quinta-feira, 17 de Abril de 2014

"Ways of Seeing"

(Créditos da foto de Helen Keller com Charles Chaplin no set de Sunnyside, 1919: Roy Export Company / Cineteca di Bologna. É favor clicar sobre a imagem para a ver maior. Muito obrigada.)

quarta-feira, 16 de Abril de 2014

(Post dedicado)

LIÇÃO DE ASTRONOMIA

Os dois rapazes debruçam-se sobre a balaustrada
no alpendre, a olhar para o céu.
Atrás de si ouvem a mãe
numa das salas, que vê o Chuva de Estrelas
e na outra o pai, a assistir a
um Especial Walter Cronkite, os televisores
altos, com mais e mais volume, até
deixarem de conseguir ouvir o programa um do outro.
O mais velho diz que sejam quantas
forem as estrelas que se conte haverá
sempre mais para além dessas
e além das estrelas espaço escuro
para sempre, em todas as direcções,
tanto que, mesmo se viajássemos
milhões e milhões de anos
não chegaríamos mais perto do fim
do espaço do que eles estavam agora
aqui no alpendre, terça à noite
no meio do Verão.
O mais novo só pensa
no armário da mãe,
em como gosta de se aninhar lá ao fundo
atrás da cortina pesada
de camisolas, camisas de noite e vestidos,
na escuridão profunda onde,
por mais que aproxime a mão
do rosto,
não há nunca a mão, não
há nunca rosto que tocar.

Na outra rua, uma mulher 
chama pelo gato ou pelo cão perdido,
bate palmas e assobia a chamá-lo,
mais adiante, dentro da cidade,
uma e outra vez as sirenes
soam e deixam de se ouvir.

Os rapazes encostam-se mais um ao outro, ombro
a ombro agora, tristes Ptolemeus,
o mais velho a olhar o céu, o mais novo
a pensar no que está à sua frente,
as folhas negras do carvalho
onde cintilam as luzes da rua,
como outra meada fluída de estrelas.
O Chuva de Estrelas e Walter Cronkite
combatem como águas revôltas
a quererem sobrepor-se uma à outra.
E a mulher agora vai a andar
de camisa de noite pelo meio
da rua, a bater palmas e a
assobiar, enquanto o mais velho
discorre sobre anos-luz,
ventos solares e buracos negros
e sobre como o sol está a arrefecer
e o que acontecerá a todos
quando ficar frio.

(AlanShapiro, in Happy Hour, The University of Chicago Press, 1987.
Tradução: AIS. Daqui.)

terça-feira, 15 de Abril de 2014

"I'm not there" (Ainda. É só amanhã.)

(Mais uma sessão imperdível, no Museu da Música.)

quinta-feira, 10 de Abril de 2014

Dia dos Moinhos Abertos

(Foto do Moinho Grande com vedações, vides, postes e cabos de luz, as árvores, o topo de um dos moinhos velhos, o topo dos silos, e nuvens ao longe: Sharon Sykes, da província de Saskatchewan, no Canadá, uma das províncias de pradarias - nas suas palavras, "similar ao Alentejo", sem moinhos de vento mas com "old wooden grain elevators", que se equiparam a estes moinhos no serem "ícones culturais". A Sharon vive perto, avista e admira o Moinho Grande quando passa na estrada, mas não tinha ainda conseguido vê-lo por dentro. Foi este domingo, com muito gosto. Thank you!)

terça-feira, 8 de Abril de 2014

Oh...

Eras para mim, antes de te ires, desconhecida. A tua morte resgatou-te, é assim. Deixaste uma voz poderosa e mil barcos a navegar. Obrigada, Ana.

domingo, 6 de Abril de 2014

Moinhos na poesia (59)

REPETE-SE, A TUA SOMBRA

Quase enorme o lanho da vacina
na régua das datas memoriais,
a bombazina das artérias
por te bombearem tantas vezes
ao moinho do cérebro.

Que há disto, da constante abébia
ao teu riso manageiro contagiante dos estalos
da demência na copa dos músculos,
que há da chaga das campainhas em florete
nas gengivas à pronúncia do teu nome,
do arranho do escopro que fofo te vai espetando
no croché das vontades de ti,
um atropelo.

Resinoso, colo-me plural todo língua
na paisagem dormente da divisória onde
das regueiras de um golfo cairá primeiro um atilho
que enforco à cintura para poderes puxar, depois um besunto
de tinta-da-china que me encara a frente e a cruz dos braços
para que o holofote que trago dentro não te indisponha
e tu correria amena, minha sombra única,
meu el-rei, meu legado, meu perímetro
apagado de carne,

eu caio assim.

(Grande poema de Nuno Moura, remetido por sempre atento poeta, editor e leitor de nome Ricardo Álvaro, que o caçou no livro Soluções do Problema Anterior, &etc, 1996. Grata, grata, grata!)

sábado, 29 de Março de 2014

Nove anos, nove

Fez nove anos agora que se escreveu a primeira destas cartas. Por estes dias, o Reboliço anda a dormir mais do que é costume - as mais das vezes, para se esquecer da chuva. Se fareja o ar, fareja a terra, medita e quer fixar uma frase ou uma memória, vem num instante um atropelo que o sossega e não dá fim do que no pensamento começara. Já se viu, com isso, arreliado. Mas ladra a caravana das frases perdidas e o Reboliço, despreocupado, há nove anos que passa.

terça-feira, 25 de Março de 2014

Esta quarta

(Alinhamento surpresa. É ir e ver e ouvir.)

