sexta-feira, 18 de agosto de 2017

"Amar"


Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.


Carlos Drummond de Andrade, Claro Enigma (1951).

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

"glebas floridas"

Ainda não integra o Atlas das Paisagens Literárias de Portugal Continental (que, pensa o Reboliço, deveria deixar cair já já o "Continental" para aceitar, almenos, os lugares de Nemésio), mas lá irá parar, seguramente. Enquanto não, zune - zune nas orelhas do Reboliço como o zumbido reconfortante do histórico, sempiterno estio.

     Neste sertão tão pouco espectacular e desolado da serra da Nave, uns homens raros e temerários vieram um dia com os seus tractores, os seus catterpillers Diesel, as suas charruas e grades de discos. E, muito provavelmente a primeira vez depois que o Mundo é Mundo, lavraram o solo adusto, o solo baço, não caldeado do suor do homem, numa longa área, onde apenas de Inverno se ouviam os lobos uivar de altinho para altinho a combinar a sua táctica de bandoleiros, e nas noites de luar as lebres dançavam nas panasqueiras.
     As aldeias serranas Alvite, Carapito, Aris, Semitela deitaram às gargalhadas. Por pouco não se ouviam os ecos dos valeiros repercutir o riso sardónico, o riso alvar das mandíbulas desdenhosas. Ali batatas!? Esse manjar que vai à mesa dos reis, tão adstringente e nutritivo, tão democrático mas delicado, poderia produzir-se no meio das fragas onde só medra a sarça e o tojo alvarinho?!
     E, ó milagre, os tubérculos maravilhosos germinaram, deitaram para fora do solo inóspito suas orelhinhas de gato, que só o não parecem de todo pelo belo tom esmeraldino, retoiçaram, altearam-se e, em regos simétricos nas longas vessadas, deram a impressão das vagas de um mar roleiro soprado pelo velho amigo Bóreas. Aos cépticos inteligentes foi dado o prazer inefável de contemplar uma destas glebas floridas. A polvilhação branca por cima do verde compacto tinha o seu quê de bucólica muito original e intraduzível, miríades de borboletas pairando por cima dum lago, ou uma neve irisada e fátua a derreter ao Sol.
Aquilino Ribeiro (1954), Introdução a O Homem da Nave, Bertrand Editores, 2017, p. 15. 

Moinhos na poesia (85)

Pé de meia sempre vazio.
Vazios os armários
Seus mistérios desmentidos.

Fechaduras arrebentadas, arrancadas.
Velhas gavetas de antigas
mesas de austeras salas vazias.
Os lavrados que guardavam,
vendidos, empenhados,
sem retorno.
As velhas gavetas
guardam sempre um refugo de coisas
que se agarram às casas velhas e acabam mesmo nos monturos.
As velhas gavetas
têm um cheiro nojento de barata.

As arcas desmanteladas.
Os baús amassados.
Os abastos resumidos.
A fornalha apagada.
Economizado o pau de lenha.
Pelos cantos as aranhas
diligentes, pacientes, emaranham teias.
E a casa grande se apagando,
caindo lance a lance, seus muros de taipa.
E um gato miau, fedendo pelos cantos.

E a gente se apegava aos santos,
tão distantes…

Rezava. Rezava, pedia, prometia…
O tempo foi passando,
os santos, cansados, enfastiados
economizando os milagres do passado.
No fim os compradores de antiguidades
acabaram mesmo levando os oratórios
e os santos, que fossem de madeira,
dando lugar à TV, ao Rádio RCAVictor de sete faixas.

A gente era moça do passado.
Namorava de longe, vigiada.
Aconselhada. Doutrinada dos mais velhos,
em autoridade, experiência, alto saber.
“Moça para casar não precisa namorar,
o que for seu virá”.
Ai, meu Deus! e como custava chegar…
Virá! Virá!… Virá, virá… quando?
E o tempo passando e o moinho dos anos moendo,
e a roda-da-vida rodando… Virá-virá!
A gente ali, na estaca, amarrada, consumida
de Maria Borralheira, sem madrinha-fada,
sem sapatinho perdido,
sem arauto de príncipe-rei, a procurar
pelos reinos da cidade de Goiás
o pezinho faceiro do sapatinho de cristal,
caído na correria da volta.

