segunda-feira, 21 de Julho de 2014

Aí está ela, em grande velocidade.

Já está disponível a Telhados de Vidro # 19. A força e a fragilidade vêm logo na capa de Luís Henriques, com arranjo gráfico de Inês Mateus. No miolo, as colaborações de: A. Maria de Jesus, Abel Neves, Adília Lopes, Ana Isabel Soares, Bruno C. Duarte, Emanuel Jorge Botelho, Fabio Weintraub, Fernando Cabral Martins, Fernando Curopos, Fernando Guerreiro, Friedrich Schlegel, Gil de Carvalho, Hélia Correia, Inês Dias, Inês Lourenço, Isabel Nogueira, Jaime Rocha, Jeannette Lozano, João Almeida, José Alberto Oliveira, José Carlos Soares, Luís Filipe Bettencourt, Luis Manuel Gaspar, Manuel de Freitas, Mariano Peyrou, Marta Chaves, Mattéo Mario Vecchio, Miguel de Carvalho, Miguel Martins, Pádua Fernandes, Ricardo Álvaro, Rui Baião, Serena Cacchioli. (Com Dulci Bana.)

segunda-feira, 14 de Julho de 2014

"DADA Dandy"

(Belo programa para depois de amanhã. É só deuses vivos.)

sábado, 12 de Julho de 2014

O Reboliço é um nefelibata (90)

(Capa de H., de Patrícia Esquiva: composição de Pedro Serpa sobre desenho de Bárbara Assis Pacheco, sobre história "O homem-nuvem (A partir de Berndnaut Smilde)", a partir de "nuvens magritteanas"; título que é de Lispector e que é vigas de uma casa sem paredes dos "homens-quase", que "a máxima cartesiana não se aplica mais" e o que ali voeja são personagens de contos russos e de peças de teatro surreal-existencialista. Vertigem boa, vertigem boa.)

sexta-feira, 11 de Julho de 2014

"Meditação em Lagunitas"

Todo o pensamento novo é sobre perda.
Nisto se parece com todo o pensamento antigo.
A ideia, por exemplo, de que cada particular apaga
a luminosa claridade de uma ideia geral. De que o pica-
pau boloteiro sondando o esculpido tronco podre
daquela bétula negra é, pela sua presença,
algum trágico detrito caído de um primeiro mundo
de indivisa luz. Ou a outra noção de que,
porque neste mundo não há coisa nenhuma
a que o silvado da amora corresponda,
uma palavra é elegia daquilo que significa.
Falámos sobre isto ontem noite dentro e na voz
do meu amigo havia um fino fio de dor, um tom
quase lamuriento. Um pouco depois percebi que,
falando assim, tudo se dissolve: justiça,
pinheiro, cabelo, mulher, tu e eu. Houve uma mulher
com quem fazia amor e eu recordava como, segurando
por vezes os seus ombros pequenos nas minhas mãos,
sentia um violento fascínio na sua presença
como uma sede de sal, do meu rio de infância
com os seus salgueiros ilhéus, música parva do barco de recreio,
lugares lamacentos onde apanhávamos o pequeno peixe laranja-prata
chamado pumpkinseed. Pouco tinha que ver com ela.
Saudade, dizemos, porque o desejo está cheio
de infindas distâncias. Devo ter sido o mesmo para ela.
Mas lembro-me de tanto, da forma como as mãos dela desmantelavam pão,
da coisa que o pai dela dizia que a magoava, com o que
ela sonhava. Há momentos em que o corpo é tão numinoso
como [as] palavras, dias que são a continuação do corpo justo.
Tanta ternura, aquelas tardes e noites,
dizendo amora, amora, amora.

