domingo, 26 de março de 2017

Moinhos na Poesia (81)

Agora, é um ribeiro que nos acompanha e desaparece; muito embora numa fuga para trás, repetindo a verde, a branca estrada; logo, um vermelhar fumegante de telhado; viandantes que nos amaldiçoam; um cão, saltando, que arremete; mala-posta que passa, num turbilhão de poeira, furado de gestos humanos; galinhas esvoaçando; aquela presa de água, entre salgueiros; um velho perfil de moinho; uma junta de bois aterrorizada; um cavaleiro abraçado ao pescoço de uma égua que recua, aos corcovos, sobre a valeta; lavradores, curvados, no trabalho, férreas enxadas da pobreza reflectindo oiro, ao sol…
Teixeira de Pascoaes, A Beira (Num Relâmpago) / Duplo Passeio, Assírio e Alvim, p. 39. Pascoaes viajou num Isotta Fraschini entre São João de Gatão e Arganil, em Agosto de 1915. A emoção de correr, naqueles tempos, a 40km horários!

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

"EM PROPÓSITO DA TRADUÇÃO"

"Em casos muitos discute-se se tradução é para ser mais fidel a originalis ou se deve torcer a modos de encaixar na língua que traduz. As posições ambas partem aos porém da ideia de que há duas línguas, uma + uma, y que o trilho de uma a altra se debuxa em reta linha. Esta tradução não brota de ideia tal, pero de que língua há muita, mesmo que só com nome um. Ou seja, é português lusitano o destino do doc deutsch de Wedekind, mas o que é isso está em aberto. Faz-se donc uso de gramática e vocábulo recognescíveis, mixando tempos, geos, origens e por fora aí, esfocinhando-se por tirar tapete de norma, o que é idêntico a intentar ilimitar e dar força à variedade. Em não havendo linha, não se sabe adonde vai aportar a frase que vem após, e assi, ao menos, vive-se menos previsível, move-se o peso de conhecimentos sabidos e queda-se mais leve leve. Népia más que questo. É só apenas poder e aos porque poder assi, crê-se, mais bom é. Com bom, entenda-se livre."
(Nota sobre a tradução de O Despertar da Primavera, Uma Tragédia de Juventude, uma re-elaboração linguística que fez José Maria Vieira para o Teatro Praga, peça apresentada no Centro Cultural de Belém este fim-de-semana e que o Reboliço, muito contente, foi ver e aplaudiu.)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

6ª resposta

Ao desafio lançado aqui pelo Miguel Martins, respondi com o relato da leitura de O Estrangeiro, de Albert Camus (numa edição igual à que aparece na imagem com que o Miguel ilustrou o post).
Não me lembro de ter lido a primeira frase. Nem a segunda. Mas recordo com imagem vívida a sensação de não poder senão continuar a ler, do desconforto e da necessidade de ler. A primeira frase que sublinhei foi “Isto não quer dizer nada.” É a quarta, se contar como terceira a que inclui aquilo que um telegrama dizia (“‘Sua mãe falecida. Enterro amanhã. Sentidos pêsames.’”). Foi aí que parei, detida por este atirar para a insignificância a notícia da morte de uma mãe. Por aquele tempo, habitando um quarto interior no segundo andar de um apartamento antigo, suado lugar depois de ruas e demasiados degraus, no Alto do Pina, desatava quanto podia os nós que me prendiam à minha. De uma infância e juventude agarrada às suas saias negras (tão enlutada andou), passava a regrar o tempo entre telefonemas para os montes além do Tejo, muito depois da Serra do Caldeirão, onde a província era ainda, no começo dos noventa, um lugar de acesso demorado e duro – e não só por falta de moedas para o que na altura eram os telefones públicos. Fazia-me eu e os livros eram o que tornava inconsútil a junção daqueles dois retalhos, o da vida antiga e o da vida nova. 
“Isto não quer dizer nada.” Assim se oferecia (e eu, por aquele sublinhado, aceitava) anular o que estava para trás. Sem imaginar o que viesse daí por diante – no livro e nessa que em mim estava a criar, as palavras encontravam-me num quarto que o apartamento tinha cheio de sol às horas da tarde. Era um dia de semana, devia ter voltado das aulas. A casa estava vazia de quem habitualmente ali andava: como o meu quarto não tinha janelas para a rua, invadi aquele onde o sol entrava e de onde ouvia a zoada quieta da rua, vizinhas a falar de janela em janela, poucos automóveis, alguém a perseguir alguém em corrida, uma gargalhada do café da esquina, umas portas abaixo. O segundo andar permite esta distância e esta contiguidade. Seria Verão? O livro comprei-o pelo fim de Setembro – talvez fosse o começo de um Outono, quando as tardes são mornas, quantas vezes sem nuvens, e o ar seco faz propagar os sons como se estivessem ainda mais longe. Havia uma cadeira. Havia uma cadeira que instalei no meio do quarto – à medida que fui lendo, foi como se se fixasse mais ao chão, e as veias onde passava o meu sangue passassem a ser os veios da madeira onde me sentava, imóvel, as mãos nada mais que ramos ressequidos no vento do que imaginava da praia que lia, do quarto de hotel, da cela da prisão, passando as páginas, passando as páginas, passando as páginas.
“O facto de a sentença ter sido lida, não às cinco da tarde, mas às oito horas da noite” tirava à condenação tão grave a seriedade que Mersault esperava – na minha ideia, que a lera pelas cinco da tarde, a gravidade pesava-lhe séria. Às oito da noite talvez já me revolvesse entre a que deixava ir embora, quieta para sempre, conformada com a ordem e a familiaridade que até ali sentira à minha volta, e esta que chegava com o estrangeiro (“Quem é o estrangeiro?”, escrevi numa nota à margem), inquieta, daí para a frente insone, daí para diante refém de uma consciência de conhecer-me a me estranhar que cada letra naquelas folhas ia afiando.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Feijanito

