão. Depois, com um de nós de cada lado para manter o saco equilibrado, o Margot, dócil e satisfeito, levava a carga até ao monte.
   Nalgumas tardes de Primavera, a aproveitar a boa disposição do Margot, que gostava de brincar, fazíamos às vezes autênticas touradas, acenando-lhe com um saco de trigo vazio. O bicho atirava-se e quando conseguia apanhar o saco não o largava e puxava-o, às arrecuas - volta e meia lá ficava um saco rasgado.
   Envelheceu muito digno, o lindo cão. Veio a morrer tranquilamente à sombra do moinho numa tarde de Verão. Estava na posição favorita dele, estendido com o focinho descansando sobre as patas dianteiras a apanhar o fresco, com o vento da maré a dar-lhe de frente. As grandes orelhas pendidas levantavam ligeiramente com a brisa e assim ficou, numa imagem de tranquilidade impressionante. Quando estranhamos a demora naquela posição, demos com ele já sem vida. E chorámos. Ainda hoje me emociona a lembrança. Querido bicho!

Beja, 22 de Novembro de 2011
Chico Soares

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Noite de criaturas

(Foto da página 249 de The Letters of T. S. Eliot - Volume 1: 1898-1922, Revised Edition, Edited by Valerie Eliot and Hugh Haughton, London, faber & faber: Reboliço, encantado no Toby - "He said, Toby, Toby, hold on tight.". No final de um serão de leituras de outra poesia. Encomenda da I.D. A fotografia de TSE "aged about three" é de F. W. Guerin, 12th St. and Washington Avenue, St. Louis. Faz parte da Houghton Library e está identificada como MS Am 2560 [154a].)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

O Reboliço colecciona calendários (22)

(Foto do lencinho da botica: Reboliço, motivado para o Natal.)

Sem sono

As you lie before me now,
like a shadow on a pea-green sea:
Never thought that I would find you so hollow
Laying into me.

This cup of wine -
All salt and brine's made me sleepy.
Sorrow sows a field of tears, that will never yield a single penny,
That I don't owe.
Got nothing to hold on to.

Wished for gold so I could buy you a palace by the riverside
You'd come in and I would fill your diamond chalice.
You were still alive.

This cup of wine -
Of salt and brine's made me sleepy.
Sorrow sows a field of tears, that will never yield a single penny,
That I don't owe.
Got nothing to hold on to - I've got nothing to hold on to.

***

Were you sleepless, tearing at the air?
Was the water everywhere?
Were you fretful to wade into the room?
I'd been wanting to hear from you.
Oh, no

Hand it over,
Hand it over.
You're weary, lay him down:
You did your time, so thank you very much.
Hand it over,
Hand it over.
So now your hopes are all allayed -
Would you hand it all away?

Did his eyelids affix on empty chairs?
You had traveled to lay beside a gentle torture to watch it all recede,
And all the while, your mother slept beside him.
Oh, no.

Hand it over,
Hand it over.
You're weary, lay him down.
You did your time, so thank you very much.
Hand it over,
Hand it over.
So now your hopes are all allayed -
Would you hand it all away?

Were you sleepless, tearing at the air?
Was the water everywhere?
Were you fearful and long to run away from the cold clasp of Illinois?
Oh, no.

Hand it over,
Hand it over,
You're weary, lay him down.
You did your time, so thank you very much.
Hand it over,
Hand it over.
So now your hopes are all allayed -
Would you hand it all away?
No
Would you hand it all away?
Oh...
("Sleepless," The Decemberists)

