sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Oh...

A primeira ideia que ocorreu ao Reboliço, quando soube do extemporâneo passamento de Pedro Rolo Duarte, foi falar com a mãe: porque para ela e para o Reboliço, além de tudo o que o PRD fizera (e foi muito) nos jornais e em revistas, era a voz dele que lhes soava, quase sempre aos sábados - a mãe em viagem quase sempre, o Reboliço em sossego -, contraponto em riso da outra voz do Hotel Babilónia, a do João Gobern. O Reboliço gosta muito do rádio da Antena1 e, bicho de habituações, rala-se quando lhe calam as vozes. Não é a mesma coisa ouvir as gravações, tantas, tão bem feitas, e escutar assim em deixa lá ver o que vai dizer hoje. O Reboliço agradece muito.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Anúncio

Saiu hoje o nº 11 da Forma de Vida. Muito, muito provinciana.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Merci, sempre, Monsieur Daudet


(O Reboliço está muito grato, também, ao Michel e à Margarida,
amigos grandes que lhe mostraram a preciosidade desta imagem na capa de uma das 
muitas, felizmente muitas edições de Les Lettres de Mon Moulin.)

domingo, 29 de outubro de 2017

O Reboliço colecciona calendários (36)

... e, coincidência tão boa, o mês de Outubro tem um moinho lá ao fundo.


(Desenho de Theo van Hoytema.)

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

O Moinho Grande numa aguarela

(Aguarela do Moinho Grande: Leonel Borrela, falecido em Maio deste ano.
Outra já o Reboliço mostrara aqui.)

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Chove

O Reboliço encosta o focinho ao vidro da janela, morno ainda da noite. À volta, embacia-se um bocadinho do mundo, enquanto o bicho vê e escuta a chuva, que cai miúda nas pedras da rua do moinho. Toda a noite, mansa, foi caindo, por fim. Agora, os telhados arranjados de novo, os beirados muito direitos, inteiros e caiadinhos, venha o tempo fresco, a água, as nuvens mais escuras. Foi um Verão longo, estendido: o Reboliço não fecha os olhos, a seguir o trânsito de cada gota no vidro, nem recolhe as orelhas, desabituadas já daquele canto mole que a terra acolhe.

domingo, 15 de outubro de 2017

Moinhos na Poesia (86 e 87, dois poemas de Miguel Martins)

"Aldeia"

