Sexta-feira, 24 de Maio de 2013

Moinhos na poesia (42)

Os poemas que escrevo
são moinhos
que andam ao contrário
as águas que moem
os moinhos
que andam ao contrário
são as águas passadas
(Adília Lopes, Obra, Mariposa Azual, 2000. Obrigada, Marta.)

Quarta-feira, 22 de Maio de 2013

O Reboliço é um nefelibata (82)

(... que contempla as nuvens, também, pelos olhos dos amigos. Foto do moinho e da nuvem ao longe: Liliana Navarra; foto do moinho e da nuvem mais perto: Ana M. Ferraria. Sem saberem uma da outra, passando ontem uma perto de Peniche e a outra ao lado de Odemira, e vendo estas maravilhas, alembraram-se, as maravilhosas, do Reboliço. Dispararam, amandaram, o Reboliço emocionaram. Muito agradecida.)

Terça-feira, 21 de Maio de 2013

Oh...

(Não recordo bem o que terá cativado mais o meu fugidio pensamento, enquanto lia, no livro que a Assírio editara e que há pouco recuperei, como se tinham conhecido Jim Morrison e Ray Manzarek; como tinham passado uma aluada noite numa praia que me era nome só, nome de um lugar que nada era, também, além disso. Seria "Venice", seria a lua, aquele nome estranho, "Manzarek", a descrição de uma conversa de dois homens em espanto ou embriaguez, na areia da praia de "Venice", a falar do que significa o entendimento, a percepção das coisas. Era pouco importante, foi sempre pouco importante que aquilo viesse a dar uma banda, que essa banda se fizesse famosa, que as músicas se entoassem e rodeassem muito do que via e ouvia. A lua sobre "Manzarek", em "Venice", foi a imagem que retive, que não voltou a desaparecer.)

Domingo, 19 de Maio de 2013

O Reboliço colecciona calendários (29)

(Foto da colecção de 12 calendários de bolso, com imagens de pássaros da fauna portuguesa, feitas por Fernando Batista: Reboliço, muito agradecido à mana mais linda de todos os lugares onde há pássaros que voam e insectos e outros animais e minerais e vegetais e ar rarefeito também.)

Sábado, 18 de Maio de 2013

O Reboliço colecciona calendários (28)

(Foto, fraquinha, fraquinha, e disfarçada a fraqueza com moldura e efeitos de luz e sombra e pinhole e tudo: Reboliço, a comemorar dois anos da Livraria Miguel de Carvalho, no Adro de Baixo da Lusa Atenas, lugar onde bem vivem muitos e belos livros e belos quadros e mais ainda aquele calendário que cobiça.)

Sexta-feira, 17 de Maio de 2013

O Reboliço colecciona calendários (27)

Conforme diria a Dona Rita Lee, Oh - My - Goshi. O reboliço empina-se nas patinhas de trás, acena com as da frente, faz piruetas, vai de um lado ao outro da cozinha, corre e pára, pára e corre, a ver se alguém, alguém, lhe vê a aflição e o presenteia com o dito cujo objecto de desejo.

Quarta-feira, 15 de Maio de 2013

Petite histoire illustrée

(Dezenho do mundo de F., a quem o Reboliço munto agradefe.)

Era uma vez um coelho-lebre disfarçado de ratazana satisfeita. O coelho-lebre disfarçado de ratazana satisfeita nunca estava satisfeito. (Era ele e o anjinho Plum, que em infância do Reboliço se chamava Plúm, com pronunciado acento no "u", e depois, agora, se percebe que nada mais seria do que anjo com nome de quase plüma, ou, vá lá, de ameixa. O tal anjinho Plum é que nunca estava satisfeito.) O coelho-lebre disfarçado de ratazana satisfeita passava a vida a cheirar o ervaçum, de cabeça baixa, as compridazorelhas descaídas e o pêlo sem graça nenhuma. Nem dava conta de passarem por si outros bestiais animais a si iguais. Era farejar, farejar, andar, andar, e pouco parar. Um dia, passou por ele um animal bestial - que não identificou, pois olhá-lo mal lhe olhou -, que vinha a ser uma animala, de nome Epifânia por que alguém em alta voz chamou. Nesse momento, e ouvindo vozeado o nome, o coelho-lebre disfarçado de ratazana satisfeita, que demonstrara, além da estima baixa que possuía, deter fraco entendimento da acentuação palavreira, teve a mal dita cuja, e desatou a subir muros, como os gatos, ao invés de.

Segunda-feira, 13 de Maio de 2013

"E eu penso assim, 'São quatro e meia, falta meia hora para o Sr. José Candeias', e fico bem."

O Reboliço acorda do primeiro sono e põe-se a ouvir o rádio da Antena1. Ouve a Dona Maria Luísa: tem 85 anos e dorme o que dormem as pessoas que têm 85 anos e acordam antes ainda de se começarem a mexer as formigas e as abelhas e os pássaros. "Então não se recorda de mim, Sr. José Candeias? Olhe, lembra-se de lhe ter eu dito que ia numa excursão à Terra Santa?" "E foi, Dona Maria Luísa?" "Pois fui, Sr. José Candeias, fui lá, vi tudo, tudo, tudo." "Então e diga-nos lá de que é que gostou mais, Dona Maria Luísa." "Olhe, Sr. José Candeias, vou dizer-lhe que aquilo de que mais gostei foi da oliveira, aquela onde Jesus esteve quarenta dias, sabe? Estavam lá dois sardões a brincar - ai, gostei muito." O Reboliço escuta, imagina a Dona Maria Luísa, de Barcelos, cabelo arrumado, os sapatos de salto a acusarem os joanetes, o braço dado a outra companheira de excursão, a ampararem-se as duas uma na outra nas benditas terras, e, quando dá por si, fala já o Manuel Beirão, operário na obra do canal do Panamá, português a trabalhar numa empresa espanhola, "que ouço todas as noites, aqui pela Internet, e gosto muito, Sr. José Candeias." É sonho que sonhas, Reboliço, com tanta gente dentro?