Traduzido por Belmiro Oliveira. Descoberto aqui
através da pista do @pmramires.
Muito agradecida a ambos dois,
que, além do mais, aceitaram os [ ].

sexta-feira, 4 de Julho de 2014

quinta-feira, 3 de Julho de 2014

"O Cão Através dos Tempos" (na Cão Celeste nº 4)

Eu tive dois cães na vida. Um chamava-se Carolina, era uma gata. A Carolina foi lá para casa mais ou menos pequena, era cachorrinha, mas já muito sabida. Siamesa de rabo torcido e curto, a cor do pêlo a variar entre o bege e o cinza clarinho, com as pontas das orelhas e das patas, o focinho e uma que outra tonalidade - não se poderia dizer mancha - a escurecer. Era, já disse ali, muito sabida. Ia aprendendo, ladina de rápida, e ensinava logo. Ou mostrava que aprendia. Sabia bem, por exemplo, o que queria - de comer, de lugar onde estar, de clima do dia. E sabia que muitas das coisas que queria eram mais ferozes do que a sua inteligência. Acasalar. Era a bruteza que mal aceitava: o que sofria no querer não tinha descrição: uivos ouvidos do sexto andar para a rua, nas ruas de trás, e facilmente ganhava aos gatos da vizinhança. Acasalou, se não me engano, duas vezes. De incesto, com um avô, ou tio-avô, ou trisavô, tanto se lhe dava, desde que fosse gato macho como ela não era. Uma dor só, o querer, ficava só dor com o não querer, que de igual ferocidade eram os gritos do acto. Nada fez entender nunca, aos dois machos com que acasalou, e pelo ar confundido que ganhavam, que o rigoroso cumprimento daquela vontade (que em rigor a cumpriam, e mais não lhes chegava ela a pedir-lhes) não servisse o fim do sofrimento mas o aguçasse. Cadelas... As bogas demasiado quentes. Que as queria, bastava uma fervura para amaciar a carne e lhes ferrar o dente. “Espera, não sejas sôfrega, Carolina,” nada. Aquilo devia andar um ou dois dias com dor no queimado céu da boca, mas era o céu que ganhava com as bogas quentes. A janela. Mas a janela nunca a enganou, ali sempre se controlava e vencia a vertigem do lançar-se. Horas, de horas a fio do lado de dentro, se era Inverno, a língua mínima a varrer cada quadrante de pêlo curto, cada pele nua entre os dedos almofadados, o rosa da língua e o rosa da pele, o sonzinho de raspar ao de leve a ouvir-se quase amplificado pelo vidro. Ou do lado de fora, entre os poucos vasos da varanda, se fazia mais calor, a cabeça através das grades de ferro, focinho perpendicular à rua pequenina, que via, com a curiosidade a fazer-lhe mover cabeça e mais nada, lá em baixo. Queria a janela, a Carolina, e tinha-a, e dia após dia a gozava como ninguém.

O outro era o Sorna. O Sorna fez transformações. Mudou a mãe de uma pessoa para outra. Chamou-a, do canto do quintal onde dormitava, enquanto os irmãos de ninhada brincavam, reboludos, caudazinhas espetadas de ter nascido e querer sondar com as anteninhas tudo. O Sorna não. O mundo todo de que precisava estava no espaço do seu ser, pêlo branco, definidas manchas cor do mel que se lhe derramava dos olhos. Chamou a mãe e a mãe trouxe-o lá para casa. Foi pequeno pouco tempo: os sete ou oito meses de o criarmos para lhe fixar a afeição. “Anda, Sorna.” Qual saltos, saltinhos, agarrar de trela. Era nas calmas. Assim que se achava na rua, se dava uma corrida, era a trote baixo. “Podem mudar-lhe o nome, a gente é que lhe pôs Sorna, que ele mal se mexe.” Muda nada. “Anda, Sorna.” Nunca percebeu para que foi isto de estar aqui. Sair, sim, saía. Saía mais se o deixassem preso muito tempo. Se o prendessem, queria sair. Estando solto, dava a sua voltinha, e isso, nada mais. Encostava-se. O gozo de se rebolar na terra vermelha, depois de lhe darem banho? Ah, sim. Era. Ou não. As trombadinhas que, do corpanzil em que se tornara, mandavam a mãe ou a mim ao chão, deixavam nódoas negras do amor doméstico dele. Também. Talvez. O Parafuso, contingente da essência que foi multiplicar-se aquele seu ser. Isso seria. O mel dos olhos do Sorna só dizia “Estou aqui. Deixa-te ficar, não precisamos de fazer grandes corridas.”

