segunda-feira, 25 de abril de 2016

Liberdade

(Foto da pintura do pequeno Matias no chão da terra: Mana Gabriela. O sobrinho primeiro do Reboliço nasceu da Mana Gabriela e do Vasco - nem um nem outro eram nascidos quando foi do 25 de Abril, nem, por necessidade, os filhos deles. O Mano João, que é gémeo da Gabriela, igual - e os filhos dele e da Angela nascem também em liberdade. O Reboliço, apesar de já nascido havia naquela data três anos e meio, não guarda memória do dia. Mas dos que vieram depois, da alegria de celebrar aquilo que começou por ser só uma palavra, depois foi conceito e agora é o mote de uma vida, o que mais o alegra é isto de ter dedos cheios de tinta e perceber que do corpo de um canito a uma expressão dele se pode fazer o caminho sem constrangimentos, sem peias, com sorrisos e risos de ir às lágrimas. Por coincidência igual de feliz, repara ainda, o Dia da Liberdade é também o Dia Mundial dos Penguins.)

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Um de três

No nº 19 da revista Telhados de Vidro (2014), publicaram-se três poemas - chamou-se ao grupo "A céu aberto" - dedicados a Miguel de Carvalho, pela sua Coimbra. Um de Manuel de Freitas, um de Inês Dias e este que em baixo se vê, num retrato que lhe fez o próprio livreiro de Carvalho.




quarta-feira, 13 de abril de 2016

Este sábado

O segundo sábado traz o mano às Conversas sobre Criatividade em Loulé:


domingo, 10 de abril de 2016

Para que serve a poesia?

O Reboliço gosta muito de ler poemas e de falar sobre ler poemas. Serve-lhe o gosto, portanto, a poesia. E o palato ansioso: com azeite, mel, queijo, cavacas, borrachões e outras doçuras beirãs que ganhou em troca de leituras.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Simenon sim!

(Foto do Miguel Martins, enquanto na sexta-feira passada discursava, na Universidade do Algarve, sobre Georges Simenon, a sua vida e obra: Reboliço, a lembrar-se de Balzac, outro prolixo escritor.)

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Morse > Lewis

(Foto da televisão a mostrar Lewis que se despede de Morse: Reboliço, a pensar no trabalho dos actores, no carinho das personagens, na inteligência do olhar de quem fez aquela série e viria a fazer Inspector Lewis. Morreu Morse [em 2000] e morreria John Thaw dois anos depois, de um cancro no esófago. Paz às almas dos homens cuja vontade é só beber muito, comer bem, pensar melhor, right the wrongs of the world e achar alguém a quem amar. Lewis sobreviveu-lhe, mas, como o seu carácter só excedia o de Morse em gentileza e a bonomia, teve de achar um parceiro que de Morse herdasse, ao menos, o wit.)

quinta-feira, 31 de março de 2016

Oh...

Quando o Reboliço era cachorro, tinha um pensamento branco que ora o ajudava a adormecer, ora o assustava, de tão absolutamente branco. Era nada mais do que isso: um pensamento branco. E o branco era tudo, era todo o pensamento. A Zaha Hadid tinha entrado no pensamento do Reboliço e plantado lá um edifício. Branco.
(Adeus, Zaha. Fugiste sem avisar.)

