sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Moinhos em Aguarela

(Imagem: reprodução de aguarela de Leonel Borrela, uma das que tem feito do Moinho Grande, ou a partir dele. Mede 34x25cm e foi feita em 2002. A mó esteve encostada àquela parede largos e largos anos. As barras continuam azuis, no Moinho Grande e na casa do vizinho António. Já os outros dois moinhos, ao fundo, são assim de lindos na memória que o Borrela aqui fixa.)

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Artur Pastor

Moinho, Algarve. Década de 50/60.
(Foto de um moinho algarvio, entre outros, moinhos e paisagens, tudo tão lindo: Artur Pastor, "década de 50/60". Pastor, pastor de lugares. Obrigada por me mostrares as imagens. O catálogo de uma recente exposição é consultável online. Descarregável, até.)

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Excessivamente belo

“I put it out of the exhibition because it’s too beautiful. It’s too much. I couldn’t allow it.”

O Reboliço pensa que Anselm Kiefer não explica porque se esqueceu de retirar das salas da Royal Academy todas as outras suas obras. Demasiado belas? O que seria "demasiado belo"? O estômago a encolher à vista dos estames gigantes de girassóis? A recordação do par de sapatos usados, pendurados para fora da tela, arrastados do chão de Van Gogh, ou imaginados em versos de Jorge de Sena, que os viu primeiro? Existirá, pergunta-se o Reboliço, quanto seja "demasiado belo"?

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Sábado que vem

(Cartaz da iniciativa a partir de ilustração de Daniela Lisboa Gomes)

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Felizes 3/4 de século, meu pai.


"Um testamento, do avesso: O que te dou, que a mim tens dado"

(As coisas que oferecemos são, afinal, as que desejamos de volta)
As palavras ditas - "brinco", e brincas; "e esta, conheces?" –
não do dicionário de verbos, não só.
Antes jeitos, "toma este", pendores de cabeça
para olhar o mundo de outro,
pouco mas tão diferente, ligeiro ângulo
de vista ou de sentido. Um mover de olhos,
na direcção branda do mundo, onde está o que
sempre foi mas nunca, por piedade, nomeado.
Glória esta de me dizeres
a mais bela, de o ser, como todas o somos,
de verdade.
Ou de, sem ter o nome pronunciado, sentir,
a cada sorriso que te dou, dado de ti,
as sílabas completas - agudas, breves.
As tuas, como as minhas.

(AIS, 20.XI.2014)

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Oh...

(Foto da condição meteorológica exótica, bela e adversa: FRD, in memorian Anthímio de Azevedo.)

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

No dia do passamento do poeta que os versos da lei da morte libertaram


"Prefácio"

Assim é que elas foram feitas (todas as coisas) —
sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.
Insetos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra
Dependimentos demais
E tarefas muitas —
Os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não
Que as moscas iriam iluminar
O silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
Que as moscas não davam conta de iluminar o
Silêncio das coisas anônimas —
Passaram essa tarefa para os poetas.

(Manoel de Barros, Poesia Completa, Leya, 2011, pp. 288-289.)

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

"Quis hunc nostrum chamaeleonta non admiretur?"

(Foto do animalejo frente à mão de M.: Reboliço, a analisar riscas e escalas)

"Disse-me um poeta moçambicano, que havia encontrado numa ilha do Equador um camaleão que, anichando-se no ombro dos aedos quando bordam no vento as ravinas da memória, segregam missangas para o enfeite das raparigas. Residirá aqui a razão do que me pedem: que passeie pelo ombro dos poetas com a vocação do refratário, ébrio nos mantos da miragem?

Há uma genealogia da mimesis que talvez tenha em Pico della Mirandola o príncipe de uma nova dinastia. Para este florentino da Renascença o homem não reflete passivamente o cosmos e investe na tutela do seu destino: já não admite uma essência pré-determinada, assume-se numa vontade de ser. Aqui se nutre a sua fascinante asserção de que o homem é um camaleão."

(António Cabrita, "O eco são todas as vozes", prefácio a
O Bosque Sagrado, realização: Jorge Sousa Braga, António
Ferreira, Álvaro Magalhães, Porto, Gota de Água, 1986, p. 11.)