Com toda a palavra (11)

(Foto da gravura com texto manuscrito da folha avulsa da livraria do Convento de Santa Clara de Coimbra: Reboliço, a pensar na razão para não se comer pêras, conselho que pesa tanto quanto o da virtude, o da temperança e o da mortificação. Ganhou uma fome de pêras, que só visto.)

sexta-feira, 21 de Março de 2014

Moinhos na poesia (58)

"The Windmill"

Behold! a giant am I!
   Aloft here in my tower,
   With my granite jaws I devour
The maize, and the wheat, and the rye,
   And grind them into flour.

I look down over the farms;
   In the fields of grain I see
   The harvest that is to be,
And I fling to the air my arms,
   For I know it is all for me.

I hear the sound of flails
   Far off, from the threshing-floors
   In barns, with their open doors,
And the wind, the wind in my sails,
   Louder and louder roars.

I stand here in my place,
   With my foot on the rock below,
   And whichever way it may blow,
I meet it face to face,
   As a brave man meets his foe.

And while we wrestle and strive,
   My master, the miller, stands
   And feeds me with his hands;
For he knows who makes him thrive,
   Who makes him lord of lands.

On Sundays I take my rest;
   Church-going bells begin
   Their low, melodious din;
I cross my arms on my breast,
   And all is peace within.


Henry Wadsworth Longfellow (c. 1870)

Vede! como sou gigante!
    Na minha torre, cá em cima,
    Devoro com rijos dentes
O milho, o trigo, o centeio,
   A todos faço em farinha.

Olho as quintas, lá em baixo;
   Vejo os campos de cereal,
   A colheita que há-de vir,
Lanço os meus braços ao ar,
   Sei que é toda para mim.

Ouço o grão a ser malhado
   Ao longe, no chão das eiras,
   Nos celeiros, portas amplas,
Nas minhas velas o vento,
   Ruge com mais e mais voz.

Aqui estou, é o meu lugar,
   O pé sobre a rocha em baixo,
   De onde quer que o ar me sopre,
De rosto ao rosto o encaro,
   Qual herói ao inimigo.

Quando lutamos e suamos,
   Meu mestre, o moleiro, guarda,
   Com suas mãos me alimenta;
Conhece quem lhe dá fortuna,
   Quem das terras o faz senhor.

Aos domingos é descanso;
   Começam os sinos da igreja
   Uma grave melodia;
Os braços cruzo no peito,
   Tudo aqui dentro é só paz.


(Tradução: AIS)

domingo, 16 de Março de 2014

Pass(e)ar em Paris

(Hip-foto de uma página de Passages Couverts Parisiens, de Jean-Claude Delorme e Anne-Marie Dubois, sobre fotografias de Martine Mouchy: Reboliço, a desenterrar material bibliográfico de profunda investigação, já com 13 anos, mas para usufruto local e actual, com grande regozijo e melhores companhias. A história das "passagens de Paris" conta-se todos os dias - em maio de 2001, por exemplo, a "Galerie Vivienne" estava quase ao abandono. Hoje é um mimo. Essa e outras. Com congressos e beberetes, vendas privadas de alta moda e gente a passar lá dentro, luz do céu a cair pelo envidraçado dos tectos e as almas dos lugarinhos escondidas atrás dos relógios e das tabuletas das lojas, a olharem para os flâneurs turistas e a trocarem gargalhadas.)

terça-feira, 11 de Março de 2014

Amanhã


sábado, 8 de Março de 2014

Do lugar do real

(I.e., de uma plataforma de visualização de documentários, onde se achou este, e, partilhável que ele é, se partilha. Foi dirigido por Carlos Eduardo Viana e chama-se "Contra a Corrente". Pai, para a veres inteira, tens de clicar duas vezes sobre a imagem.)

terça-feira, 4 de Março de 2014

Poesia às QUINTAS


A 73ª sessão será a 6 de Março e consistirá de leituras, pelo anfitrião Miguel Martins
e por Ana Isabel Soares, da revista Piolho nº 12, dedicada à tradução.

(Passa-se tudo no Bar A Barraca, a Santos, em Lisboa, pelas 22.30h.
A entrada é muito franca.)

quarta-feira, 26 de Fevereiro de 2014

Ão, ão

(Imagem: Luís Nobre. O Reboliço pensa que está aqui um cartaz muito bem imaginado, muito bem realizado, e ainda por cima a propósito de dois belos nomes, o da Beatriz e o do Raul.)

sexta-feira, 21 de Fevereiro de 2014

Moinhos na poesia (57)

Tantas vezes maldizia
Este céu e esta terra,
As mãos do moinho com musgo
Agitando-se pesadas!
No anexo está um morto,
Hirto e grisalho, num banco,
Como há três anos atrás.
Os ratos roem os livros,
Para a esquerda verga a chama
Da vela de estearina.
E canta e canta odioso
O guizo de Níjni-Novgorod
Uma singela canção
Da minha aldeia amarga.
E pintadas vivamente
Erguem-se rectas as dálias
Pelo carreiro de prata
Com corações e absinto.
Foi assim: a reclusão
Tornou-se segunda pátria,
Mas da primeira não ouso
Nem nas preces recordar.