quarta-feira, 30 de março de 2016

Janis

Que nome é esse, Janis?, interroga-se o Reboliço. Lembrou-se dela a propósito de um Bobby McGee que com ela entrou num dia de chuva na boleia de um camião, em Baton Rouge (coisa de esborratar e passar a mão suja, encarnada, sobre os jeans já gastos, ou a suja bandana encarnada) e seguiu para o Kentucky antes de ir para Oeste à procura do sol e de um lar - achou-o em Salinas, perto do Pacífico. Vai uma mulher à boleia com um homem e cantam, eles mais o camionista, os blues de alguns dias de estrada - I was holding Bobby's hand in mine. Vai a mulher, segue viagem e "deixa-o escapar", que achou - o homem achou - o lugar que procurava para assentar. Em 1970. A verdade é que quem ficaria a residir e se furtaria à viagem seria uma mulher. Foi assim que Kris Kristofferson imaginou quando escreveu a canção: Bobby foi a mulher que lhe aqueceu as noites, soube dos seus segredos, e, "Bobby clapping hands" ao som das canções que ambos cantaram com o camionista, recusou seguir viagem. Na versão de Janis (Janis, que nome é o teu?), a de uma mulher sobre um homem, a liberdade - não ter nada a perder - não vale nada se não for livre, se não for de graça; na do homem sobre uma mulher, o nada nada vale, mas é de graça. Há na escolha da mulher a possibilidade de um preço a pagar pela liberdade, que passa a ser diferente de não ter nada a perder. Quando o homem canta, porém, é um dado adquirido que a liberdade não tem qualquer custo. 
(E a propósito de George, nome certo de cão.)

terça-feira, 29 de março de 2016

Fazer caras

O Reboliço não se cansa de gente divertida. Pensa que os donos do Bo e da Sunny são assim, divertidos. Séria gente divertida, que gosta de ler, de dar a ler, de fazer ler, de animar leituras. Num dia de Páscoa, como os que agorinha mesmo passaram, soube que juntaram moços pequenos e lhes leram, animados, sobre onde estão as coisas selvagens. O que se riu!

quarta-feira, 9 de março de 2016

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Daqui a uns dias, em boa companhia:



sábado, 13 de fevereiro de 2016

Moinhos na poesia (78)


"Le Moulin" (fragment)

… Tandis que devant moi,
Dans la clarté douteuse où s’ébauchait sa forme,
Debout sur le coteau comme un monstre vivant
Dont la lune sur l’herbe étalait l’ombre énorme,
Un immense moulin tournait ses bras au vent.
D’où vient qu’alors je vis, comme on voit dans un songe
Quelque corps effrayant qui se dresse et s’allonge
Jusqu’à toucher du front le lointain firmament,
Le vieux moulin grandir si démesurément
Que ses bras, tournoyant avec un bruit de voiles,
Tout à coup se perdaient au milieu des étoiles,
Pour retomber, brillant d’une poussière d’or
Qu’ils avaient dérobée aux robes des comètes ?
Puis, comme pour revoir leurs sublimes conquêtes,
A peine descendus, ils remontaient encore.

Guy de Maupassant, 23-24 octobre 1897
(Obrigada, amigo.)

sábado, 30 de janeiro de 2016

Lewis < Morse

Foto de dois wasted men em momento inspiracional: Reboliço. Depois de Inspector Lewis, o Reboliço assiste aos episódios de Inspector Morse. Pela ordem, portanto, inversa à da narrativa da série. Mas como gosta de descobrir a verdade do que o velho Lewis conta sobre o antigo chief-detective, vendo-o (a Lewis) em novo!

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Lazarus

Olhem cá para cima, estou no céu
Tenho cicatrizes que não se vêem
Tenho drama, não mo podem roubar
Agora todos sabem quem sou

Olhem cá para cima,
estou em perigo
Já nada tenho a perder
Estou tão no alto, a cabeça a andar à roda
Deixei cair o telemóvel

Não é mesmo coisa minha...?

Quando cheguei a Nova Iorque
Vivia que nem um rei
Depois gastei o que tinha
Andava à tua procura

Ou assim ou de maneira nenhuma
Já sabes, ficarei livre
Como aquele pássaro azul
Não é mesmo coisa minha...?

Ah, ficarei livre
Como aquele pássaro azul
Ah, ficarei livre
Não é mesmo coisa minha...?

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Moinhos na Poesia (77)

(Foto da página inicial da canção "Grilos e grilões", de Sidónio Muralha: Reboliço, encantado. O volume chama-se Bichos, bichinhos e bicharocos, é uma edição facsimilada da 1ª, de 1949, com textos de Muralha, ilustrações de Júlio Pomar, então com 23 aninhos, e inclui as pautas - e um CD, nesta reedição - de Francine Benoit; saiu na althum, em co-edição com a Centauro e o Museu do Neo-Realismo de Vila Franca da Xira, em 2010. A cantiga é uma alegoria sobre a opressão dos fracos pelos fortes: do mais neo-realista que existir poderia.)