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Moinhos na Poesia (66)

ALENTEJANO RETÁBULO
          A um operário

A cizânia da vergonha
nesse toucado de espinhos.
Cravada junto ao retrato

de par secreto de amantes:
dois rapazes foragidos
no moinho solitário.

Entre oliveiras e pedra,
toutinegras ou pardal.
Alecrim, tomilho, murta:

carne solar de crioulo
roçando corpo trigueiro
- além da curva do monte.

E no verde manto de erva
- o alegre trevo do sexo.
Do par secreto de amantes,

ao moinho condenado
por uma folha, por verde
folha de trevo da sorte.

Entre lebres e furões
- asa de corvo no céu.
Dois rapazes amarrados

ao seu moinho de vento
- em noite de lua clara,
fora do mapa do mundo.

José António Almeida, Arco da Porta do Mar, Lisboa, &etc, 2013, pp. 65-66.

sábado, 1 de novembro de 2014

(Pelos Finados)

(Antes do aniversário, ganhara uma palavra nova, também do Ricardo, que mexe no que a gente diz e torna e vira e muda os dizeres. Mas é mais de lutos, dos santos todos que andam velando. Eis aí "Farelo", onde escreveu "cizânia".)

A vida faz farinha connosco, trata-nos como joio, mói-nos o caroço, até sermos cizânia, pó e nada. Esta existência, farelo que cai em saco roto, é um esmagamento em mó menor.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Pelos começados

(Foto dos dois páussros saídos da casca, mais do ovo de recuerdo - que já lá está há quase dois meses e não há meio de o descartarem - no ninho da mãe Laranjinha: Reboliço, encantado com o afã, os gorjeios de papos cheios e os regurgitares para entregar no bico aberto a papa, com os banhos de água fresca, as sacudidelas de penas e o olhar e olhar, mirar e remirar com a cabecinha de lado para não pisar nenhum, o saltinho breve e o amanhar de penas, da mãe, sabe lá quem vê o que vai debaixo da asa, debaixo do colo quente e dos trinadinhos muito baixos, para não acordar quem come mesmo a dormir.)

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Moinhos na Poesia (65)

MOINHO, MOINHO MEU
 para a Ana Isabel Soares,
moleira do Moinho Grande
 
Moinho,  moinho meu,
existe entre as mós grão
mais moído do que eu?

Vós, minha grainha,
sois a mais rala entre
as gramíneas do reino. 
Ricardo Álvaro, 29/X/2014
(Faz notar o autor que "rala", ali, equivale a "ralada", além
fora, lá. Lá-lá-lá, canto de aniversário. Obrigada, amigo.)

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Parar nos ovos

As férias dos donos levaram os pássaros até Linda-a-Velha. A canária ia já com um ovo no ninho - gorado, por certo, havia umas três semanas no quente e nem estalava nem era rejeitado - e deitou outros dois. Destes, viu o Reboliço hoje eclodir um e sair o segundo filho da Laranjinha e do Branquinho. É feio, o bicho, mas bonito. Juninho, o mano velho, ainda nem deve ter-se apercebido. A mãe anda pé dentro e pé fora, a comer, a lavar-se, na lida, e a ver se não deixa o novo apanhar nenhuma corrente de ar. Uma estafa, os pássaros, Reboliço. (Se este for macho, é Lindinho; se fêmea sair, fica Lindinha, e pronto.)

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Não procures mais pelo teu caderno de geografia.
Tirei-to da sacola.
Não quiseste ir comigo à matiné,
domingo passado.
Contaram-me os meus amigos
que estavas na companhia do Bermúdez,
o grandote que pratica luta livre.
Contaram-me que estavas muito bonita,
e que te rias a cada momento.
Não procures mais pelo teu caderno de geografia.
Agora que está a chover,
assoma-te à janela
e verás passar oitenta barquitos de papel.
Não procures mais pelo teu caderno de geografia.
Jairo Aníbal Niño (1941-2010)
Tradução: AIS. Obrigada, AID

terça-feira, 14 de outubro de 2014

"Manda bala!"

(Em breve nas bancas de jornais de poesia.)

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Hoje à noite em Lisboa; repete no Sábado

Ide, ide ver o Marcel Pagnol de há 60 anos. Ou as Cartas do Daudet feitas de luz.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Ou: "Balada das Vinte Meninas Friorentas"

Vinte meninas, não mais,
Eu via ali no beiral:
Tinham cabecinha preta
E branquinho o avental.