Domingo, 12 de Maio de 2013

Hashtag America


When your school friends start having kids of their own they’re too grown for sleepovers smoking cigarettes like red vine we’re drinking red wine out of sippy cups and we are all growing up in different directions got facial hair and dreadlocks nose rings and pregnancy scares we just can’t seem to keep our hands off of each other’s business so we grab fistfuls of tantrum and throw them into the sun hoping these back-lit highways help us forget where we came from I have seen good friends fall for bad women the closest excuse I’ve ever heard of for drinking sounds an awful like burying love like marrying for love sounds an awful lot like too much responsibility so keep you keepsakes to yourself theres no secrets here you want it take it there’s nothing sacred hungry eat it no need for permission we’re all just broken people trying to keep from getting forgotten about so we run wherever the waves are breaking spend our youth chasing foxtails and pretty skirts lighting fires to blow up dresses we’ve burnt down more princesses than a boy scout with a nicotine problem but we get burned lesson learned so we burn our first names into palms of past lovers write poems on the mile markers of highways and toss our high school diplomas into the ocean because we all know what it feels like to come from privilege welcome to America we bleed in red white and blue vintage and rugged individualism we love factory workers and We Can Do It M-16s and the 4th of July we try to hide behind the lies of Peter Pan but we don’t want to grow out of our hand guns so we hand them to our fathers say “We don’t pull triggers anymore” pretending we are worth our weight in adventure we are both World War II survivors and Vietnam protestors we hate our government but love our country so we burn our flag to hide our Bibles in its smoke rings and we’ve been blowing halos of discontent down Route 66 and badmouthing every town we rub our lips against we are not some retro makeshift bohemian kissing booth for the upper middle class to write home about not a dialogue box to be exaggerated over cocktails we do not own bodies without holes in them we all have different reasons for the holes in our knees some from writing prayers and others from answering them we have fallen in love with an era we were not born to so we photoshop our photos to look older and vintage weathered and worn from make believe years in shoeboxes, top dresser drawers and tucked into wartime helmets keepsakes from a time before we had lived lives worth the photographs we are nothing but fake patriots and hippies without Hendrix we like the good ol’ days and Levi’s Denim Old vinyl and Bob Dylan we’re making villains out of growing up so we’re throwing up peace signs smoking peace pipes like the Native Americans for some stupid reason I am so proud to be Native American even though my skin tone reads like plagiarism I still cite it in my bone structure know nothing of their struggle and everything of their feathers we love to pick pocket cultures we are fond of and some days I want to wrap my last name in smallpox just to remind myself I am a part of something bigger than this country’s youth tragedy or movement as long as the earth is willing to straighten our her spine we will dance with her even if the sparks are self-made righteous we will write to it spread your holy skeleton across the teeth of God dare him to whisper shadow chaser, you are worth more than where you came from you are not your grandfather’s shotgun nor your grandmother’s garden you are a house fire without a name, a freedom fighter’s wet dream he knows you best when he cleans himself a cold shower has a way of reminding of who you have been and of the bodies you made caskets out of I can no longer lie in your bed without checking for a pulse six weeks sober is just long enough to get thirsty again please do not get thirsty again we are all both a first born and a biggest regret we make all of our own mistakes I would not ask you to bury your nations dead only your own we have forgotten how to live without pictures to prove it life only happens when it gets tweeted people are dying 140 characters at a time we filter everything like it’s 1975 tag me “Patriotic” #America @afraidtoactyourage sounds a lot like growing up.

(Há pouco mais de um ano,  Alex Sparks publicou estas palavras no seu Tumblr. Há dias, leu-as no seu YouTube. Trata-se de uma certidão de nascimento, de pontuação incerta e quase ilegível, onde se regista que a sua mãe foram Sharon Olds e Joan Baez, o seu pai todos os maridos delas e os filhos, o seu avô o velho de olhos verdes que inventou a ciência do amor. Desconhecem-se outros parentescos. O testamento foi lido e contestado. [Obrigada, M.])

Sexta-feira, 10 de Maio de 2013

O Reboliço é um nefelibata (81)

(Foto: Debout sur L'Oeuf, na Foz do Mondego.)


Um muro de nuvens densas
Põe na base do ocidente
Negras roxuras pretensas.

Com a noite tudo acaba.
O céu frio é transparente.
Nada de chuva desaba.

E não sei se tenho pena
Ou alegria da ausente
Chuva e da noite serena

De resto, nunca sei nada,
Minha alma é a sombra presente
De uma presença passada.

Meus sentimentos são rastros.
Só meu pensamento sente...
A noite esfria-se de astros.

(1-5-1929 Poesias. Fernando Pessoa. [Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.] Lisboa: Ática, 1942 [15ª ed. 1995]. 116.)

Quarta-feira, 8 de Maio de 2013

Das Imagens em Movimento

(Foto da capa de O Cinema e Como é Feito, de Frank Manchel, ilustrado por Kelly Mark, obra de 1968, publicada originalmente em New Jersey e traduzida por Maria Cecília Vaz para as Edições Despertar, Porto: Reboliço, a aquecer os motores.)

Sábado, 4 de Maio de 2013

Moinhos na publicidade

(Cartaz de propaganda turística, com desenho de OSKAR - Óscar Pinto Lobo -, possivelmente do anuário Portugal, País de Turismo, possivelmente de 1963. Merci, Michel!)

