domingo, 15 de julho de 2018

- E então, pai, o ramo de louro foi eficaz?
- Oh-oh! Pusemo-lo dentro de casa, como disseste. Agora anda aqui uma mosca de roda dele, mas é capaz de ter nascido cá dentro, sabes, e de esta ser a casa dela. Ou isso, ou é parva.

("Pass on")


(Imagem publicada no Twitter @Wordsworthians [ou, The Romanticism Blog], do monumento a Boatswain, cão de Lord Byron. O Reboliço lê as palavras de John Hobhouse, amigo de Byron, a encimar os versos do poeta inglês: "Perto deste lugar jazem os Restos daquele que possuiu Beleza sem Vaidade, Força sem Insolência, Coragem sem Ferocidade, e todas as virtudes Humanas sem os Humanos Vícios. Este louvor, lisonja inexpressiva se fosse dedicado a humanas Cinzas, é só um tributo de justiça à Memória de BOATSWAIN, um CÃO que nasceu em Newfoundland em Maio de 1803 e morreu em Newstead a 18 de Novembro de 1808."
O pobre bicho morreu de raiva; o dono cuidou dele até ao finamento, sem qualquer receio de contágio. A lápide legenda o túmulo que, ao que consta, é maior do que a sepultura do próprio Byron.)

When some proud Son of Man returns to Earth,
Unknown to Glory, but upheld by Birth,
The sculptor’s art exhausts the pomp of woe,
And storied urns record who rests below.
When all is done, upon the Tomb is seen,
Not what he was, but what he should have been.
But the poor Dog, in life the firmest friend,
The first to welcome, foremost to defend,
Whose honest heart is still his Master’s own,
Who labours, fights, lives, breathes for him alone,
Unhonoured falls, unnoticed all his worth,
Denied in heaven the Soul he held on earth –
While man, vain insect! hopes to be forgiven,
And claims himself a sole exclusive heaven.
Oh man! thou feeble tenant of an hour,
Debased by slavery, or corrupt by power –
Who knows thee well, must quit thee with disgust,
Degraded mass of animated dust!
Thy love is lust, thy friendship all a cheat,
Thy tongue hypocrisy, thy heart deceit!
By nature vile, ennobled but by name,
Each kindred brute might bid thee blush for shame.
Ye, who behold perchance this simple urn,
Pass on – it honours none you wish to mourn.
To mark a friend’s remains these stones arise;
I never knew but one -- and here he lies.

terça-feira, 5 de junho de 2018

O Reboliço é um nefelibata (96)

- De que mais gostas, homem enigmático, diz? teu pai, tua mãe, tua irmã, ou teu irmão?
- Não tenho nem pai nem mãe, nem irmã, nem irmão.
- Teus amigos?
- Usais uma palavra cujo sentido até hoje ignoro.
- Tua pátria?
- Desconheço a sua latitude.
- A beleza?
- Muito me agradaria gostar dela, deusa e imortal.
- O ouro?
- Detesto-o como detestais Deus.
- Eh! de que gostas, então, extraordinário estrangeiro?
- Gosto das nuvens... das nuvens que passam... além... além... as maravilhosas nuvens!
*
- Qui aimes-tu le mieux, homme enigmatique, dis? ton père, ta mère, ta soeur ou ton frère?
- Je n'ai ni père, ni mère, ni soeur, ni frère.
- Tes amis?
-Vous vous servez là d'une parole dont le sens m'est resté jusqu'à ce jour inconnu.
- Ta patrie?
- J'ignore sous quelle latitude elle est située.
- La beauté?
- Je l'aimerais volontiers, déesse et immortelle.
- L'or?
- Je le hais comme vous haïssez Dieu.
- Eh! qu'aimes-tu donc, extraordinaire étranger?
- J'aime les nuages... les nuages qui passent... là-bas... là-bas... les merveilleux nuages!

Charles Baudelaire, Petits poèmes en prose, I (1869)

quinta-feira, 31 de maio de 2018

"Como uma cidade que não desistisse de mim"

À Fernanda Dias

Vejo-me de mãos nos bolsos. As ruas impressas no
Manhattan Street Walker distinguem-se da calçada
debaixo dos meus pés
porque são coloridas. As pedras, os tijolos das
paredes em Washington Mews, vidro que as
portas refletem, o céu, chão enquanto ando, tudo
neve e fumo, cinza branco. Nevou.

Lembro-me: nunca visitei a estátua da Liberdade, vejo-a
de longe, no jardim de Battery. Os esquilos
são pequenas esculturas em metal. Escrevi o meu nome na
neve, um monte que cobria uma pedra.

Estendo roupa numa varanda larga, um pátio de onde vejo a
ponte de Brooklyn; a única varanda que tem
roupa estendida, em todo o Financial District.
Quando o vento consegue soprar entre os edifícios, é
uma cena campestre. Ordet junto ao Pier 17.

(AIS, Cão Celeste, 12, março de 2018, p. 25)

Elevação

O Reboliço não acredita em coincidências. Por isso, não se surpreendeu quando ontem, depois de uma palestra em que se falou de moendas nos textos e nos tempos da Antiguidade (não eram "moinhos" como ainda os há hoje, ou talvez seja a sua ideia de "moinho" sempre ligada ao Moinho Grande, a edifícios de três gigantes andares que o impede de ajustar a palavra a coisas pequenas como duas pedras movidas com a força da mão de uma pessoa), a Maria Manuel lhe entregou, para oferecer a uns meninos, a reprodução de um desenho de Simon Goodrich que é tal e qual mas tal e qual o desenho do Moinho de Castro Verde, que o avô Xico ainda ajudou a reconstruir. Assim:


quarta-feira, 23 de maio de 2018

My Philosophy of Life

Just when I thought there wasn’t room enough
for another thought in my head, I had this great idea—
call it a philosophy of life, if you will. Briefly,
it involved living the way philosophers live,
according to a set of principles. OK, but which ones?
That was the hardest part, I admit, but I had a
kind of dark foreknowledge of what it would be like.
Everything, from eating watermelon or going to the bathroom
or just standing on a subway platform, lost in thought
for a few minutes, or worrying about rain forests,
would be affected, or more precisely, inflected
by my new attitude. I wouldn’t be preachy,
or worry about children and old people, except
in the general way prescribed by our clockwork universe.
Instead I’d sort of let things be what they are
while injecting them with the serum of the new moral climate
I thought I’d stumbled into, as a stranger
accidentally presses against a panel and a bookcase slides back,
revealing a winding staircase with greenish light
somewhere down below, and he automatically steps inside
and the bookcase slides shut, as is customary on such occasions.
At once a fragrance overwhelms him—not saffron, not lavender,
but something in between. He thinks of cushions, like the one
his uncle’s Boston bull terrier used to lie on watching him
quizzically, pointed ear-tips folded over. And then the great rush
is on. Not a single idea emerges from it. It’s enough
to disgust you with thought. But then you remember something
     William James
wrote in some book of his you never read—it was fine, it had the
     fineness,
the powder of life dusted over it, by chance, of course, yet
     still looking
for evidence of fingerprints. Someone had handled it
even before he formulated it, though the thought was his and
     his alone.
It’s fine, in summer, to visit the seashore.
There are lots of little trips to be made.
A grove of fledgling aspens welcomes the traveler. Nearby
are the public toilets where weary pilgrims have carved
their names and addresses, and perhaps messages as well,
messages to the world, as they sat
and thought about what they’d do after using the toilet
and washing their hands at the sink, prior to stepping out
into the open again. Had they been coaxed in by principles,
and were their words philosophy, of however crude a sort?
I confess I can move no farther along this train of thought—
something’s blocking it. Something I’m
not big enough to see over. Or maybe I’m frankly scared.
What was the matter with how I acted before?
But maybe I can come up with a compromise—I’ll let
things be what they are, sort of. In the autumn I’ll put up jellies
and preserves, against the winter cold and futility,
and that will be a human thing, and intelligent as well.
I won’t be embarrassed by my friends’ dumb remarks,
or even my own, though admittedly that’s the hardest part,
as when you are in a crowded theater and something you say
riles the spectator in front of you, who doesn’t even like the idea
of two people near him talking together. Well he’s
got to be flushed out so the hunters can have a crack at him—
this thing works both ways, you know. You can’t always
be worrying about others and keeping track of yourself
at the same time. That would be abusive, and about as much fun
as attending the wedding of two people you don’t know.
Still, there’s a lot of fun to be had in the gaps between ideas.
That’s what they’re made for! Now I want you to go out there
and enjoy yourself, and yes, enjoy your philosophy of life, too.
They don’t come along every day. Look out! There’s a big one...

John Ashbery (1927-2017), 2009.
(Olá, Philip Roth; Olá, Júlio Pomar.)

terça-feira, 15 de maio de 2018

Garrett está online

O Reboliço pensa que Alexandre Herculano fez muito bem a si mesmo quando se retirou para Azóia de Baixo para produzir azeite. É um modo de perpetuar a vida como outro qualquer, e digno de um grande intelectual. Já Almeida Garrett reaparece numa existência que, sem deixar de ter o seu quê de bucólico, lhe propicia, inolente, a posteridade global.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

A Primavera tem lindas flores

O Reboliço senta-se à janela da varanda, o vidro aberto. Mexe-se a cortina com a brisa que a Ria traz, de levezinho. As moscas entram na sala, vagueiam, voltam a sair. O Reboliço admira o vermelhar dos frutos na tomateira velha, o espigar dos coentros altos, as folhas largas da orquídea, que há-de dar uma flor branca, grande, as seis flores da amarílis, agora envelhecidas, as divertidas cores do piri-piri, o orégão, impaciente, e os dois vasos de suculentas, que esperam ser transplantadas. Cheira-lhe a calor, cheira-lhe a luz.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

MUSA, SINCERAMENTE

Musa, sinceramente, vai chatear o Camões.
Que podem os poetas, diz-me, contra marketeers,
aguados humoristas e demais fomentadores
de pestilência moral? Que valor pode ter
uma metáfora sem preço, por brilhante
que seja, neste mundo de sementes apagadas
em lameiros de cimento? Tu não vês
o telejornal, Musa? Nunca ouviste falar
da impermeabilização dos solos na cidade
de Deus, do entupimento das artérias cerebrais?
Pensas que estás no século XIX? Mais,
julgas-te capaz de competir com traficantes
de desejos, decibéis e abraços? És capaz
de fazer rir um desempregado, de excitar
um espírito impotente? Consegues marcar
golos geniais como o Ricardo Quaresma,
proteger do frio as andorinhas, ir buscar
as crianças à escola? Se achas que sim,
faz-te à onda do mercado, Musa, e boa sorte.
Mas não contes comigo para te levar à praia.
Sabes perfeitamente que detesto areia, sol
na testa e mariolas de calção. Vá, não me maces.
Pela parte que me toca, ficamos por aqui.
(José Miguel Silva, Últimos Poemas, Averno, 2017, p. 21.
Muito bem lembrado pela Inês e lembrando ao Reboliço versos da Rita Ann Higgins.)

Neptuno, Oceano, os tesouros.

(Foto do Neptuno com cabelo e patas de caranguejo, no mosaico do século IV da villa romana de Hemsworth, que pode ser visitado no museu de Dorset Museum: Bronwen Riley‏, a quem o Reboliço agradece a autorização para reproduzir aqui a imagem deste primo do Oceano farense, que acaba de ser considerado, com justiça, com justiça, tesouro português. Coisa que o Reboliço já sabia que era, nem teve nunca a mais pequenina sombra de dúvida.)

terça-feira, 1 de maio de 2018

Começa Maio

(Foto do raio de sol, do jarro e das folhas, escondidos atrás da ruína de tijolos das abandonadas fábricas do Vale de Santarém: Reboliço, caminhando de cestinho cheio de flores de sabugueiro e coração quente.)