A igreja, refúgio e confessionário antigo.
O frade, velho e cansado. Frei Germano, piedoso,
exortando paciente e severo. “Minha filha, a virgindade
é um estado agradável aos olhos de Deus. Olha as santas virgens,
Santa Terezinha de Jesus, Santa Clara, Santa Cecília,
Santa Maria Mãe de Jesus. Deus dá uma proteção especial às virgens.
Reza três ave-marias e uma salve rainha a Nossa Senhora e vai comungar”.

A gente saía confortada, ouvia a missa,
cumpria a penitência e comungava humildemente, ajoelhada,
véu na cabeça em modéstia reforçada.

Depois, depois, a solidão de solteira, o sonho honesto de um noivo,
o desejo de filhos,
presença de homem, casa da gente mesma, dona ser. Um lar.
Estado de casada.

A pobreza em toda volta, a luta obscura
de todas as mulheres goianas. No pilão, no tacho,
fundindo velas de sebo, no ferro de brasas de engomar.
Aceso sempre o forno de barro.
As quitandas de salvação, carreando pelos tabuleiros
os abençoados vinténs, tão valedores, indispensáveis.
Eram as costuras trabalhadas,
os desfiados, os crivos pacientes.
A reforma do velho, o aproveitamento dos retalhos.
Os bordados caprichados, os remendos instituídos,
os cerzidos pacientes…
Tudo economizado, aproveitado.
Tudo ajudava a pobreza daquela classe média, coagida, forçada
a manter as aparências de decência, compostura, preconceito,
sustentáculos da pobreza disfarçada.
Classe média do após treze (13) de maio.
Geração ponte, eu fui, posso contar.

O poço d’água, a maravilhosa servidão da casa.
Toda a família na dependência do poço, da corda, do balde.
A água lá no fundo, cisterna, também chamada.
Um dia, dia incerto e já previsto o desastre, o transtorno.
Todos atingidos, impressionados, participantes,
da porta da rua ao fundo do quintal. Arrebentou a corda do poço…
gasta e cansada, exausta da sua resistência.
Corda vigente, corda de arrocho, corda de enforcar,
lá se foi com seu pedaço, agarrada ao balde, descansar
no fundo profundo do poço.

A casa toda assanhada, informa: arrebentou a corda do poço.
Vamos tentar a retirada de salvação geral.
Todos participantes, impressionados, coniventes na salvação
do balde, o resto da corda.
A vizinha de lado comparece por cima do muro, oferece seu balde,
dá palpites, solidária.

Uma longa vara, um gancho na ponta a vasculhar
o fundo escuro, em passeio lento e paciente. Assistência,
a torcida geral. Afinal, ponta e gancho enlaçam o que desceu
e sobem triunfante. Faz-se a emenda com perícia,
gente antiga, afeita a essa e outras emergências.
Cada qual aos seus interesses e, volta a casa
a rotina da vida do passado.

Tanta pobreza a contornar.
Tanto sonho irrealizado, tanto abandono.
Tanta água de sonho puxado do poço da imaginação…

Valiam as velhas, seus adágios de sustentação:
Conter e reprimir as jovens, dar-lhes esperanças,
ensinar-lhes a paciência, a vontade de Deus.
E a gente a querer abrir uma brecha naquela muralha
parda de pobreza e limitação.

Hoje sobrará para todos mil cruzeiros.
Me faltando sempre o vintém da infância. Bem por isso
mandei fazer um broche de um vintém de cobre
e preguei no meu vestido do lado do coração.

Sentir a presença daquele vintém
pobre da minha infância, tão procurado, tão escasso!…
Sentir a metade daquela bolacha que repartia comigo
o carinho da minha bisavó, na sua pobreza mansa.
Estender de novo minhas pequenas mãos de criança
para as quitandas, broinhas, brevidades
e biscoitos que me dava tia Nhorita,
ela, se findando numa velhice tão bonita
como outra igual não vi.
Seu sorriso de Mona Lisa,
seu mistério de Gioconda.
Ter nos meus braços aquela boneca de loiça vinda de Paris,
de chapeuzinho, enfeite, sua flor minúscula, azul, lá da França.
Sapatinhos e meias, loira, olhos azuis e que dormia…
e que nunca foi minha.
Eu vivia aquela boneca, sonhava e ela sempre ali, inacessível,
na estática da vitrine envidraçada da loja de “Seu” Cincinato.