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Meus manos

- Eu cá, Reboliço, gosto de andar de um lado para o outro.
- Pois é, Luca - haja quem. Já eu, quieto aqui no canto quente da casa, prefiro imaginar como seria o mundo sem distâncias: sem quilómetros, sem oceanos, sem estradas entre aqueles a quem quero ter à frente todos os dias. Para poder abraçá-los num mesmo gesto, como fiz aos meus irmãos no dia em que nasceram, há mais de sete lustros. Agora, estão eles como tu: cada um na sua esquina do mundo, saltitões, imparáveis.
- Ah, mas podias fazer de outra maneira para abraçares os teus manos, Reboliço. Arranjavas umas patas elásticas, estendias, estendias, estendias cada uma delas, e caçavas os bichinhos no abraço!

terça-feira, 29 de novembro de 2011

"unexpectedly strong ray of sunshine"

Não há fotografias: da janela da sala vê-se a rua, barulho e silêncio, duas pessoas a ler.

domingo, 27 de novembro de 2011

"A palavra fado é sempre o tema

das rimas tatuadas no meu peito."

A Sara, o Sali

António mudou de sexo. Foi pelos 30 anos, fez a operação em França. É a Sara, que o Reboliço sempre conheceu como Sara e via todos os Agostos, nas férias dela na aldeia. Sentava-se num dos bancos do larguinho, de conversa com as outras mulheres, enquanto as crianças corriam e jogavam jogos até o sono as vencer, que o calor não desarmava.
O Sali veio da Malásia nos anos 60 do século passado - órfão de guerra, foi adoptado por uma senhora inglesa, uma Andresen que morou na aldeia até morrer e nunca aprendeu uma palavra de português. Quando veio viver para Portugal, o Sali era já mestre em massagens e mezinhas orientais. Foi massagista do clube e era o calista que toda a gente procurava. Desengomava-se no português com um sotaque engraçado. Morreu quase com setenta anos; teve um funeral concorrido e a sua campa lá está, limpa e tratada como todas as outras do cemitério da aldeia.

sábado, 26 de novembro de 2011

O Reboliço é um nefelibata (61)

"As nuvens parecem coisas," diz C., a apontar para rolos de nuvens que captou em viagem, em fotografia. "Estas parecem a espuma das ondas do mar." Assim puxa as nuvens para o chão, puxa as nuvens para a areia e para os seixos rolados da praia. (Um chão como o que daria para servir de terra a uma cidade.)

Pavoneio

Ó pavão, lindo pavão,
lindas penas pavão tem.
Não há olhos para amar
como são os do meu bem.

Como são os do meu bem,
como são os da minha amada.
Ó pavão, lindo pavão,
ó pavão, pena riscá!

(Foto: Reboliço, no Museu da Cidade, aonde foi ver uma exposição de fotografias do espólio de Frida Kahlo e descobriu um amigo.)

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Do pai

No Domingo passado o pai fez 72 anos. O Reboliço passou o dia com os olhos numa fotografia que mostra dois pais: o avô Chico, sentado num dos degraus de pedra do sopé do moinho, a olhar para um lado; e o pai Chico, moço novo, nem vintaninhos ainda, sentado acima dele, no chão do sopé, a olhar para outro. Atrás dos dois está o moinho, de velas armadas. Talvez tenha sido feita pela altura em que o pai Chico presenciou o fenómeno que conta no relato que aqui se publica agora e a que chamou, muito singela e certeiramente, "A Castanha."