Mill Marginalia

O Reboliço gosta tanto de coisas bem feitas. E, porque admira cada frase de John Stuart Mill, fica radiante quando descobre o trabalho bem feito pela Universidade de Michigan com a biblioteca do senhor.

domingo, 29 de abril de 2018

Ruínas de Milreu


   É muito fácil, em Milreu, pisar involuntariamente uma formiga agigantada, embora pequena se comparada com o que resta do templo ou com as douradas transcritas para mosaicos cuja cor se foi esbatendo. Também é fácil tocar ou pisar pedrinhas soltas ou conchas dispostas em espiral no que seria o centro exacto do templo. Mais difícil é perceber o que herdámos realmente de tantos séculos, o que aprendemos ou desaprendemos com aquilo a que chamamos história. Deus, caso andasse por ali, habitaria as laranjeiras, separado de nós por umas grades.
(Manuel de Freitas, Sob o Olhar de Neptuno, edições 50Kg, Porto,  2018, p. 5.)

Sob o Olhar de Neptuno

(Foto da capa de Sob o Olhar de Neptuno, de Manuel de Freitas, edições 50Kg, Porto, Abril de 2018:
Reboliço, a pensar como é bom receber prendas dos amigos aniversariantes.)

segunda-feira, 23 de abril de 2018

"Os menó vai à praia"

O Reboliço ouve "a língua portuguesa como se fosse estrangeira", que é o que diz o Ivan Nunes sobre o conto de Geovani Martins. Lembra-o a voz de Bezerra da Silva falando do "pessoal do morro".

(O conto pode ser lido aqui.)

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Moinhos na poesia (88)

(Puis, buvant un coup qui restait au fond de la bouteille, et s’adressant à son voisin : )
Monsieur, par charité, une petite prise. Vous avez là une belle boîte. Vous n’êtes pas musicien ?
— Non. — Tant mieux pour vous, car ce sont de pauvres diables… bien à plaindre. Le sort a voulu que je le fusse, moi, tandis qu’il y a à Montmartre peut-être, dans un moulin, un meunier, un valet de meunier qui n’entendra jamais que le bruit du cliquet, et qui aurait trouvé les plus beaux chants… Au moulin, au moulin ! c’est là ta place.
(Denis Diderot, Le Neveu de Rameau, 1891.
François Couperin, "Les Petits Moulins à Vent", 1722.  

quarta-feira, 11 de abril de 2018

"Cidade triste e alegre"

(Foto do interior da capa de Lisboa, Cidade Triste e Alegre, de Costa Martins e Victor Palla, na reedição comemorativa de meio século do lançamento: Reboliço, à espera do tiro de partida. Em 2005, coordenado pela Lúcia Marques, fez-se um curso sobre Literatura, Cinema e Fotografia. Foi na Fundação Calouste Gulbenkian e a altura em que o Reboliço conheceu, raro, raro, um livro desmesurado de título Lisboa, Cidade Triste e Alegre. Mais alegre ainda ficou quando, quatro anos depois, as edições Pierre von Kleist se abalançaram para reeditar as imagens, a capa, o papel. Acrescentaram um livreto com a história da edição [numa pequena página] e um ensaio introdutório, escrito por Gerry Badger. Agora, esta sexta [que é 13, de boa fortuna], inaugura no Palácio Pimenta, lugar onde está o Museu da Cidade, essa Lisboa, uma exposição sobre o livro - álbum, aventura. O Reboliço mete-se ao caminho.)

domingo, 4 de março de 2018

O Reboliço colecciona calendários (37)

(Foto do calendário, tal como foi designada a colagem, ponteiros e tudo, os dias que passam com chávenas de café e a publicidade passada, pelo pequeno Nicolau,
que a assinou: pai, em orgulho perfeito pela obra do neto de quatro anos. O Reboliço não o está menos, não o está menos.)

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Ano do Cão

Una puerta se abre y en una latitud
diferente otra viene a cerrarse.
Porque no hay ordenado universo
en que sea posible negar tal ley
y quede alguna acción desatendida.
Porque no corre ningún hombre
sin que los árboles se curven.
Y lo que perdí vendrá a saludarme.
Es una cuestión de paciencia y matemática.

Esperanza López Parada, Los tres días, Pre-Textos, Valencia, 1994.
(O Reboliço late, grato, à amiga Fernanda Dias.)

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

A filha-gata

(Foto da Perdida com a filha-gata no quintal: Prima Luísa, à pressa, à pressa, depois de o Tio Chico, seu pai, a ter chamado, "Anda cá ver isto, a gatinha mamando na Perdida." O Tio explica hoje: "Já não a apanhou a mamar, mas foi um instante de nada, entre a gatinha largar a mama e a Luísa fazer o retrato: não vês a posição dos bichos?" A Perdida era, como já se disse aqui, um bicho muito particular. Um dia, uma gata teve por ali crias e ela perfilhou-lhe uma: teve leite e tudo. Em chegando por lá o Isidro, que era visita regular e dado à brincadeira, metia-se com ela: "Eu levo-ta, Perdida. Fico-te com a gatinha." Parecia que o entendia, aquela mãe. Ficava possuída, ladrava-lhe com uma fúria que ninguém lhe conhecia e mordia-lhe os canos das botas altas, rosnando, enquanto ele avançava e ria, está claro. [Depois da morte da Perdida, foi o Isidro quem lhe recolheu a filhota.])

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

"A colina de Montmartre com pedreira" - e moinho

(Reprodução do desenho de Vincent Van Gogh, feito em 1886 e descoberto há coisa de nada:
El País, edição do Brasil. O Reboliço pensa sobre o que significa descobrir e 
lembra-se de revelar desvelar, descortinar, destapar. Verbos de mostrar.)

sábado, 13 de janeiro de 2018

(Ver é como ler.)