Voltar à infância… Voltar ao paraíso perdido
de uma infância pobre que pedia tão pouco!
Menino Jesus, sorridente no oratório.
Uma bolinha azul nas mãos poderosas sustentando o mundo.
Ele, tão pequenino e frágil.
Tantos santinhos pobres me protegendo,
tantas velhas me ensinando as regras da vida…
Eu era cega, ceguinha, peticega, sem nada ver.
Mouca, surda,
surdinha, sem nada ouvir…
Chegar hoje a essa evocação dolorida e rude…

Meu vintém de cobre! Arrebentar todas as amarras
e contenções represadas.
Meu vintém! está comigo nestas páginas de escrever.

Cora Coralina, Vintém de Cobre, Global Editora, 2012.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

"Manhã de Estio"


Acordei aos estrépitos da luz.
— 'Bons dias!' — Tudo é cor, tudo são vozes,As nuvens, desfraldadas, albornozes,— Caravana emplumada a marabuz...Serra em corcovas — dromedários broncos.
Eros nas florações, o insecto, rufla;
Deus Pan, às carcajadas: olha a mufla
A zigomatizar-se pelos troncos!...
Oirante, o fervilhar das seivas chia
Alto — na formidável alquimia
De campos, de jardins e de alegretes! —
Canto; as aves — 'bons dias! — cantam mais...
Lenço esgarçado em fumo aos minaretes
Das chaminés... Amor! por quem chamais?
(Emiliano da Costa [Tavira, 1884-Faro, 1968],
repescado por Luis Manuel Gaspar, de 'Phlogistos', 1931.
A ilustração também veio ter
ao Reboliço pela amiga mão do LMG.)

O Reboliço colecciona calendários (35)



Este foi-lhe entregue, por própria carinhosa mão, pelo Miguel de Carvalho. Calhou bem, na época daVolta.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Gleba

O Diogo Amorim, jovem com pouco mais de duas dezenas de anos de vida, mas com uma vida tão cheia como um valente saco de farinha, idealizou e montou a GLEBA, uma padaria que pretende, nas suas palavras, "produzir o melhor pão, de forma natural e a partir dos melhores cereais portugueses" e "trazer de volta o pão que os nossos avós comiam" - em sentido figurativo, afigura-se ao Reboliço. Preocupa-o (ao Diogo) reduzir a pegada ecológica (para, no pensar do Reboliço, ficar pequenina como as patinhas de um cachorro), devolver sabor ao pão que andamos a comer e que, tantas vezes, chamando-se "de Mafra" ou "das Fontes Ferrenhas", é amassado com cereal vindo de lugares distantes, de estepes ou estufas, assim. Só vende em Lisboa, ali para a Estrela, é pena, mas é compreensível. Se a moda pegar, outros diogos surgirão, que pontuem o país com lojas destas, pequenas e de nome e alma tão grande.

Lembrou-se o Reboliço da Gleba em conversa com o amigo Ricardo Álvaro, que, anda, anda, ainda alinhava uns versos ao propósito.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Oh...

O Reboliço, quando era ainda mais pequenino, brincava com os amigos ao Espaço 1999. De todas as criaturas que encarnavam, sempre à vez, o Doctor John era um favorito.

domingo, 16 de julho de 2017

Ricardo Álvaro


[fim de marcha]

CORAÇÃO
 
Esquerda, volver:
Destroçar.

(14/07/2017. Publicado à revelia. À vela.)