(Desenho do canito Feijão, a assinalar o seu quinto ano de felicíssima e amada existência aos cuidados do Zé e da Lurdes: Liliana Sequeira, do outro lado do mundo. Parabéns do Reboliço!)

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Moinhos na poesia (80)

"Robot-democracy
In a robot-democracy, nobody is willing to serve, / even work is unwilling, the worker is unwilling, unwilling. / The great grind of unwillingness, the slow undergrind of hate / and democracy is ground into dust / then the millstones burst with the internal heat of their own friction."
D. H. Lawrence, Pansies [1930]
(Foto da página 33 de D. H. Lawrence, Amores Perfeitos [II],
selecção e tradução de João Concha e Ricardo Marques, não [edições], 2017:
Inês Dias. Obrigada!)

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Palácio da Fonte da Pipa

(Foto do Palácio da Fonte da Pipa, depois do fogo: Pedro Cabeçadas, 24/01/2016)

O Reboliço lê o texto da historiadora Luísa Martins, numa brochura publicada em 2008 (enquanto olha para as imagens de Gastão de Brito e Silva):
"No local onde se ergue o 'Palácio da Fonte da Pipa' existiu uma fonte à qual recorriam as pessoas da 'vila de Loulé.' As terras da Fonte da Pipa foram compradas por Marçal [de Azevedo] Pacheco, que quis erguer aí um palacete (a partir de 1875) semelhante aos que vira nas suas viagens ao Norte da Europa, enquanto advogado, político (Partido Regenerador), deputado, presidente da Câmara de Loulé, cidadão. A propriedade foi batizada de 'Quinta da Esperança,' nome que não permaneceu na memória popular. Não se conhece ainda quem foi o arquitecto que desenhou o palacete mas sabe-se que o seu construtor foi José Verdugo, que também trabalhou na construção do Mercado Municipal de Loulé. O decorador foi José Pereira Júnior (Pereira Cão), pintor e ceramista de Lisboa, que também trabalhou no restauro e decoração do Palácio da Ajuda por altura do casamento do príncipe D. Luís. Marçal Pacheco faleceu no ano de 1896 sem ter visto terminada a construção do seu palacete de sonho. Em 1920, a família do antigo presidente vendeu a Quinta a Manuel Dias Sancho, banqueiro de S. Brás de Alportel. Dias Sancho introduziu melhorias, mandando eletrificar o palácio e construir os bancos dos jardins embutidos com conchas, corais, búzios, cascas de caracol, porcelana, cerâmica, num estilo Kitsch de feição romântica que envolve todo o edifício e jardins. Nos anos de 1927/29 os bens da Casa Bancária de Manuel Dias Sancho, a título ressarcivo, foram entregues ao Banco do Algarve. Por sua vez, Francisco Guerreiro Pereira terá comprado a Quinta ao banco. O amor deste novo proprietário às plantas exóticas permitiu que ainda hoje permaneçam nos jardins espécies florais não autóctones. Após a morte de Francisco Guerreiro Pereira, foi herdeiro da Quinta o seu filho, o Dr. Guerreiro Pereira, de Faro. Em 1981, este médico vendeu a propriedade à empresa "Quinta da Fonte da Pipa, Urbanizações, Lda". A Quinta da Fonte da Pipa não está isenta de histórias de fantasmas, almas penadas e sons estranhos. Ainda hoje permanece o anátema tão arreigado na crença popular de fenómenos supostamente psicofónicos aí acontecidos. O que se deve, provavelmente, ao facto de ter aí havido jogos de interesses materiais, onde o cenário dos fantasmas foi instalado propositadamente a fim de afastar quaisquer interessados na propriedade, ou ainda porque, durante a epidemia da pneumónica (1916/18), foram provavelmente lá sepultadas vítimas dessa doença."
(A partir de portfólio e artigos arquivados no Centro de Documentação da
Divisão de Cultura e História Local da Câmara Municipal de Loulé)