Adoro as levadas caudalosas,
serpenteando por entre avencas,
levando consigo pequenos blocos de terra,
ensopando a terra,
matando a sede a raízes
que mais parecem teias de aranha
cujo centro se esconde a vários palmos de distância
ou longilíneas tarântulas
Adoro os Verões iniciáticos,
a aprendizagem de caminhos e trabalhos sob as copas densas,
os banhos na represa por entre libélulas e alfaiates
e o esgar de nojo,
quando, da ponte,
se avista lá ao fundo um gato morto
preso nas silvas das margens de água límpida
Adoro os Invernos laboriosos,
as encostas escorregadias,
a lama nas botas,
a misteriosa caminhada até cada courela,
o gesto medieval que ceifa o talo à couve,
o toucinho na salgadeira
Adoro o regresso do ruído,
a chegada das crianças da cidade,
adoro vê-las subir às amoreiras,
as mãos miúdas confiando em nós de madeira centenária, enquanto os pais me visitam na adega,
cortamos uma broa e abrimos uma garrafa de morangueiro fresco
Adoro as casulas e os paramentos na sacristia
e o pó que os cobre nos meses de ausência do padre
e o branco nu da capela
e a pedra nua de todas as outras casas,
que é da cor das folhas de tabaco secas da plantação que o Eduardo tem ao fundo do povo e esconde dos fiscais
(ele que já viu mais mundo que todos os fiscais da região e trabalhou na PanAm e foi aos Estados Unidos)
Adoro as trutas apanhadas à mão e o viveiro de trutas, nossa única indústria desde que ruiu o moinho de água
e só Deus sabe quanto isso me custou e custa,
saber que não mais sentirei o cheiro do milho acabado de moer
Adoro as idas à mercearia da aldeia vizinha
e a pouquíssima variedade de produtos que aí se encontra,
como se estivéssemos em tempo de guerra
ou o século XX não ousasse começar por aqui
Adoro os fogões a lenha,
as enormes arcas de nogueira,
os colchões de palha de milho
confortavelmente concavados por décadas de hóspedes e a remota possibilidade de serem do tempo
em que João Brandão, “o terror das Beiras”, se acoitou nestas casas
Adoro os audazes mergulhos da ponte metálica coberta de caganitas de cabra
e as cabras
e a mão desusada que as conduz
e que sabe amar quando é chegada a noite
ou quando é chamada a iluminar um recanto de sombra
Adoro as lamparinas e os morcegos que vêm chupar o azeite das torcidas,
o cheiro das queimadas e o cheiro do tojo
acabado de roçar,
e as pequenas manchas roxas
que as amoras esmagadas imprimem no chão
Adoro as ameaças e as benesses do céu
e a certeza de que nelas se escondem todas as respostas da irrevogável vontade de Deus
e adoro como uns são pais dos filhos dos outros
e deixam Deus fora da questão
e não pegam em espingardas
Sim, adoro esta aldeia sem caçadores
em que os pardais só temem os espantalhos
e os gritos que ecoam desde o outro lado das montanhas
Adoro o tio Alfredo, que espantava as almas penadas, batendo com uma corda nas costas,
e o primo Alfredo
que trabalha tanto como quem trabalha mais
e mimetiza o mesmo gesto
para afugentar as dores que isso lhe dá por todo o corpo
Adoro a iniciação sexual dos rapazes,
quase sempre com outros rapazes,
anos antes de terem uma rapariga,
o que só acontece aos doze anos e depois não quer dizer nada,
que é como quem diz, fica vida fora
Adoro o orvalho desenhando folhas de plantas nos vidros das janelas
e janelas nas folhas das plantas
e a nitidez de todos os veios destas
e de todas as veias na pele das mulheres,
que nunca tomaram banhos de sol
e sempre cobrem as cabeças com lenços
ou chapéus de palha
E adoro-vos a vós
que nunca vistes nem vereis a minha aldeia
e acabais de a adoptar pelo útero

(Atol, Clube dos Poetas Vivos, Lisboa, 2002)


*
para o Changuito, com amor

Enquanto os pássaros pousam no parapeito da ponte
e aí encontram abrigo para a noite,
que se adivinha tão clara como a cidade finge ser,
Mário caminha num passo que quase parece estugado,
mas, na verdade, apenas sabe que se quer afastar
do ponto em que, vezes sem conta, uma explosão eclodiu,
embora seja evidente que esse ponto caminha consigo,
algures entre o estômago e a caixa torácica,
conquanto o sinta a tremeluzir na garganta,
como se uma tontura, feita nevoeiro, baixasse agora
sobre esse rio que, correndo nos dois sentidos,
quase sempre vem desaguar na sua boca.


Alcântara, Belém, Algés, e por diante 
sabe que, por ali, alcançaria a infância,
não fôra o intransponível muro que, de pedra e cuspo,
lhe atiraram aos olhos numa tarde sem data,
de maneira que o ronronar da mota ou o bater do coração
ficaram atulhados, sob um monte de lixo,
e nunca mais estiveram ao alcance da mão,
se bem que lhes sinta a falta quando calha
cruzar-se com um anjo na Calçada do Combro
e, na verdade, raro lhe aconteça pensar
em Steinbeck, Rockefeller ou na Guerra dos Seis Dias.

E esta distância, assim, tão longe e perto,
são dedos entre as mós de um moinho sem vento,
obrigando a escolher entre partir sem eles
ou aguardar sentado sobre a sua idade
até que a sua idade não interesse a ninguém
nem já saiba merecer o cetim de um sorriso.