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Ma Loute

Do que o Reboliço gosta mesmo é de descobrir novidades. De cada vez que viu um filme de Bruno Dumont, ficou estupefacto, extasiado, feliz, com as descobertas. Ma Loute viu-o ontem, no pátio da Sé da cidade, a lua quase cheia a subir e a entranhar-se nas nuvens e a tela animada pela aragem da noite e pelo vento da costa norte da França, onde, em 1910, aconteciam as aventuras de uma família de veraneantes no seu lugar de veraneio, as investigações de dois polícias perante misteriosos desaparecimentos e a vida, dura, canibalesca vida, da escassa gente do quartier St. Michel. Descobriu, nele, os rostos perturbadores de Raph e de Brandon Lavieville (e do seu pai, Thierry Lavieville), areia e cascalho, tempestade e céu azul, a melodia de Guillaume Lekeu - e o Typhonium, casa que rende homenagem ao tifo que levou o jovem compositor belga. E confirmou (o que é uma maneira de repetidamente descobrir), entre o talento de Juliette Binoche, de Valeria Bruni-Tedeschi e de Fabrice Luchini, que o amor é a única força que pode salvar.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Cotovia

No blogue da editora Cotovia, começa a publicar-se amanhã, e ao folhetinesco ritmo semanal, a peça mais recente de José Maria Vieira Mendes, Max e René. Um monólogo e um cão.
O Reboliço, que gosta muito de ler o que escreve o Zé Maria, já nem dorme descansado, de curioso. (Já sabe que começa assim:

MAX 1 O meu nome é Max e mandaram-me para o quarto sem jantar, sem sopa, sem nada, eu sozinha sem reflexo e sem representação e desapareço.
)

quinta-feira, 22 de junho de 2017

(Um espaço interior)

21

Um espaço interior
criei
nestes poemas

onde estalam os móveis
e os sentidos

onde as ideias
a meia-luz
respiram

e a vida
as imagens
não se reflectem

nos vidros

(António Reis, Poema Quotidianos, Lisboa, Portugália - Colecção Poetas Hoje, com prefácio de Eduardo Prado Coelho, p. 23. Quando se anuncia para daqui a três semanas a reedição, na Tinta-da-China. deste precioso livro de poemas.)

sábado, 17 de junho de 2017

Moinhos na poesia (84)

"Sangue Latino"

Jurei mentiras e sigo sozinho,
assumo os pecados
Os ventos do norte não movem moinhos
E o que me resta é só um gemido
Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos,
Meu sangue latino,
minha alma cativa
Rompi tratados, traí os ritos
Quebrei a lança, lancei no espaço
Um grito, um desabafo
E o que me importa é não estar vencido
Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos,
Meu sangue latino,
minha alma cativa.

(Ney Matogrosso, colosso de homem que ontem o embasbacado Reboliço ouviu e viu cantar e bailar na Praça da República, em Beja.)

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Não dá

A poesia não dá / Poetry Doesn’t Pay
Estão sempre a dizer-me:
Sabes, os teus poemas,
tens mesmo ali qualquer coisa,
isto é, mesmo.

Quando liga o homem da renda,
ajoelho-me e, pela
caixinha da consciência digo-lhe,

'Quem fala é alguém,
chamada local, sabia
que tenho qualquer coisa aqui nos meus poemas?
É o que me dizem.'

'O que quero são as catorze libras
e dez pence, deixe lá a poesia.'

'Mas não percebe,
tenho aqui qualquer coisa.'

'Se não me aparece depressa
com as catorze libras e dez pence,
aparece-lhe é qualquer coisa aí na rua,
a que um bocadinho de neve há de dar cor.'

'Mas.'

'Mas nada,
não me pode pagar com poemas, nem com rezas,
nem piadas do seu marido,
nem fotografias dos filhos
de camisolas cor de bom limão,
tricotadas pela tia da avó morta,
que tinha amnésia e crupe.

‘Eu cá sou da Companhia,
queremos lá saber da poesia,
ou das amnésicas tias mortas!’

‘Mas as pessoas dizem-me.’

‘Mentiras.’

‘Se não se tiver catorze libras e
dez pence, não se tem nada
além da luz da escassa lua.’
(Tradução: AIS)

People keep telling me:
Your poems, you know,
you’ve really got something there,
I mean really.

When the rent man calls,
I go down on my knees, and through
the conscience box I tell him,

‘This is somebody speaking,
short distance, did you know
I have something here with my poems?
People keep telling me.’

‘All I want is fourteen pounds
and ten pence, hold the poesy.’

‘But don’t you realise
I’ve got something here.’

‘If you don’t come across
with fourteen pounds and ten pence soon
you’ll have something at the side of the road,
made colourful by a little snow.’