(Anna Akhmatova, Julho de 1915, Poemas, trad. Joaquim Manuel Magalhães e Vadim Dmitriev, Lisboa: Relógio D'Água, 2003, p. 27. Obrigada, Inês!)

quinta-feira, 20 de Fevereiro de 2014

Bem-vindo, pequeno!

(Foto do céu sobre Lisboa, na manhã do teu nascimento: tia Reboliço, a rolar na relva de contente.)

domingo, 16 de Fevereiro de 2014

Esta quarta

(É para ir, atenção. Não é todos os dias que se ouve um grande crítico falar de um grande poeta.)

segunda-feira, 10 de Fevereiro de 2014

"Amitiés"


("Esta obra, um clássico da literatura francesa, tocou de tal modo os leitores que foi preservado intacto o moinho onde foi escrita. Querido Francisco, também o vosso moinho ficará na nossa memória. Amizades. Maïthé e Léopold Tassi." O Reboliço relê a nota, à procura de datas. Não n'as há. O livro foi feito em 1956. Lá dentro, o pai colou a mensagem de outros amigos, com data de 1973. Entre um ano e outro, recebeu a peça. Forrada a tecido roxo, gravado como se vê aí em baixo. As ilustrações, reproduzidinhas de aguarelas de Gaston de Sainte-Croix, dão - têm dado - para uma vida de júbilo.)



quarta-feira, 5 de Fevereiro de 2014

Moinhos na poesia (56)

(...) – Apanha as velas ao discurso que não ha tempo – atalhou o meu amigo. – Vamos á Felicia, e lá veremos. (…)
Camilo Castello-Branco, CORAÇÃO CABEÇA E ESTOMAGO, Lisboa, Livraria de António Maria Pereira, 1862, p. 75.

segunda-feira, 3 de Fevereiro de 2014

Oh!...

(O que valem as comparações que as coincidências instigam? Eduardo Coutinho foi um documentarista maior.)

domingo, 2 de Fevereiro de 2014

Oh!...

Goodbye, Mr. Talented.
(Foto: George Clooney, 2011)

sábado, 1 de Fevereiro de 2014

Da tradução

"Francet Mamaï, um velho tocador de pífaro, que vem de tempos a tempos passar o serão comigo, enquanto bebia vinho quente, contou-me uma destas noites um pequeno drama de aldeia de que o meu moinho foi testemunha há uns vinte anos. A narrativa do homem comoveu-me e vou tentar contá-la tal como a ouvi."
Alphonse Daudet, Cartas do Meu Moinho, Tradução de Franco de Sousa, Lisboa, Círculo de Leitores, 1996, p. 17. Desenho da capa de Diniz Conefrey.

"Francet Mamaï, um velho tocador de pífaro que vem de tempos a tempos passar o serão comigo e beber vinho quente, contou-me uma noite destas um dramazinho de aldeia de que o meu moinho foi testemunha há cerca de vinte anos. A história do bom homem comoveu-me e vou tentar contá-la tal qual a ouvi."
Alphonse Daudet, Cartas do Meu Moinho, Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, Mem Martins, Publicações Europa-América, 1971, p. 17. Desenho da capa de Dorindo Carvalho.


"Francet Mamamï [sic], um velho tocador de pífaro que vinha de vez em quando passar o serão comigo, bebendo vinho fermentado, contou-me, uma vez, um pequeno drama de aldeia, que teve o meu moinho por testemunha, há uns vinte anos. A narração do bom homem comoveu-me, e vou experimentar contá-la, tal como a ouvi."
[Contos de] Alphonse Daudet, Antologia do Conto Moderno, Selecção, Tradução e Prefácio de Luís Eugénio Ferreira, Coimbra, Atlântida, 1959, p. 99. Desenho da capa de Victor Palla.



"Francet Mamaï, un vieux joueur de fifre, qui vient de temps en temps faire la veillée chez moi, en buvant du vin cuit, m'a raconté l'autre soir un petit drame de village dont mon moulin a été témoin il y a quelque vingt ans. Le récit du bonhomme m'a touché, et je vais essayer de vous le redire tel que je l'ai entendu."
(Alphonse Daudet, Lettres de mon Moulin, Le Livre de Poche, Paris, 1969. Sem indicação de autoria da ilustração da capa.)


quinta-feira, 23 de Janeiro de 2014

Moinhos na poesia (55)

LUSITÂNIA NO BAIRRO LATINO

1

............................................ Só!

Ai do Lusíada, coitado,
Que vem de tão longe, coberto de pó.
Que não ama, nem é amado,
Lúgubre Outono, no mês de Abril!
Que triste foi o seu fado!
Antes fosse pra soldado,
Antes fosse pró Brasil...

Menino e moço, tive uma Torre de leite,
Torre sem par!
Oliveiras que davam azeite,
Searas que davam linho de fiar,
Moinhos de velas, como latinas,
Que São Lourenço fazia andar...
Formosas cabras, ainda pequeninas,
E loiras vacas de maternas ancas
Que me davam o leite de manhã,
Lindo rebanho de ovelhas brancas;
Meus bibes eram de sua lã.

António era o pastor desse rebanho:
Com elas ia para os Montes, a pastar,
E tinha pouco mais ou menos seu tamanho,
E o pasto delas era o meu jantar...
E a serra a toalha, o covilhete e a sala.
Passava a noite, passava o dia
Naquela doce companhia.
Eram minhas Irmãs e todas puras
E só lhes minguava a fala
Pra serem perfeitas criaturas...
E quando na Igreja das Alvas Saudades
Que era da minha Torre a freguesia)
Batiam as Trindades,
Com os seus olhos cristianíssimos olhavam-me,
Eu persignava-me, rezava «Ave-Maria...»
E as doces ovelhinhas imitavam-me.