A Castanha

  O carrego do trigo para o moinho era feito num carro de besta só. Nos meus tempos de juventude, na metade da década de 50 do século passado, a carroça era puxada por uma mula pequena a que chamavam a Castanha, devido à cor do pêlo da bicha. O animal era danado para puxar o carro carregado de sacos de trigo. Muitas vezes carregava dez sacos de 60kg cada. No Inverno, muito embora não levasse essa carga toda, as rodas do carro afundavam-se no barro do caminho e a boa da Castanha, abanando as orelhas, com o dono ao lado agarrado a um dos varais do carro, animando-a, lá conseguia levar a carga até ao moinho.
  Um dia de Primavera, de manhã, com o céu completamente limpo, sem uma nuvem e com uma leve aragem, estava eu a pôr-lhe o cabresto, ao portão da cavalariça, notei que o animal estava demasiado quieto para o seu temperamento, algo esquivo quando se lhe metia o cabresto. Reparei nas orelhas muito afitadas, como quando presta atenção a qualquer coisa estranha. Então, olhei na direcção para onde olhava a Castanha e vi muito ao longe, a Noroeste, um pequeno e estranho ponto escuro, sobre o horizonte.Fiquei intrigado mas não liguei - e continuei a meter o cabresto na mula.
  Voltei a olhar o tal ponto e surpreendi-me ao ver que tinha aumentado bastante. Mantive-me a olhar e vi como que uma nuvem, ainda muito distante, com um movimento esquisito! Continuamos a olhar, eu e a mula, para aquela nuvem a aproximar-se, a aumentar e a ondular, ora subindo ora descendo. Só pode ser um bando de pássaros, pensei - mas que pássaros? Já nas proximidades do monte, apercebi-me finalmente tratar-se de uma nuvem imensa de pombos bravos (torcazes): milhares e milhares de aves como nunca até então tinha visto e nunca mais voltei a ver. Levaram alguns minutos a passar, de Noroeste para Sueste. Numa das ondulações em que baixaram e se aproximaram mais donde observava, ouviu-se um rumor como de uma grande enxurrada, tamanho era o barulho de tantas asas.
  Ainda hoje me espanta o facto de a Castanha se ter apercebido de que aquele pequeno ponto longe no  horizonte, onde fixou a sua atenção, era realmente coisa invulgar naquelas paragens.

Beja, 22 de Novembro de 2011
Chico Soares

domingo, 20 de novembro de 2011

O Reboliço é um nefelibata (60)

 (Foto do rebanho na estrada para o moinho, a desbastar as ramagens das oliveiras podadas durante a tarde: Reboliço, no domingo ao som das esquilas.)

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

A família Energia (o moinho na publicidade)

Um dia deste Verão, o Reboliço deitou-se à sombra da buganvília, encostado ao sopé do monte, recolheu as patinhas da frente, pousou o focinho sobre a gravilha e deixou que aquela gente toda fizesse o rebuliço que quisesse. Meteram o pai e a mãe ao barulho e até nas cordas das velas do moinho puseram luzinhas...
(Filme de Pedro Matos, CBB Pictures.)

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Vida de cão

Era uma vez um cão-almofada...

terça-feira, 8 de novembro de 2011

O Reboliço é um nefelibata (59)

(Foto da lua escondida atrás das nuvens de ontem, que anunciavam a chuva deste serão: Reboliço, a sacudir o pêlo para se ir enroscar no canto mais quentinho da casa.)

[Rimas às actualidades]

O bom do velho Feteira,
- Como qualquer homem quer -,
E como ele pôde e quis,
Viveu sempre na brincadeira:
Para além da sua mulher,
Com outras e em Paris.

Gastou dinheiro aos vagões,
Em jóias e lagostins,
Em champanhe e camarins,
Deixando contudo uns milhões.

Lá viu o nosso Duarte,
Que ali naquele lado,
Lá p'rás bandas do Brasil,
Havia dinheiro ao quadrado,
Uma soma do baril.

Nestas coisas dos dinheiros,
Que tanto apetite dão,
Por entre perdas e danos,
Já vai p'ra mais de dez anos,
Que os pretendem os herdeiros;
Não sendo Duarte excepção,
Não foi ele dos primeiros.

Pergunta o bom português,
Que na arte do desbaste,
É arte em que pouco prima:
"Onde está Duarte Lima?"
Respondem-lhe em toda a parte,
Que "entalado" está Duarte,
E bem gasta está a Lima...
(Versos achados na boca do povo e entregues ao Reboliço pelo cão do vizinho António.)