Domingo, 28 de Abril de 2013

Post dedicado


Quando se viveu muito tempo sozinho
e o tordo-eremita chama e se ouve a resposta,
e a cabeça da rã-touro, de fora da água, murmura
as cantilenas que cantou na Primavera inicial,
e a serpente se agacha sobre o umbral,
a arrastar-se entre as pedras, vê-se bem
que todos vivem para se unir aos seus iguais, e sabe-se,
depois de muito tempo sozinho, de muitos passos andados
longe dos seus, guiados para estes outros reinos,
que a dura reza que o canto de si contém
é para o regresso, quando se puder, de volta aos seus,
um mundo quase perdido, no exílio que se adensa,
quando se viveu muito tempo sozinho.

(Galway Kinnell, "9", in New Selected Poems: Galway Kinnell, Houghton Mifflin, 2000.
Tradução minha, a partir daqui.)

Castanhada no moinho de Daudet

Na secção dedicada aos livros, o Nouvel Observateur dá conta de uma celeuma em volta e às voltas do moinho onde Alphonse Daudet terá escrito as celebérrimas Cartas (que dão nome a este lugar, este aqui). Não se entende o proprietário com o Presidente do município de Fontvieille e o dito cujo (dito também, na peça, de Saint-Pierre ou de Ribet) está fechado ao público desde Dezembro de 2011. O Reboliço acha graça a ler sobre o moinho "de farinha e de mitologia".

Terça-feira, 23 de Abril de 2013

Amanhã, Montale!

Paanajärvi

O Reboliço pensa: "Queria ir a Paanajärvi outra vez. Fazer as mesmas voltas na terra, tocar os mesmos troncos descascados que os homens dispunham, colados entre si por musgo seco para fazer as paredes das casas, ouvir o mesmo desafinar de fios de harpa, fios de arame esticado sobre a bétula, sobre os joelhospolvilla - como os rapazes que sobram." É um cão: tudo lhe esquece muito depressa.

Domingo, 21 de Abril de 2013

Seria tão lindo encher a sala até sair por fora.

(Clicar sobre a imagem para a ver maior.)
O Reboliço e a Luca pousam no parapeito da varanda as patas da frente. Deixaram a cozinha aos latidos dos três cães dos quintais vizinhos e à guincharia de gatos e folhagem maltratada, foram testemunhar.
- Pois se o Janeiro já passou, Luca.
- Digo-te que aquilo é arrufo de gato e gata. Quase em nada se matavam, tu não viste?
- Bem os ouvi. Mas era luta de rivais.
- Ateimo que não, Reboliço: ouves como este mia de choro? É gata ou gato com cio, que o outro, nem meia. - O gato que ficou estira-se sobre um muro, parece dolorido, não cessa o lamento. Espaça cada miado com o cerrar dos olhos, alongar de focinho e agitar de orelhas. A cauda, para um lado, para o outro, denuncia a ira que o choro quer disfarçar.
Vai-se acalmando a selva das traseiras dos prédios. Entre as folhas altas da couve, os jarros balançam pouco; os cataventos de plástico, são cinco, que o vizinho dispôs, nos extremos de cinco canas, ao longo do quintal do rés-do-chão, rodam devagar, todos no passo igual e lento ao ar morno da tarde.

"strong and companionly (...) useful"

Stag's Leap, o salto de corça do ex-marido de Sharon Olds, que lhe fez ganhar - a ela - o Prémio T. S. Eliot (da Poetry Book Society) de 2012, amplificou-se e deu-lhe - a ela - dia 15 deste mês, o Pulitzer de Poesia  (Universidade de Columbia). Para contrariar o que diz a própria Sharon Olds: não é a poesia que é útil; são os divórcios.
(Aqui se verteu para língua portuguesa um dos poemas do livro;
é daqui a responsabilidade por muitos erros de leitura, cometidos,
mais grave ainda, no aniversário de um poeta.
Obrigada Marta, Luís Manuel, Miguel e Ricardo - sem sabermos, estavas certíssimo!)

Terça-feira, 16 de Abril de 2013

Ode


Não como trigo
e uso as cordas do violino
à volta do pescoço, não vá precisar delas

A neve vem das montanhas
eu fico-me como as flores
é um poço de elevador esta ilha

Uma canção de embalar descreve o maná
e como está distante tudo o que é bom
a música também

e chora quando não estou
como se as crianças carregassem o fardo
do meu incessante cantar

Oh coração descrito
estão a empurrar-te para fora da existência
com um inchaço misterioso

Os homens são anjos

(Frank O'Hara, Nova Iorque, Julho de 1954)

Segunda-feira, 15 de Abril de 2013

Moinhos na poesia (41)


                                                               Ao Fialho

Um resto de restos, babando mágoas
de intrigas em roda da ruína de si mesmo,
como um vento estúpido, sem história
nem destino, rondando às portas inúteis
onde bate a medo e ouve o medo bater.
Recolhe asas de moscas mortas e anuncia
as velhas desgraças às velas dos moinhos
destroçados que vai movendo. Não conserta
nada nem deserta, apenas fica de volta
como uma voz sem língua nem dentes.
Faz das frestas a sua torpe garganta, e,
sem música nem sangue, é apenas um
músculo daninho, servindo-se dos muros
vizinhos para se elevar. Sem corpo ou
caminho, não passa de um túmulo no ar.