Mas, ao menos, agora que os pássaros levantam do parapeito da ponte,
Mário — um pouco cerveja, um pouco loucura 
e muito coração — adormece no dorso de um cavalo de pedra
ouvindo o ronronar daquela moto
em que, ainda criança, rumava à claridade.

(O Caçador Esquimó, Lisboa, Fahrenheit 451, 2017, 21-22.) 

domingo, 24 de setembro de 2017

"Soneto Dezoito"

Comparar-te ao verão? Nessa não caio:
És mais amante, e muito mais constante.
O vento balança os botões em Maio,
E o calor se evapora num instante.
O olho do céu que brilha lá em cima
Às vezes perde a sua cor dourada,
E tudo o que é firme um dia declina;
A natureza às vezes muda a estrada.
Mas o teu verão eterno, que dure
E que nunca outono vinque o teu rosto.
À Morte só direi que não se apure,
Que o que neste verso está disposto
Há de durar como o que vê, e respira,
Pois por ti vive o que à vida se atira.
[William]Shakespeare/Adalberto[Müller]
Da página de FB de AM, em 23/09/2017

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Domingo, o Reboliço continua na serra.


Setembro

"Entra, Setembro," pensa o Reboliço. "Entra agora, que me vou pela serra. Apanho a NacionalDois, já vejo as casas com paredes de cal e pedra do Ameixial, as marafadas das curvas, os regatos que vão secando, o tráfego escasso, déu-em-déu até Almodôvar, e dali, de salto no Complementar Itinerário, até Pax Julia. Ali está a casa do Moinho destelhada, os figos a amadurecer ao sol, o moinho suspirando e a terra a ressequir. Entra, Setembro. Deixa vir manso o Outono, mas que traga uma pouca de água, alguma coisa que sacie esta sede."

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Línguística aplicada

algumas palavras
fugiram do cativeiro da
gramática e da sintaxe
caíram as letras dos jornais
uma língua nova falou-se na cidade
com letras roubadas dos placards luminosos
com erros
erros sintáticos
erros gramaticais
erros fonéticos
(romanço)
erros de todo o género
(as pessoas começaram a dizer mal as palavras, não se apercebendo que as coisas eram as mesmas,
com excepção do frigorífico, não se retirando aqui importância ao mesmo)
as
línguas
também
outrora
unas
(mare nostrum)
se podem estilhaçar em mil pedaços
lentamente
e depois voltarem a juntar-se
(na realidade as pessoas sempre deram erros, o "ne varietur" vale tanto como o modelo de Bohr)
Manuel Botelho da Silva, 'língua', poema inédito 
(suplemento "Economia" do semanário Expresso, 19/08/2017, p. 05)

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

"Amar"


Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.


Carlos Drummond de Andrade, Claro Enigma (1951).

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

"glebas floridas"

Ainda não integra o Atlas das Paisagens Literárias de Portugal Continental (que, pensa o Reboliço, deveria deixar cair já já o "Continental" para aceitar, almenos, os lugares de Nemésio), mas lá irá parar, seguramente. Enquanto não, zune - zune nas orelhas do Reboliço como o zumbido reconfortante do histórico, sempiterno estio.