Menino e moço, tive uma Torre de leite,
Torre sem par!
Oliveiras que davam azeite...
Um dia, os castelos caíram do Ar!

As oliveiras secaram,
Morreram as vacas, perdi as ovelhas,
Saíram-me os Ladrões, só me deixaram
As velas do moinho... mas rotas e velhas!

Que triste fado!
Antes fosse aleijadinho,
Antes doido, antes cego...

Ai do Lusíada, coitado!

Veio da terra, mailo seu moinho:
Lá, faziam-no andar as águas do Mondego,
Hoje, fazem-no andar águas do Sena.,.
É negra a sua farinha!
Orai por ele! tende pena!
Pobre Moleiro da Saudade...

Ó minha
Terra encantada, cheia de sol,
O campanário, ó Luas-Cheias,
Lavadeira que lava o lençol,
Ermidas, sinos das aldeias,
O ceifeira que segas cantando
O moleiro das estradas,
Carros de bois, chiando,...
Flores dos campos, beiços de fadas,
Poentes de Julho, poentes minerais,
Ó choupos, ó luar, b regas de Verão!

Que é feito de vocês? Onde estais, onde estais?

Ó padeirinhas a amassar o pão,
Velhinhas na roca de fiar,
Cabelo todo em caracóis!
Pescadores a pescar
Com a linha cheia de anzóis!
Zumbidos das vespas ferrões das abelhas,
Ó bandeiras! Ó sol! foguetes Ó toirada!
Ó boi negro entre as capas vermelhas!
Ó pregões de água fresca e limonada!
Ó romaria do Senhor do Viandante!
Procissões com música e anjinhos!
Srs. Abades de Amarante,
Com três ninhadas de sobrinhos!

Onde estais? onde estais?

O minha capa de estudante, às ventanias!
Cidade triste agasalhada entre choupais!
Ó dobres dos poentes às A ve-Marias!
Ó Cabo do Mundo! Moreia da Maia!
Estrada de Santiago! Sete-Estrelo!
Casas dos pobres que o luar, à noite, caia...
Fortalezas de Lipp! Ó fosso do Castelo,
Amortalhado em perrexil e trepadeiras,
Onde se enroscam como esposos e lagartas!
Sr. Governador a podar as roseiras!
Ó bruxa do Padre, que botas as cartas!
Joaquim da Teresa! Francisco da Hora!
Que é feito de vós?
Faláveis aos barcos que nadavam, lá fora,
Pelo porta-voz...
Arrabalde! marítimo da França,
Conta-me a história da Fermosa Magalona,
E do Senhor de Calais,
Mais o naufrágio do vapor Perseverança,
Cujos cadáveres ainda vejo à tona...
Ó farolim da Barra lindo, de bandeiras,
Para os vapores a fazer sinais,
Verdes, vermelhas, azuis, brancas, estrangeiras,
Dicionário magnífico de Cores!
Alvas espumas, espumando a frágua,
Ou rebentando à noite, como flores!
Ondas do mar! Serras da Estrela de água,
Cheias de brigues como pinhais...
Morenos mareantes, trigueiros pastores!

Onde estais? onde estais?

Convento de águas do Mar, ó verde Convento,
Cuja Abadessa secular é a Lua
E cujo Padre-capelão é o Vento...
Água salgada desses verdes pocos,
Que nenhum balde, por maior, escua!
O Mar jazigo de paquetes, de ossos,
Que o sul, às vezes, arrola à praia -
Olhos em pedra, que ainda chispam brilhos
Corpo de Virgem, que ainda veste a saia,
Braços de mães, ainda a apertar braços de filhos!
Noiva cadáver ainda com véu...
Ossadas ainda com os mesmos fatos!
Cabeça roxa ainda de chapéu!
Pés de defunto que ainda traz sapatos!
Boquinha linda que já não canta...
Bocas abertas que ainda soltam ais...
Noivos em núpcias, ainda, aos beijos, abraçados!
Corpo intacto, a boiar (talvez alguma Santa...)
O defuntos do Mar! Ó roxos arrolados!

Onde estais? onde estais?

O Boa Nova, ermida à beira-mar,
Única flor, nessa vivalma de areias!
Na cal, meu nome ainda lá deve estar,
À chuva, ao Vento, aos vagalhões, aos raios!
Ó altar da Senhora, coberto de luzes!
Ó poentes da Barra, que fazem desmaios...
Ó Santana, ao luar, cheia de cruzes!
Ó lugar de Roldão! vila de Perafita!
Aldeia de Gonçalves! Mesticosa!
Engenheiros, medindo a estrada com a fita...
Água fresquinha da Amorosa!
Rebolos pela praia! Ó praia da Memória!
Onde o Sr. Dom Pedro, Rei-Soldado,
Atracou, diz a História,
No dia,.. não estou lembrado;
Ó capelinha do Senhor da Areia,
Onde o senhor apareceu a uma velhinha...
Algas! farrapos do vestido da Sereia!
Lanchas da Póvoa, que ides ã sardinha,
Poveiros, que ides para as vinte braças.
Sol-pôr, entre pinhais...
Capelas onde o sol faz morte, nas vidraças!

Onde estais?