Domingo, 14 de Abril de 2013

Um saco de lã

(O Reboliço olhou para a imagem e pensou: "Estou a olhar para um saco cheio de lã por cardar." Chegou à cozinha, sentiu o cheiro da lã, o cheiro hidratado da lã, e avançou até de onde o sentia. Tem o corpo baixo, precisou de subir o focinho e de baixar, com ele, o rebordo do saco. Espirrou uma vez, outra e terceira, depois de ter inspirado para farejar. Bastaram-lhe os três espirros. Regressou. Com uma das patinhas da frente baixou mais o rebordo e sacou para fora uma nuvem. Ficou o dia todo a olhar, a mexer-lhe, a cheirá-la, a brincar com ela. Sentada na cadeira pequenina, por baixo da janela por onde o sol entra, a mãe jogava a mão ao saco, puxava, mas para cima, para o colo, pedaços de lã, que ia abrindo com os dedos todos para fazer das mancheias grossas fiapos fininhos, sem impurezas, quase diáfanos. Depois dava-os à fronha de linho, aberta ao lado, que haveria de fechar para formar uma almofada. Foto das nuvens no céu: @macguffinevora. Obrigada.)

Sábado, 13 de Abril de 2013

"A pergunta do mar"

O mar pergunta: "Como está agora a tua vida?"
Pergunta obliquamente, a mudar de cor.
Nunca é o mesmo a cada visita.

Nunca é o mesmo em nenhum particular
Só nas generalidades: marés, coisas assim
Altura e recuo das ondas, seixos que marulham.

Não presume vestir bata branca
Mas faz perguntas como um psicólogo
Nos passos que dás ao longo do seu longo sofá.
(Elizabeth Smither, The Sea Question, 2010. Traduzido a partir daqui.)

Terça-feira, 9 de Abril de 2013

O bardo. (O mais novo.) Amanhã.

(Still do clip de Subterranean Homesick Blues,
de D. A. Pennebaker, parte inicial
do seru filme Don't Look Back, de 1965.)


Livro de pano e linha

(Foto dos versos e do jarro, numa das muitas páginas do livro inscrito a linha sobre pano por Luzia Candeias: João Candeias. O filho. Da Luzia das Candeias, que por ser Luzia alumia mais vezes ainda.)

Quarta-feira, 3 de Abril de 2013

THE SKY'S GONE OUT


No future, just a little past.
Sim, até os punks podem ter saudades.
Regressavam ao esmo de uma
obscura cidade da Alemanha
e não encontravam o Gingão,
o Gráficos, o Esteves da taberna homónima.
Também não encontravam, claro,
o fulgor bêbedo dos quinze anos
(fenómeno bastante natural).
Raio de povo este, que nem ao futuro
consegue pôr os cornos,
injectado de pavor e de memórias.

Não,
não é feliz aquilo a que chamamos noite.
Os mais jovens (e mais estúpidos) substituem
distraidamente aqueles que a idade
tornaria ainda piores. "All we ever got
was cold" - não duvidem.
O Esteves, por exemplo, nunca
ouviu falar do parente literário
que talvez tivesse sido dono de uma tabacaria.
Preferia segurar a porta nos ombros
de betão armado e sacudir a cinza, desconfiando
sempre dos novos guerrilheiros urbanos.
Nenhuma navalha o matou; atropelado na aldeia,
acedeu em trespassar sabedoria e esquecimento.

Outro caso de que me lembro: o do Manel
do Estádio. Não sei, aliás, como enterrá-lo.
Morreu como ninguém morre,
faltou-me todo inteiro numa tarde de Novembro.
Chegou de um Norte qualquer, o meu Manel
somente, e trouxe menos fundura ao poço
da minha e de tantas outras vidas.
Só foi pena ter doído assim a última cerveja,
no maior desconhecimento de me estar a despedir.

Batemos a portas fechadas, sentimos nos ouvidos secos
a penumbra de um vinho impartilhável.
E é, afinal, tão simples: destronada a música,
ninguém ousará sequer convidar-nos para dançar.
Que nos murassem as certezas, estava bem.
As dúvidas, contudo, deixaram de ter onde nos ferir.
Olhos impávidos vêem o cão da noite recolher-se,
abrir por curiosidade as veias, saborear a derrota.
"All we ever wanted was everything" - mas
deram-nos sopa de nada, restos num prato vazio.

(Manuel de Freitas, A Flor dos Terramotos, Lisboa, Averno, 2005, pp. 48-49.
Hipsta-foto da contracapa de Tabernas de Lisboa, livro com fotografias de
Luís Pavão e texto de Mário Pereira, Lisboa, Assírio & Alvim, 1981: Reboliço, sedento.)

Segunda-feira, 1 de Abril de 2013

Moinhos na poesia (40)


(Poemas de Vicente García-Huidobro Fernandéz; a partir do blogue das edições 50Kg.)

Sexta-feira, 29 de Março de 2013

Há oito anos...

... a Sexta-feira Santa foi dia 30 de Março; o Sábado de Aleluia a 31 e o primeiro de Abril calhou ser o Domingo de Páscoa. Escreviam-se aqui as primeiras cartas, ainda o Moinho não estava o brinco que hoje está; o Reboliço já assomara, mas timidamente. Timidamente.

Domingo, 24 de Março de 2013

Para registo futuro

(O Reboliço não é do clube dos sportinguistas. Não lhe interessaram, por si, as eleições que parece que houve. Não é de clube nenhum de bola - quando lhe perguntam por quem é, aliás, responde, já o disse, que é pelo Ferróbico. Nem é coisa que muito lhe interesse, o futebol. Já a escrivação é outro assunto. Ora, existe uma alma que, "feliozmente", escreve que se desunha [quando escreve] e que, "infeliozmente", se desunha a apagar o que escreve. Contra o furor do olvido, é contra esse furor que o Reboliço torce e muito se amolga.)