(Foto da capa do nº 22 da Telhados de Vidro,
sobre imagem de Rui Chafes, e onde se publicam,
entre obras maiores, esses pobres versos que aí vão:
Reboliço, babado.)

A UNS ÓCULOS

Uso um par de lentes novas.
Vejo tudo: o esqueleto de uma cama, ao alto, na marquise de um 5º andar
(não existe a arbitrariedade dos signos linguísticos);
cada agulha no ramo daquele pinheiro;

a gata que, aos meus passos, se escondeu no arbusto,
fugida, fugida,
estacou quando se pensou a uma distância segura e girou a cabeça na minha direção
(vejo tudo: dispensa lentes de vidro, armação de massa, concentra o foco do olhar com a imobilidade do corpo inteiro).

Vejo a luz dos dias crescidos e convenço-me que é das lentes.

*

Dentro do comboio em marcha, uma bailarina atravessa a carruagem, apoiando-se no espaldar de cada cadeira.
Sentada num dos extremos, o olhar alcança o outro e
vejo-lhe
o cambalear impotente, a quase queda de marioneta enquanto as novíssimas
flores de esteva
passam entre o verde texturado das cortinas
(fabricadas, diz a etiqueta, no Vale de Santarém).

Sei, portanto, a razão por que escolheu ser bailarina.

*

Nos dias crescidos, a manhã mostra sobre a ria línguas de terra.
São ilhas pequenas, escurecidas da vegetação anfíbia que as cobre.
Entre a maré baixa que ajuda a manhã e os meus olhos, ajudados pelo novo par de lentes, estão as árvores do jardim público. Mudam de tom: escuro ou claro, conforme lhes dá a sombra de nuvens ou de prédios, as ilumina um reflexo, ou a terra, rodando, se coloca a jeito do sol.

Vejo tudo
com as lentes.

Se as afasto, instala-se uma névoa invernil, o desconforto de saber que o que está diante de mim foge para longe da nitidez. Como ficam os relatos dos sonhos, quando não se contam a ninguém.

Ana Isabel Soares,
10/03/2017-23/03/2017,
Telhados de Vidro, 22, Novembro de 2017, pp. 11-12.)

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Oh...

A primeira ideia que ocorreu ao Reboliço, quando soube do extemporâneo passamento de Pedro Rolo Duarte, foi falar com a mãe: porque para ela e para o Reboliço, além de tudo o que o PRD fizera (e foi muito) nos jornais e em revistas, era a voz dele que lhes soava, quase sempre aos sábados - a mãe em viagem quase sempre, o Reboliço em sossego -, contraponto em riso da outra voz do Hotel Babilónia, a do João Gobern. O Reboliço gosta muito do rádio da Antena1 e, bicho de habituações, rala-se quando lhe calam as vozes. Não é a mesma coisa ouvir as gravações, tantas, tão bem feitas, e escutar assim em deixa lá ver o que vai dizer hoje. O Reboliço agradece muito.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Anúncio

Saiu hoje o nº 11 da Forma de Vida. Muito, muito provinciana.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Merci, sempre, Monsieur Daudet


(O Reboliço está muito grato, também, ao Michel e à Margarida,
amigos grandes que lhe mostraram a preciosidade desta imagem na capa de uma das 
muitas, felizmente muitas edições de Les Lettres de Mon Moulin.)

domingo, 29 de outubro de 2017

O Reboliço colecciona calendários (36)

... e, coincidência tão boa, o mês de Outubro tem um moinho lá ao fundo.


(Desenho de Theo van Hoytema.)

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

O Moinho Grande numa aguarela

(Aguarela do Moinho Grande: Leonel Borrela, falecido em Maio deste ano.
Outra já o Reboliço mostrara aqui.)

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Chove

O Reboliço encosta o focinho ao vidro da janela, morno ainda da noite. À volta, embacia-se um bocadinho do mundo, enquanto o bicho vê e escuta a chuva, que cai miúda nas pedras da rua do moinho. Toda a noite, mansa, foi caindo, por fim. Agora, os telhados arranjados de novo, os beirados muito direitos, inteiros e caiadinhos, venha o tempo fresco, a água, as nuvens mais escuras. Foi um Verão longo, estendido: o Reboliço não fecha os olhos, a seguir o trânsito de cada gota no vidro, nem recolhe as orelhas, desabituadas já daquele canto mole que a terra acolhe.

domingo, 15 de outubro de 2017

Moinhos na Poesia (86 e 87, dois poemas de Miguel Martins)

"Aldeia"

