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segunda-feira, 15 de abril de 2013

Moinhos na poesia (42)


                                                               Ao Fialho

Um resto de restos, babando mágoas
de intrigas em roda da ruína de si mesmo,
como um vento estúpido, sem história
nem destino, rondando às portas inúteis
onde bate a medo e ouve o medo bater.
Recolhe asas de moscas mortas e anuncia
as velhas desgraças às velas dos moinhos
destroçados que vai movendo. Não conserta
nada nem deserta, apenas fica de volta
como uma voz sem língua nem dentes.
Faz das frestas a sua torpe garganta, e,
sem música nem sangue, é apenas um
músculo daninho, servindo-se dos muros
vizinhos para se elevar. Sem corpo ou
caminho, não passa de um túmulo no ar.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Bastardo



«Garrafa de cerveja no pedestal da estátua!
Isto Fritz, é a era, o hoje frente ao passado:
Contemporâneo». E a paixão permanece.
Em vez de acções, aromas. Quartos, em vez de crónicas.


Ezra Pound


Há um sino que se alonga, se espreguiça,
alargando a hora em que deixas o quarto
e sais a raspar a pele húmida de sono,
oferecendo o corpo a ângulos mais
salientes. Passos que avançam em
meandros de chuva
, por ruas líquidas
ao sabor de uma luz vacilante. O vento
arrasta desde tempos sérios, antigos,
ordens enrouquecidas. Belisca, deixa-te
em sentido. Um enredo de sombras
dá-te cerco. Por cima é um bando
de estrelas que vão apostando entre si
que caminho levas hoje. Como
uma rima perdida, tens à perna
o cão do acaso, que te salva o traçado
alçando a pata em cada esquina.

E aí tens a esplanada-café-bar-buraco
onde leste noites e noites, onde deste alimento
à rosa desse pensamento decaído e infecto,
sangrando baixinho. Nem vermelha, nem
branca, mas uma cor intermédia a tudo.
Os versos, essa narrativa às cegas, bebendo
o tom das coisas, fixando-se em
pormenores onde pulsa um ardor de fantasia.
Já tens ouvido queixas. Que são longos
estes poemas, e depois nem têm
para onde ir. Realmente, não têm.
Também procuram não ter ilusões.

Quietos, revistados de cima a baixo,
é com gosto que nos deixamos roubar.
Uma canção que nos vira os bolsos e dos
trocos vai juntando um corpo, alegre-
-ardiloso. Estranho lucro que tiramos
repetindo furiosamente os mesmos lugares,
noite após noite, quase gemendo
de solidão. Senta-se diante de ti
sem desculpa nenhuma, sem nada
que fragilize o assombro daqueles
dois olhos escuríssimos, bem abertos.
Põe sobre o sorriso o copo, sorve um nada
de vinho e chega-se num beijo, empurrando
um gole de ambrósia. Semidesperto,
soluças, ris-te, recompões-te, dás outra moeda
à máquina e ela inventa outra coisa.

Sob a teatral e débil iluminação, uma gente
ilustrada que se perde em fundo. Flores
de fumaça, o odor frio e bolorento,
ecos inquietantes, moscas
levando notícias. Histeria, confissões
de trincheira, o riso frouxo de ventres
mortos
. Restos do dia. Uma aridez
perturbadora e a surda zoada
de um velho que te exaspera a audição
até uma afinação doentia. Alados-de-horror,
reúnem-se personagens de uma só
fala, estudando mil intenções possíveis
e projecção de voz, um jeito qualquer
de roubar a cena com esses farrapos
de frases, gestos sem sequência,
o sorriso pisado de quem delira mais
do que acredita.

A uns passos dali, um jardim fantasma
onde atracam os navios que cruzam
este mar de mijo português. Sol e lua
misturados numa agulha, uma gota
de infinito tropeçando no sangue. Galáxias
desaguando devagarinho, adoçando-o.
E as pulsações seguintes: fracas,
doces. Nem a respiração se defende.
A certa altura deixas de dar por ti.

Tudo em volta cresce de tom e escuta-se
o toque impreciso que desperta a flor-farol
dos que aqui estamos à espera da aurora
e da próxima aurora, juntando noites
suficientes para pagar um novo dia.



Diogo Vaz PintoBastardo,
Lisboa: Averno, 2012.
Ilustrado, na versão ante-papel, por Inês Dias.