A vitória de Bruno de Carvalho nas eleições para o conselho directivo do Sporting Clube de Portugal representa a recusa dos seus sócios e adeptos em assistir à degradação, corrupção e eventual aniquilação do clube segundo os moldes que até agora nos foram propostos. Soubemos, feliozmente, optar por uma decadência digna: teremos como presidente um dos nossos, um gajo que vive o clube disparatadamente, e não segundo o filtro do lazer, do passatempo, da "experiência nova", do conforto, do camarote bem posicionado e do diletantismo aristocrata (e nem vou entrar pelo lodo dos "interesses"). Não se trata apenas das estupendas burrice e estupidez dos mandatos de Bettencourt e Godinho, ou do lirismo idiota simultaneamente serôdio e futurista de Dias da Cunha ou Soares Franco; no desporto, sabemos que a distância entre competência e incompetência depende de uma distribuição de factores e condições em grande parte incompreensíveis ao edifício lógico, mais próximas da irregularidade caótica do bom-senso, da intuição e de uma sensibilidade especial com a alma humana e com a passagem do tempo; para nosso prejuízo, o sportinguista é um ser conhecedor e compreensivo com a inverosimilhança da realidade desportiva, especialmente quando a camisola é às riscas verdes; mas o que o sportinguista tem direito a exigir, e nestes últimos anos quase que nos roubavam essa derradeira dignidade, é de sermos nós a cair. Há década e meia pegaram no nosso clube e viajaram com ele para um local tão distante do adepto que quase nem nos sentíamos legitimados a sofrer: o "modelo de negócio", a "estrutura", o "projecto empresarial", "plantel profissional do sporting", ou a puta da "SAD" e os seus esotéricos comunicados à "CMVM", foram entrelaçando-se numa impenetrável malha de sujeitos a quem cabiam as responsabilidades de cada derrota, que nos substituiam na humilhação, que se envergonhavam por nós de cada vez que o Gelson Fernandes enviava um centro para trás da baliza. O mais grave da transformação do sportinguista de actor do que se passa em campo, para mero espectador de uma coreografia desportiva subsidiária de "modelos gestão", não será tanto a consequente dormência e anestesia, mas algo que argumento poder ser mais profundo: o estabelecimento de uma distância definitiva em relação à própria responsabilidade de sentir culpa, vergonha, raiva ou ódio. Durante os últimos anos o sportinguismo percorreu a quase totalidade da estrada que, no seu fim, inocenta o adepto de desenhar uma intimidade particular e privada perante o que sucede no campo de futebol, por mais corrupta ou infiel que nos pareça à identidade que imaginamos propriamente sportinguista. Para mim, isto não tem perdão; a alma pode ser recuperada tantas vezes quantas as que a percamos, mas se abandonarmos o instinto que nos informa da utilidade de demonstrar vontade colectiva, e onde é que devemos procurar para a encontrar e mobilizar, então sucede algo pior que a morte: o esquecimento; e se calha a esquecermo-nos de que estamos mortos, então, meu amigos, então não há zeus que nos salve. Na eventualidade provável de Bruno de Carvalho não ser a nossa redenção (já nem sonho com a glória, só com o perdão), contudo levar-nos-à por caminhos que inevitavelmente nos recordarão o que seria necessário, na posse da sorte e da força que antes demonstrámos, para voltarmos a ser o que nos criou.
(maradona. Com data de hoje.)

Sexta-feira, 22 de Março de 2013

Oh...

Obrigada. Muito obrigada.

Quinta-feira, 21 de Março de 2013

"Sono nata il ventuno a primavera"

Nasci a vinte e um na Primavera
mas não sabia que nascer louca,
abrir na terra torrões
pudesse soltar a tempestade.
Assim a delicada Prosérpina
vê chover sobre as ervas,
sobre o grado e gentil trigo
e chora sempre de noite.
Talvez seja a sua oração.


Alda Merini (de Vuoto d'amore, Einaudi, 1991)
Tradução, muito custosa, muito custosa: Ana Isabel Soares e Angela Gallus.

Quinta-feira, 14 de Março de 2013

O Dia Mundial da Poesia é só para a semana.

O Reboliço, apesar de tudo, gosta de se preparar. Sobretudo se lhe oferecem, assim dadas, horas de bónus na vida. Por isso dispõe à sua frente três perfis: dois escritores e um leitor. Tudo poetas.

Quarta-feira, 13 de Março de 2013

"O dinheiro para dois pães compra um pão e uma rosa."

Ou: "Acabaram os temas, venha a realidade."
O J-A tem nova Direcção. Parabéns ao André Tavares e ao Diogo Seixas Lopes - vida longa, muito ânimo.

Rejubilemos!

Sim? E, enquanto não há fumo branco sobre se o bardo estará ou não presente num certo e determinado momento de refeição do corpo - que não da mente, que essa permanentemente tem alimentada - vamos lendo, de lusamente ler, o que quis dizer em "Long and Wasted Years". Sim?


Passou tão longo tempo
Desde que nos tivemos amor e almas verdadeiras
Houve um dia, um dia breve, em que fui o teu homem

Ontem à noite ouvi-te falar enquanto dormias
A dizer coisas, minha querida, que não deverias
És capaz de ter de ir presa, um destes dias

Haverá um lugar aonde possamos ir?
Alguém que possamos visitar?
Talvez seja contigo igual ao que é comigo

Não vejo a minha família há vinte anos
Coisa difícil de entender, às tantas já estão mortos
Perdi-lhes o rasto desde que perderam a terra

Agora ginga, querida, berra e dança
Já sabes do que se trata
Seja como for, o que fazes aqui ao sol?
Não sabes que pode dar-te cabo da moleirinha?

O meu inimigo afocinhou no pó
Caiu morto na estrada e perdeu o brilho
Foi brutalmente atropelado, ficou espatifado
Morreu em desgraça, tinha um coração de ferro

Uso óculos escuros a tapar-me os olhos
Há ali segredos que não consigo ocultar
Anda cá, minha querida,
Olha, e desculpa lá se te ofendi, sim?