Tive dois cães, que foram como um cão de vida única, colada aos outros cães todos que moram no universo do mundo. O Sorna, que era um cão, e a gata Carolina.

(Escrito em 2 de Setembro de 2013 - altura, mais dia, menos dia, do desaparecimento último do Sorna - para a Cão Celeste nº 4, onde veio a ser publicado com ilustrações magníficas de Bárbara Assis Pacheco.
Republicado aqui por ocasião do lançamento do nº 5 da Cão Celeste.)

quarta-feira, 2 de Julho de 2014

"Movimento"


Quase todo o movimento hoje é a uma velocidade
Que nenhum déspota romano, nem do Renascimento, sonhou
Existir. Não olhamos para a paisagem que vemos;
Não damos pelos oceanos que cruzamos;
As acelerações de palavra e de estilo
Disfarçam a arte lhana com que namoramos
Os pensamentos que descartamos depois de usar.
Neste mundo paliativo, a velocidade
Não chega a ser privilégio executivo,
Nem a distância que devoramos
Nos sustém. Sonhamos mais depressa
Do que viajamos e os sonhos
Regressam, apressados, àquilo que significavam
Quando o céptico, sábio e mortal Sócrates
Jazia paralisado, no momento máximo do seu argumento.
John Bruce, aqui.
Tradução: AIS.

quinta-feira, 26 de Junho de 2014

Hás-de vir cá ter...

(Contracapa da revista Telhados de Vidro nº 19. No prelo.)

"Fronteira"


As flores pelo chão
Pisadas desde o baile,
O vento frio,
Só mulheres de xaile:
Tudo me contaram
Quando eu dei aos ares de Espanha
Uns desceram para Sul
Eu fiquei a ver Idanha.

Ai de mim, não faço nem ideia -
Prometi partir na lua cheia.
Páro p'ra um bagaço na estação,
Nos olhos de um beirão
Vejo a fera da fronteira.

Ir pra Angola
Pode mesmo ser a salvação.
Ou São Paulo -
Receber calor de um povo irmão.
Ir abastecer-me onde há quem dance.

Promessas de Verão
Os marinhões as quebram:
Praia fora vão
Se águas-más lhes pegam.
Não posso mais esperar
Que a terra se alevante;
“Ser firme a procurar”,
Quero ir para diante.

Ai de mim, se tudo é ao contrário...
Tenho de ir cumprir nosso fadário.
Acabo de engolir num repelão -
Pergunta o bom beirão
Se isto era necessário.

Ir embora pode mesmo ser a solução:
Ver trabalho, brio, recompensa pela aflição.
Mas se isto não mudar eu não descanso…

E se eu for -
Quem te espera, Mariana?
Vais dormir nas guardas quentes de que cama?
Se eu for -
Quem vê paz na tua estampa?
P'ra onde irás se eu só voltar p'ra pôr cá a minha campa?

Ai de mim, não faço nem ideia...
Prometi partir na lua cheia.
Páro p'ra um bagaço na estação,
Nos olhos de um beirão
Vejo a fera da fronteira.

(Jorge Cruz, Diabo na Cruz, Roque Popular, 2012.
Quantas vezes, quantas, já o Reboliço, noutros lados, replicou as frases desta cantiga, que lhe faz pensar nos Zés Rebelos do mundo da diáspora portuguesa. O poema, bonito, faz-se ouvir muito bem e os rapazes são generosos a cantá-lo.)

quarta-feira, 25 de Junho de 2014

segunda-feira, 23 de Junho de 2014

[Post de 16 de Junho de 2014 do blogue Catastrophe (antes conhecido como Last Tapes, depois como Dias Felizes e ainda como Malone Meurt, e...)]