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

domingo, 6 de novembro de 2011

(Hip-foto do interior da contracapa de Aforismos do Estádio: Reboliço. O Reboliço pensa que cada uma das frases aforísticas ali reunidas, e ilustradas por desenhadores da Oficina do Cego, poderia fazer parte de qualquer poema de Manuel de Freitas, que, afinal, foi quem fez a selecção e lhes chamou, no prefácio, "versos sem poema nem poeta". São de muitos poemas, sim. São, pelo menos, de um poeta.
Este livro cheira aos cigarros fumados dentro de outro estádio, de outra arena.)

Poema achado no domingo de manhã

Alabastro

Como esta caixa de alabastro, de arte
Frágil como a flor de cássia, é o meu coração,
Gravado a sonhos delicados e enfeitado
De muitas ideias finas e subtis.

Ali encerro especiarias, perfumes
De ricas memórias de paixão, mescladas
Como odores de canela, sândalo e cravo,
De cantigas e penas e vida e amor.
(Sarojini Naidu, vertidas as suas palavras do inglês
enquanto se saboreia uma prenda.)

sábado, 5 de novembro de 2011

Memografia (1)

Na aldeia havia as adegas. A tia mandava ir buscar vinho para o comer, ia-se às adegas. Havia a adega da rua de trás, mais próxima da mercearia, e havia a do primo Manel Inácio - a adega do Caiado. Era a mais concorrida porque era a maior e ficava no centro da aldeia. À adega do Caiado íamos só com autorização da mãe, que nos endireitava as saias dos vestidos ou as golas das camisas e dizia, resignada, "Pronto, vão lá. Mas não se ponham a comer tudo o que ele vos der."
O primo Manel Inácio era tão bondoso como era alto e gordo. Era tão amigo de dar quanto lhe eram lentos o olhar e a voz: "Olh', olh', olhós algarvios...", dizia devagar, com pausa entre cada palavra inacabada, quando chegávamos e as nossas três silhuetas se recortavam para dentro da adega escura, sempre mais escura que o dia, mesmo se a porta era um alto portão escancarado. Também lentamente, a olhar para um lado e para o outro, as sombras escuras à nossa volta, passávamos a lonjura do que deveriam ser quatro ou cinco metros que iam da soleira ao balcão; por duas filas de mesas quadradas com homens sentados que, minuto após minuto, reconhecíamos da família: "Tu és da Maria ou da Nita? Dá lá saudades, que ainda somos primos."
O balcão do Caiado era longo e alto, muito alto para as nossas alturas. O mano e a mana não lhe chegavam, por mais que pendurassem as manitas no rebordo - fosse como fosse, a atenção estava no que ficava ao alcance dos olhos: a montra de vidro dava a ver os pacotes de alcagoitas, o que ali vínhamos cobiçar. Quando levávamos o primo Henrique, bebé, lá vinha o Manel Inácio pegar-lhe ao colo, homem grande com o pequeno nos braços a apontar para todos os vidrinhos de garrafas, jarros, copos, pires com tremoços. Os meus olhos, de cuidado, seguiam o pequeno primo, afilhado. Então, atrás dos dois começava a reparar nos papéis malamente pendurados que enchiam as paredes: calendários com mulheres só-mei-vestidas, uma página ou outra da Gaiola Aberta, a tabela dos jogos do clube da aldeia, um aforismo copiado em papel manteiga. Para lá do balcão e do estrado de madeira de onde o Caiado aviava, para lá da parede que separava da cozinha, havia as talhas, enormes, bojudas do chão ao tecto. Depois disso havia de ser o quintal, mas era terreno por conhecer, como proibido.
Hoje, na aldeia só há taberninhas, tascas: o Correia, no Moinho de Vento, perto do campo da bola, e um ou outro café com a arca de gelados cá fora. As adegas, onde os homens cantavam e à noite faziam do silêncio da aldeia um lugar onde a gente se aninhava, fecharam, foram demolidas, ficaram sem ninguém.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Ir de cantiga em cantiga

Depois desta notícia, estoutra:
"A presente base de dados disponibiliza, aos investigadores e ao público em geral, a totalidade das cantigas medievais presentes nos cancioneiros galego-portugueses, as respetivas imagens dos manuscritos e ainda a música (quer a medieval, quer as versões ou composições originais contemporâneas que tomam como ponto de partida os textos das cantigas medievais). A base inclui ainda informação sucinta sobre todos os autores nela incluídos, sobre as personagens e lugares referidos nas cantigas, bem como a 'Arte de Trovar', o pequeno tratado de poética trovadoresca que abre o Cancioneiro da Biblioteca Nacional."