Dois comboios vão lado a lado, quarenta milhas de distância
Descem a linha do Oriente
Não tens de te ir embora
Só vim ter contigo porque és minha amiga

Acho que enquanto estava de costas
Atrás de mim todo o mundo ardia
Já passou algum tempo
Desde que atravessámos aquele tão longo corredor

Chorámos era uma manhã gelada e fria
Chorámos porque se nos despedaçavam as almas
Lá se vão as lágrimas
Lá se vão estes longos, anos perdidos

(Bob Dylan, in Tempest, 2012. Trad. Ana Isabel Soares.
Sobre o disco, escreveu Aldo Mazzucchelli "Mercurio en el barro".)

Terça-feira, 12 de Março de 2013

"Já que o ritmo continua, seja o filho avô do pai"*

(É amanhã, atenção. E a Marina é A especialista em Cendrars.)

*Versos de "Os Loucos Estão Certos," o que é mais que certo.

Uma fartura

- Então, esses poemas escreveu ela quando se separou?
- Pois foi, Luca. Mas uma separação é o menos. O bom foi ela ter escrito, e tão bem, a propósito disso. As palavras é que são o mais importante.
- Olha, eu sei. O Mestre Zé Cercas também faz assim.
- Quem?
- Sim, diz que tem uma casa muito farta. Diz "Eu estou farto da minha Maria e a minha Maria está farta de mim." É a mesma coisa.

Segunda-feira, 11 de Março de 2013

Ode Material

Oh!, tule!, oh!, tafetá!, oh!, gorgorão -
Aqui vos convoco, oh moças,
Dos tecidos e da mulher eu canto. O meu marido
dissera-me que talvez me abandonasse - não
tinha a certeza, mas era provável, talvez - e não, não tinha nada
a ver com ela. Oh!, cetim!, oh!,
acetinado!, oh!, veludo!, oh!, filhadaputa do veludo! -
no dia do baile de gala do senhor doutor,
o folclore anual, as rendas,
as redes, disse-me que seria difícil para ela
ver-me lá, a dançar com ele,
se não me importava de não ir. E, como há
trinta anos que o armo,
mais ainda o armei - Arma, Virumque,
serapilheira, bordados a cinza! Ele a vestir
o terno e eu a ver-lhe o
sorrizinho no espelho, enquanto atava o laço;
ao fim de mais de três décadas, ganha-se alguma
afeição pelas pequenas falhas um do outro
e ficava-me bem acreditar que
nada de mau viria a existir entre nós. Metade-
metade, tinha sido o casamento,
metade-metade a sua destituição. E quando ele voltou
para casa e trocou de pele, Leitor,
dormi com ele, a pensar que isso significava
que tinha regressado, que o seu corpo falava por ele,
e enquanto falava, cantava do chão
o seu parente, o velho laçarote. Oh!, seda!,
oh!, novelo!, oh!, casulo roubado. É uma coisa que
a nossa espécie faz, não é,
tira-se o que se pode. Quando não, haveria bichos-da-seda
com caixinhas de pessoas, nas despensas, a produzir
placentas para uso das larvas, haveria
uma vaca que nos arrancaria os filhos
por nascer, e deles faria sapatos para o vitelinho.
Oh!, pijamas de peça única das crianças! Ama quando fores
amado. Oh!, dormideiro de flanela do bebé,
com fatia de tarte de cereja.
Ama só quando fores amado! Oh!, fatinho de recém-nascido
com lagarta a sorrir sobre o coração, é
proibido amar quando não somos amados.

(Sharon Olds, Stag’s Leap, 2012. Trad.: Ana Isabel Soares.
Porque ontem foi dia do senhor, seja ele qual for, seja ele qual for, o Reboliço foi ouvir ler.
Pode ler-se aqui uma das recensões, das muitas, que o livro suscitou.)

Domingo, 10 de Março de 2013

DF. SC. RJ.

(Hip-foto da tabuleta indicativa do lugar onde se está: Reboliço, em trânsito.)

Sexta-feira, 8 de Março de 2013

Contributo acerca e a propósito de palavras e síndrome de palavrosismo em certos e determinados contextos (de e) para- académicos, entre outros semelhantes des- e impropósitos

Escreve-se hoje, no Público (enfim, com um "quando mais não seja", when, oh when...), sobre títulos de teses de doutoramento. Um mundo de encantar, que se junta a encantadoras tiranias.

Quarta-feira, 6 de Março de 2013

Andar - andor

O Reboliço sai do aeroplano e fareja, fareja muito. Esta terra tem um cheiro. Um cheiro será a borracha, será à fruta que o sol e a humidade amaduram? O Reboliço fareja o ar, fareja o chão, as pessoas que passam, as pessoas que páram, cães como ele. De longe, a aterrar, viu o sol em bola brilhante reflectir-se nos espelhos dos prédios de Brasília. Garante que viu uma igreja de Niemeyer com muitos braços levantados ao céu; garante que viu os bairros arrumadinhos, o mato, o paúl e a água. Viu tudo como imaginava quando a M. lhe contava de Brasília. Viu tudo como se lembra de ter visto nas capas de um número da Conhecer, revista que a editora Abril vendia em Portugal nos idos anos de há quatro ou cinco décadas - mas ali eram desenhos destes desenhos. Agora o Reboliço viu, garante que viu, com os olhos que este mesmo sol há-de ver fecharem-se, os desenhos fora do desenho.