Vinte meninas, não mais,
Eu via naquele muro:
Tinham cabecinha preta,
Vestidinho azul escuro.

As minhas vinte meninas,
Capinhas dizendo adeus,
Chegaram na Primavera
E acenaram lá dos céus.

As minhas vinte meninas
Dormiam quentes num ninho
Feito de amor e de terra,
Feito de lama e carinho.

As minhas vinte meninas
Para o almoço e o jantar
Tinham coisas pequeninas,
Que apanhavam pelo ar.

Já passou a Primavera
Suas horas pequeninas:
E houve um milagre nos ninhos.
Pois foram mães, as meninas!

Eram ovos redondinhos
Que apetecia beijar:
Ovos que continham vidas
E asinhas para voar.

Já não são vinte meninas
Que a luz do Sol acalenta.
São muitas mais! muitas mais!
Não são vinte, são oitenta!

Depois oitenta meninas
Eu via ali no beiral:
Tinham cabecinha preta
E branquinho o avental.

Mas as oitenta meninas,
Capinhas dizendo adeus,
Em certo dia de Outono
Perderam-se pelos céus.

Depois oitenta meninas
Na torre acima de tudo:
Tinham cabecinha preta,
e capinha de veludo.

E as minhas tantas meninas
Lá voaram, uma a uma:
E eu fiquei cheia de frio
E não voltou mais nenhuma…

(Matilde Rosa Araújo, O Livro da Tila, Lisboa, Livros Horizonte, 1957.)

O Reboliço colecciona calendários (30)

(Folha de calendário com ilustração de Eugène Grasset)

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

(Post dedicado)

Mais compreenderás como mais as palavras te trazem
à margem do rio de ti mesmo,
e sem medo dás de cara com a tua
fluente realidade.
Mudanças, ritmos,
nada mais fazem do que dar-te nobreza e força
quando o sabes assumir sem remorso.
Submerge, portanto, tudo o que te afaste
do projecto de ti, e aceita todas
as solidões e todas as falhas
sem ansiedade.
Faz do amor a norma
que te liberte de temores e angústias e
te ilumine os horizontes do sono.

Més comprendràs com més els mots t'apropin
a la vora del riu de tu mateix,
i sense por t'encaris amb la teva
fluent realitat.
Mudances, ritmes,
no fan més que ennoblir-te i afermar-te
quan els saps assumir sense recances.
Ofega, doncs, tot allò que t'allunyi
del projecte de tu, i accepta totes
les solituds i totes les mancances
sense neguit.
Fes de l'amor la norma
que t'alliberi de temors i angoixes
i et faci clars els horitzons del somni.

Miquel Martí i Pol, Els Bells Camins, 1987.
Tradução: AIS

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

"Final de Verão"

Vai-se o Verão.
Breve e ardente, foi
profundamente intenso e perturbador.
Um sonho se esvaiu para sempre
e agora o vento
me anuncia outro.
Jamais detém
seu curso a vida.
E por crer
que o amor liberta continuo
de olhos ansiosos uma vez mais.

Se'n va l'estiu.
Breu i ardorós, ha estat
profundament intens i torbador.
Un somni s'ha esvanit per sempre
i ara el vent
me n'anuncia un altre.
No detura
mai el seu curs, la vida.
I és el creure
que l'amor allibera el que em manté
amb els ulls expectants altra vegada.
(Miquel Martí i Pol [1929-2003].
Trazido pela Inês Mateus - obrigada, obrigada! -
traduzido pela AIS.)

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Da maldade bem vestida

O Reboliço inteira-se das notícias dos outros bichos e consome-se: o futuro não é radiante, os dias chegarão obscuros. Mas, oh!, a roupagem da informação!

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

TERRA

O Reboliço deita-se à escuta: patinha esquerda sobre a patinha direita, a testa sobre ambas, orelhas empinadas e largas. "'Tê' e o 'E', 'TÉ'. 'Rê', outro 'Rê', "-re", depois o 'A' - 'Á', 'A'. ´'Té-ra'... 'TERRA'!" No mesmo segundo, foge o pé do pequeno Matias banco abaixo, quase em nada pisa a cauda do Reboliço, cai o banco ao chão, a avó dá um salto, o avô larga a janela, e lá vão os passos pelo corredor: "Mãe, mãe!, já sei ler, já li! - TERRA." A alegria do Reboliço é maior que a do pequeno? A de Matias é maior que a de avó, avô, mãe, tia, muitos, todos?