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Olhar o céu, olhar o chão.

(Fabulosa foto de um cemitério em Jerusalém: G.C.L. O Reboliço agradece, em admiração e em memória de todos os santos.)

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

"Cedo"

Ruas desertas - águas paradas.
Feridas abertas, portas fechadas:

Cidade antiga - minha cidade.
Que queres que diga,
Se já é tarde...

Neste degredo triste e sombrio,
O teu segredo - quem o ouviu?

Dizes que é cedo, mas tenho medo -
E sinto frio.

Rua das Trinas, ao longe o rio.
Escadas e esquinas - um assobio.

Velhas meninas com tristes sinas num bar vazio.

Lixo no cais - o casario.
Coisas banais, um cão vadio:

Desço a calçada, não penso em nada -
E sinto frio.

Jornais, revistas, truques e manhas.
Vagos turistas:
Chuva e castanhas,

Ouve-se um canto triste e cansado.
Parece um pranto: dizem que é fado

Rua do Ouro, chego ao Rossio.
Não sei se choro, não sei se rio.

Subo a avenida -
Estou tão perdida, está tanto frio!

Cidade antiga - dizes que é cedo...
Que queres que diga, se não te entendo?

Mas vou ouvindo e repetindo,
Mesmo não querendo,

Até que, cedo, minha cidade,
Sem frio nem medo, que Deus te guarde
Com teu segredo.

Contigo aprendo que nunca é tarde.

domingo, 30 de outubro de 2011

O Reboliço é um nefelibata (58)


(Fotos das nuvens: F. - obrigada! Foto da Bécassine a apontar para as nuvens, ao lado do P'tiprance, que pensa em como caiu delas: Reboliço, grato à I. pela lembrança doce.)

sábado, 29 de outubro de 2011

Unir o tracejado

O Reboliço lembra-se deste sábado no ano passado: a casa do moinho cheia de gente, tudo encafuado perto da lareira a abrigar-se da chuva, do vento e do frio. Um susto fora de casa, o barulho, as gotas grossas. Este ano, teve uma festa de anos peripatética, como disse Dona Renata, na cidade ensolarada, sem vento nem sombra de chuva. De um ponto a outro da cidade, entre amigos, entre risos, entre bolos, velas mágicas e sopros de muitos desejos - fez uma linha, de manhã à noite. Mesmo com os pontos que não se viram com os olhos de ver.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

"na forma normal da letra redonda"

Onde Fernando pede licença para publicar Camilo.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Um só plano

O Reboliço senta-se à frente do monitor, bem mandado. Descobre que a Madalena Fragoso sonha o que vê; acha os números, as relações entre o que é veloz e o que é o vagar, e ainda tem olho para a música. Brava moça, brava cabeça.
(O Reboliço lembra-se de outro adormecido belo.)

domingo, 23 de outubro de 2011

Ruim que só ele

"O Jimmy Stuart dizia que deixara de fazer filmes por já não gostar de se ver no ecrã. Eu cá sou mais do género 'estou que pareço uma porcaria, mas vamos lá ver onde isto vai parar.'"
Tom Waits, The Guardian.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Isto é muito, muito bom.

O Reboliço nem pensa duas vezes e põe-se a rodopiar de feliz. Quer lá saber que lhe chamem cão doido! Doidice, loucura, é o ódio. Vêm-lhe à ideia uns versos: "É urgente o humor - é urgente um barco no ar." Não, não era outra coisa.