Segunda-feira, 4 de Março de 2013

Partidas - DATA ALTERADA


Este domingo (dia 10) - domingo, e não sexta, como chegou a ser anunciado - às 22h, lerei poemas, escolhidos por mim, na livraria Paralelo W. Haverá Silva e Dias. Haverá Assis, Corso e Pasolini. Dylan e Holappa. Por exemplo. A Paralelo W, lugar onde se podem comprar quadros dentro de caixas, broches de enfeitar a lapela, quebra-cabeças e livros de poemas, fica na Rua dos Correeiros, nº 60. É no 1º esquerdo, paredes meias com um salão de cabeleireiro para senhoras. Convenientemente localizada, portanto, apesar de, à hora programada, se suspeitar que a senhora cabeleireira e as suas assistentes estarão sentadas entre a plateia imensa do serão de leitura, e não a pentear a clientela.

Sábado, 2 de Março de 2013

Um gato londrino

O Reboliço acorda a meio da noite, na casa estranha que o acolhe. Desce as escadas (são escadas de madeira velha, corrimãos de madeira velha, e pisa com cuidado para evitar o ranger das tábuas, aqui sim, aqui - ui!, não; aqui mal se ouve, sim) até à cozinha, os olhos fixados no jarro do chá, na água que consolará pele, órgãos, pêlo, tudo desidratado pela ferocidade das máquinas de fazer e de manter calor. Mas no vidro da janela chama-lhe a atenção uma mancha silhueta, redonda grande em baixo, redonda menor em cima: um gato. Está do lado de fora, encostado ao vidro, empurrado contra a superfície aquecida do vidro, colado à transparência quente da janela. O Reboliço estaca, mira, as orelhas subidas, suspende a pata da frente, baixa-a devagarinho, mais cautela ainda do que nas escadas, um olho no gato o outro no jarro, a sede, o temor, a misericórdia. Se se mexe, ruído para a casa, susto para o gato - a noite arrefece. Se não se mexe, ah, a sede - mexe-se, então. Mexe-se a mancha peluda também, a silhueta alaranjada, um Garfield vadio, gordo e de rua, no tempo igual se mexe, mais astuto. O medo é dele, o frio para ele, a noite é à sua volta que se alarga. Mas é o Reboliço que, antes de chegar ao jarro, ao chá, à saciedade, patinha, patinha, patinha, se achega à janela, pousa as patas da frente sobre as costas da cadeira e toca com o focinho do lado de dentro do vidro, os olhos entristecidos pela fuga do gato e cegos sobre o escuro do jardim - "Não tinhas de ir. Não fiz de propósito." (Ouve, no pensamento, a história do escorpião e do sapo: "It's in our nature.")

Quinta-feira, 28 de Fevereiro de 2013

O moinho na promoção turística

Em ano de girassol. Aos 5:44.

Hyvä Kalevalanpäivä!

Este ano, sabe ao Reboliço muito bem celebrar o Dia do Kalevala e da Cultura Finlandesa. Faz hoje uns 178 anos que Elias Lönnrot publicou a primeira versão do texto. Pouco menos de 36 lustros. Contas, continhas.

Terça-feira, 26 de Fevereiro de 2013

Hoje de hoje. (Ou "Da tradução II")

(A Joana não pode ir. Mas manda dizer que está tudo bem. Vão a Filipa, o Frederico, o Figueiredo, a Ana, Susana e Sebastião. O Malcolm não sabe, mas alguém levará um norueguês. Just in case - que tanto pode ser "caso" como "caixa".
UPDATE: O norueguês não faltou, por obra da @AnneA. E foi a Luísa, a recordar outras leituras de outros versos. E foi a @soniatmf. E foi assim.)

Da tradução


Eri la più carina
un'eterna miss liceo
il trofeo per torneo
erano i romeo
che dietro di te facevano corteo
e tu insultavi tutti
senza scrupoli
indossavi uomini come abiti
con la tua bellezza li rendevi
deboli servili ed arrendevoli
poi quando ti stancavi
li buttavi tipo straccio vecchio
dei loro sentimenti
non ti curavi e amavi solo
la persona riflessa
nel tuo specchio.

Così sei cresciuta
giudicando tutto dall'aspetto
pensando che la confezione
centri con la qualità del prodotto
in base a questo hai scelto i tuoi amici
persino il tuo compagno
era bello quindi era degno
di far parte del regno
d'apparenza di cui
in testa tu avevi il disegno
era come un sogno
vi sposaste a giugno
a settembre lui ti mostrò il suo pugno
dimmi ora come ci si sente
ad essere insultata ignorata
a essere picchiata
da una mano ubriaca
ora che anche il tuo specchio
non ti vuole più vedere
ora che la tua bellezza
sta nel fondo di un bicchiere
dimmi come ci si sente.

How does it feel? Dimmi come ci sente.
How does it feel? A stare sempre da sola.
To be on your own.
Nè direzione nè casa. With no direction home.
Una completa sconosciuta. A complete unknown.
Come una pietra scalciata. Like a rolling stone.

Tu volevi chiudere
tutti i diversi fuori
su questo hai investito
tutte le energie
e i tuoi averi
ricordo il tuo concetto di straniero
dicevi questo non è il posto
loro son maleducati sporchi
ci portan via lavoro.

Difendevi la tua ottusità
come un tesoro
quello il tuo sentiero
che non ti ha portato a sentire
che il terreno su cui
ogni giorno camminiamo noi
non lo possediamo lo occupiamo
e non è italiano africano
è un dono che è stato fatto
ad ogni essere umano
i confini le barriere le bandiere
sono giunti dopo aiutando
l'odio la guerra e il razzismo
a fare il loro gioco
dimmi come ti senti
ora che non ci sono più confini
e le frontiere sono aperte
e che hai dovuto appendere
al chiodo la tua camicia verde
la bandiera più non serve
ora che hai speso tutto
e sei ridotta all'elemosina
finalmente sai che
non c'è colori razza
ma solo anima
ora tu sei l'emarginata
evitata scalciata ignorata
quando chiedi qualche moneta
ora che non hai più una proprieta
che ti dia un identità sventoli
soltanto la bandiera della povertà.