      também está um dia bom para apanhar peixe banana

         Este blogue vai acabar na noite de São João.
         Desta vez não são apenas truques de HTML ou tropeções nos livros de Bekett, é também o fim.
         Quase dez anos de trabalho, já basta — não há outros motivos assinaláveis.
         Fogo de artifício, um grão na asa e depois a sombra cairá sobre nós como no último plano d' O Leopardo — não ambicionamos menos.
         Agradecemos a todos que nos acompanharam, perto ou longe.
         Ainda temos uma semana para brincar; depois, adeus, adeus.
[O Reboliço deixaria aqui o link, não fosse ter sido, também, anunciado que o dito link há-de ser plugged off. Apagão, zut. Vazio.
O Reboliço coça a cabeça: o que será peixe banana?]

sexta-feira, 20 de Junho de 2014

Outro, outro pressentimento

(Foto do quadro de Gerolamo Induno, de título enganador, exposto na Pinacoteca de Brera: Reboliço. Diz a explicação junto à imagem que se trata de um "Triste Pressentimento". Explica que, "num quarto em grande desordem, uma jovem acaba de acordar e contempla, apreensiva, aquilo que é, provavelmente, um pequeno retrato do seu amado, jovem patriota na frente de batalha". Ora, vendo o pormenor do que segura a linda e desarrumada menina, é muito óbvio que está antes a ler as notícias do dia no telefone portátil.
[É a segunda imagem, no menu inferior; a página demora alguns segundos a abrir, mas o zoom que permite impressiona.])

quarta-feira, 18 de Junho de 2014

Golos.

O Reboliço gosta de ler a bola.
(E gostou muito dos golos de Dries Mertens, ontem, e de Van Persie, no Sábado.)

"You say ... and I say ..."

O Reboliço ficou a conhecer aqui a razão pela qual, em alguns lados do mundo, ao futebol se chama soccer em vez de football.

terça-feira, 17 de Junho de 2014

Amanhã - para antes de adormecer


Consolation reading

"Com menos handicaps, o Portugal de Pedroto levou 5 da Checoslováquia, o Portugal de Otto Glória levou 5 da União Soviética, o Portugal de Queiroz levou 6 do Brasil, o Benfica de Jesus levou 5 do Porto, o Real de Mourinho levou 5 do Barcelona, o Bayern de Guardiola levou 4 do Real."
(Rogério Casanova, aqui.)

sexta-feira, 13 de Junho de 2014

Na oficina do tio Pardal

O sapateiro Miguel levanta a cabeça do trabalho e cumprimenta. É de manhã cedo, mas já coseu e remendou sapatos e fez um cinto novo. Quando chegou, deu água e alpista aos pássaros. "Este canta que se regala", comenta o Reboliço - "Mas é canto novo, tem estado muito calado: morreu-lhe o companheiro, só anteontem é que voltou a cantar", diz o tio Chico, encostado ao balcão. A gaiola do canário desentristecido fica mesmo por cima da cabeça do sapateiro Miguel. "O outro ainda não se manifestou." O outro é outro canário, enfiado numa gaiola igual, do lado oposto do balcão, que trouxeram para substituir o finado. "Temos de os pôr assim afastados, sem se verem, senão não cantam," explica o tio Manuel Pardal, levantando o queixo da bengala. "Está tão calado...", diz o Reboliço. "Ainda está estranho", responde o tio Chico. "Tem de se habituar ao novo apartamento."

quarta-feira, 11 de Junho de 2014

Moinhos na poesia (62)


"Molino"

El viento más que un asno es paciente.

Gira gira gira
Molino que mueles las horas
Pronto es la primavera                                      MAÑANA
Y tendrás tus alas cubiertas de flores

Gira gira gira
Molino que mueles los días
Pronto será verano                                           MEDIODÍA
Y tendrás frutos en tu torre

Gira gira gira
Molino que mueles los meses
Pronto vendrá el otoño                                     TARDE
Estarás triste como la cruz

Gira gira gira
Molino moledor de años
Pronto vendrá el invierno                                  NOCHE
Y se congelarán tus lágrimas

He aquí el verdadero molino
No olvidéis nunca su canción
Él hace la lluvia y el buen tiempo
Él hace las cuatro estaciones

Molino de la muerte    Molino de la vida
Muele los instantes como un reloj
Éstos son granos también   Molino de la melancolía
Harina del tiempo que hará salir cañas.