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

(Cada vez que contamos uma história esquecemo-la mais e mais.)

Em 1925, Mikhail Bulgakov escreveu uma novela alegórica chamada Coração de Cão. (Só viria a ser publicada em 1987, e em Portugal teve, pelo menos, três edições - a primeira, nos Estúdios Cor, sem data de publicação, mas certamente anterior a 87 e feita, provavelmente, a partir de uma versão que circulava clandestina; as mais recentes na Vega, em 2008 e na Alethêia, em 2014.) A história de Bulgakov tem pouco a ver com o filme de Laurie Anderson, mas os títulos coincidem e a realizadora faz, nisso, mais uma remissão a uma constelação de obras que iluminam o céu canino do filme. Onde o perfeito texto de Bulgakov é satírico, dorido de denúncia, de comunidade, dá o olhar de Anderson uma visão privada, íntima e doce. É um filme sobre contar histórias, ao passo que o livro de Bulgakov é uma das muitas histórias que podem ser contadas.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

MaNi

O MaNi chegou há uns dias, desmamado cedo, os olhinhos ainda como ensonados, pequeno o tempero da alma, vagus blandus animal - da raça do Sorna, mas pêlo ao contrário: mormente escuro e marcado, sobre os olhos, castanho melaço; o colar, extremo de patas e ponta da cauda caídos em balde de cal e a ponta do focinho como quem permanentemente roubasse a nata fresca do prato do leite. Anda a farejar tudo o que é formiga à volta da casa; rói as ervas como se fossem os mais saborosos ossos, o mais apetecível biscoito. Cheira os cheiros da Luca, do Sorna, do Petaner e dos vizinhos caninos todos. Porque não cabe em si é que cresce um bocadinho cada hora. O Reboliço olha-o, desconfiado do que virá a ser aquela forma patuda e ansioso por ver-lhe o porte mais imponente e poder, por fim, fazer-se entender. Olá, sou o Reboliço. Diz-me: o que pensas fazer da vida?

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Luca (14/11/2004-8/12/2015)

(Foto, re-publicada: Reboliço há uns anos bons, no Poço Novo, a lembrar o Sorna e a Luca, que foi ontem ter com ele ao céu dos cães. Boas viagens, queridos, queridos amigos.)

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

O Reboliço é um nefelibata (92)

NUVENS

Ao dobrar de uma curva da estrada, encontro o fotógrafo celeste. Imóvel ao lado do tripé, braços cruzados sobre o peito, espera que o vento misture de tal modo luz e sombra que a cor do céu possa entrar toda inteira no breve enquadramento da máquina fotográfica. Assim que me aproximo, começa a procurar nos bolsos e, franzindo um pouco os olhos (creio que cada vez mais lhe custa ver ao perto), vai tirando imagem sobre imagem: pedaços de céu com grandes massas de nuvens muito brancas, ou azuis como os montes ao longe, ou levemente pintadas de vermelho e cor-de-rosa como os frutos do verão. «Não é bonito, isto?», pergunta. Depois voltamos a olhar para as fotografias, com a surpresa de quem vai à janela olhar o céu e se dá conta de estar a ver um pormenor do universo: «quanto mais as nuvens nos parecerem imóveis, mais nos movemos nós, viajantes de uma nave imensa. Como se não houvesse nenhum vento e, sabe-se lá porquê, a Terra começasse a rodar ligeiramente mais depressa».

(Rosa Maria Martelo, A Porta de Duchamp, Lisboa, Averno, 2009, p. 14.)

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Moinhos na Poesia (76)

Romance Alentejano

I

Talham os moinhos
A sua farinha coleante
Irrequietos sulcam os heróis
Searas usurpadas
Passeando o sólido hálito
Pelas veredas lunares dos olivais.

Uma metalurgia de gestos
Dilui os seus perfis de jade
Pressinto-lhes na voz
A sabedoria imolada
Carótida que o bárbaro dedo esmaga.