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Novidades

Há uma página nova no pedaço. Com muitas páginas dentro, e lindas. Parabéns, Ana - o Reboliço quer mais.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Valente

(Foto da Luca, com um pedaço de orelha, dois dentes e muitos caracóis a menos: Mana. O Reboliço pensa que, porque defendeu a casa e se sentiu bem ao pisar de novo aquele chão, o orgulho da Luca lhe deve estar inteiro.)

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Os cães, ai, os cães

O Reboliço está em oração pela Luquinha. A bicha, que é um nico de pessoa mas é cão à mesma e deve ser filha de boa gente, sentiu-se, ontem de madrugada, e reagiu à invasão territorial de dois mastins vizinhos. Desacompanhada, que já não há Sorna para ladrar nem Petaner para ganir, foi parar ao hospital com as mazelas naturalmente decorrentes do confronto. Há-de recompor-se, espera-se. A reza é, também, à Nossa Senhora de Fátima Guerreiro.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Oh...

... Laureen-da, linda, linda.

Juninho Astronauta


A mãe canária chama-se Laranjinha, por ter as penas da cor de uma laranja pálida; o pai é o Branquinho. Quando saiu do ovo, o Juninho não tinha pena nenhuma. De nada. Ganhou as penas à medida que os dias se ganhavam, e foram brancas. Foi, pois, chamado Branquinho Júnior e, daí, Juninho. Dois dias depois de ter duas semanas de saído da casca, foi o Reboliço espreitar a gaiola e viu-o, meio tremeliques, de patas assentes sobre o bordo do ninho, tem-te-não-caias, o bico projectado para a frente, a meia página de livro de auto-ajuda de saltar. Ficou a vê-lo, a adejar uma asa, alongada, esticadas, a experimentar, as penas, depois a outra. Juninho salta, não salta, ali de manhã não saltou. Passou um tempo de gente sobre o relógio e o bicho voltou ao afago nidal, de estoirado de querer fazer o esforço. À noite, quando foi ver dele o Reboliço, estava outra vez em pé sobre a beira do ninho - mas a dormir. Dormia em pé, como fazem os pássaros já grandes, cabeça e bico debaixo da asa, virados para trás e tudo. Menos mal, pensou o Reboliço: se está lá em cima, talvez não se tenha ainda aventurado. Mas nem uns poucos momentos depois de se ter distraído longe da sala, voltou e achou o ninho vazio, bordo sem nada. Virou o olhar para o chão da gaiola - vazio. No poleiro de cima, pai Branquinho e mãe Laranjinha abriam os olhos pequeninos, mas nem nada. Lá em baixo, encostado ao canto da caixinha de plástico onde o Reboliço lhe deixava uma papa reforçada, sobre a macia clara de ovo de galinha cozido, o Juninho respirava lentamente, cabeça e bico debaixo da asa. A partir daí, chamou-se Juninho Astronauta. Já tinha dado o salto.

Entrada de diário

É dia 13 de outubro, ia escrever o Reboliço, com consciência forte de ser agosto, de estar calor, de ser Verão. Mas a palavra seria outubro, é como é. Nada no que o levava a escrever teria relação com o que o faz andar, uma patinha à frente da outra, quando não se trocam e o empurram para o chão. Ia escrever que é 13 de outubro, que muitos dias já o separavam do que tinha escrito em último, mais recente lugar, mas não é outubro e não há tantos dias assim que escreveu. Faltou foi dizer tudo o que sucedeu entre o que por mais recente publicou nas Cartas e o que agora quer descrever. Um pássaro nasceu, dentro da gaiola onde habita, penado de branco, com o pai canário e mãe canária (na varanda da casa, porém, mora encostado ao muro um ovo de tamanho médio, será de pombo de rua, enjeitado por algum que ali o deixou; nem uma fenda possui e está sobre chão rijo, encostado a rijo muro). Isto foi o que sucedeu: nasceu um pássaro e houve quatro - três que seriam canários e um que talvez pombo - os quais não.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Moinhos na poesia (64)

REGRESSO

O sol bate quente nas tábuas do celeiro,
uma poça de água gelada à sombra dos degraus;
o cão do meu tio
saltita
pelo trigo do Inverno,
verde fresco verde frio.
O moinho, há muito abandonado, chia
a torcer-se ao vento.
Dia primaveril, demasiado alto para conversas,
quando os ossos se cansam da carne
e querem qualquer coisa de melhor.