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Fonte da Pipa

O Reboliço lembra-se da primeira vez que visitou os jardins e, por fora, o palácio da Fonte da Pipa. Ia no grupo da escola primária, com a sua Dona Antónia a comandar. O passeio teria sido por um Inverno como o de agora - além dos desenhos que se fizeram do palácio, teve de desenhar as flores das amendoeiras. Talvez por isso aquele palácio, tão fora da vila, tão excêntrico, sempre lhe estivesse associado, na ideia, ao que mais elementarmente, para si, definia o Algarve. Ardeu hoje de madrugada, com chamas de fogo. Morreu - ficou só paredes, sem as torres, sem os tectos pintados nem as colunas decoradas, as escadarias vastas, as janelas de muitos feitios, o sentido que faziam os muretes enfeitados com as cores dos cacos cerâmicos que, anos depois da visita inicial, lhe faziam lembrar os de um parque-jardim em Barcelona. Morreu, foi-se de vez, depois de há uns anos o terem meio escondido atrás de um longo muro de pedra, a bordejar a propriedade. Morrera já um pouco quando ao portão, distante da entrada uns 100 metros, lhe tinham estacionado dois gigantes de pedra que sussurravam a quem passasse "vai-te daqui." A vida do palácio eram os fantasmas que se dizia morarem ali e que hoje devem ter endoidecido, sem abrigo para assombrar.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Dylan - de novo, mas não só

De novo, pensa o Reboliço, Bob Dylan. Mas embrenha-se no artigo do New York Times e dá-se conta de que não é só o homem-tema que o atrai: ali descreve-se uma aula, descreve-se a disposição de uma matéria de estudo, um método de pesquisa. (Pouco tem a ver com investigação científica, a não ser onde ciência é, afinal, saber.)

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

No vermelho

O Reboliço continua no vermelho (natalino, se calhar), enquanto relê um dos primeiros livros que comprou com dinheiro seu, há mais de trinta anos, numa livraria de Faro que já não há quase tanto tempo.




Na última página, não numerada, da introdução - sem indicação de autor -, remete-se para outra escrita ainda:


quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

O Reboliço está a passar o Natal na neve

(Porque escuta a voz de Anne Carson - como poderia ser a de Merryll Streep, pensa...)

O Reboliço colecciona calendários (35)


(Foto do tão lindo bouquet sobre o calendário do ano em que se casaram os pais, e da página do mês em que se deu o enlace, no Moinho Grande, num Domingo, faz hoje anos: Reboliço, emudecido de grato à linda Inês, que lho ofertou.)

domingo, 25 de dezembro de 2016

(Natal de há seis anos)

Enroscado ao pé do lume, o Reboliço dormita ao vuruururuuururuuu hipnotizante do fumo a gastar o madeiro - só não entra no mais fundo do sono porque os troncos finos, o musgo seco e alguma carcaça de insecto interrompem, a estalar, a melodia das brasas. Do monte do lado vem o cantar de um galo temporão: despede-se da perua e dos gansos que, presos debaixo da mesa de pedra, no quintal, aguardam na bebedeira doce a chegada da morte e da panela.
O Moinho fita tudo isto, indiferente aos dias que são, às pessoas que há e às que não estão. Já viveu quantos Natais?, quantas festas? Agora exibe no começo do socalco um letreiro branco a letras negras: "propriedade privada" - coisa estranha para enxotar algum casal que quisesse encostar às suas paredes o namoro, alguma raiva de motor a patinar nas ervas daninhas que os dedos não apanharam. É do Moinho, ou do Reboliço, a indiferença? Atrás da nogueira jovem (já tem umas dúzias de ramadas cheias de folhas, agora secas, quase dois metros de altura e outro tanto de amplitude de copa), o telhado da garagem anima-se com a bulha de três dos cães do vizinho - andam ao cheiro de rato ou de coelho que ali se tenha acoitado. Nem ouvem o "Qu'é da rua!" a mandá-los para o outro monte. Latem, caçam, farejam, o entusiasmo nas caudas e nos focinhos a brilhar.
Numa das janelas do Moinho, a que fica por cima da porta, vêem-se três ou quatro marcas de mãos enfarinhadas. Algum visitante pequeno, alegre de ter experimentado a macieza moída, quis ver como parecia o vidro assim decorado.
O dia está frio, mas só o bastante para se querer fazer lume e não sair da casa. O Reboliço, agradecido, reentra na dormência. Vê-se noutros lugares, terras sem fogo de lenha nem precisão dele, com o calor só de haver gente, outras luzes, novidades. Quando o tronco estala de novo, abre um dos olhos e, pelo vidro da porta, vê de relance um gato rápido e esguio atrás dos passarinhos brancos de cabeça azulada, que desde manhã saltitam pelas pedras da rua. "Quatro lumes tenho eu nesta casa," ouve dizer a dona grande. O dono cantarola ao abrir da noite: "Já lá vem nascendo o Sol, lá das bandas do Algarve - Ai, enganei-me, é a Lua, que o Sol não nasce tão tarde."