(Carlos Eurico da Costa, enviado por divina, amiga mão.)

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

O Reboliço colecciona calendários (32)

(E tem uma colecção de amigos que sim senhor! Muito obrigada, menino Alfarrabista.)

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Não abandonar a comédia

O Reboliço ouve falar pessoas como Jon e Tracy: Jon Stewart não abandonou a comédia; esta é a razão por que, desde logo, é inteligente e cómico e um bom exemplo.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Ondas do mármore

(Foto do sub-inspector Hathaway a contemplar a estátua mortuária de Percy Bysshe Shelley, em Oxford: Reboliço. O corpo do poeta aparece reclinado, como terá dado à costa perto de Viareggio, depois de uma tempestade em que naufragou. O Reboliço vê os episódios de Inspector Lewis como quem assistisse ao serviço religioso e ouvisse, dos poetas, "Fazei isso em memória de mim.")

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

"To sleep, perchance to dream"

O Reboliço vê o capítulo inicial da série policial Lewis, adaptação da tragédia Hamlet, e pensa na permanência das histórias.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Hino mundial contra a violência doméstica (ou "Jamé, mané!")

O Reboliço escuta a voz madura, gutural, e pensa na energia jovem que sai dela. Salvé, Elza!

Cadê meu celular?
Eu vou ligar prum oito zero
Vou entregar teu nome
E explicar meu endereço
Aqui você não entra mais
Eu digo que não te conheço
E jogo água fervendo
Se você se aventurar

Eu corro solto o cachorro
E, apontando pra você
Eu grito: péguix guix guix guix
Eu quero ver
Você pular, você correr
Na frente dos vizinhos
Cê vai se arrepender de levantar
A mão pra mim

Cadê meu celular?
Eu vou ligar prum oito zero
Vou entregar teu nome
E explicar meu endereço
Aqui você não entra mais
Eu digo que não te conheço
E jogo água fervendo
Se você se aventurar

Eu corro solto o cachorro
E, apontando pra você
Eu grito: péguix guix guix guix
Eu quero ver
Você pular, você correr
Na frente dos vizinhos
Cê vai se arrepender de levantar
A mão pra mim

E quando o samango chegar
Eu mostro o roxo no meu braço
Entrego teu baralho
Teu bloco de pule
Teu dado chumbado
Ponho água no bule
Passo e ofereço um cafezim
Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim

Cadê meu celular?
Eu vou ligar prum oito zero
Vou entregar teu nome
E explicar meu endereço
Aqui você não entra mais
Eu digo que não te conheço
E jogo água fervendo
Se você se aventurar

Eu corro solto o cachorro
E, apontando pra você
Eu grito: péguix guix guix guix
Eu quero ver
Você pular, você correr
Na frente dos vizinhos
Cê vai se arrepender de levantar
A mão pra mim

E quando tua mãe ligar
Eu capricho no esculacho
Digo que é mimado
Que é cheio de dengo
Mal acostumado
Tem nada no quengo
Deita, vira e dorme rapidim
Você vai se arrepender de levantar a mão pra mim

Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim
Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim
Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim
Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim

Mão, cheia de dedo
Dedo, cheio de unha suja
E pra cima de mim? Pra cima de muá? Jamé, mané!

Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Moinhos na Poesia (75)

A CALMA

O sol caustica a prumo a rústica devesa!
Exala-se da terra um bafo ardente; o gado,
Sedento, mal resfolga à sombra do montado,
Nas fulvas crispações dessa fornalha acesa.

Canta, refresca o ouvido a água na represa
Da azenha e ao longe a voz dum melro fatigado
Quebra, de quando em quando, o silêncio pesado
Da sesta, que adormenta em roda a natureza -

Arquejam, bico aberto, as galinhas e os patos;
E eu que, a escorrer suor, abro os olhos a custo,
Esperguiço-me, acordo, e artista como um grego,

O meu olhar pagão vê, através dos matos,
Mover-se o corpo nu, elástico, robusto,
Dum filho do moleiro a chapinhar no pego.