"Ô ia io, ia io!..." (Post em memória e em dedicatória)

Bruxelles

Plates-bandes d'amarantes jusqu'à
L'agréable palais de Jupiter.
- Je sais que c'est Toi qui, dans ces lieux,
Mêles ton bleu presque de Sahara!

Puis, comme rose et sapin du soleil
Et liane ont ici leurs jeux enclos,
Cage de la petite veuve!...
Quelles
Troupes d'oiseaux, ô ia io, ia io!...

- Calmes maisons, anciennes passions!
Kiosque de la Folle par affection.
Après les fesses des rosiers, balcon
Ombreux et très bas de la Juliette.

- La Juliette, ça rappelle l'Henriette,
Charmante station du chemin de fer,
Au coeur d'un mont, comme au fond d'un verger
Où mille diables bleus dansent dans l'air!

Banc vert où chante au paradis d'orage,
Sur la guitare, la blanche Irlandaise.
Puis, de la salle à manger guyanaise,
Bavardage des enfants et des cages.

Fenêtre du duc qui fais que je pense
Au poison des escargots et du buis
Qui dort ici-bas au soleil.
Et puis
C'est trop beau! trop! Gardons notre silence.

- Boulevard sans mouvement ni commerce,
Muet, tout drame et toute comédie,
Réunion des scènes infinie
Je te connais et t'admire en silence.
(Jean-Arthur Rimbaud, que morreu faz hoje centivintanos.)

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Oh...

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Por isso...

Os adjectivos mais usados por Machado de Assis nas suas obras são bom, grande e melhor. Eis a razão, Reboliço, eis a razão do amor que lhe tens.

Nova antiga maravilha

O Consejo Superior de Investigaciones Científicas, que fica em Espanha, tem uma biblioteca de manuscritos árabes, hebraicos e aljamiados (que é como quem diz, documentos em que se usa o alfabeto árabe para transcrever línguas românicas, como o latim, o português ou o castelhano mais antigos), do século XVI mas não apenas. Como ficar é um verbo que já não se usa nestes contextos, porque as bibliotecas vão deixando de estar sossegadas e os livros passam a habitar muitas nuvens, as fronteiras de Espanha apagaram-se - apagam-se os limites dos países, dos horários de funcionamento, até das condições de acesso. É clicar (eis um verbo que se usa) aqui e começar a folhear.


(Descoberta que fez o Reboliço na mesma data em que se disponibiliza, a preço promocional até 11/11/11, uma aplicação da Biblioteca Britânica que permite explorar - explorar, eis outro verbo que se usa - cinquenta e oito manuscritos reais. Por exemplo, só um exemplo para ilustrar, que qualquer um é ilustrado, iluminado: o Livro de Salmos que encomendou Henrique VIII, anotado por seu régio punho.)

domingo, 16 de outubro de 2011

Dia de acção de blogues

O tema deste ano é paparoca. O Reboliço é muito amigo de comer e gostaria de viver num alegre lugar onde todas as pessoas e todos os canitos pudessem comer sempre que devesse ser e aquilo que lhes apetecesse, porque é o que se leva e o que nos há-de levar desta vidinha.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Post dedicado

(Foto: Reboliço. Para a I., a G., a I., a C., a C., a S., a A. - e a V.! Olhai para cima, olhai para cima.)

iznotmeizyou

Faz hoje um ano preciso que se começou a publicar no lugar maravilhoso chamado iznotmeizyou. O Reboliço revels.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Em escuros lugares

Levantámo-nos cedo,
Lavámos o rosto,
Caminhámos pelos campos,
Montámos cruzes.
Passámos
As montanhas do demo
A caminho do Inferno,
E alguns de nós regressaram,
E alguns não voltaram.

Pelos campos e pelas florestas,
Sob a lua, sob o sol,
Mais um Verão passou por nós
E nunca um homem,
Nunca uma mulher
Revelou os segredos deste mundo.