Adoro as levadas caudalosas,
serpenteando por entre avencas,
levando consigo pequenos blocos de terra,
ensopando a terra,
matando a sede a raízes
que mais parecem teias de aranha
cujo centro se esconde a vários palmos de distância
ou longilíneas tarântulas
Adoro os Verões iniciáticos,
a aprendizagem de caminhos e trabalhos sob as copas densas,
os banhos na represa por entre libélulas e alfaiates
e o esgar de nojo,
quando, da ponte,
se avista lá ao fundo um gato morto
preso nas silvas das margens de água límpida
Adoro os Invernos laboriosos,
as encostas escorregadias,
a lama nas botas,
a misteriosa caminhada até cada courela,
o gesto medieval que ceifa o talo à couve,
o toucinho na salgadeira
Adoro o regresso do ruído,
a chegada das crianças da cidade,
adoro vê-las subir às amoreiras,
as mãos miúdas confiando em nós de madeira centenária, enquanto os pais me visitam na adega,
cortamos uma broa e abrimos uma garrafa de morangueiro fresco
Adoro as casulas e os paramentos na sacristia
e o pó que os cobre nos meses de ausência do padre
e o branco nu da capela
e a pedra nua de todas as outras casas,
que é da cor das folhas de tabaco secas da plantação que o Eduardo tem ao fundo do povo e esconde dos fiscais
(ele que já viu mais mundo que todos os fiscais da região e trabalhou na PanAm e foi aos Estados Unidos)
Adoro as trutas apanhadas à mão e o viveiro de trutas, nossa única indústria desde que ruiu o moinho de água
e só Deus sabe quanto isso me custou e custa,
saber que não mais sentirei o cheiro do milho acabado de moer
Adoro as idas à mercearia da aldeia vizinha
e a pouquíssima variedade de produtos que aí se encontra,
como se estivéssemos em tempo de guerra
ou o século XX não ousasse começar por aqui
Adoro os fogões a lenha,
as enormes arcas de nogueira,
os colchões de palha de milho
confortavelmente concavados por décadas de hóspedes e a remota possibilidade de serem do tempo
em que João Brandão, “o terror das Beiras”, se acoitou nestas casas
Adoro os audazes mergulhos da ponte metálica coberta de caganitas de cabra
e as cabras
e a mão desusada que as conduz
e que sabe amar quando é chegada a noite
ou quando é chamada a iluminar um recanto de sombra
Adoro as lamparinas e os morcegos que vêm chupar o azeite das torcidas,
o cheiro das queimadas e o cheiro do tojo
acabado de roçar,
e as pequenas manchas roxas
que as amoras esmagadas imprimem no chão
Adoro as ameaças e as benesses do céu
e a certeza de que nelas se escondem todas as respostas da irrevogável vontade de Deus
e adoro como uns são pais dos filhos dos outros
e deixam Deus fora da questão
e não pegam em espingardas
Sim, adoro esta aldeia sem caçadores
em que os pardais só temem os espantalhos
e os gritos que ecoam desde o outro lado das montanhas
Adoro o tio Alfredo, que espantava as almas penadas, batendo com uma corda nas costas,
e o primo Alfredo
que trabalha tanto como quem trabalha mais
e mimetiza o mesmo gesto
para afugentar as dores que isso lhe dá por todo o corpo
Adoro a iniciação sexual dos rapazes,
quase sempre com outros rapazes,
anos antes de terem uma rapariga,
o que só acontece aos doze anos e depois não quer dizer nada,
que é como quem diz, fica vida fora
Adoro o orvalho desenhando folhas de plantas nos vidros das janelas
e janelas nas folhas das plantas
e a nitidez de todos os veios destas
e de todas as veias na pele das mulheres,
que nunca tomaram banhos de sol
e sempre cobrem as cabeças com lenços
ou chapéus de palha
E adoro-vos a vós
que nunca vistes nem vereis a minha aldeia
e acabais de a adoptar pelo útero

(Atol, Clube dos Poetas Vivos, Lisboa, 2002)


*
para o Changuito, com amor

Enquanto os pássaros pousam no parapeito da ponte
e aí encontram abrigo para a noite,
que se adivinha tão clara como a cidade finge ser,
Mário caminha num passo que quase parece estugado,
mas, na verdade, apenas sabe que se quer afastar
do ponto em que, vezes sem conta, uma explosão eclodiu,
embora seja evidente que esse ponto caminha consigo,
algures entre o estômago e a caixa torácica,
conquanto o sinta a tremeluzir na garganta,
como se uma tontura, feita nevoeiro, baixasse agora
sobre esse rio que, correndo nos dois sentidos,
quase sempre vem desaguar na sua boca.


Alcântara, Belém, Algés, e por diante 
sabe que, por ali, alcançaria a infância,
não fôra o intransponível muro que, de pedra e cuspo,
lhe atiraram aos olhos numa tarde sem data,
de maneira que o ronronar da mota ou o bater do coração
ficaram atulhados, sob um monte de lixo,
e nunca mais estiveram ao alcance da mão,
se bem que lhes sinta a falta quando calha
cruzar-se com um anjo na Calçada do Combro
e, na verdade, raro lhe aconteça pensar
em Steinbeck, Rockefeller ou na Guerra dos Seis Dias.

E esta distância, assim, tão longe e perto,
são dedos entre as mós de um moinho sem vento,
obrigando a escolher entre partir sem eles
ou aguardar sentado sobre a sua idade
até que a sua idade não interesse a ninguém
nem já saiba merecer o cetim de um sorriso.

Mas, ao menos, agora que os pássaros levantam do parapeito da ponte,
Mário — um pouco cerveja, um pouco loucura 
e muito coração — adormece no dorso de um cavalo de pedra
ouvindo o ronronar daquela moto
em que, ainda criança, rumava à claridade.

(O Caçador Esquimó, Lisboa, Fahrenheit 451, 2017, 21-22.) 

domingo, 24 de setembro de 2017

"Soneto Dezoito"

Comparar-te ao verão? Nessa não caio:
És mais amante, e muito mais constante.
O vento balança os botões em Maio,
E o calor se evapora num instante.
O olho do céu que brilha lá em cima
Às vezes perde a sua cor dourada,
E tudo o que é firme um dia declina;
A natureza às vezes muda a estrada.
Mas o teu verão eterno, que dure
E que nunca outono vinque o teu rosto.
À Morte só direi que não se apure,
Que o que neste verso está disposto
Há de durar como o que vê, e respira,
Pois por ti vive o que à vida se atira.
[William]Shakespeare/Adalberto[Müller]
Da página de FB de AM, em 23/09/2017

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Domingo, o Reboliço continua na serra.


Setembro

"Entra, Setembro," pensa o Reboliço. "Entra agora, que me vou pela serra. Apanho a NacionalDois, já vejo as casas com paredes de cal e pedra do Ameixial, as marafadas das curvas, os regatos que vão secando, o tráfego escasso, déu-em-déu até Almodôvar, e dali, de salto no Complementar Itinerário, até Pax Julia. Ali está a casa do Moinho destelhada, os figos a amadurecer ao sol, o moinho suspirando e a terra a ressequir. Entra, Setembro. Deixa vir manso o Outono, mas que traga uma pouca de água, alguma coisa que sacie esta sede."