(António de Macedo Papança, Conde de Monsaraz, Musa Alentejana, 1908. Obrigada, Rui!)

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Moinhos na Poesia (74)

Carregar um fardo colina acima,
Remar contra a corrente um bote;
Sem vento fazer girar um moinho;
Cavalgar derreado cavalo,
Tentar ler sem luz nenhuma,
Buscar, noite cerrada, o trilho,
É tudo isto e pior ainda
Viver, e de bolsos vazios.


To bear a burden up a hill,
To row a boat against the tide;
Without the wind to work a mill;
Upon a jaded horse to ride,
To strive to read without a light,
To search our way at dead of night,
All this it is, and something worse,
To live, and with an empty purse.

Henry Stebbing (1799-1883) pelas mãos amigas do MM - muito obrigada.
Tradução: AIS

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Moinhos na Poesia (73)


MOVENDO A MÓ

Evidentemente, apenas preciso
de comparar o silêncio do céu
com o ruído da terra.

Evidentemente, nenhum barulho
das coisas visíveis corresponde
ao movimento dos astros ou
dos anjos.

Mas os planetas, cujo círculo
se desloca para o céu da boca,
rangem, como se fosse um gemido.

Lembram-me um corpo a cujo abraço
se regressa, por fim, como o trigo
deitado na roda do moinho:

e onde reconheço o calor das mãos,
o murmúrio do vento nos ouvidos,
o espasmo do amor no cansaço da pedra.
(Nuno Júdice, Meditação em Ruínas, Lisboa, Quetzal, 126.)

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Esse Cabelo

(Foto montagem do marcador e de um, entre todos os belíssimos parágrafos de Esse Cabelo, de Djaimilia Pereira de Almeida: Reboliço, a ler.)

"Um dia, um livro alimentar-me-á a mim como se mostrasse a alguém um álbum antigo dizendo que até era bonita, como as Testemunhas de Jeová diziam à avó Maria da Luz para a consolar. Talvez nesse dia me seja claro como toda a infância é um álbum de infância - no dia em que o livro for o meu oxigénio e eu já não me lembrar do que nele conto, e a pieguice da memória for ultrapassada pela pieguice do fim. E acabarei nessa vaidade comigo mesma, folheando o livro, vaidade que é o fim de se ser um indivíduo, enquanto à nossa volta alguém se atabalhoa para nos dar à boca um copo de água, uma toalha húmida, uma palhinha, um termómetro, por entre frascos vazios, treva, fedor e comandos de televisão; enquanto se festeja um aniversário e a consciência me segreda que já chega, basta, ide para casa." (59-60)

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Moinhos na Poesia (72) / O Reboliço colecciona calendários (31)


A LUCIDEZ DE SANCHO PANÇA

Ainda hoje, ao encontrar um inimigo
de outrora, abominável assassino,
cumprimentei-o alegremente:
Olá, moinho de vento! Reconheço
agora a tua verdadeira natureza
e não te enfrento porque já não carrego
as armas e a loucura de um velho.
Funciona sempre, amigo, sê
o que verdadeiramente és: moinho
do amanhã, o que transforma a água
em fogo, o que torna leves e aprazíveis
estes nossos ares pestilentos.
(Daniel Francoy, Calendário, edições Artefacto, Lisboa, 48.)

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Moinhos na Poesia (71)

I

Na praia sob um chapéu à Hockney
eu vi uma história da guerra
o sol que me caía no corpo também caía
no vosso corpo

sobre a praia sob o chapéu de listas
verdes e azuis mal se distinguindo a luz
do verde e do azul sendo sempre aos que
passavam só azul, apenas verde como

vós, perfeitos corpos imperfeita coisa
de dizer. Um,
era a própria corrida que lançava sobre
a Costa a leve penugem negra como só

aos trinta anos ainda têm os portugueses.
O outro não era tão bonito
era bonito, lembrando a cada um a guerra
a guerra a guerra puta que pariu
e mais às áfricas, com menos uma perna era

levado sob a areia
que o vento levemente erguia
com um braço sobre o outro entrando o
mar.