     Neste sertão tão pouco espectacular e desolado da serra da Nave, uns homens raros e temerários vieram um dia com os seus tractores, os seus catterpillers Diesel, as suas charruas e grades de discos. E, muito provavelmente a primeira vez depois que o Mundo é Mundo, lavraram o solo adusto, o solo baço, não caldeado do suor do homem, numa longa área, onde apenas de Inverno se ouviam os lobos uivar de altinho para altinho a combinar a sua táctica de bandoleiros, e nas noites de luar as lebres dançavam nas panasqueiras.
     As aldeias serranas Alvite, Carapito, Aris, Semitela deitaram às gargalhadas. Por pouco não se ouviam os ecos dos valeiros repercutir o riso sardónico, o riso alvar das mandíbulas desdenhosas. Ali batatas!? Esse manjar que vai à mesa dos reis, tão adstringente e nutritivo, tão democrático mas delicado, poderia produzir-se no meio das fragas onde só medra a sarça e o tojo alvarinho?!
     E, ó milagre, os tubérculos maravilhosos germinaram, deitaram para fora do solo inóspito suas orelhinhas de gato, que só o não parecem de todo pelo belo tom esmeraldino, retoiçaram, altearam-se e, em regos simétricos nas longas vessadas, deram a impressão das vagas de um mar roleiro soprado pelo velho amigo Bóreas. Aos cépticos inteligentes foi dado o prazer inefável de contemplar uma destas glebas floridas. A polvilhação branca por cima do verde compacto tinha o seu quê de bucólica muito original e intraduzível, miríades de borboletas pairando por cima dum lago, ou uma neve irisada e fátua a derreter ao Sol.
Aquilino Ribeiro (1954), Introdução a O Homem da Nave, Bertrand Editores, 2017, p. 15. 

Moinhos na poesia (85)

Pé de meia sempre vazio.
Vazios os armários
Seus mistérios desmentidos.

Fechaduras arrebentadas, arrancadas.
Velhas gavetas de antigas
mesas de austeras salas vazias.
Os lavrados que guardavam,
vendidos, empenhados,
sem retorno.
As velhas gavetas
guardam sempre um refugo de coisas
que se agarram às casas velhas e acabam mesmo nos monturos.
As velhas gavetas
têm um cheiro nojento de barata.

As arcas desmanteladas.
Os baús amassados.
Os abastos resumidos.
A fornalha apagada.
Economizado o pau de lenha.
Pelos cantos as aranhas
diligentes, pacientes, emaranham teias.
E a casa grande se apagando,
caindo lance a lance, seus muros de taipa.
E um gato miau, fedendo pelos cantos.

E a gente se apegava aos santos,
tão distantes…

Rezava. Rezava, pedia, prometia…
O tempo foi passando,
os santos, cansados, enfastiados
economizando os milagres do passado.
No fim os compradores de antiguidades
acabaram mesmo levando os oratórios
e os santos, que fossem de madeira,
dando lugar à TV, ao Rádio RCAVictor de sete faixas.

A gente era moça do passado.
Namorava de longe, vigiada.
Aconselhada. Doutrinada dos mais velhos,
em autoridade, experiência, alto saber.
“Moça para casar não precisa namorar,
o que for seu virá”.
Ai, meu Deus! e como custava chegar…
Virá! Virá!… Virá, virá… quando?
E o tempo passando e o moinho dos anos moendo,
e a roda-da-vida rodando… Virá-virá!
A gente ali, na estaca, amarrada, consumida
de Maria Borralheira, sem madrinha-fada,
sem sapatinho perdido,
sem arauto de príncipe-rei, a procurar
pelos reinos da cidade de Goiás
o pezinho faceiro do sapatinho de cristal,
caído na correria da volta.

A igreja, refúgio e confessionário antigo.
O frade, velho e cansado. Frei Germano, piedoso,
exortando paciente e severo. “Minha filha, a virgindade
é um estado agradável aos olhos de Deus. Olha as santas virgens,
Santa Terezinha de Jesus, Santa Clara, Santa Cecília,
Santa Maria Mãe de Jesus. Deus dá uma proteção especial às virgens.
Reza três ave-marias e uma salve rainha a Nossa Senhora e vai comungar”.

A gente saía confortada, ouvia a missa,
cumpria a penitência e comungava humildemente, ajoelhada,
véu na cabeça em modéstia reforçada.

Depois, depois, a solidão de solteira, o sonho honesto de um noivo,
o desejo de filhos,
presença de homem, casa da gente mesma, dona ser. Um lar.
Estado de casada.