domingo, 4 de dezembro de 2016

Oh...

Há os senhores que morrem com 72 anos. E há aqueles que, sem idade, vivem sempre meninos. Obrigada, Billy, por John Harper.

sábado, 3 de dezembro de 2016

O Reboliço colecciona calendários (34)

"Anda cá, MaNi," chama o Reboliço. Chove, venta, a terra enlameou-se e o céu não larga o cinza. O cão novo não o atende, anda ao cheiro molhado das ervas verdinhas. O Reboliço dá meia volta, mais volta inteira e enrosca-se à porta da casa, a sonhar com lareiras e com as folhas de um calendário que voejam, uma e outra, até à chegada do mês derradeiro.


(Imagem do calendário de Dezembro, dois pássaros chegadinhos um ao outro: Theodoor van Hoytema, artista holandês nascido em 1863 e desaparecido para a gente em 1917. Em 1900 desenhou ilustrou os meses de 17 anos - deixou em rascunho 1918. Muitas graças à Inês.)

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Natacha (*)




Do lado de fora das salas, casinhotas de madeira entre os pinheiros, o Reboliço observa o desplante, o atrevimento com que a gata Natacha invade uma aula e ali se deixa ficar, quase duas horas inteiras, para desfrute de alunos, impaciência da professora e beleza, afinal, de todos. Olha de fora, o Reboliço, e vê-a procurar o canto mais morno do lugar: onde entra a réstia do sol da manhã, onde um colo de calor se lhe oferece, onde o aparelho que bafora o ar aquecido ronrona. Olha de fora e ouve a voz da professora, esforçada entre as deleitadas risadas e a desatenção do grupo, ler, a propósito, Vítor Silva Tavares: "Gosto e não gosto de gatos. Gato felino, gosto; gato gordo, não gosto; gato maluco, gosto; gato molenga, não gosto. Gato é companhia. Cão também, mas gato é outra companhia, companhia especial. Gato não é amigo, não é fiel; gato é egoísta, é ditador; gato não lambe botas, não arremelga o olho; gato é senhoria, é sua excelência, é mimalho, é lascivo. E tem ronha, tem muita ronha: faz das patas algodão ou garra, conforme a sua conveniência."(**) Ouve a voz que lê e observa a Natacha, gata melíflua, dengosa no que lhe convém, que é o ameno da sala a escondê-la do fresco da rua - e vê-a a escapar-se, indiferente, mal lhe foge o sol do vão da porta, para outra sala com gente e calor.
(Fotos da gata sobre uma das mesas da sala de aula e do corredor entre as salas, no campus pinheiral: Reboliço)


(*)"Natacha" foi o nome que ganhou a gata porque o dia em que fez a sua aparição marcou o aniversário da aluna com aquela graça.
(**) Vítor Silva Tavares, "o gato", in revista Cão Celeste, nº 9, Julho de 2016, p. 123.
Originalmente publicado no jornal Diário Popular, 19/6/1963.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Oh...

O Reboliço chama a Tiaga de lado para lhe dizer que há no céu dos gatos um companheiro novo, de ronronar especial.

sábado, 22 de outubro de 2016

Moinhos com vento

(Fotografia: Eduardo Hernandez-Pacheco; parte de um conjunto de diapositivos realizados em Portugal [talvez na região Oeste] entre 1917 e 1942. Fonte: Centro Português de Fotografia)

Merci, cher Miguel!

(Foto das capas de duas edições das Cartas de Alphonse Daudet, enviadas pela amiga mão do Miguel de Carvalho: Reboliço, de patinhas postas a agradecer.)