Ainda havia uma criança, algumas bichas
e um moinho de papel que depois comprei.

(João Miguel Fernandes Jorge, Obra Poética, volume 3,
Editorial Presença, Lisboa, 1988, p. 129. 
* Em Direito de Mentir [Arcádia, Lisboa, 1978, p. 63],
onde foi publicado inicialmente, os versos 13 e 14 deste poema são:
"aos trinta anos ainda têm os portugueses / ah! oh! o outro não era tão bonito". 
Direito de editar.)

sábado, 5 de setembro de 2015

Para a Inês, no dia do seu aniversário


(Foto: Reboliço em Vale de Rocins, a pensar que ainda ali não esteve com a Inês. Na noite em que a conheceu, havia fumo e escuro numa cave na cidade. Mas nela sentiu o vento são, nuvens boas e o chão de andar caminho longo a passear. Desde essa noite dia, já ela o levou a cometer os mais belos desvios de que se lembra. Que muito mais tempo se mantenha, muitos céus e muitos versos.)

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

O Reboliço é um nefelibata (91)


(Instafoto do moinho dos Açores, a dar a ver nuvens onde só havia céu azul: Anam222. Obrigada!)

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Moinhos na poesia (70)

Nos ares nada está quedo,
Faz vento que mete medo,
Turva poeira arrepia.


Uiva o Diabo, assobia...


E o vento as coisas embrulha
Que nem palha na debulha.

Folhas, ao sopro daninho,
Gaivotam reviravoltas
Que nem velas de moinho.

Andam Diabos às soltas...


Ramos cá, ramos além,
Sofrem tratos de polé,
E mal um homem se tem
Firme e senhor de seu pé.


- Ó passarinho, não fujas!
- Poisa nos ramos mais altos!?
Até no bico das corujas
A Natureza dá saltos.

(Afonso Duarte, 1884-1958)

Oh...

Boa viagem, Ana.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

"Mise-au-point"

Casada a rica prima com seu Zé (e amadrinhada!), terminado mais um dos muitos trabalhos de casa, coçado o pêlo do lombo e contemplada a formosa Ria, senta-se o Reboliço a ouvir sobre como se deve dar nome aos gatos.

terça-feira, 30 de junho de 2015

segunda-feira, 29 de junho de 2015

"O mamute malhadinho"

                      com a sua lã       cheirava tudo a novinho
                        de carneiro       como vida a estrear
   cheirou as ondas do mar       vinham as ondas e iam
mais ou menos em Janeiro      era o mar, mamute, era o mar

(Versos: FRD para o Simba. O Reboliço agradece a permissão de publicar, que lhe encantam as cantigas a cães.)

(Pensei que vos perdera)

(A foto da capa da última Em Cena é do Vasco Célio. As restantes, a ilustrar o artigo, são do Reboliço, nas terras do Norte.)

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Oh!...

Não eras do Brunei
mas dançavas com a graça que Sena
soube ver e amplificaste o gesto
Sob a chuva, sob a areia
Sobre as tábuas, sobre o palco

terça-feira, 23 de junho de 2015

Daqui a alguns dias logo se vê

(Imagem: Pormenor de ilustração de Adriana Molder para a capa do Averno 082)

terça-feira, 16 de junho de 2015

Moinhos na Poesia (69)

C. V.

A madrinha lia em voz alta, aos serões,
A Toutinegra do Moinho. Lágrimas furtivas
deslizavam nas faces das meninas.
No cache-pot pintado com lírios Arte-Nova
murchavam os lilases do quintal.
Quando nos anos sessenta emigrei,
descobri que afinal “La Fauvette du Moulin”,
de Emile Richebourg, cantava noutros prados
longe dos moinhos do Guadiana.