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Línguística aplicada

algumas palavras
fugiram do cativeiro da
gramática e da sintaxe
caíram as letras dos jornais
uma língua nova falou-se na cidade
com letras roubadas dos placards luminosos
com erros
erros sintáticos
erros gramaticais
erros fonéticos
(romanço)
erros de todo o género
(as pessoas começaram a dizer mal as palavras, não se apercebendo que as coisas eram as mesmas,
com excepção do frigorífico, não se retirando aqui importância ao mesmo)
as
línguas
também
outrora
unas
(mare nostrum)
se podem estilhaçar em mil pedaços
lentamente
e depois voltarem a juntar-se
(na realidade as pessoas sempre deram erros, o "ne varietur" vale tanto como o modelo de Bohr)
Manuel Botelho da Silva, 'língua', poema inédito 
(suplemento "Economia" do semanário Expresso, 19/08/2017, p. 05)

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

"Amar"


Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.


Carlos Drummond de Andrade, Claro Enigma (1951).

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

"glebas floridas"

Ainda não integra o Atlas das Paisagens Literárias de Portugal Continental (que, pensa o Reboliço, deveria deixar cair já já o "Continental" para aceitar, almenos, os lugares de Nemésio), mas lá irá parar, seguramente. Enquanto não, zune - zune nas orelhas do Reboliço como o zumbido reconfortante do histórico, sempiterno estio.

     Neste sertão tão pouco espectacular e desolado da serra da Nave, uns homens raros e temerários vieram um dia com os seus tractores, os seus catterpillers Diesel, as suas charruas e grades de discos. E, muito provavelmente a primeira vez depois que o Mundo é Mundo, lavraram o solo adusto, o solo baço, não caldeado do suor do homem, numa longa área, onde apenas de Inverno se ouviam os lobos uivar de altinho para altinho a combinar a sua táctica de bandoleiros, e nas noites de luar as lebres dançavam nas panasqueiras.
     As aldeias serranas Alvite, Carapito, Aris, Semitela deitaram às gargalhadas. Por pouco não se ouviam os ecos dos valeiros repercutir o riso sardónico, o riso alvar das mandíbulas desdenhosas. Ali batatas!? Esse manjar que vai à mesa dos reis, tão adstringente e nutritivo, tão democrático mas delicado, poderia produzir-se no meio das fragas onde só medra a sarça e o tojo alvarinho?!
     E, ó milagre, os tubérculos maravilhosos germinaram, deitaram para fora do solo inóspito suas orelhinhas de gato, que só o não parecem de todo pelo belo tom esmeraldino, retoiçaram, altearam-se e, em regos simétricos nas longas vessadas, deram a impressão das vagas de um mar roleiro soprado pelo velho amigo Bóreas. Aos cépticos inteligentes foi dado o prazer inefável de contemplar uma destas glebas floridas. A polvilhação branca por cima do verde compacto tinha o seu quê de bucólica muito original e intraduzível, miríades de borboletas pairando por cima dum lago, ou uma neve irisada e fátua a derreter ao Sol.
Aquilino Ribeiro (1954), Introdução a O Homem da Nave, Bertrand Editores, 2017, p. 15. 

Moinhos na poesia (85)

Pé de meia sempre vazio.
Vazios os armários
Seus mistérios desmentidos.

Fechaduras arrebentadas, arrancadas.
Velhas gavetas de antigas
mesas de austeras salas vazias.
Os lavrados que guardavam,
vendidos, empenhados,
sem retorno.
As velhas gavetas
guardam sempre um refugo de coisas
que se agarram às casas velhas e acabam mesmo nos monturos.
As velhas gavetas
têm um cheiro nojento de barata.

As arcas desmanteladas.
Os baús amassados.
Os abastos resumidos.
A fornalha apagada.
Economizado o pau de lenha.
Pelos cantos as aranhas
diligentes, pacientes, emaranham teias.
E a casa grande se apagando,
caindo lance a lance, seus muros de taipa.
E um gato miau, fedendo pelos cantos.

E a gente se apegava aos santos,
tão distantes…

Rezava. Rezava, pedia, prometia…
O tempo foi passando,
os santos, cansados, enfastiados
economizando os milagres do passado.
No fim os compradores de antiguidades
acabaram mesmo levando os oratórios
e os santos, que fossem de madeira,
dando lugar à TV, ao Rádio RCAVictor de sete faixas.

A gente era moça do passado.
Namorava de longe, vigiada.
Aconselhada. Doutrinada dos mais velhos,
em autoridade, experiência, alto saber.
“Moça para casar não precisa namorar,
o que for seu virá”.
Ai, meu Deus! e como custava chegar…
Virá! Virá!… Virá, virá… quando?
E o tempo passando e o moinho dos anos moendo,
e a roda-da-vida rodando… Virá-virá!
A gente ali, na estaca, amarrada, consumida
de Maria Borralheira, sem madrinha-fada,
sem sapatinho perdido,
sem arauto de príncipe-rei, a procurar
pelos reinos da cidade de Goiás
o pezinho faceiro do sapatinho de cristal,
caído na correria da volta.

A igreja, refúgio e confessionário antigo.
O frade, velho e cansado. Frei Germano, piedoso,
exortando paciente e severo. “Minha filha, a virgindade
é um estado agradável aos olhos de Deus. Olha as santas virgens,
Santa Terezinha de Jesus, Santa Clara, Santa Cecília,
Santa Maria Mãe de Jesus. Deus dá uma proteção especial às virgens.
Reza três ave-marias e uma salve rainha a Nossa Senhora e vai comungar”.

A gente saía confortada, ouvia a missa,
cumpria a penitência e comungava humildemente, ajoelhada,
véu na cabeça em modéstia reforçada.

Depois, depois, a solidão de solteira, o sonho honesto de um noivo,
o desejo de filhos,
presença de homem, casa da gente mesma, dona ser. Um lar.
Estado de casada.