(António Nobre, tão bem lembrado, lido, analisado, vivido por Miguel Tamen e outros leitores, no Museu da Música, ontem.)

terça-feira, 14 de Janeiro de 2014

O Reboliço é um nefelibata (88)

"Reflexo do Cisne: duas faces de um postal"
Segundo Caroline Wright


Cygnus (face da imagem)

Sou caligrafia. No estuário salgado, na lagoa da aldeia,
Escrevo o meu nome a arabescos. Falo em branco
À nuvem, falo às águas enevoadas.
Sou o mais longínquo quadrante
Da noite sem estrelas
E além dela.

Sou peito
E vento e lua
E a pura distância
Das constelações, a persistência
Do desejo, as nebulosas de sistemas que estão
Para desaparecer: grito e eco, curvatura e descanso.    



Verso (mensagem) 

Liga agora.
O telefone está sem som.
Não há discurso, não há linguagem
A habitar os espaços vagos, nenhum aferidor
Pode medir distância assim silenciosa e absoluta
Somos incapazes de lhe falar por palavras, não o sabemos fazer.

Ouve a rua. As vozes nas lojas, na fila do autocarro,
Na plataforma. Qualquer coisa vem de volta,
Um eco, arabesco, uma espécie de cortejo,
Como os ritmos de uma imaginada
Língua: signo, Cygnus,
Eu, tu.


George Szirtes, "The Swan's Reflection: two sides of a postcard"
(Tradução: AIS. Obrigada, F.)

sexta-feira, 10 de Janeiro de 2014

Amanhã em Coimbra

(A fotografia do cartaz é do próprio Miguel de Carvalho, ele mesmo em si livreiro e alfarrabista de livraria sita no lugar do Adro de Baixo, que confina em Coimbra com o Adro de Cima, e de onde, para cima olhando, se vê o que ali está de nuvajoso céu em estando ele nuvajoso. Em não, é azul de dia. Amanhã, amanhã, quem saberá? Ide e descobri.)

terça-feira, 7 de Janeiro de 2014

do vento coagulado no pano

Foto da edição artesanal do vento coagulado no pano, poema agora editado em publicação de papel e ajuntado de fotografia de miguel de carvalho, 100 exemplares assinados pelo autor, "impressos no Cabo Mondego em Dezembro de 2013 para festejar a despedida do ano": Reboliço, sempre grato às Edições Debout Sur L'Oeuf.

quinta-feira, 2 de Janeiro de 2014

O Reboliço é um nefelibata (87)

(Foto de três moinhos na Serra de Gavinhos, Penacova, uns 15km a Noroeste de Coimbra: Alípio Padilha. Sublinha o fotógrafo a "particularidade de terem 'telhados' em zinco." Diz mais: que chegaram a existir ali 18 moinhos de vento. E de nuvens. A moer. Obrigada.)

domingo, 29 de Dezembro de 2013

Uma cozinha com sol

O Reboliço olha para o chão da cozinha da tia Patrocínia, a farejar. Mosaicos hidráulicos, como se vê de moda nalguns lugares e ali sempre foram chão. Aqueles três ou quatro, com as mesmas, velhas fendas a atravessá-los, quase alfabeto passeado de formigas umas vezes, e a fazê-los fazer o que debaixo dos pés era ruído que avisava lá dentro que alguém entrava. Balançavam, um tudo nada, os fendidos, debaixo dos pés, com o som. A porta, descaída, de igual maneira alertava - os de dentro e o gato grande, que andava nos telhados e se apressava a espreitar, se a tia saía da cozinha para a varanda cheia de sol. Não esperava comida; só a conversa dela, a perguntar-lhe pelos donos, pelos pombos que ele incomodava, pelas passeatas entre escadas de incêndio e corrimãos. Lembra-se disso e perscruta o quadrado que formam aquelas traseiras de prédios, com um meio de clarabóias (a iluminar a garagem oficina, lá em baixo) e franja, em frente, de árvores frondosas. Lembra-se e procura o gato - que não está, se não se mostra. Lembra-se, de patinhas fincadas no chão ensolarado e o focinho a apontar para o grande cão branco, do prédio em frente, que assestou, há dias, no canto da sua escada e lhe diz agora, num silêncio duro, resignado e meigo: "Escusas, Reboliço, de estar aí. Também a espero há dias e já percebi que não há mais."

terça-feira, 24 de Dezembro de 2013

Moinhos na poesia (54)

"O NATAL DO MOLEIRO"

Que noite de Natal, tristonha, agreste...
De neve amortalhava-se o caminho
E o vento sibilava do nordeste,
Nas frinchas da porta do moinho

Sentado na velha mó, já carcomida,
Onde incidia a luz d'uma candeia,
O moleiro, de barba encanecida
Com a mulher comia a parca ceia.

Próximo do moinho, ouviu-se em breve
Uma voz e o moleiro, abrindo a porta,
Viu um velhinho todo envolto em neve,
Vergado ao peso d'uma esperança morta.

"Entrai, meu peregrino da desgraça,"
Disse o moleiro ao pálido ancião.
"Aqui não há dinheiro, existe a graça
De haver carinho, piedade e pão."

"Vinde comer, agasalhar-se ao lume,
Festejar o nascer do Deus Menino -
Porque a vida somente se resume
Na escravidão imposta p'lo destino."

Então o velhinho, numa voz sonora
Pronunciou, levando as mãos ao peito:
"Abençoado seja a toda a hora
Este moinho que é por Deus eleito."