How does it feel? Dimmi come ci sente.
How does it feel? A stare sempre da sola.
To be on your own.
Nè direzione nè casa. With no direction home.
Una completa sconosciuta. A complete unknown.
Come una pietra scalciata. Like a rolling stone.

Tu vivevi in un mondo a parte
fatto di tasche piene
e di porte aperte
madre insoddisfatta della vita
e delle tue spalle coperte
non avevi mai lavorato
per mangiare
lo stesso avevi tutto ciò che si può desiderare,
giravi declamandoti infelice
a gran voce
io ti dicevo che eri fortunata
ma non ti davi pace
il tuo dramma era scoprire chi eri
ma quello è il dramma di ogni uomo
ed è più facile soffermarvici
sopra a stomaco pieno
non immaginavi quanto scotta
e quanto è dura portarsi a casa la pagnotta
ora lo sai dopo
che il papi ha fatto bancarotta,
avevi il meglio ma non lo hai apprezzato
perchè non possiedi niente
se niente ti sei guadagnato
e dimmi come ci si sente
ora che devi sudarti i beni materiali
vedi che hai poco spazio
per i problemi esistenziali
ora che sei una parte del mondo che ignoravi
sei diventata una di quelle pietre che scalciavi.


How does it feel? Dimmi come ci sente.
How does it feel? A stare sempre da sola.
To be on your own.
Nè direzione nè casa. With no direction home.
Una completa sconosciuta. A complete unknown.
Come una pietra scalciata. Like a rolling stone.

Sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2013

A boa nova

(Hip-foto da cabeça do morto e prestes a voltar à vida Lemminkäinen, no quadro de Gallen-Kallela chamado "A Mãe de Lemminkäinen", reproduzido no Público: Reboliço, a documentar. Depois da nota de Sara Figueiredo Costa na Time Out, o Ípsilon faz hoje duas-páginas-duas, texto de José Riço Direitinho, sobre a recente publicação dos 50-cantos-50 que tem o Kalevala, passada para português na íntegra e desde a língua original. Anda aí pelas livrarias, nas prateleiras das novidades, tem capa azul, que enfim..., mas o mais lindo de lindo são as imagens do Rogério Ribeiro. Não desfazendo nos versos, está claro. Actualização: o Jornal de Letras deu nota da publicação e Eduardo Pitta, na Sábado, dá-lhe nota 100%.)

Sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2013

Já lo vi, já lo senti

Eis, rapinada em lugar de venda, e sem precisar de cobrar factura, a imagem verídica e vera da novel edição de Kalevala, uma história finlandesa e antiga, trazida para a língua que já de Camões não é pelas mãos, engenhos, olhoszouvidos e grande paciência de Merja e Ana, as pachorrentas partenaires da Carélia florida, e magnificamente ilustrada pelo finado paz à linda alma sua Rogério Ribeiro. Muito agradecido está o Reboliço à senhora Dona Fátima, que registou o momento e abriu o livro. Ou vice-versa.
(Actualizações: Já lo viu também a Sara Figueiredo Costa, que, na Time Out desta semana - 20/02/2013 -, diz coisas de uma pessoa se ficar a babar. Já lo viu o José Riço Direitinho, que no Ípsilon de 22/02/2013 assina um artigo sobre a edição.)

Da Dafne, editora que muito respeita os seus colaboradores e outros escritores


Gabriele Basilico (1944-2013)

13 de Fevereiro de 2013






Recebemos com tristeza a notícia da morte de Gabriele Basilico, amigo e fotógrafo italiano com quem a Dafne teve o privilégio de publicar o livro Arquitectura em Portugal e um portfolio fotográfico sobre Michelangelo. A generosidade de Gabriele Basilico, inesquecível para quem o conheceu, transparecia nas imagens que criava do mundo.

«As imagens exasperadas de Basilico são a expressão de uma enorme esperança, de compreensão e de tolerância, da convicção. Podemos falar em fé - fé no Homem em construção. Nascem de um passeio entre escombros. Por vezes os escombros são reais, ruínas perfuradas pelo tempo ou pelas balas, não-ruínas que arruínam a cidade, ruínas desesperadas ou habitadas, nunca retocadas. Há uma explosão que eleva as pedras, que as vai de novo sobrepondo, recriando a ordem, como num filme passado ao contrário. Sentimos a tensão dos ferros, a renovada vontade de brilhar dos materiais brilhantes, os cristais a fundirem-se, como o fazer de um puzzle, pó a amalgamar-se. Há reflexos prestes a devolver o nosso olhar e o do Sol e o da Lua: luz.»

Álvaro Siza in Gabriele Basilico, Arquitectura em Portugal, Porto, Dafne, 2006.

O que aí vem

"A editora TEA FOR ONE tem o prazer de convidar V. Exas. para,
no Sábado, dia 16 de Fevereiro, pelas 18h,
no Teatro A Barraca, em Lisboa, assistirem ao lançamento
dos seus dois mais recentes títulos:

Lisboa Oriental / Oriental Lisbon, de
Manuel Filipe
e
Este é o meu corpo, antologia de poemas sobre o pão, de
Álvaro Cunha, Ana Isabel Soares, Ana Zanatti, António Barahona, João Miguel Henriques, M. Parissy, Ricardo Álvaro, Ricardo Marques, Rosa Guimarães, Rui Cardoso Martins, Salwa Azar e Vítor Nogueira. 

Ambos os volumes têm ilustrações de
Sandra Filipe
e paginação de
Inês Mateus."