RETURN


The sun's warm against the slats of the granary,
a puddle of ice in the shadow of the steps;
my uncle's hound
lopes
across the winter wheat,
fresh green cold green.
The windmill, long out of use, screeches
and twists in the wind.
Spring day, too loud for talk,
when bones tire of their flesh
and want something better.
(Jim Harrison, in Poetry, August 1965, p. 329.
Tradução: AIS. Por culpa, e graça, do Ricardo.)

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Moinhos na poesia (63) - e, escondidos, na fotografia


JANELA BAIXA

Lembra-me a janela do último
filme de Béla Tarr, mas
agora somos muitos – e a realidade
(desculpem o termo) faz-se de cores
fortes, que o calor sublinha ou desfoca,
à revelia de quaisquer intenções estéticas.

Apaixonei-me logo por este rectângulo
onde fulgura um horizonte dourado,
cruamente medido pela rotina de rebanhos
ovinos, caprinos ou humanos – semelhantes
no destino, mas desiguais no esplendor.

Ao lado, entre a ruína de dois moinhos,
pessoas vivem ou morrem
dos seus ordeiros rebanhos, da música
que emoldura tardes felizmente iguais,
debaixo de um sol inclemente.

Esta janela, afinal, não precisa de comparações.
Durará enquanto houver silêncio. 
                                                          (Manuel de Freitas, Ubi Sunt, Averno, 2014, p. 63. Obrigada.)

(Foto da "Janela Baixa", com moinhos escondidos: ID. O Reboliço vê-se, como, pior ainda, ao espelho, perante o platónico dilema de saber se lhe agradam mais os versos, a fotografia da janela, a janela-em-si, ou a lembrança dela. Indecidido e agradecido a todos quanto sejam, de dilemas, provocadores.)

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Era um toldinho pequenino às risquinhas vermelhinhas

(Foto do toldo de madeira sobre a praia atlântica: Reboliço, a veranear onde veraneou Antero de Quental.)

quinta-feira, 31 de julho de 2014

O privilégio da simpatia

O Reboliço encanta-se quando alguém cuida do falar. "Fui passear com a minha esposa e um casal amigo. Fizemos, durante dois dias, o Roteiro do Românico. Foi uma viagem muito gratificante - mas o melhor de tudo foi o privilégio da simpatia das pessoas que nos receberam." Assim de simples, assim de certo, dito com o vagar de quem ainda goza o passeio. Fá-lo ter vontade de sair pelas Rotas do Românico desses mundos, a sentir-se privilegiado.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Aí está ela, em grande velocidade.

Já está disponível a Telhados de Vidro # 19. A força e a fragilidade vêm logo na capa de Luís Henriques, com arranjo gráfico de Inês Mateus. No miolo, as colaborações de: A. Maria de Jesus, Abel Neves, Adília Lopes, Ana Isabel Soares, Bruno C. Duarte, Emanuel Jorge Botelho, Fabio Weintraub, Fernando Cabral Martins, Fernando Curopos, Fernando Guerreiro, Friedrich Schlegel, Gil de Carvalho, Hélia Correia, Inês Dias, Inês Lourenço, Isabel Nogueira, Jaime Rocha, Jeannette Lozano, João Almeida, José Alberto Oliveira, José Carlos Soares, Luís Filipe Bettencourt, Luis Manuel Gaspar, Manuel de Freitas, Mariano Peyrou, Marta Chaves, Mattéo Mario Vecchio, Miguel de Carvalho, Miguel Martins, Pádua Fernandes, Ricardo Álvaro, Rui Baião, Serena Cacchioli. (Com Dulci Bana.)

segunda-feira, 14 de julho de 2014

"DADA Dandy"

(Belo programa para depois de amanhã. É só deuses vivos.)

sábado, 12 de julho de 2014

O Reboliço é um nefelibata (90)