A infância refugiada nos cadernos,
a casa vendida, os lilases-da-Pérsia decepados 
fizeram prédios feiíssimos e caros no quintal
e as meninas da casa que restaram
estão agora nos retratos sempre lindas
e os moinhos para sempre submersos.
(O Reboliço agradece muito à Fernanda Dias, autora destes versos,
que lhos deu como se fossem "uma papoula ou um malmequer".)

segunda-feira, 8 de junho de 2015

THE MORBID ANATOMY OF SOME OF THE MOST IMPORTANT PARTS OF THE HUMAN BODY

Novos poemas da Inês Dias , numa revista à ESC:ALA com mais letras e retratos lá dentro.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Fiesta Lost, Fiesta Regained

Na ampla sala de convívio, o Reboliço anunciara a amigos, conhecidos, amigas e seus maridos, que no passado dia 21, depois de muitas voltas, à ideia e à cidade-aldeia, denunciara na esquadra PSP mais próxima da sua residência o furto da viatura Ford Fiesta, branco, amado e bem corrido, que o acompanha há uns 20 anos (dos quase 26 que tem de vida) e tem dois pares de jantes que alto lá com elas, conforme aparece no boneco do Instagram. E mais pedia que, se por aí o vissem, perdido, perneta, e desolado de saudades, lhe dessem notícia. Hoje, pela hora de almoço, quase uma semana passada em paradeiro desconhecido, reapareceu o automóvel. Acto contínuo à comunicação, o Reboliço tratou de imaginar a história com aquilo que ainda não sabe: quem é a pessoa que o levou, porque quis ou teve de levar aquele bicho logo, de entre todos os que diariamente dormem na rua (isso até talvez saiba:  o depósito de combustível estava cheio, o carro é velho e, por isso, fácil de arrombar e de pôr a rodar); ou o que fará com ele depois de o ter de novo nas mãos (está na capital, não se sabe ainda bem em que condições, tirando que lhe rebentaram a coluna da direcção e deve ter batidas que não iam "de origem")... Enfim, muita coisa. Mas há, para lá das incertezas, factos certos-certos - e que são melhores nesta história toda do que em qualquer ficção que se invente: o Sr. Agente da Polícia de Segurança Pública que comunicou a reaparição, com acentuado sotaque alentejano, é o Agente Esperança. Donde o Reboliço conclui que a esperança comanda a vida. Ou melhor, que a esperança é a última a entrar em cena. Não. Bolas. Que quem tem esperança não merece castigo. Desorientado, o Reboliço pediu ajuda para acertar com o ditado e ganhou, além de um dichote novo ("Agente Esperança Olho-vivo encontra carro perdido", que lhe mandou o JJ), uma linda quadra, essa aí de baixo, oferecida pelo Cão do Vizinho António (A.M.F.). Graças, dá o canito - graças às orações do pessoal, ao santo Antoninho, a Nossa Senhora das Cousas Perdidas e, principalmente, sobretudo e acima de tudo, à PSP.

Quem espera sempre alcança,
Diz o povo e é certinho!
Foi-se a coluna e a mudança,
Mas apareceu o carrinho!

terça-feira, 26 de maio de 2015

"Arrodeado de flôr"

O Reboliço se gosta de ouvir as vozes dos escritores!

segunda-feira, 25 de maio de 2015

terça-feira, 19 de maio de 2015

"que és santo nome"

Estranha o Reboliço que, não sendo o tempo das azeitonas, ainda a engrandecer no ramo, se tenha ido lembrar da avó Adelaide. A avó Adelaide, mais justamente bisavó, era a mãe do avô Chico, o moleiro do Moinho Grande. Morreu já o Reboliço tinha uns sete ou oito anos - por isso se lembra dela. Lembra-lhe a sua figura, curvada velhinha vestida de preto, lenço na cabeça sempre, meias a cobrir o que a saia não tapasse, sapatos gastos no fim da pessoa, e o xaile, de grossa renda também negra, a acentuar a moldura. Já passava dos noventa e pouco falava - com os outros, que consigo mesma era uma ladainha permanente, de "Hum-hum. Hum-hum", como se fosse um baloiço a pender-lhe da voz, uma sílaba a descer quando a outra subia, todo o dia, ora sentada numa cadeira dentro da casa, ora de roda das oliveiras, ao rabisco, mesmo quando já não havia senão caroços velhos, restos de frutos desprezados que as mãos mais apressadas tinham deixado fora das sacas de serapilheira. Andava ao rabisco, la glâneuse. O que apanhava a avó Adelaide? Algum mal veria nos pequenos bagos escuros, que fazia entrecortar os sons de voz com o esconjuro "Jesus, que és santo nome de Jesus!, que és santo nome de Jesus!" Onde pusesse o santo nome de Jesus não entrava, cria ela, mal nenhum.
(Obrigada, Zé.)