‘But.’

‘But nothing,
you can’t pay me in poems or prayers,
or your husband’s jokes,
or with photographs of your children
in lucky lemon sweaters
hand-made by your dead grand aunt
who had amnesia and the croup.

‘I’m from the Corporation,
what do we know or care about poesy,
much less grand amnostic dead aunts?’

‘But people keep telling me.’

‘They lie.’

‘If you don’t have fourteen pounds
and ten pence, you have nothing
but the light of the penurious moon.’

Rita Ann Higgins, Goddess of the Mervue Bus, 1986


A eles, a eles!

O Reboliço sempre se espanta com as qualidades da tecnologia - as dos bichos como ele não o surpreendem tanto, se tanto o encantam. Quando soa o telefone e é chamada de determinado dono, o toque que a faz distinguir de todas as outras é o grasnar de um pato, e soa alto. A vista de almoço trouxera um companheiro, o Iron. É um bicho de caça, um dinamarquês grande, como lhe chamam. Cinza escuro, cor de ferro, elegância pura de corrida, treinado em cheiros e sons de bicheza de mato. Estava a família muito descansada a terminar um cafezinho e Iron refastelava-se, pacífico e obediente, dormitando no chão da sala do apartamento urbano, na enfiada da aragem que a varanda, àquela hora, ainda deixava entrar. No meio da paz, o telefone grasna e foi um microssegundo: Iron disparado, seta direita, orelhas em riste, faro no máximo do regulador, correndo cada canto da casa, cada divisão, querendo divisar - o pato.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

As mulheres do fim do mundo

O Reboliço encantam-no as vozes femininas. A Janis Joplin, por exemplo, a quem o produtor Paul Rothchild disse, pouco antes de ela morrer, sozinha num quarto de hotel, que dali a 30 anos estaria a gravar o seu melhor álbum. Ou a Elza Soares, que já gravou tantos dos seus melhores álbuns 30 anos depois, 30 anos depois, 30 anos depois, e segue, acariciando a cabeça lisa de um malandro, garantindo, de punho fechado, que ele vai se arrepender de levantar a mão para ela e cantando que "daria a sua vida a quem lhe desse o tempo".

domingo, 14 de maio de 2017

Extra! Extra!

O Miguel Martins tem um novo blogue. Extingue O Único Verdadeiro Deus Vivo e abre um "Extra Light", suave cachimbo de milho (o que pode significar que abandona, até ver, a vida olímpica e segue uma outra, humílima via). Vá por onde for, que seja permitido ao Reboliço continuar a segui-lo.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

"Sinais de fogo, os homens se despedem"

(O Reboliço escuta, outra vez, as vozes do Rodrigues e do Jorge, no quarto da pensão da Figueira, quando o primeiro conta da descoberta do mundo.)
"Eu julgava que o mal era uma coisa que havia em mim, uma raiva que me enchia, uma miséria que cobre toda a gente. Mas agora sei que não é. Não está dentro de mim, nem me enche, nem cobre todos. Não existe. Estás a ouvir? Não existe. E, se ele não existe, como posso eu adorar seja quem for que me salve? Não há de que salvar, não há quem salvar, não há quem salve. Não existe.
- Então o que é que existe?
- Tudo o que não tem importância. Só o que não tem importância existe."
(Jorge de Sena, Sinais de Fogo, ed. Asa, p. 223.)