[The Saints of Modern Art*]

Nem mistral nem calema, nem nevróticas danças
de feiticeiros contra as tensas muralhas
de um qualquer império. Um dos grandes poetas
da língua e do tempo morre numa cela de xisto e cal,
e nada pede. Esse era o seu único desejo
e habita-o como se fosse mansarda da alma
e toda a mesquinhez tivesse sido assoreada
na cave. Finalmente, encontrou o seu lugar
no mundo, um lugar só seu, em que as ombreiras
rangem como órgão de igreja afinado
pelas tempestades. Tem um harém de memórias
e vive numa orgia de ervas de cheiro, ao fundo
das narinas. Do sol, chega-lhe a proporção exacta
para que a penumbra não cegue de alegria.
Conquista e reconquista cada passo, até saber-se
definitivamente amado pelo seu povo de aranhas
e nervais. Talvez pudesse ter sido de outro modo,
ter nascido com asas e sem a atracção para o precipício
que o tornou celerado e menestrel. Que nada!
Recorda agora um profeta, feliz como uma galinha
do mato, que viu, a oriente, entregue ao acto de comer
ininterruptamente até sentir, de novo, fome:
a profecia do homem consumou-se e isso basta-lhe,
como um pensamento vazio ou um ruído branco.
Quando, finalmente, a morte vier assenhorear-se de si,
recebê-la-á com um abraço lânguido, quase sensual,
e juntos partirão à procura de um local que àquele se assemelhe,
sem que, para merecê-lo, seja preciso viver, que é como quem diz
quebrar o coração.

Miguel Martins
(publicado aqui em 05/06/2016 e no livro Desvão, não [edições], em Setembro de 2016)
(*Charles A. Riley II sobre o ideal ascético na arte contemporânea)

sábado, 15 de outubro de 2016

"Ars Poetica?"

Sempre aspirei a uma mais espaçosa forma
que fosse livre das pretensões de poesia ou prosa
e nos fizesse entender uns aos outros sem expor
autor ou leitor a sublimes agonias.

Na essência mesma da poesia há qualquer coisa indecente:
uma coisa se produz que não sabíamos ter,
piscamos então os olhos, como se saltasse um tigre
e ali estivesse à luz, batendo a cauda.

Por isso se diz, com justeza, que a poesia é ditada por um daimonion,   
ainda que seja exagerado afirmar que é um anjo.
É difícil descobrir de onde vem esse orgulho dos poetas,
quando tantas vezes a exibição das suas fragilidades os envergonha.

Que homem razoável se quereria uma cidade de demónios,
comportados como se estivessem em casa, falando em muitas línguas,
e que, não satisfeitos com roubar-lhe lábios ou mão,
labutam em mudar-lhe, conforme lhes convém, o fado?

É verdade que hoje se sobrestima o mórbido,   
e podereis pensar que estou só brincando
ou que achei mais um modo
de louvar a Arte usando-me da ironia.   

Houve um tempo em que só os livros sábios se liam,
o que nos ajudava a suportar as dores e as misérias.
Isso, afinal, não é bem o mesmo
que folhear os milhares de obras que saem das clínicas psiquiátricas.

Ainda assim, o mundo está diferente do que parece
e somos diferentes do que nos vemos em nossos desvarios.
Por isso as pessoas mantêm silenciosa integridade,
assim ganhando o respeito de familiares e vizinhos.

O propósito da poesia é lembrar-nos
como é difícil ser-se uma só pessoa,
já que a nossa casa está aberta, sem chaves nas portas,
e que entram e saem à vontade invisíveis convidados.

Aquilo que aqui digo, concedo, não é poesia,
pois os poemas deveriam ser escritos rara e relutantemente,
sob insuportável pressão e apenas com a esperança
de que os bons espíritos, e não os ruins, nos escolhem para seu instrumento.

Berkeley, 1968
(Tradução: AIS, a partir da versão inglesa do autor,  Czeslaw Milosz.
Obrigada, Adalberto Müller.)

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Três vivas para o Senhor Dylan!

(O Reboliço republica a sua versão de "Long and Wasted Years," belíssimas, tempestuosas palavras do mais recente prémio Nobel da Literatura)

Passou tão longo tempo
Desde que nos tivemos amor e almas verdadeiras
Houve um dia, um dia breve, em que fui o teu homem

Ontem à noite ouvi-te falar enquanto dormias
A dizer coisas, minha querida, que não deverias
És capaz de ter de ir presa, um destes dias

Haverá um lugar aonde possamos ir?
Alguém que possamos visitar?
Talvez seja contigo igual ao que é comigo

Não vejo a família há vinte anos
Coisa difícil de entender, às tantas já estão mortos
Perdi-lhes o rasto desde que perderam a terra

Agora ginga, querida, berra e dança
Já sabes do que se trata
Seja como for, o que fazes aqui ao sol?
Não sabes que pode dar-te cabo da moleirinha?