(Capa de H., de Patrícia Esquiva: composição de Pedro Serpa sobre desenho de Bárbara Assis Pacheco, sobre história "O homem-nuvem (A partir de Berndnaut Smilde)", a partir de "nuvens magritteanas"; título que é de Lispector e que é vigas de uma casa sem paredes dos "homens-quase", que "a máxima cartesiana não se aplica mais" e o que ali voeja são personagens de contos russos e de peças de teatro surreal-existencialista. Vertigem boa, vertigem boa.)

sexta-feira, 11 de julho de 2014

"Meditação em Lagunitas"

Todo o pensamento novo é sobre perda.
Nisto se parece com todo o pensamento antigo.
A ideia, por exemplo, de que cada particular apaga
a luminosa claridade de uma ideia geral. De que o pica-
pau boloteiro sondando o esculpido tronco podre
daquela bétula negra é, pela sua presença,
algum trágico detrito caído de um primeiro mundo
de indivisa luz. Ou a outra noção de que,
porque neste mundo não há coisa nenhuma
a que o silvado da amora corresponda,
uma palavra é elegia daquilo que significa.
Falámos sobre isto ontem noite dentro e na voz
do meu amigo havia um fino fio de dor, um tom
quase lamuriento. Um pouco depois percebi que,
falando assim, tudo se dissolve: justiça,
pinheiro, cabelo, mulher, tu e eu. Houve uma mulher
com quem fazia amor e eu recordava como, segurando
por vezes os seus ombros pequenos nas minhas mãos,
sentia um violento fascínio na sua presença
como uma sede de sal, do meu rio de infância
com os seus salgueiros ilhéus, música parva do barco de recreio,
lugares lamacentos onde apanhávamos o pequeno peixe laranja-prata
chamado pumpkinseed. Pouco tinha que ver com ela.
Saudade, dizemos, porque o desejo está cheio
de infindas distâncias. Devo ter sido o mesmo para ela.
Mas lembro-me de tanto, da forma como as mãos dela desmantelavam pão,
da coisa que o pai dela dizia que a magoava, com o que
ela sonhava. Há momentos em que o corpo é tão numinoso
como [as] palavras, dias que são a continuação do corpo justo.
Tanta ternura, aquelas tardes e noites,
dizendo amora, amora, amora.

Traduzido por Belmiro Oliveira. Descoberto aqui
através da pista do @pmramires.
Muito agradecida a ambos dois,
que, além do mais, aceitaram os [ ].

sexta-feira, 4 de julho de 2014

quinta-feira, 3 de julho de 2014

"O Cão Através dos Tempos" (na Cão Celeste nº 4)

Eu tive dois cães na vida. Um chamava-se Carolina, era uma gata. A Carolina foi lá para casa mais ou menos pequena, era cachorrinha, mas já muito sabida. Siamesa de rabo torcido e curto, a cor do pêlo a variar entre o bege e o cinza clarinho, com as pontas das orelhas e das patas, o focinho e uma que outra tonalidade - não se poderia dizer mancha - a escurecer. Era, já disse ali, muito sabida. Ia aprendendo, ladina de rápida, e ensinava logo. Ou mostrava que aprendia. Sabia bem, por exemplo, o que queria - de comer, de lugar onde estar, de clima do dia. E sabia que muitas das coisas que queria eram mais ferozes do que a sua inteligência. Acasalar. Era a bruteza que mal aceitava: o que sofria no querer não tinha descrição: uivos ouvidos do sexto andar para a rua, nas ruas de trás, e facilmente ganhava aos gatos da vizinhança. Acasalou, se não me engano, duas vezes. De incesto, com um avô, ou tio-avô, ou trisavô, tanto se lhe dava, desde que fosse gato macho como ela não era. Uma dor só, o querer, ficava só dor com o não querer, que de igual ferocidade eram os gritos do acto. Nada fez entender nunca, aos dois machos com que acasalou, e pelo ar confundido que ganhavam, que o rigoroso cumprimento daquela vontade (que em rigor a cumpriam, e mais não lhes chegava ela a pedir-lhes) não servisse o fim do sofrimento mas o aguçasse. Cadelas... As bogas demasiado quentes. Que as queria, bastava uma fervura para amaciar a carne e lhes ferrar o dente. “Espera, não sejas sôfrega, Carolina,” nada. Aquilo devia andar um ou dois dias com dor no queimado céu da boca, mas era o céu que ganhava com as bogas quentes. A janela. Mas a janela nunca a enganou, ali sempre se controlava e vencia a vertigem do lançar-se. Horas, de horas a fio do lado de dentro, se era Inverno, a língua mínima a varrer cada quadrante de pêlo curto, cada pele nua entre os dedos almofadados, o rosa da língua e o rosa da pele, o sonzinho de raspar ao de leve a ouvir-se quase amplificado pelo vidro. Ou do lado de fora, entre os poucos vasos da varanda, se fazia mais calor, a cabeça através das grades de ferro, focinho perpendicular à rua pequenina, que via, com a curiosidade a fazer-lhe mover cabeça e mais nada, lá em baixo. Queria a janela, a Carolina, e tinha-a, e dia após dia a gozava como ninguém.