Então os nossos mancebos esconderam-se
Com as armas, entre o pó
E nos lugares escuros.
Os nossos mancebos esconderam-se com as armas,
Entre o pó e nos lugares escuros.
Os nossos mancebos esconderam-se com as armas,
Nas florestas e nos lugares escuros.
Polly Jean Harvey, "In the dark places", Let England shake, 2011. Pobre minha tradução.

We got up early,
Washed our faces,
Walked the fields
And put up crosses.
Passed through
The damned mountains,
Went hellwards,
And some of us returned,
And some of us did not.

In the fields and in the forests,
Under the moon and under the sun
Another summer has passed before us,
And not one man has,
Not one woman has
Revealed the secrets of this world.

So our young men hid
With guns, in the dirt
And in the dark places.
Our young men hid with guns,
In the dirt and in the dark places.
Our young men hid with guns
In the forests and in the dark places.
And not one man has
And not one woman has
Revealed the secrets of this world.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Duas sugestões para quem está em Lisboa, ou de passagem na cidade:

Até 20 de Outubro (de quinta a sábado, das 22h às 02h) ainda se pode ver nas paredes do Bartleby Bar a mostra de fotografias das Cartas.  

Até 6 de Novembro (de terça a sábado, às 21h30; aos domingos às 16h00) é possível e muito aconselhável ver a adaptação para teatro de O Apartamento, de Billy Wilder e I. A. L. Diamond, feita por Jorge Fraga.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

"um trabalho colectivo do grupo de teatro ÁDÓQUE"


(Fotos do LP, vinilnovíssimo, d'A Festa da Malta: Reboliço, exultante com o reencontro [através da Beat Records] e intrigado sem saber por que cargas de água não existe uma reedição. Arranjos das fotos: Mana. Em uníssono ao telefone: "Nove. Oito. Sete. Seeeis. Cinco. Quatro, três, dois, um! - E eeeeeu? - Tu éz um zero, menos que um!")

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Tanta coisa, F.!

Tanta nuvem que não é nuvem, mas manta de água a não querer sair e a tapar dos nossos olhos o céu. Uma manta de brincar, alevantada pelos sopros do mundo para ficarmos a olhar, divertidos, o que se passa debaixo dela. O Reboliço vê e lê as nuvens sobre Bruxelas. Vê as mulheres que se auxiliam no lugar onde a humidade falta e a humidade sobra. Tanta coisa bela, Reboliço, que te dão a ver.

domingo, 9 de outubro de 2011

Abatido um homem

Rihanna canta que não tinha intenção de lhe fazer mal. Johnny Cash, Johnny Cash atirou só para o ver morrer. Não, não: a menina chama Peggy Sue à arma com que atirou para ouvir que rima com twenty-two; o bom do ex-inmate quer rimar die com cry, nada mais. Mas lá de onde está deveria ser capaz de fazer chegar ao Reboliço uma versão - grandiosa, como todas as que fez - de "Man Down". Não se melindre a Rihanna, Rihanna, que o seu sotaque caribenho é mel para os ouvidos de um canito.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

O Apartamento

- Rafa, desceste à terra?
- É que estou morto, sim, Reboliço, mas ainda me mata a curiosidade.
- Então? O que se passa?
- Soube que o meu dono voltou a acertar. Tu viste, não foi?
- Vi e gostei muito de ver. Ele traduziu, adaptou para teatro (que aquilo tinha sido cinema e pronto), e encenou.
- E os actores, que tal vão?
- Excelentes, o C.C. Baxter, a Fran e Mr Sheldrake. Boa companhia, Rafa. E na banda sonora, além das sirenes da cidade, ouve-se o nosso latido, claramente ouvido.
- Quem me dera ir ver...