O meu inimigo afocinhou no pó
Caiu morto na estrada e perdeu o brilho
Foi brutalmente atropelado, ficou espatifado
Morreu em desgraça, tinha um coração de ferro

Uso óculos escuros a tapar-me os olhos
Há ali segredos que não consigo ocultar
Anda cá, minha querida,
Olha, e desculpa lá se te ofendi, sim?

Dois comboios vão lado a lado, quarenta milhas de distância
Descem a linha do Oriente
Não tens de te ir embora
Só vim ter contigo porque és minha amiga

Acho que enquanto estava de costas
Atrás de mim todo o mundo ardia
Já passou algum tempo
Desde que atravessámos aquele tão longo corredor

Chorámos era uma manhã gelada e fria
Chorámos porque se nos despedaçava a alma
Lá se vão as lágrimas
Lá se vão estes longos, anos perdidos

(Tempest, 2013)

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Moinhos na Poesia (79) / O Reboliço é um Nefelibata (94)

POETA

Poeta poeta sem bruxedo
Três dias depois do naufrágio
Moinho moinho de neve
As costas estão carregadas de nuvens

Todos vós sois grifos
Vosso coração sangra pelo nariz
Mas os pássaros são armários repletos
Os pássaros que no céu estão mais quentes que as mãos

Cala-te rouxinol ao fundo da vida
Eu sou o único cantor de hoje

Dir-te-ei mil vezes
Que minhas costas estão carregadas de nuvens
Mas tenho comigo a flauta mágica do querubim selvagem

(Vicente Huidobro, Natureza Viva, tradução de Luís Pignatelli, Lisboa, Hiena, 1986. Obrigada às Edições Averno)

terça-feira, 4 de outubro de 2016

O Reboliço colecciona calendários (33)

Faz quatrocentos e trinta e quatro anos que o Papa Gregório instituiu dos dias do ano a contagem que haveria de ter o seu nome. O país do Reboliço foi dos primeiros a adoptá-lo e ainda bem que foi logo assim e não andaram em indecisões mais tempo: nesse ano de começo, cortaram dias à conta e, em vez de 5 de Outubro (ainda nem se adivinhava que viria a ser feriado; por assim dizer, em 1582 nem toda a gente saberia que o poema publicado uma década antes, chamado Os Lusíadas, era a obra que era), o dia a seguir a 4 foi 15 de Outubro. Vivesse nessas datas o Reboliço e teria sido o transtorno bem grande.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Droooning

O Reboliço ouve um zumbido, mosca, mosquito?, lá abre um olho, nada de ver. Fecha outra vez os dois olhos, suspira fundo e, nisso, ergue-se-lhe e desce-lhe o peito, o focinho sobre as patas. Quer continuar a dormir, mas o zumbido cresce, fica um ruído mecânico: não é insecto. Levanta uma orelha, depois a outra, abre os dois olhos no segundo em que o focinho aponta para o céu, e vê como uma estranha libélula grande. "Um drone," recorda. Desce o focinho, as orelhas, cerra os olhos, franze o cenho e tenta readormecer.

Lá em cima, as patas e o corpo do boneco movimentam-se pelo ar. No chão, alguém que o comanda estuda os terrenos e vai carregando num botão: clicclicclic.

(Foto do Moinho Grande, do quadrado de implantação, terreno em volta, árvores, poço e outras construções: João Pereira, para o grupo As Paredes de Beja também têm Sentimentos. Obrigada pela autorização.)

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Moinho de Pastor

A livraria Paralelo W avisa que está de férias até 29 deste mês. E, para ilustrar o tempo de pausa, mostra uma das muitas e muito lindas fotografias que Artur Pastor fez de moinhos portugueses. Esta, reproduzida em baixo, foi feita na praia da Apúlia, no Alto Minho, entre os anos de 1950 e 1962. Por um acaso, não muito longe (mas tão distante no tempo) de onde o Reboliço passou os dias da Romaria da Senhora da Agonia.


(Poderiam ser apanhadores de sargaço, o homem e a mulher que se vêem à esquerda, em baixo, e que ajudam a entender a grandeza da duna-sopé de moinho - não fosse o volume do que carregam tão estendido na direcção do céu; não fosse, apesar de tudo, transportável sobre aqueles corpos.)