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Uma elegia

A CHUVA JOGA À CORDA NAS JANELAS DE MAPUTO, MEU CARO BB
Não sei se foi de mansinho ou se o biltre
do anjo te levou na canastra. Mas não cheguei
a contar-te o flash-back com o meu tio linotipista 
que ao megafone te chamava, “pede-se a presença
no refeitório do bandarilheiro Armando!”. 
Quarenta anos depois, em entrevista
que te fiz, ébrios como aqueles centauros
que se mergulhavam no mel, segundo o Plínio,
descobri-te humilde, inseguro, ansioso
por confidenciares que tomavas o teu romance
por uma bodega – ou menos nutrido que qualquer bodegón 
de castiço andaluz – e que a vida tem sótãos &
armadilhas para os bandarilheiros que anseiam
tornar-se "matadores". Também eu, também a mim,
meu querido Armando (no 25 de Abril estava
a tentar safar o couro do açougueiro Dias 
– atraía-me filha, a justiça não usava rímel ¬-
em risco de ser linchado porque, clamava a turba,
oferecia os piores chouriços aos nossos libertadores)
me calhou descobrir aos cinquenta e oito
que a poesia simplesmente me evadia do trabalho físico
e que a escolhi contra os cem metros obstáculos
ou o Cristo nas argolas e na mira de que ela obtivesse
junto das miúdas o efeito hílare do papagaio
que repetisse “o mangalho”em trinta e duas línguas.
Se depois melhorou (o que eu duvido) 
foi porque a caneta exercida a (torr)esmo
pode vir a pesar tanto como o arado
que sulca a terra pedregosa e ai o alheado labor
do espírito desata a transpirar
e topa que lhe aderiram à lâmina detritos de osso,
nódulos de sangue e as garatujas em sémen
de cães que se imitam na fosforescência
e rabiam em círculos num truncado horizonte de sílabas,
pelo fito vão de lamber a própria piça
ao primeiro espanejar do vento
nas asas do anjo. Nada
de muito dignificante, meu caro, cacos
peneirados na rede da astúcia,
mais vaidade que polpa
no momentâneo trajecto entre os astros.
Desta vez atingiu-te a cornada e pressinto
que dispensavas ter já o céu por vizinho,
pois preferias o riso, o escandido relance
da vizinha que te media o papillon;
sentires que a tua voz cava
subia ao terraço para te indignares com palavras
que atiravas como brasões à multidão.
Partilhámos algumas garrafas, trocámos acenos
e ouriços (o fado e outras despercepções
nos separavam) mas a maldita usura
do tempo… igualou-nos.
A chuva joga à corda nas janelas de Maputo,
e, arreliado, ouço o baque-baque
das bátegas a acordar o tique-taque
que me constela as veias.
Isto anda tudo ligado, diria o Guerra Carneiro,
outro iracundo capaz de uma gentileza milenária.
Chove nas vidraças, certamente um breve
aguaceiro, como tu, como eu, como nós,
os encanzinados que tristemente
não chegam a integrar o cartel dos "matadores".

António Cabrita
(Publicado no seu mural de Facebook em 11-05-2017.
A lembrar Baptista-Bastos, falecido dois dias antes.)

domingo, 7 de maio de 2017

O Reboliço é um nefelibata (95)

CANÇÃO DE MAIO

Em certos dias maio
é um touro de chuva
e o lume dum raio
atravessa uma nuvem

Porém rapidamente
acaba a trovoada
e uma névoa quente
sai da terra molhada

Em terra corre o touro
que de maio é o signo
e de tarde o besouro
ao calor zune estrídulo

Num muro branco voga
paciente o caracol
como alguém que se afoga
num mar com muito sol

Gastão Cruz, Rua de Portugal, Assírio e Alvim, 2002, p. 33.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Rosetta

(Imagem do écran: Reboliço, a ver nele a praia de um escuro mar.)

Há muitos, muitos anos, o Reboliço ouvia falar sobre uma "pedra de Roseta," espécie de talismã de historiadores e linguistas. Aparecia como coisa mítica, de que só conhecia imagens, más reproduções - nada que chegasse à magia do nome, que o fazia associar rosa e pedra numa mesma sequência. Depois veio a vê-la no museu. Hoje pode vê-la quando quer: passar como se fosse o dedo pela superfície, aproximar como se fosse o olho para melhor ver como se fossem aumentadas as incisões que nela existem. Tacto, olhar, converge tudo, por cablagens misteriosas e mágicas duplas numéricas, para a tela de um bendito, magnífico computador.

terça-feira, 2 de maio de 2017

"casa fechada"

depois, de uma caixa de laca tiraste retratos
amarelecidos, tua mãe, de cabaia, numa festa,
os tios viajados, sorridentes,
num país invernoso, com chapéus.

passeios de domingo, tua avó contigo ao colo,
solenes casamentos, parentes de nomes esquecidos,
com folhos  laços a multidão das primas.

nas paredes da casa tantos anos fechada
fenece o papel ingénuo com grinaldas 
brinquedos, a espada do bisavô, o copo de prata,
o travesseiro de faiança, tudo me mostras.

como num sonho choro com as pontas dos dedos,
inventariando o teu bazar de mágoa.