terça-feira, 12 de maio de 2015

Do ouro do dia

Ou–

Sair para o jardim que vai secando,
Ou– repousar, verdejante, sob os ramos que enxameiam –
A questão repousa no seu próprio equilíbrio
E o azul pesa a sua grande indiferença.
Droit de Seigneur: a luz do sol, brotando,
Aqui, ou sobre os antigos Montes Malvern,
Escolherá Copérnico e Ptolomeu.

Virar a primeira página do imenso por ler,
Ou– vaguear por uma margem há muito conhecida –
Os dedos sabem, ao mexer-se, por onde ir,
E levaremos deles a curiosa atenção
Até perto do coração; observe-se o voo do canário
Que deve explorar mansões de ar e de luz,
Que o seu amarelo vivo é definitivo.

Seguir o curso da sombra monte acima,
Ou– erguer os olhos até ao deslumbre do céu aberto –
Acordamos com coros cerimoniais, damos com
Cada folha de erva a resolver a questão de Hamlet:
Um gato velho, ébrio com o orvalho do rebordo,
Estas flores, meio abertas e apropriadas.
Numa manhã de maio, o mundo é de ouro.


Or

To step out into the drying garden,
Or rest greenly under the swarming branches –
The question rests in its own equipoise
And blue weighs out its great indifference.
Droit de Seigneur: the springing sunlight,
Here, or upon the antique Malvern Hills,
Will choose Copernicus, and Ptolemy. 

To turn the first page of the great unread,
Or idle down a long-familiar margin –
The fingers know direction as they move,
And we will take their curious attention
Closely to heart; observe the Brimstone’s flight
Who must explore mansions of air and light,
For his crisp yellow is definitive. 

To follow shadow’s course along the hill,
Or lift the eyes to dazzles of plain sky –
We wake to ceremonial chorus, find
Each blade of grass resolving Hamlet’s question:
An old cat, fuddled in the border dew,
These flowers, half-opened and appropriate.
On a May morning, the word is golden.

Peter Scupham (1981)
Tradução: AIS

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Moinhos na Poesia (68)

Moinho sem Velas

Meu moinho abandonado,
meu refúgio de inocente,
meu suspiro impertinente,
meu social transtornado.

Meu sussurro de oceano,
meu ressoar de caverna,
minha frígida cisterna,
minha floresta de engano.

Minha toca de selvagem,
meu antro de vagabundo,
minha torre sobre o mundo,
minha ponte de passagem.

Meu atributo coitado,
meu tanger de hora serena,
rolo de pedra morena,
silêncio petrificado.

(António Gedeão, sugerido por MM - obrigada!)

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Ano primeiro - ano segundo


(Foto dos moços da alegria no moinho, altaneira testemunha: Vasco Célio. Faz um ano hoje, estava o trigo já alto, verde lindo, as papoilas vermelhavam e sobreviviam, por amoroso cuidado da mãe, à chacina de ervas, as favas iam direitinho da terra para a panela, casca e tudo, de tenras. E o Reboliço, num rebuliço feliz, atava as patinhas, num nó cerrado, às patinhas do companheiro amado.)

terça-feira, 28 de abril de 2015

Reis sobre Oliveira

Quando, em 1963, se mostrou pela primeira vez Acto da Primavera, viu-se o filme que Manoel de Oliveira foi construindo, a partir do maravilhamento que o contaminou a encenação de uma Paixão de Cristo na aldeia de Curalha (Trás-os-Montes) - no que foi assistido, entre outros, por António Reis, por sua vez maravilhado aprendiz e visionário.