domingo, 14 de agosto de 2016

Fogo no nicho

(Na aldeia, em pequeno o Reboliço dormia no quarto maior, interior, com o mano e a mana. Uma cama grande para elas, uma mais pequenina para ele. A porta de duas lâminas dava para o corredor que vinha da mercearia e ia para o quintal. Quando se arranjou a casa, disse a mãe aos pedreiros: "Descubram-me aí os nichos que o quarto tinha, de quando eu era moça." A mãe, antes, então, ali dormira com a mana dela: um dos nichos, pequeno, de frente para a porta, começava ao metro e meio de altura e tinha menos disso até terminar, um pouco mais de largura e de profundidade igual. Servia como se fosse mesa de cabeceira. O outro, mais alto, começava mais em baixo na parede e era como que fechado por um pano ao alto. Ali se guardava a roupa das meninas da casa. Os nichos haviam sido cobertos e durante anos ninguém se lembrou deles. Até que a mãe pediu aos pedreiros que os devolvessem à casa. No Verão, a telha de vidro deste quarto tem de ser tapada de papéis [quando havia a mercearia, era papel manteiga, o mesmo onde se faziam as contas ou embrulhava o pão, com o que se fazia os cartuchos para o feijão e o grão], ou o calor mata a gente. Quando bate ali de manhã, alguma fresta entre o papel, o vidro e a alvenaria do telhado deixa passar o sol que não se quer dentro de casa e projecta, no nicho grande, a labareda.)

terça-feira, 26 de julho de 2016

Dia dos Avós

(Foto de pés de tomate de Inverno ao sol de Verão: Reboliço. O pequeno Matias - que já foi mais pequeno... - dizia hoje que queria saber quem tinham sido os bisavós dos bisavós da mãe dele. Ufffff... O Reboliço nem dá conta dos bisavós que teve, quanto mais dos bisavós deles. Foi à varanda, afastou os dois pés de tomateiros - pesados dos frutos, já quinze esferas de tamanhos diferentes - e semeou uma árvore genealógica. Se brotar, será daqui a algum tempo.)

domingo, 10 de julho de 2016

10 de Julho, Dia do Portugal das Comunidades Desportivas

O Reboliço ouve os amigos que aconselham: "Larga as redes sociais!" Mas, conforme diz a @jonasnuts, o Twitter® "é a melhor forma de acompanhar jogos de futebol" (o Reboliço acrescentaria "e telenovelas e debates políticos e actualizações de notícias"). A celebração, em rede, parece-lhe mais ampla. E, à conta das contas dos jogadores nas ditas cujas redes, até parece que lhes sente o som do peito na batida do abraço, enquanto lhes dá os parabéns.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Os Bichos

O Reboliço gostaria de dar a ler à Professora Maria Esthel Maciel as histórias sobre bichos, que Miguel Torga escreveu. E de ler o que ela, então, escrevesse.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

"The essential is not inaudible"

O Reboliço escuta, no programa que o Robert Harrison gravou neste solstício passado, a voz de Inga Pierson a falar, autorizada, sobre o livro Frankenstein, escrito há 200 anos por Mary Shelley e publicado pela primeira vez em 1818.
(O podcast do programa está aqui - o episódio sobre Frankenstein é o primeiro da lista, com a data de 29/06/2016)

domingo, 26 de junho de 2016

Le photographe de la vie moderne

Algum dia terias de ser levado de nós. Obrigada, Bill, por seres os nossos olhos.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

What, now?

(Foto do desenho que o pequeno Matias fez no dia preciso em que, em referendo, uma maioria de votantes britânicos escolheu deixar o grupo europeu, a União: Reboliço, sem saber bem o que será daqui para a frente - ou sequer se essa deverá ser, ainda, preocupação sua.)