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Jonathan Mak Long

É o nome do moço, nefelibata como o Reboliço, que desenhou uma das imagens que andam a circular a propósito da morte de Steve Jobs. Em 99% dos casos em que o Reboliço a viu circular, à imagem, andava órfã de criador. Mundos imperfeitos, mundos imperfeitos.

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(Nos aparelhos da Apple, o "O" do título do post é uma maçãzinha dentada. Nanja nos outros. O mundo não é perfeito, Steve, por mais que se queira.)

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Tarde de Verão

O Reboliço aproveita a moleza no dia de feriado: a calma das ruas, a cidade a alentar por baixo do sol de um Outubro licencioso. Prepara a mesa para o almoço. É a mesma mesa de duas abas, tampo de fórmica e pernas de ferro preto que se abria no pino do Verão para acrescentar à habitual, quando apareciam de surpresa os muitos primos, imaginada logo a alegria da tarde na praia ou nos pinheiros, o tacho de arroz com todos, o cheiro a pimento assado. Quando, volta não volta, se ouvia a mãe na cozinha: "Deixem-se de andar gansejando aqui à minha roda e vão mas é pôr a mesa!"

Ainda lá está

(Foto de um pormenor da exposição "Imagens das Cartas", no Bartleby: Teresa Valente. Obrigada!
O Bartleby abre às Quintas, Sextas e Sábados, das 22h às 02h e esta exposição pode ser vista até dia 20 deste mês.)

domingo, 2 de outubro de 2011

Sabor a casa

O Miguel Pires voltou (como sempre volta e espero que continue a voltar) ao Algarve. E fotografou em duas levas. A praça de Loulé e tudo.

O Reboliço é um nefelibata (57)

(Foto: Reboliço. A verdade é que havia uma bolha de água, de condensação, do lado de lá da janela. Quem fotografou quis tê-la no centro do triângulo de mar que os pedaços de terra e as falripas de nuvens - a sair de Lisboa - faziam.)

Antes de começar

"Errol's book made simple. (Some principles.)
  1. All photographs are posed.
  2. The intentions of the photographer are not recorded in a photographic image. (You can imagine what they are, but it's pure speculation.)
  3. Photographs are neither true nor false. (They have no truth-value.)
  4. False beliefs adhere to photographs like flies to flypaper.
  5. There is a causal connection between a photograph and what it is a photograph of. (Even photoshopped images.)
  6. Uncovering the relationship between a photograph and reality is no easy matter.
  7. Most people don't care about this and prefer to speculate about what they believe about a photograph.
  8. The more famous a photograph is, the more likely it is that people will claim it has been posed or faked.
Terribly sorry if this all seems pretentious, but it's the stuff I think about.
OK. I'll stick with the book."

(Onze tweets de Errol Morris a 1 de Outubro de 2011, sobre o seu mais recente livro, Believing is seeing [Observations on the Mysteries of Photography]. Outras impressões de Morris a propósito, nesta entrevista.

"O livro do Errol, simplificado. (Alguns princípios.)

  1. Todas as fotografias são encenadas.
  2. As intenções do fotógrafo não ficam registadas numa imagem fotográfica. (Podemos imaginar quais sejam, mas será pura especulação.)
  3. As fotografias não são verdadeiras nem falsas. (Não têm valor de verdade.)
  4. As falsas crenças agarram-se às fotografias como moscas a papel mata-moscas.
  5. Existe uma relação causal entre uma fotografia e aquilo de que é uma fotografia. (Mesmo em imagens trabalhadas num programa como o Photoshop.)
  6. Não é coisa fácil revelar a relação entre uma fotografia e a realidade.
  7. A maioria das pessoas não quer saber disto e prefere especular sobre aquilo em que acreditam a propósito de uma fotografia.
  8. Quanto mais famosa for a fotografia, mais provável é dizerem dela que é falsa ou encenada.
Lamento profundamente se tudo isto parecer pretensioso, mas é sobre coisas destas que penso.
OK. Vou ficar só com o livro."