A pobreza em toda volta, a luta obscura
de todas as mulheres goianas. No pilão, no tacho,
fundindo velas de sebo, no ferro de brasas de engomar.
Aceso sempre o forno de barro.
As quitandas de salvação, carreando pelos tabuleiros
os abençoados vinténs, tão valedores, indispensáveis.
Eram as costuras trabalhadas,
os desfiados, os crivos pacientes.
A reforma do velho, o aproveitamento dos retalhos.
Os bordados caprichados, os remendos instituídos,
os cerzidos pacientes…
Tudo economizado, aproveitado.
Tudo ajudava a pobreza daquela classe média, coagida, forçada
a manter as aparências de decência, compostura, preconceito,
sustentáculos da pobreza disfarçada.
Classe média do após treze (13) de maio.
Geração ponte, eu fui, posso contar.

O poço d’água, a maravilhosa servidão da casa.
Toda a família na dependência do poço, da corda, do balde.
A água lá no fundo, cisterna, também chamada.
Um dia, dia incerto e já previsto o desastre, o transtorno.
Todos atingidos, impressionados, participantes,
da porta da rua ao fundo do quintal. Arrebentou a corda do poço…
gasta e cansada, exausta da sua resistência.
Corda vigente, corda de arrocho, corda de enforcar,
lá se foi com seu pedaço, agarrada ao balde, descansar
no fundo profundo do poço.

A casa toda assanhada, informa: arrebentou a corda do poço.
Vamos tentar a retirada de salvação geral.
Todos participantes, impressionados, coniventes na salvação
do balde, o resto da corda.
A vizinha de lado comparece por cima do muro, oferece seu balde,
dá palpites, solidária.

Uma longa vara, um gancho na ponta a vasculhar
o fundo escuro, em passeio lento e paciente. Assistência,
a torcida geral. Afinal, ponta e gancho enlaçam o que desceu
e sobem triunfante. Faz-se a emenda com perícia,
gente antiga, afeita a essa e outras emergências.
Cada qual aos seus interesses e, volta a casa
a rotina da vida do passado.

Tanta pobreza a contornar.
Tanto sonho irrealizado, tanto abandono.
Tanta água de sonho puxado do poço da imaginação…

Valiam as velhas, seus adágios de sustentação:
Conter e reprimir as jovens, dar-lhes esperanças,
ensinar-lhes a paciência, a vontade de Deus.
E a gente a querer abrir uma brecha naquela muralha
parda de pobreza e limitação.

Hoje sobrará para todos mil cruzeiros.
Me faltando sempre o vintém da infância. Bem por isso
mandei fazer um broche de um vintém de cobre
e preguei no meu vestido do lado do coração.

Sentir a presença daquele vintém
pobre da minha infância, tão procurado, tão escasso!…
Sentir a metade daquela bolacha que repartia comigo
o carinho da minha bisavó, na sua pobreza mansa.
Estender de novo minhas pequenas mãos de criança
para as quitandas, broinhas, brevidades
e biscoitos que me dava tia Nhorita,
ela, se findando numa velhice tão bonita
como outra igual não vi.
Seu sorriso de Mona Lisa,
seu mistério de Gioconda.
Ter nos meus braços aquela boneca de loiça vinda de Paris,
de chapeuzinho, enfeite, sua flor minúscula, azul, lá da França.
Sapatinhos e meias, loira, olhos azuis e que dormia…
e que nunca foi minha.
Eu vivia aquela boneca, sonhava e ela sempre ali, inacessível,
na estática da vitrine envidraçada da loja de “Seu” Cincinato.

Voltar à infância… Voltar ao paraíso perdido
de uma infância pobre que pedia tão pouco!
Menino Jesus, sorridente no oratório.
Uma bolinha azul nas mãos poderosas sustentando o mundo.
Ele, tão pequenino e frágil.
Tantos santinhos pobres me protegendo,
tantas velhas me ensinando as regras da vida…
Eu era cega, ceguinha, peticega, sem nada ver.
Mouca, surda,
surdinha, sem nada ouvir…
Chegar hoje a essa evocação dolorida e rude…

Meu vintém de cobre! Arrebentar todas as amarras
e contenções represadas.
Meu vintém! está comigo nestas páginas de escrever.

Cora Coralina, Vintém de Cobre, Global Editora, 2012.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

"Manhã de Estio"


Acordei aos estrépitos da luz.
— 'Bons dias!' — Tudo é cor, tudo são vozes,As nuvens, desfraldadas, albornozes,— Caravana emplumada a marabuz...Serra em corcovas — dromedários broncos.
Eros nas florações, o insecto, rufla;
Deus Pan, às carcajadas: olha a mufla
A zigomatizar-se pelos troncos!...
Oirante, o fervilhar das seivas chia
Alto — na formidável alquimia
De campos, de jardins e de alegretes! —
Canto; as aves — 'bons dias! — cantam mais...
Lenço esgarçado em fumo aos minaretes
Das chaminés... Amor! por quem chamais?
(Emiliano da Costa [Tavira, 1884-Faro, 1968],
repescado por Luis Manuel Gaspar, de 'Phlogistos', 1931.
A ilustração também veio ter
ao Reboliço pela amiga mão do LMG.)

O Reboliço colecciona calendários (35)



Este foi-lhe entregue, por própria carinhosa mão, pelo Miguel de Carvalho. Calhou bem, na época daVolta.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Gleba

O Diogo Amorim, jovem com pouco mais de duas dezenas de anos de vida, mas com uma vida tão cheia como um valente saco de farinha, idealizou e montou a GLEBA, uma padaria que pretende, nas suas palavras, "produzir o melhor pão, de forma natural e a partir dos melhores cereais portugueses" e "trazer de volta o pão que os nossos avós comiam" - em sentido figurativo, afigura-se ao Reboliço. Preocupa-o (ao Diogo) reduzir a pegada ecológica (para, no pensar do Reboliço, ficar pequenina como as patinhas de um cachorro), devolver sabor ao pão que andamos a comer e que, tantas vezes, chamando-se "de Mafra" ou "das Fontes Ferrenhas", é amassado com cereal vindo de lugares distantes, de estepes ou estufas, assim. Só vende em Lisboa, ali para a Estrela, é pena, mas é compreensível. Se a moda pegar, outros diogos surgirão, que pontuem o país com lojas destas, pequenas e de nome e alma tão grande.