A pobreza em toda volta, a luta obscura
de todas as mulheres goianas. No pilão, no tacho,
fundindo velas de sebo, no ferro de brasas de engomar.
Aceso sempre o forno de barro.
As quitandas de salvação, carreando pelos tabuleiros
os abençoados vinténs, tão valedores, indispensáveis.
Eram as costuras trabalhadas,
os desfiados, os crivos pacientes.
A reforma do velho, o aproveitamento dos retalhos.
Os bordados caprichados, os remendos instituídos,
os cerzidos pacientes…
Tudo economizado, aproveitado.
Tudo ajudava a pobreza daquela classe média, coagida, forçada
a manter as aparências de decência, compostura, preconceito,
sustentáculos da pobreza disfarçada.
Classe média do após treze (13) de maio.
Geração ponte, eu fui, posso contar.

O poço d’água, a maravilhosa servidão da casa.
Toda a família na dependência do poço, da corda, do balde.
A água lá no fundo, cisterna, também chamada.
Um dia, dia incerto e já previsto o desastre, o transtorno.
Todos atingidos, impressionados, participantes,
da porta da rua ao fundo do quintal. Arrebentou a corda do poço…
gasta e cansada, exausta da sua resistência.
Corda vigente, corda de arrocho, corda de enforcar,
lá se foi com seu pedaço, agarrada ao balde, descansar
no fundo profundo do poço.

A casa toda assanhada, informa: arrebentou a corda do poço.
Vamos tentar a retirada de salvação geral.
Todos participantes, impressionados, coniventes na salvação
do balde, o resto da corda.
A vizinha de lado comparece por cima do muro, oferece seu balde,
dá palpites, solidária.

Uma longa vara, um gancho na ponta a vasculhar
o fundo escuro, em passeio lento e paciente. Assistência,
a torcida geral. Afinal, ponta e gancho enlaçam o que desceu
e sobem triunfante. Faz-se a emenda com perícia,
gente antiga, afeita a essa e outras emergências.
Cada qual aos seus interesses e, volta a casa
a rotina da vida do passado.

Tanta pobreza a contornar.
Tanto sonho irrealizado, tanto abandono.
Tanta água de sonho puxado do poço da imaginação…

Valiam as velhas, seus adágios de sustentação:
Conter e reprimir as jovens, dar-lhes esperanças,
ensinar-lhes a paciência, a vontade de Deus.
E a gente a querer abrir uma brecha naquela muralha
parda de pobreza e limitação.

Hoje sobrará para todos mil cruzeiros.
Me faltando sempre o vintém da infância. Bem por isso
mandei fazer um broche de um vintém de cobre
e preguei no meu vestido do lado do coração.

Sentir a presença daquele vintém
pobre da minha infância, tão procurado, tão escasso!…
Sentir a metade daquela bolacha que repartia comigo
o carinho da minha bisavó, na sua pobreza mansa.
Estender de novo minhas pequenas mãos de criança
para as quitandas, broinhas, brevidades
e biscoitos que me dava tia Nhorita,
ela, se findando numa velhice tão bonita
como outra igual não vi.
Seu sorriso de Mona Lisa,
seu mistério de Gioconda.
Ter nos meus braços aquela boneca de loiça vinda de Paris,
de chapeuzinho, enfeite, sua flor minúscula, azul, lá da França.
Sapatinhos e meias, loira, olhos azuis e que dormia…
e que nunca foi minha.
Eu vivia aquela boneca, sonhava e ela sempre ali, inacessível,
na estática da vitrine envidraçada da loja de “Seu” Cincinato.

Voltar à infância… Voltar ao paraíso perdido
de uma infância pobre que pedia tão pouco!
Menino Jesus, sorridente no oratório.
Uma bolinha azul nas mãos poderosas sustentando o mundo.
Ele, tão pequenino e frágil.
Tantos santinhos pobres me protegendo,
tantas velhas me ensinando as regras da vida…
Eu era cega, ceguinha, peticega, sem nada ver.
Mouca, surda,
surdinha, sem nada ouvir…
Chegar hoje a essa evocação dolorida e rude…

Meu vintém de cobre! Arrebentar todas as amarras
e contenções represadas.
Meu vintém! está comigo nestas páginas de escrever.