(Vicente Huidobro, 1922.
Aqui se pode ler uma análise cuidada da edição francesa, inicial, e de duas traduções do poema em castelhano - a segunda das quais é a que está aí em cima. O caligrama já se tinha reproduzido nas Cartas, aqui.)

terça-feira, 10 de Junho de 2014

(Testing, testing. One, two.)

image/svg+xml Mechanical Clock 7 January 2007 Tavmjong Bah Mechanical Clock with Hour, Minute, and Second hands. Gears created with python script from Aaron Spike. SVG Clock Animation Tavmjong Clock Works © 2007 Tavmjong Clock Works © 2007 Hours Minutes Seconds Copyright 2007 Tavmjong Bahhttp://tavmjong.free.fr/

segunda-feira, 9 de Junho de 2014

Moinhos britadores na Cidade Infinita

(Foto das ruínas de moinhos britadores - que, enfim, britar é moer - no conjunto mineiro da Moitinha, Minas de São Domingos: uma de muitas feitas por Duarte Belo, de um dos muitos documentos que vai erguendo na sua Cidade Infinita. Muito obrigada pela permissão de reproduzir.)

domingo, 8 de Junho de 2014

"Que tudo isto sabereis serenamente"

Tiens. Em língua de rafeiro, tanto faz escrever francês ou português. Uma exclamação é uma exclamação - e uma exclamação com ponto final mostra a surpresa sempre esperada. Tiens, minha linda, a morte, como ensina o mestre dela, "é de todos e virá". Veio à Orlando e quase de certezinha passou e levou com ela o Petaner. O Petaner... cão cardiaque, cão cardiaque. Ãu. Mião.

sexta-feira, 6 de Junho de 2014

O Reboliço é um nefelibata (89)

(Foto do prédio a esfarrapar as nuvens ontem à tarde, na Rodrigo da Fonseca, cidade grande: Miguel Pires, generoso, a pensar, com certeza, em fios de abóbora gila que querem ser labaredas. Obrigada!)

"O Instante"

O instante em que, depois de muitos anos
de trabalho árduo e de uma longa viagem
te vês no centro do quarto,
casa, meio hectare, milha quadrada, ilha ou país,
sabendo por fim como ali vieste dar,
e dizes possuo isto

é o mesmo instante em que as árvores desprendem
os meigos ramos que te abraçavam,
os pássaros retiram o que haviam dito,
as arribas fendem, colapsam,
o ar se afasta de ti como uma onda
e não consegues respirar.

Não, sussurram. Nada possuis.
Estavas de visita sempre que
subiste a montanha, hasteaste a bandeira, proclamaste.

Nunca te pertencemos.
Nunca nos achaste.
Foi sempre o contrário.

The moment when, after many years
of hard work and a long voyage
you stand in the center of your room,
house, half acre, square mile, island, country,
knowing at last how you got there,
and say, I own this,

is the same moment the trees unloose
their soft arms from around you,
the birds take back their language,
the cliffs fissure and collapse,
the air moves back from you like a wave
and you can't breathe.

No, they whisper. You own nothing.
You were a visitor, time after time
climbing the hill, planting the flag, proclaiming.
We never belonged to you.
You never found us.
It was always the other way around.