terça-feira, 21 de junho de 2016

O senhor Young

Correram oito anos desde que o Reboliço assistira a uma ocasião das mais engrandecedoras da sua alma minusquinha. Nesse dia de 2008, viu e ouviu num palco junto ao rio Tejo o senhor Neil Young - and his Electric Band - cantarem e tocarem música e outra coisa qualquer que achou ser mais do que música e luz e movimento, mas até hoje não consegue designar por nome que se conheça. Quando, no começo deste ano, se apercebeu que aquela pessoa estaria dentro do espaço da sua Península, ou seja, perto, a fazer coisa que prometia semelhante, decidiu no segundinho que haveria de estar presente. Depois de pensar noutros animais de som, e da tal outra coisa, que já não podem fazer disso estando vivos, como o senhor David Bowie, ou o senhor Prince, mais se agradeceu ter-se decidido andar. Andou. E ouviu. E veu. No fim do sábado 18 do mês em que está, o senhor Young entrou e saiu do palco sem tirar o seu chapéu em ocasião alguma, o que, podendo ser visto como sinal de má educação, ali era modo de o sinalizar a ele e de o proteger de alguma corrente de ar - isto foi tudo em campo aberto, junto a um rio outro, chamado Manzanares, e nunca se sabe ao fresco do anoitecer. A uns dez minutos de ter começado a função que ali o levava, perante o universo que o via, no palco e numas gigantescas telas de imagem aproximada da perfeição, apontou o senhor Young um indicador à lua cheia que subia do outro lado do céu, em frente a ele. Não precisou de cantar "Harvest Moon", que o coração do Reboliço ali logo ouviu no seu ouvido interior e gostou. O senhor Young esteve no palco sozinho mais de meia hora, cantou e tocou harmónica, a sua old guitar e órgão, e só depois entraram na convivência musical dele os meninos filhos de Willie Nelson (Lukas e Micah Nelson, e a banda deles chama-se Promise of the Real), todos cumpridores do serviço que ali lhe faziam e de corpos em permanente sobressalto pela incredulidade de estarem a alinhar acordes com o senhor Young. O senhor Young serviu duas horas e meia, mais minuto menos minuto, repetiu (chama-se "encore"), o que, naquele festival, se acontecera, não fora perante a atenção do Reboliço, e mais teria ficado, não fosse a clemência do aplauso lhe perdoar os 70 anos, apesar de em vão os tentar ver num corpo de camisa aos quadrados, mas acima de tudo a consciência de que, se somos viventes criaturas de uma divindade qualquer, ela nos possui e não nós a ela, e lhe devemos, portanto, obediência e respeito: o que nos der, pouco que seja, é o mais e o melhor, e tem um fim. Quem parece ter-se apercebido também do que se passou neste fim de dia ao pé do rio de Madrid foi o Fernando Navarro, que escreveu no jornal El País.

(Foto das telas onde apareciam duas meninas que lançavam sementes e regavam flores no palco, a preparar a entrada do senhor Young: Reboliço, lembrando-se que os trabalhos mais recentes do senhor Young têm sido dedicados, também, a alargar a consciência sobre a modificação genética de sementes - sementes de plantas que as pessoas comem.)

(O Reboliço teve ainda, neste verdadeiro festival, o reencontro com um menino de belas cordas e voz, Gary Clark, Jr., e apanhou outra surpresa com o inacreditável e maluco senhor Perry Farrell, que além do grupo chamado Jane's Addiction levou ao palco senhoras semi despidas e tudo e tudo e gostou muito de tocar música e de cantar e via-se que sim; e conheceu uma Band of Horses que provou que, se há animais pelo nome, é que são gente boa.)

domingo, 12 de junho de 2016

O Reboliço é um nefelibata (93), ou O mundo da literatura



How to live. What to do

Last evening the moon rose above this rock
Impure upon a world unpurged.
The man and his companion stopped
To rest before the heroic height.

Coldly the wind fell upon them
In many majesties of sound:
They that had left the flame-freaked sun
To seek a sun of fuller fire.

Instead there was this tufted rock
Massively rising high and bare
Beyond all trees, the ridges thrown
Like giant arms among the clouds.

There was neither voice nor crested image,
No chorister, nor priest. There was
Only the great height of the rock
And the two of them standing still to rest.

There was the cold wind and the sound
It made, away from the muck of the land
That they had left, heroic sound
Joyous and jubilant and sure.

Wallace Stevens, sugerido por Colm Tóibín na introdução que em 2014
escreveu à edição de Fiesta: The Sun Also Rises.

domingo, 5 de junho de 2016

Li letro de moun moulin

O Reboliço não se decide se a sedução que sente pelo que desconhece opera por convite a conhecer, ou se por maravilhamento perante o que, por indecifrável, não lhe é fácil racionalizar. Desconfia que seja uma colecção dos dois. O grande amigo grande mostrou-lhe a porta para os textos de Alphonse Daudet em língua provençal, e é um regalo de ler sem perceber quase nada (sim, porque lhe conhece de cor as histórias), mas sentir um bocadinho o sardo, um bocadinho o catalão, pitada aqui, pitada ali de francês, de espanhol, de antiquíssimo português: é, por exemplo, Anfons o Daudet.

sábado, 4 de junho de 2016

Oh...

Nos três anos em que esteve impedido de combater nos ringues (e com o título de campeão suspenso) por se recusar a combater os seus iguais no Vietname, Mohamed Ali ganhava a vida a dar palestras por universidades e escolas dos Estados Unidos. Começou titubeante, mau pregador, e veio ganhando experiência, confiança e retórica. Tinha o espírito, precisou de o esculpir. Uma fabulosa história de vida.
(O Reboliço nota que o senhor presidente Barack Obama, que é principalmente dono de dois cães de água e isso é só, sublinhou, referindo-se a Ali, que não era "poeta tão hábil ao microfone" quanto era "no ringue lutador" - mas ombreava, ainda assim, com o senhor Nelson Mandela e o senhor Martin Luther King por ter lutado para fazer do mundo um lugar mais justo, mais decente onde viver.)