Cora Coralina, Vintém de Cobre, Global Editora, 2012.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

"Manhã de Estio"


Acordei aos estrépitos da luz.
— 'Bons dias!' — Tudo é cor, tudo são vozes,As nuvens, desfraldadas, albornozes,— Caravana emplumada a marabuz...Serra em corcovas — dromedários broncos.
Eros nas florações, o insecto, rufla;
Deus Pan, às carcajadas: olha a mufla
A zigomatizar-se pelos troncos!...
Oirante, o fervilhar das seivas chia
Alto — na formidável alquimia
De campos, de jardins e de alegretes! —
Canto; as aves — 'bons dias! — cantam mais...
Lenço esgarçado em fumo aos minaretes
Das chaminés... Amor! por quem chamais?
(Emiliano da Costa [Tavira, 1884-Faro, 1968],
repescado por Luis Manuel Gaspar, de 'Phlogistos', 1931.
A ilustração também veio ter
ao Reboliço pela amiga mão do LMG.)

O Reboliço colecciona calendários (35)



Este foi-lhe entregue, por própria carinhosa mão, pelo Miguel de Carvalho. Calhou bem, na época daVolta.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Gleba

O Diogo Amorim, jovem com pouco mais de duas dezenas de anos de vida, mas com uma vida tão cheia como um valente saco de farinha, idealizou e montou a GLEBA, uma padaria que pretende, nas suas palavras, "produzir o melhor pão, de forma natural e a partir dos melhores cereais portugueses" e "trazer de volta o pão que os nossos avós comiam" - em sentido figurativo, afigura-se ao Reboliço. Preocupa-o (ao Diogo) reduzir a pegada ecológica (para, no pensar do Reboliço, ficar pequenina como as patinhas de um cachorro), devolver sabor ao pão que andamos a comer e que, tantas vezes, chamando-se "de Mafra" ou "das Fontes Ferrenhas", é amassado com cereal vindo de lugares distantes, de estepes ou estufas, assim. Só vende em Lisboa, ali para a Estrela, é pena, mas é compreensível. Se a moda pegar, outros diogos surgirão, que pontuem o país com lojas destas, pequenas e de nome e alma tão grande.

Lembrou-se o Reboliço da Gleba em conversa com o amigo Ricardo Álvaro, que, anda, anda, ainda alinhava uns versos ao propósito.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Oh...

O Reboliço, quando era ainda mais pequenino, brincava com os amigos ao Espaço 1999. De todas as criaturas que encarnavam, sempre à vez, o Doctor John era um favorito.

domingo, 16 de julho de 2017

Ricardo Álvaro


[fim de marcha]

CORAÇÃO
 
Esquerda, volver:
Destroçar.

(14/07/2017. Publicado à revelia. À vela.)

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Ma Loute

Do que o Reboliço gosta mesmo é de descobrir novidades. De cada vez que viu um filme de Bruno Dumont, ficou estupefacto, extasiado, feliz, com as descobertas. Ma Loute viu-o ontem, no pátio da Sé da cidade, a lua quase cheia a subir e a entranhar-se nas nuvens e a tela animada pela aragem da noite e pelo vento da costa norte da França, onde, em 1910, aconteciam as aventuras de uma família de veraneantes no seu lugar de veraneio, as investigações de dois polícias perante misteriosos desaparecimentos e a vida, dura, canibalesca vida, da escassa gente do quartier St. Michel. Descobriu, nele, os rostos perturbadores de Raph e de Brandon Lavieville (e do seu pai, Thierry Lavieville), areia e cascalho, tempestade e céu azul, a melodia de Guillaume Lekeu - e o Typhonium, casa que rende homenagem ao tifo que levou o jovem compositor belga. E confirmou (o que é uma maneira de repetidamente descobrir), entre o talento de Juliette Binoche, de Valeria Bruni-Tedeschi e de Fabrice Luchini, que o amor é a única força que pode salvar.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Cotovia