O outro era o Sorna. O Sorna fez transformações. Mudou a mãe de uma pessoa para outra. Chamou-a, do canto do quintal onde dormitava, enquanto os irmãos de ninhada brincavam, reboludos, caudazinhas espetadas de ter nascido e querer sondar com as anteninhas tudo. O Sorna não. O mundo todo de que precisava estava no espaço do seu ser, pêlo branco, definidas manchas cor do mel que se lhe derramava dos olhos. Chamou a mãe e a mãe trouxe-o lá para casa. Foi pequeno pouco tempo: os sete ou oito meses de o criarmos para lhe fixar a afeição. “Anda, Sorna.” Qual saltos, saltinhos, agarrar de trela. Era nas calmas. Assim que se achava na rua, se dava uma corrida, era a trote baixo. “Podem mudar-lhe o nome, a gente é que lhe pôs Sorna, que ele mal se mexe.” Muda nada. “Anda, Sorna.” Nunca percebeu para que foi isto de estar aqui. Sair, sim, saía. Saía mais se o deixassem preso muito tempo. Se o prendessem, queria sair. Estando solto, dava a sua voltinha, e isso, nada mais. Encostava-se. O gozo de se rebolar na terra vermelha, depois de lhe darem banho? Ah, sim. Era. Ou não. As trombadinhas que, do corpanzil em que se tornara, mandavam a mãe ou a mim ao chão, deixavam nódoas negras do amor doméstico dele. Também. Talvez. O Parafuso, contingente da essência que foi multiplicar-se aquele seu ser. Isso seria. O mel dos olhos do Sorna só dizia “Estou aqui. Deixa-te ficar, não precisamos de fazer grandes corridas.”

Tive dois cães, que foram como um cão de vida única, colada aos outros cães todos que moram no universo do mundo. O Sorna, que era um cão, e a gata Carolina.

(Escrito em 2 de Setembro de 2013 - altura, mais dia, menos dia, do desaparecimento último do Sorna - para a Cão Celeste nº 4, onde veio a ser publicado com ilustrações magníficas de Bárbara Assis Pacheco.
Republicado aqui por ocasião do lançamento do nº 5 da Cão Celeste.)

quarta-feira, 2 de julho de 2014

"Movimento"


Quase todo o movimento hoje é a uma velocidade
Que nenhum déspota romano, nem do Renascimento, sonhou
Existir. Não olhamos para a paisagem que vemos;
Não damos pelos oceanos que cruzamos;
As acelerações de palavra e de estilo
Disfarçam a arte lhana com que namoramos
Os pensamentos que descartamos depois de usar.
Neste mundo paliativo, a velocidade
Não chega a ser privilégio executivo,
Nem a distância que devoramos
Nos sustém. Sonhamos mais depressa
Do que viajamos e os sonhos
Regressam, apressados, àquilo que significavam
Quando o céptico, sábio e mortal Sócrates
Jazia paralisado, no momento máximo do seu argumento.
John Bruce, aqui.
Tradução: AIS.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Hás-de vir cá ter...

(Contracapa da revista Telhados de Vidro nº 19. No prelo.)

"Fronteira"


As flores pelo chão
Pisadas desde o baile,
O vento frio,
Só mulheres de xaile:
Tudo me contaram
Quando eu dei aos ares de Espanha
Uns desceram para Sul
Eu fiquei a ver Idanha.

