terça-feira, 1 de maio de 2012

(Post dedicado)

Pastor

O cheiro da tua camisola de lã
disse-me que eras o pastor que
conduzia um poeta cego
pelos montes da antiguidade.

Aqui somos cegos sem cegueira.
Outubro ruge e chove,
as casas tremem.
Emergimos do cinema.

As últimas cenas do filme mostram
os amantes, presos numa liebestod,
e as estrelas
chovem-lhes na cama.

Não foi a loucura que os apartou,
nem ódio, nem o veneno
que ainda reduz a cinzas o abraço
de Romeu e Julieta.

O conflito de existir, nada mais,
o destrutivo código na célula
os condenou a encontrar
consolo na morte .

O destino, não a vontade humana,
nos lançou para margens opostas
da corrente da vida,
ainda que nos amássemos.

É um destino, a tua beleza, que ouso
desafiar. No negro brilho dos teus olhos
tremo e volto a juntar
um humano das ruínas de mim.

Radiante, de uma noite insone,
o teu rosto convida-me
com o brilho, qual cidade iluminada
na noite do Árctico.

Vou a cambalear, direito a ti, desnorteado,
carcaça destruída, ideia sem abrigo,
um noctívago embriagado.
Aninho-me na tua camisola molhada.

Pastor, sem lágrimas. Existe
um lugar onde os amantes se fundem,
de olhos abertos, despertos à noite.
Contam-se os dias, não as carícias.

(Tradução minha, do inglês: Pentti Holappa, "Shepherd", A Tenant Here, translated from the Finnish by Herbert Lomas, Dublin, Dedalus, 1999, pp. 53-54. Originalmente, o poema aparece no livro Valaistu Kaupunki Ruijan Pimeydessä [Cidade Iluminada na Noite do Árctico], de 1985. Para a ID.)