(Poema de Henrique Rego. Canta, Marceneiro.
O Reboliço vai-te ouvindo falar de um abençoado moinho,
no primeiro ano em que o Natal é longe do seu.)

domingo, 22 de Dezembro de 2013

Anti-lamento

Nada lamentes. Nem os cruéis romances, que lês
até ao fim só para saber quem matou o cozinheiro.
Nem os filmes sensaborões que te fizeram chorar no escuro,
apesar da tua inteligência, do sofisticado que és.
Nem o amante que deixaste a tremer no estacionamento do hotel,
aquele cujas frases, ou a cuja porta bateste, ou o que
te deixou de vestido e sapatos vermelhos, os
que te magoavam os pés, nem esses lamentes.
Nem as noites em que chamaste nomes a deus e maldisseste a
tua mãe, encolhido como um cão no sofá da sala,
a roer as unhas e esmagado pela solidão.
Era para inalares essas noites de fumo
com uma garrafa de cerveja morta, para varreres a cebola seca
do chão do restaurante, usares o casaco
puído, de botões a cair e bolsos cheios de fósforos gastos.
Subiste mil vezes essas ruas e vens
sempre dar aqui. Nada lamentes, nem um só
dos dias perdidos em que preferias não saber nada,
em que as luzes da boleia de Carnaval
eram as únicas estrelas em que acreditavas, e a elas amavas
por não terem uso, e sem quereres que te salvassem.
Andaste até aqui às costas de cada erro,
cavalgado de olhos escuros, e sombrio, mas calmo como uma casa
depois de se desligar a última televisão na janela do andar de
cima. Inofensivo como um machado partido. Esvaziado de expectativas.
Descontrai. Não te maces a lembrar tudo isso.
Paremos aqui, por baixo do sinal aberto,
à esquina, e observemos os que passam.
Dorianne Laux, "Antilamentation", 2011.
(Tradução: AIS. Obrigada, Cristina.)

sexta-feira, 20 de Dezembro de 2013

O Reboliço é um nefelibata (86)

(O Carlos Cardoso andou por Santiago do Cacém e apanhou esta maravilha, que rodeou de escuro para iluminar, de varas direitinhas, lindas nuvenzinhas e ervas verdinhas. O Reboliço agradece muito poder mostrar o boneco. Acrescentos, dada pelo pai a informação: se for o Moinho da Câmara de Santiago, aqui foi que se fez uma escola de moleiros, há uns bons anos.)

terça-feira, 17 de Dezembro de 2013

"O tititi das aves"

(No dia em que foi saudar o Manuel de Freitas, que recebia o prémio do PEN Clube de Portugal pelo seu lindo Cólofon, o Reboliço saiu da SPA com um livrinho na mão, e de poesias de um senhor poeta chamado Julian Tuwim. Uma das poesias era sobre "O tititi das aves", que é como quem diz uma guerreia entre elas. As aves.)


A gansa e a marreca, vizinhas,
Reprocham os pés das galinhas.

A perua e a galinha, a sós,
Criticam a pata sem dó.

A galinha d'angola e a pata
Desancam a perua chata.

Outra pata quaquá se esgoela,
Essa gansa, ahn, gue guer dela?

A gansa na hora revida:
Pata beberrona, bandida.

Dona angola peita a perua:
Sua linguaruda, urubua.

Que rebuliço no quintal!
Tem pena voando geral...

(Tradução de Marcelo Paiva de Souza. In Tuwim,
Babel Studio/Embaixada da República da Polónia em Lisboa, 2013, p. 39.)

quinta-feira, 12 de Dezembro de 2013

Oh...

Lontrinha, então...?

domingo, 8 de Dezembro de 2013

Ah!, são eles!

(Foto das páginas 92 e 93 das 96 maravilhosas páginas do nº 4 da Cão Celeste: Reboliço, em reconhecimento absoluto - da Carolina e do Sorna, que são tal igualitos ao que desenhou a Bárbara Assis Pacheco, e dela!, claríssima leitora, que só naquelas palavras os viu a eles, e ao Reboliço nem isso, nem isso.)

sexta-feira, 6 de Dezembro de 2013

(O Madiba é amigo e o Reboliço já lhe falou.)

sexta-feira, 29 de Novembro de 2013

O Reboliço é um nefelibata (85)

(Como de outras vezes, encanta-se com os olhares dos amigos para as nuvens. Se as nuvens encimam os moinhos, como é o caso destas, sobre um deles em Gröningen, que a Lígia Oliveira fotografou, fica dupla, tripla, multiplicadamente feliz. Obrigada!)

segunda-feira, 25 de Novembro de 2013

Moinhos na poesia (53)

Os pássaros sabem de cor

esculpir um rosto no núcleo da calçada marmórea
sulcar um corpo caminhante entre sombras que rasgam
tendo o vento e o moinho como testemunhas
e sobre eles o silêncio das cantarinhas desnudadas

engravidar ao crepúsculo as estrelas nos campos de batalha
à semelhança das consciências rendilhadas pelo sol
pelos espojinhos
enquanto diz uma criança
o poema dos nossos receios

nas manhãs pendem cachos
junto de uma cigarra presa na teia
aquela queratina branca e quebradiça
é a pele da nossa língua
em finas camadas alternadas
de poeira e silêncio
quando a noite tem fome e luz.

Este poema foi vivido
não fujo da memória
nem do lugar preocupado
na minha face grisalha.