No blogue da editora Cotovia, começa a publicar-se amanhã, e ao folhetinesco ritmo semanal, a peça mais recente de José Maria Vieira Mendes, Max e René. Um monólogo e um cão.
O Reboliço, que gosta muito de ler o que escreve o Zé Maria, já nem dorme descansado, de curioso. (Já sabe que começa assim:

MAX 1 O meu nome é Max e mandaram-me para o quarto sem jantar, sem sopa, sem nada, eu sozinha sem reflexo e sem representação e desapareço.
)

quinta-feira, 22 de junho de 2017

(Um espaço interior)

21

Um espaço interior
criei
nestes poemas

onde estalam os móveis
e os sentidos

onde as ideias
a meia-luz
respiram

e a vida
as imagens
não se reflectem

nos vidros

(António Reis, Poema Quotidianos, Lisboa, Portugália - Colecção Poetas Hoje, com prefácio de Eduardo Prado Coelho, p. 23. Quando se anuncia para daqui a três semanas a reedição, na Tinta-da-China. deste precioso livro de poemas.)

sábado, 17 de junho de 2017

Moinhos na poesia (84)

"Sangue Latino"

Jurei mentiras e sigo sozinho,
assumo os pecados
Os ventos do norte não movem moinhos
E o que me resta é só um gemido
Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos,
Meu sangue latino,
minha alma cativa
Rompi tratados, traí os ritos
Quebrei a lança, lancei no espaço
Um grito, um desabafo
E o que me importa é não estar vencido
Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos,
Meu sangue latino,
minha alma cativa.

(Ney Matogrosso, colosso de homem que ontem o embasbacado Reboliço ouviu e viu cantar e bailar na Praça da República, em Beja.)

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Não dá

A poesia não dá / Poetry Doesn’t Pay
Estão sempre a dizer-me:
Sabes, os teus poemas,
tens mesmo ali qualquer coisa,
isto é, mesmo.

Quando liga o homem da renda,
ajoelho-me e, pela
caixinha da consciência digo-lhe,

'Quem fala é alguém,
chamada local, sabia
que tenho qualquer coisa aqui nos meus poemas?
É o que me dizem.'

'O que quero são as catorze libras
e dez pence, deixe lá a poesia.'

'Mas não percebe,
tenho aqui qualquer coisa.'

'Se não me aparece depressa
com as catorze libras e dez pence,
aparece-lhe é qualquer coisa aí na rua,
a que um bocadinho de neve há de dar cor.'

'Mas.'

'Mas nada,
não me pode pagar com poemas, nem com rezas,
nem piadas do seu marido,
nem fotografias dos filhos
de camisolas cor de bom limão,
tricotadas pela tia da avó morta,
que tinha amnésia e crupe.

‘Eu cá sou da Companhia,
queremos lá saber da poesia,
ou das amnésicas tias mortas!’

‘Mas as pessoas dizem-me.’

‘Mentiras.’

‘Se não se tiver catorze libras e
dez pence, não se tem nada
além da luz da escassa lua.’
(Tradução: AIS)

People keep telling me:
Your poems, you know,
you’ve really got something there,
I mean really.

When the rent man calls,
I go down on my knees, and through
the conscience box I tell him,

‘This is somebody speaking,
short distance, did you know
I have something here with my poems?
People keep telling me.’

‘All I want is fourteen pounds
and ten pence, hold the poesy.’

‘But don’t you realise
I’ve got something here.’

‘If you don’t come across
with fourteen pounds and ten pence soon
you’ll have something at the side of the road,
made colourful by a little snow.’

‘But.’

‘But nothing,
you can’t pay me in poems or prayers,
or your husband’s jokes,
or with photographs of your children
in lucky lemon sweaters
hand-made by your dead grand aunt
who had amnesia and the croup.

‘I’m from the Corporation,
what do we know or care about poesy,
much less grand amnostic dead aunts?’

‘But people keep telling me.’

‘They lie.’

‘If you don’t have fourteen pounds
and ten pence, you have nothing
but the light of the penurious moon.’

Rita Ann Higgins, Goddess of the Mervue Bus, 1986