(Margaret Atwood, 1976. Tradução: AIS. Daqui)

terça-feira, 3 de Junho de 2014

O lugar

"a árvore é mais do que um produtor de sombra, é uma memória que virá sempre associada àquela arquitectura, àquele lugar"

(António Belém Lima sobre o que o cinema pode ensinar à arquitectura, a propósito de Trás-os-Montes. No mais recente fascículo da colecção "O Lugar dos Ricos e dos Pobres na Arquitectura e no Cinema em Portugal". Da Dafne.)

segunda-feira, 2 de Junho de 2014

Moinhos na poesia (61)

(Ruy Belo e Luis Manuel Gaspar sobre "O Valor do Vento" para o "Homem de Palavra[s]. Obrigada, Luis Manuel!)

domingo, 1 de Junho de 2014

Do dia de ontem

O Reboliço subiu as escadinhas da Guilherme Cossoul, ali a Santos, na cidade capital. Deu volta e meia, mais meia e outra volta, e sentou-se onde o sentaram, a ouvir. Falava-se do livro da Isabel Nogueira. A Marta Chaves leu do livro e a Inês Dias sobre ele, e bocadinhos dele. O Reboliço, envergonhado, dissera palavras de outros.

sexta-feira, 30 de Maio de 2014

Programa para sábado

(O cartaz, com fotografia de autor e modelo desconhecidos, ilustra o conhecimento de uma cidade.)

quarta-feira, 28 de Maio de 2014

Oh...

"Does my sassiness upset you?"
(Em língua portuguesa, aqui.)

Logo à tarde, ainda o sol alto



O sol é grande, caem co'a calma as aves,
do tempo em tal sazão, que sói ser fria;
esta água que d'alto cai acordar-m'-ia
do sono não, mas de cuidados graves.

ó cousas, todas vãs todas mudaves,
qual é tal coração qu'em vós confia?
Passam os tempos vai dia trás dia,
incertos muito mais que ao vento as naves.

Eu vira já aqui sombras, vira flores,
vi tantas águas, vi tanta verdura,
as aves todas cantavam d'amores.

Tudo é seco e mudo; e, de mestura,
também mudando-m'eu fiz doutras cores:
e tudo o mais renova, isto é sem cura!
(Sá de Miranda, 1481-1558)

segunda-feira, 26 de Maio de 2014

Está de leste

Novas criaturas surgem da terra, com as narinas mordiscando o ar,
os esquilos abundam e repetem-se como perguntas,
os vermes continuam a investigar até as folhas repetirem quem são,
mas aqui temos apenas uma calma sem estações,
e sem história, que é tédio interrompido pela guerra.
A civilização é impaciência, um frenesi de térmitas
em redor dos formigueiros de Babel, antenas transmissoras
e mensagens; mas aqui o caranguejo-eremita acobarda-se quando encontra
uma sombra e pára até a do eremita.
Um medo escuro da minha sombra alongada, confesso,
para este caranguejo escrever “Europa” é ver aquela criança agachada
junto a um canal sujo em Rimbaud, chaminés, e borboletas, pontes antigas
e as manchas sombrias de resignação à volta dos olhos de carvão
de crianças que se parecem todas com Kafka. Treblinka e Auschwitz
descendo o rio com o fumo de barcaças industriais
e a prosa de uma página a que sacudo as cinzas,
os túmulos dos buracos de caranguejo, a ampulheta dos séculos
que passaram sobre esta baía como o pó soprado pelo harmatão
das nossas tribos, dispersando-se sobre as ilhas,
e a lua erguendo-se na sua procura, como a lanterna de Diógenes
sobre a esfinge do promontório, de equilíbrio e justiça.

(Derek Walcott traduzido por Inês Dias, daqui.)

quinta-feira, 22 de Maio de 2014

Décimas (um verso por cada dia de silêncio)

Sôbolo chão da rua que vai
pela cidade, me achei,
onde sentado chorei
as lembranças do meu mar,
de quanto nele me alegra.
O seco rio de meus olhos
correndo silente, vago,
deu tudo bem comparado:
o meu mar ao mal presente,
Lisboa ao tempo passado.


(Post editado, com versos do Cão do Vizinho António:

"Anda bem o Reboliço,
Nas décimas que aqui compõe;
   Que nisto de estar enfermiço,
Em Lisboa o mal o põe,
Lá agora o é achado;
E em mar, no tempo passado...")