(Miguel de Carvalho, Beja – Cabo Mondego, Agosto de 2013.
P.M.P., ou seja, por mail próprio. Obrigada, amigo.)

sexta-feira, 22 de Novembro de 2013

"É sempre agora.”

Maria Filomena Molder, sobre tudo.

segunda-feira, 18 de Novembro de 2013

Da tradução

Ou, "burlescamente" chamada, "transalucinação calixtocáustica."

sexta-feira, 15 de Novembro de 2013

Moinhos na poesia (52)

    "[...] Silves, Santarém, Beja, Faro, Évora, Lisboa podem orgulhar-se dos seus homens de cultura, das suas escolas e de ousarem brilhar durante algum tempo como estrelas secundárias integradas no todo peninsular.
    Por outro lado, este Islão hispânico pulsava em sintonia, certamente desigual, com todo o mundo islâmico, em particular com os grandes centros orientais. O sunismo medinense chegou bastante cedo a Córdova. Mas a filosofia,olhada com desconfiança ou perseguida por alfaquis e ulemas, pulsava com atraso. [...]
    Teremos de esperar pela época dos Descobrimentos e Conquistas para que o Oriente penetre de novo e intensamente na nossa cultura. Mas, nesse mesmo tempo, os expoentes de referência do conhecimento científico, continuarão a ser o médico al-Razí, o médico hispânico Avenzoar, o uzbeque Avicena e o cordovês Averróis, como poderemos verificar, por exemplo, no Colóquio dos Simples e das Drogas de Garcia da Orta.
    A Reconquista não suprimiu as marcas da civilização islâmica que perduraram na língua e em muitas técnicas agrícolas e artesanais até ao século XX. Os cristãos medievais herdaram a estrutura das cidades islâmicas, usaram os seus alarifes e alvanéis – os “meus mouros” de Afonso Henriques – na construção de catedrais e fortalezas. Um deles deixou escrito no transepto da sé de Coimbra: “escrevo isto como recordação permanente do meu sofrimento. A minha mão perecerá um dia mas a grandeza ficará”.
[...]
    No campo das ciências e da cultura, não faltaram, em território português, gramáticos de língua árabe, jurisconsultos, sufis, escreventes de história, de crítica literária e principalmente poetas.
Abu al-Hayaye al-Halam de Santarém escreveu um comentário sobre a obra do poeta oriental Mutanabi.
    Por sua vez, Ibn Abdun de Silves analisou o longo poema sobre o fim trágico dos abádidas e aftácidas, escrito pelo poeta eborense Ibn Abdun.
[...]
    Ibn al-Imam AL-SHILBI (+c. 1156) escreveu as biografias de muitos dos seus contemporâneos na obra Simt aldjuman, infelizmente perdida. No entanto, restaram trinta e cinco passagens conservadas por Ibn Said no Mugrib, passagens que constituem um quarto deste livro.
    Para a história e a história da cultura do Islão Ocidental a Dakira (Tesouro) do santareno IBN BASSAM, de seu nome Abu al-Hassam ibn Bassam al-Santarini (+c.1147) é fundamental. A obra reúne em quatro volumes uma antologia dos poetas peninsulares, recheada de preciosas notícias de natureza social e político-militar. Um outro texto, Al-Mann Bil-Imama do bejense IBN SAHIB AL-SALA aborda a  história dos almóadas e de algum modo um pouco da história política no actual Alentejo e Algarve. Escreveu também o Kitab al-Muridin (Livro dos Adeptos), hoje perdido e que seria indispensável para o estudo do movimento dos muridines no sul do nosso território e no ocidente peninsular.
    Os poetas perdem-se como abelhas ao redor do favo do poder. Mas alguns erguem-se a grande altura. Cantam os seraus nocturnos, o vinho, o amor, os jardins, a água, a paisagem humanizada. Aqui e ali ensaiam a especulação filosófica. No século XI sopra uma brisa de audácia e de liberdade com toda a ambiguidade que esta palavra carrega.
[...]
    IBN MUCANA Alisbuni Alcabdaq (o lisboeta, o de Alcabideche) (+pouco depois de 1068) cantou os bois de lavra, os javalis que assolavam as hortas, as abóboras, as cebolas, os moinhos de vento."

(António Borges Coelho, Tópicos para a História da Civilização e das Ideias no Gharb Al-Ândalus, Capítulo V., "Poetas Santões e Filósofos do Ocidente do Ocidente", Instituto Camões, Colecção Lazúli, 1999, pp. 51-55. Disponível a partir daqui.)


Ó tu que habitas Alcabideche! Oxalá nunca te faltem
cereais para semear, nem cebolas, nem abóboras!
Se és homem decidido, precisas de um moinho
que trabalhe com as nuvens sem dependeres de regatos.
Quando o ano é bom, a terra de Alcabideche
não vai além de vinte cargas de cereais.
Se rende mais, então sucedem-se,
ininterruptamente e em grupos compactos,
os javalis dos descampados.
Alcabideche pouco tem do que é bom e útil,
como eu próprio, quase surdo, como sabes.
Eis-me em Alcabideche, colhendo silvas com uma podoa ágil e cortante.
Se te disserem: “gostas deste trabalho?” responde: “sim”.
O amor da liberdade é o timbre de um carácter nobre.
Tão bem me governaram o amor e os benefícios de Abu Bacre Almodafar
que parti para um campo primaveril.

