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domingo, 13 de março de 2011

Filme do Desassossego

Uma das coisas de que mais gosto em Filme do Desassossego é o modo como me faz pensar sobre a diferença entre ver um filme e ler um livro. O livro, mais ainda o do Desassossego, tem um tempo de leitura como que infinito e sem direcção: tenho-o na mão, leio um fragmento, outro mais à frente, outro anterior, uma parte apenas de um outro; releio quase no mesmo momento, volto ao começo da frase, gozo o ritmo dos sons que não se quiseram versos. Na sala de cinema, a direcção da fruição é uma: para diante no tempo. Por mais que a música sugira rondas, voltas ao início; por mais que o final na mesma taberna onde tudo começa permita que se feche o círculo do que não tem fim, não posso reler, voltar atrás, virar a página num segundo para confirmar uma palavra ou um eco.
Outra coisa de que gosto nele é a luz e as sombras trabalharem as cores da Lisboa em desassossego de maneira a dar bem a sentir o gesto que as palavras de Bernardo Soares tiveram em direcção às ruas, ao rio, à rotina da cidade. Ah, e a dicção perfeita da "Educação Sentimental" por Catarina Wallenstein. E a floresta musical, que repete as imagens de Constança Capdeville na clareira entre árvores, em Rosa de Areia.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Há tempo

....."Há muito tempo que não escrevo. Têm passado meses sem que viva, e vou durando, entre o escritório e a fisiologia, numa estagnação íntima de pensar e de sentir. Isto, infelizmente, não repousa: no aprodrecimento há fermentação.

.....Há muito tempo que não só não escrevo, mas nem sequer existo. Creio que mal sonho. As ruas são ruas para mim. Faço o trabalho do escritório com consciência só para ele, mas não direi bem sem me distrair: por detrás estou, em vez de meditando, dormindo, porém estou sempre outro por detrás do trabalho.

.....Há muito tempo que não existo. Estou sossegadíssimo. Ninguém me distingue de quem sou. Senti-me agora respirar como se houvesse praticado uma coisa nova, ou atrasada. Começo a ter consciência de ter consciência. Talvez amanhã desperte para mim mesmo, e reate o curso da minha existência própria. Não sei se, com isso, serei mais feliz ou menos. Não sei nada. Ergo a cabeça / de passeante / e vejo que, sobre a encosta do Castelo, o poente oposto arde em dezenas de janelas, num revérbero alto de fogo frio. À roda desses olhos de chama dura toda a encosta é suave ao fim do dia. Posso ao menos sentir-me triste, e ter a consciência de que, com esta minha tristeza, se cruzou agora - visto com ouvido - o som súbito do eléctrico que passa, a voz casual dos conversadores jovens, o sussurro esquecido da cidade vida.
.....Há muito tempo que não sou eu."

(Livro do Desassossego de Bernardo Soares, Apresentação crítica, selecção e sugestões de leitura de Maria Alzira Seixo, Apêndice bibliográfico de José Blanco, Lisboa, Editorial Comunicação, 1986, pp. 135-136.)

quarta-feira, 11 de maio de 2005

A época dos descobrimentos

Estou a arrumar os livros e encontro duas coisas: um pequenino desenho do João (uma das suas lagartinhas fatigadas a passear sobre a linha de tinta da China) e as Cartas do Daudet, traduzidas por Ricardo Alberty. Tenho também o original francês, mas há-de ser cedo... O livro começa com uma escritura notarial: um senhor Mitifio vende ao senhor Alphonse Daudet um "moinho de vento e de farinha". Declara o senhor Daudet que, "não obstante ... a mó partida e a plataforma onde a erva cresce entre os tijolos", acha o "dito moinho em condições e podendo servir para os seus trabalhos de poesia". O triste é não se poder fazer pão onde se faz poesia.

Outra descoberta, faço-a no número de Out/Nov/Dez do Jornal dos Arquitectos: um artigo de Eduardo Lourenço sobre o Livro do Desassossego. Já não durmo sossegada.