Ai de mim, não faço nem ideia -
Prometi partir na lua cheia.
Páro p'ra um bagaço na estação,
Nos olhos de um beirão
Vejo a fera da fronteira.

Ir pra Angola
Pode mesmo ser a salvação.
Ou São Paulo -
Receber calor de um povo irmão.
Ir abastecer-me onde há quem dance.

Promessas de Verão
Os marinhões as quebram:
Praia fora vão
Se águas-más lhes pegam.
Não posso mais esperar
Que a terra se alevante;
“Ser firme a procurar”,
Quero ir para diante.

Ai de mim, se tudo é ao contrário...
Tenho de ir cumprir nosso fadário.
Acabo de engolir num repelão -
Pergunta o bom beirão
Se isto era necessário.

Ir embora pode mesmo ser a solução:
Ver trabalho, brio, recompensa pela aflição.
Mas se isto não mudar eu não descanso…

E se eu for -
Quem te espera, Mariana?
Vais dormir nas guardas quentes de que cama?
Se eu for -
Quem vê paz na tua estampa?
P'ra onde irás se eu só voltar p'ra pôr cá a minha campa?

Ai de mim, não faço nem ideia...
Prometi partir na lua cheia.
Páro p'ra um bagaço na estação,
Nos olhos de um beirão
Vejo a fera da fronteira.

(Jorge Cruz, Diabo na Cruz, Roque Popular, 2012.
Quantas vezes, quantas, já o Reboliço, noutros lados, replicou as frases desta cantiga, que lhe faz pensar nos Zés Rebelos do mundo da diáspora portuguesa. O poema, bonito, faz-se ouvir muito bem e os rapazes são generosos a cantá-lo.)

quarta-feira, 25 de junho de 2014

segunda-feira, 23 de junho de 2014

[Post de 16 de Junho de 2014 do blogue Catastrophe (antes conhecido como Last Tapes, depois como Dias Felizes e ainda como Malone Meurt, e...)]

      também está um dia bom para apanhar peixe banana

         Este blogue vai acabar na noite de São João.
         Desta vez não são apenas truques de HTML ou tropeções nos livros de Bekett, é também o fim.
         Quase dez anos de trabalho, já basta — não há outros motivos assinaláveis.
         Fogo de artifício, um grão na asa e depois a sombra cairá sobre nós como no último plano d' O Leopardo — não ambicionamos menos.
         Agradecemos a todos que nos acompanharam, perto ou longe.
         Ainda temos uma semana para brincar; depois, adeus, adeus.
[O Reboliço deixaria aqui o link, não fosse ter sido, também, anunciado que o dito link há-de ser plugged off. Apagão, zut. Vazio.
O Reboliço coça a cabeça: o que será peixe banana?]

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Outro, outro pressentimento

(Foto do quadro de Gerolamo Induno, de título enganador, exposto na Pinacoteca de Brera: Reboliço. Diz a explicação junto à imagem que se trata de um "Triste Pressentimento". Explica que, "num quarto em grande desordem, uma jovem acaba de acordar e contempla, apreensiva, aquilo que é, provavelmente, um pequeno retrato do seu amado, jovem patriota na frente de batalha". Ora, vendo o pormenor do que segura a linda e desarrumada menina, é muito óbvio que está antes a ler as notícias do dia no telefone portátil.
[É a segunda imagem, no menu inferior; a página demora alguns segundos a abrir, mas o zoom que permite impressiona.])

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Golos.

O Reboliço gosta de ler a bola.
(E gostou muito dos golos de Dries Mertens, ontem, e de Van Persie, no Sábado.)

"You say ... and I say ..."

O Reboliço ficou a conhecer aqui a razão pela qual, em alguns lados do mundo, ao futebol se chama soccer em vez de football.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Amanhã - para antes de adormecer


Consolation reading

"Com menos handicaps, o Portugal de Pedroto levou 5 da Checoslováquia, o Portugal de Otto Glória levou 5 da União Soviética, o Portugal de Queiroz levou 6 do Brasil, o Benfica de Jesus levou 5 do Porto, o Real de Mourinho levou 5 do Barcelona, o Bayern de Guardiola levou 4 do Real."
(Rogério Casanova, aqui.)