Ibn Mucane (versão de António Borges Coelho, vista aqui. Outra versão, de Fausto Amaral de Figueiredo, pode ler-se aqui.)

terça-feira, 12 de Novembro de 2013

Roca e outros

O Reboliço recorda-se bem dos perfumes, das cores, da simpatia, da alegria que foi aquele jantar de há dois-anos-quase-três. Joan Roca, o de Girona, um dos pilares da generosa e amoruda troika de bem comer que governa o Celler de Can Roca, esteve em Portugal. Ele e outros, que o Reboliço observa, nas fotos do Vasco Célio. 43 momentos de regozijo a ilustrar o artigo de Alexandra Prado Coelho.

sexta-feira, 8 de Novembro de 2013

Moinhos na poesia (51)

“DOM QUIXOTE”

I

Sobre a cidade
silêncios imprevistos.

Atravessas
com um sorriso indefinível
as fronteiras:
conheces os espinhos de todas as sebes.

E avanças,
para lá dos hálitos quentes dos homens,
do sono após o amor,
da angústia e da prisão.

Sobre os escombros azuis
como as corolas do linho,
liberta
corres cantando:

mas fechas os olhos
se ao fundo, no céu,
as asas brancas dos moinhos
são despedaçadas
pelo vento.


II


Chegam-te
roucos
os gritos assustados
da terra árida:

enquanto se prolonga,
na asa imensa
girando,
a tua crucificação.

Antonia Pozzi, 21 e 22 de Fevereiro de 1935.
Tradução, em gentilíssimo exclusivo: ID. Obrigada!

"Don Chisciotte"

I

Sulla città
silenzi improvvisi.

Varchi
con un sorriso indefinibile
i confini:
sai le spine di tutte le siepi.

E vai, oltre i fiati caldi degli uomini,
il sonno dopo gli amori,
l'affanno e la prigionia.

Su la petraia che è azzurra
come le corolle del lino,
liberata
canti correndo:

ma chiudi gli occhi
se in fondo al cielo
le ali bianche dei mulini
si dilacerano
al vento.

21 febbraio 1935


II

Fioche
dalla terra brulla
ti giungono
grida atterrite:

mentre seguita
su l'ala immensa
a rotare
la tua crocefissione.

22 febbraio 1935

domingo, 3 de Novembro de 2013

O Reboliço é um nefelibata (84)


Ambiente de Outono
O ar é morno como na sala de passagem
onde, em silêncio, já se espera a morte;
sobre as telhas molhadas há uma claridade
mais pálida
 que a de uma vela prestes a extinguir-se.

A água da chuva ronca nas caleiras,
o vento lânguido autopsia as folhas mortas
e, como um bando de narcejas espaventadas,
as nuvenzinhas seguem, receosas, pelo céu cinzento.
("Herbststimmung", Rainer Maria Rilke.
Tradução: AIS, a partir daqui. Com a ajuda da Ana - obrigada!)


sábado, 2 de Novembro de 2013

Moinhos na poesia (50)

NOITE

Noite tranquila, cheia de mistério,
o universo inteiro faz-se mudo;
por trás da pedra do moinho,
só o regato não dorme, ensurdecido.

As sombras unem-se e aumentam,
a escuridão da noite se acentua.
Em silêncio, uma estrela, outra após
cai no mar da penumbra imensa.

Enquanto o mundo tudo silencia,
meu coração se agita em murmurinhos
e eu sinto a límpida nascente
que acorda em meu peito vitoriosa.

E segreda meu coração;
Filho, o teu sonho terá vida.
Veja, uma estrela rolou do alto,
creia, não é a estrela do teu fado.

A tua ainda brilha em seu engaste
no anel de astros lá tão longe.
Veja como pisca e tremeluz
enviando-te expectativa e ânimo.

E eu fixo a estrela no remoto céu
onde tudo é quietude interminável.
Mas para mim só existe um universo,
e este o sinto aqui, no próprio eu.


Haim Nachman Bialik (1873-1934), trad. J. Guinzsburg / Zulmira Ribeiro Tavares, in Rosa do Mundo, Lisboa, Assírio e Alvim, 2001, pp.1188 e 1189. Obrigada, Inês.

quinta-feira, 31 de Outubro de 2013

Prémio de Poesia PEN Clube Português

CAMPO GRANDE

                                                para o Jorge Roque

Portugal era, no teu livro por vir,
um alvo a abater, enquanto
na muda televisão se discutia
o Orçamento Geral do Estado
(talvez nem tenhas dado por isso).

Pior ainda: não se podia fumar
e fingíamos aceitar mais uma tarde
de Novembro, sem regresso.
Também não podia saber que seriam
estes, e não outros, os versos de Bingre
que me levariam hoje a casa:

«A Morte é sempre a vida que logramos,
Pois morte são os dias que vivemos

Manuel de Freitas, Cólofon, Fahrenheit 451, 2013, p. 13.
(É um livro que não é um livro, tem poemas mas são abraços aos amigos que todos temos.)

domingo, 27 de Outubro de 2013

(Agora não há cá mortos.)

sexta-feira, 25 de Outubro de 2013

Bem-vindo à praia da gente, pequeno.

(Foto da embarcação "Maria Gabriela", na praia do Sul da Ilha, Florianópolis, Santa Catarina: Reboliço, que a tinha guardada para quando a mana desse a nós o pequeno Nicolau. Apressadinho, o maroto, encheu a praia do mundo de gente a puxar por ele.)