Lembrou-se o Reboliço da Gleba em conversa com o amigo Ricardo Álvaro, que, anda, anda, ainda alinhava uns versos ao propósito.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Oh...

O Reboliço, quando era ainda mais pequenino, brincava com os amigos ao Espaço 1999. De todas as criaturas que encarnavam, sempre à vez, o Doctor John era um favorito.

domingo, 16 de julho de 2017

Ricardo Álvaro


[fim de marcha]

CORAÇÃO
 
Esquerda, volver:
Destroçar.

(14/07/2017. Publicado à revelia. À vela.)

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Ma Loute

Do que o Reboliço gosta mesmo é de descobrir novidades. De cada vez que viu um filme de Bruno Dumont, ficou estupefacto, extasiado, feliz, com as descobertas. Ma Loute viu-o ontem, no pátio da Sé da cidade, a lua quase cheia a subir e a entranhar-se nas nuvens e a tela animada pela aragem da noite e pelo vento da costa norte da França, onde, em 1910, aconteciam as aventuras de uma família de veraneantes no seu lugar de veraneio, as investigações de dois polícias perante misteriosos desaparecimentos e a vida, dura, canibalesca vida, da escassa gente do quartier St. Michel. Descobriu, nele, os rostos perturbadores de Raph e de Brandon Lavieville (e do seu pai, Thierry Lavieville), areia e cascalho, tempestade e céu azul, a melodia de Guillaume Lekeu - e o Typhonium, casa que rende homenagem ao tifo que levou o jovem compositor belga. E confirmou (o que é uma maneira de repetidamente descobrir), entre o talento de Juliette Binoche, de Valeria Bruni-Tedeschi e de Fabrice Luchini, que o amor é a única força que pode salvar.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Cotovia

No blogue da editora Cotovia, começa a publicar-se amanhã, e ao folhetinesco ritmo semanal, a peça mais recente de José Maria Vieira Mendes, Max e René. Um monólogo e um cão.
O Reboliço, que gosta muito de ler o que escreve o Zé Maria, já nem dorme descansado, de curioso. (Já sabe que começa assim:

MAX 1 O meu nome é Max e mandaram-me para o quarto sem jantar, sem sopa, sem nada, eu sozinha sem reflexo e sem representação e desapareço.
)

quinta-feira, 22 de junho de 2017

(Um espaço interior)

21

Um espaço interior
criei
nestes poemas

onde estalam os móveis
e os sentidos

onde as ideias
a meia-luz
respiram

e a vida
as imagens
não se reflectem

nos vidros

(António Reis, Poema Quotidianos, Lisboa, Portugália - Colecção Poetas Hoje, com prefácio de Eduardo Prado Coelho, p. 23. Quando se anuncia para daqui a três semanas a reedição, na Tinta-da-China. deste precioso livro de poemas.)

sábado, 17 de junho de 2017

Moinhos na poesia (84)

"Sangue Latino"

Jurei mentiras e sigo sozinho,
assumo os pecados
Os ventos do norte não movem moinhos
E o que me resta é só um gemido
Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos,
Meu sangue latino,
minha alma cativa
Rompi tratados, traí os ritos
Quebrei a lança, lancei no espaço
Um grito, um desabafo
E o que me importa é não estar vencido
Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos,
Meu sangue latino,
minha alma cativa.

(Ney Matogrosso, colosso de homem que ontem o embasbacado Reboliço ouviu e viu cantar e bailar na Praça da República, em Beja.)

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Não dá

A poesia não dá / Poetry Doesn’t Pay
Estão sempre a dizer-me:
Sabes, os teus poemas,
tens mesmo ali qualquer coisa,
isto é, mesmo.

Quando liga o homem da renda,
ajoelho-me e, pela
caixinha da consciência digo-lhe,

'Quem fala é alguém,
chamada local, sabia
que tenho qualquer coisa aqui nos meus poemas?
É o que me dizem.'

'O que quero são as catorze libras
e dez pence, deixe lá a poesia.'

'Mas não percebe,
tenho aqui qualquer coisa.'

'Se não me aparece depressa
com as catorze libras e dez pence,
aparece-lhe é qualquer coisa aí na rua,
a que um bocadinho de neve há de dar cor.'

'Mas.'

'Mas nada,
não me pode pagar com poemas, nem com rezas,
nem piadas do seu marido,
nem fotografias dos filhos
de camisolas cor de bom limão,
tricotadas pela tia da avó morta,
que tinha amnésia e crupe.

‘Eu cá sou da Companhia,
queremos lá saber da poesia,
ou das amnésicas tias mortas!’

‘Mas as pessoas dizem-me.’

‘Mentiras.’

‘Se não se tiver catorze libras e
dez pence, não se tem nada
além da luz da escassa lua.’
(Tradução: AIS)

People keep telling me:
Your poems, you know,
you’ve really got something there,
I mean really.

When the rent man calls,
I go down on my knees, and through
the conscience box I tell him,

‘This is somebody speaking,
short distance, did you know
I have something here with my poems?
People keep telling me.’

‘All I want is fourteen pounds
and ten pence, hold the poesy.’

‘But don’t you realise
I’ve got something here.’

‘If you don’t come across
with fourteen pounds and ten pence soon
you’ll have something at the side of the road,
made colourful by a little snow.’

‘But.’

‘But nothing,
you can’t pay me in poems or prayers,
or your husband’s jokes,
or with photographs of your children
in lucky lemon sweaters
hand-made by your dead grand aunt
who had amnesia and the croup.

‘I’m from the Corporation,
what do we know or care about poesy,
much less grand amnostic dead aunts?’

‘But people keep telling me.’

‘They lie.’

‘If you don’t have fourteen pounds
and ten pence, you have nothing
but the light of the penurious moon.’

Rita Ann Higgins, Goddess of the Mervue Bus, 1986