(Fernanda Dias, Rio de Erhu, Fábrica de Livros, p. 30.)

sábado, 22 de abril de 2017

"Faro, 1952"

O café, do outro lado a livraria
essa a meta da tarde
quando esfria a pele sem que
frio fique o dia,
as linguagens regressam às cúpulas
de folhas
e os treze nocturnos ainda nos esperam
sob o inerte
torreão do fim da infância,
escutaremos alguns
no pobre piano íntimo, o sexto
repetido como alma dos
dias,
percorremos a rua
até onde entra nela a aragem da ria,
e o café dum lado, do
outro a livraria,
à porta o chapéu largo e a barba
branca
dum poeta do passado
Gastão Cruz, Rua de Portugal, Assírio e Alvim, 2002, p. 31.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Moinhos na poesia (83)

...
com os profetas dando às costas e aos desertos
síria não perdeu a fome
os estrangeiros que vieram     fosse de onde fosse
foi para que os de cá enfunassem mais tarde as caravelas
deitassem ao vento os moinhos de quixote
as invasões soltaram os predadores
para seguirem     de cristo ao peito     o trilho das especiarias
sem as malhas prateadas dos guerreiros médios
ei-los
que foram ao saque
à conquista do pavor dos conquistados
autos das barcas se fizeram aos mares com ouros na volta
e dos reinados     dos senhores reinadios     ficaram os castelos
e o eco das heráldicas
dos ourives ainda se fala e dos ornatos de manuel nos pelourinhos
as calçadas desaguando em naus flutuando com primor
entre os guinchos de cordame e papagaios
...

Abel Neves, Úsnea, Averno, 2015, 57.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Moinhos na poesia (82)

RECORDAÇÃO

O Nordeste sopra,
O mais querido entre os ventos
Pra mim, pois promete fogoso
Espírito e boa viagem aos navegantes.
Vai pois agora e saúda
O belo Garona,
E os jardins de Bordéus
Ali onde na margem escarpada
Segue o atalho e para o rio
Lá baixo cai o regato, enquanto em cima
Contempla um nobre par
De carvalhos e choupos argênteos;


Ainda me lembro bem, e como
Inclina os largos cumes
O bosque de olmos, por sobre o moinho,
Enquanto no pátio cresce uma figueira.
Em dias de festa vão
As mulheres morenas por ali
Em chão de seda,
No mês de Março,
Quando a noite é igual ao dia,
E por sobre os atalhos vagarosos,
Pesadas de sonhos dourados,
Passam brisas embaladoras.


Mas que me dê,
Cheia de luz escura,
Alguém a taça cheirosa,
Que eu possa repousar; pois doce
Seria entre sombras o sono.
Não é porém bom
Sem alma ser de mortais
Pensamentos. Mas é bom
Conversar e dizer
O que vai no coração, ouvir muito
De dias de amor,
E de acções que acontecem.


Mas onde estão os amigos? Belarmino
Com o companheiro? Muitos
Têm receio de ir à fonte;
Pois é no mar que começa
A riqueza. eles,
Como pintores, ajuntam
O belo da Terra e não desdenham
A guerra alada, e
Viver solitário, anos a fio, sob
O mastro sem folhas, onde não iluminam a noite
Os dias de festa da cidade,
Nem a lira nem a dança nativa.


Mas agora foram pra os Índios
Os homens,
Além no cume alteroso
Junto aos vinhedos, onde
Desce o Dordogne
E juntamente com o soberbo
Garona largo como um mar
O rio acaba. Mas o mar tira
E dá memória,
E o amor também prende diligente o olhar.
Mas o que fica, os poetas o fundam.

(Hölderlin, Poemas, Prefácio, selecção e tradução de Paulo Quintela, 2ª edição revista e muito ampliada, Atlântida. Coimbra, MCMLIX, 381-385. Composto provavelmente entre 1803/04, e publicado pela primeira vez no anuário de poesia de Seckendorf de 1808. Muito obrigada, Ana & Isabel!)