terça-feira, 30 de junho de 2015

segunda-feira, 29 de junho de 2015

"O mamute malhadinho"

                      com a sua lã       cheirava tudo a novinho
                        de carneiro       como vida a estrear
   cheirou as ondas do mar       vinham as ondas e iam
mais ou menos em Janeiro      era o mar, mamute, era o mar

(Versos: FRD para o Simba. O Reboliço agradece a permissão de publicar, que lhe encantam as cantigas a cães.)

(Pensei que vos perdera)

(A foto da capa da última Em Cena é do Vasco Célio. As restantes, a ilustrar o artigo, são do Reboliço, nas terras do Norte.)

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Oh!...

Não eras do Brunei
mas dançavas com a graça que Sena
soube ver e amplificaste o gesto
Sob a chuva, sob a areia
Sobre as tábuas, sobre o palco

terça-feira, 23 de junho de 2015

Daqui a alguns dias logo se vê

(Imagem: Pormenor de ilustração de Adriana Molder para a capa do Averno 082)

terça-feira, 16 de junho de 2015

Moinhos na Poesia (69)

C. V.

A madrinha lia em voz alta, aos serões,
A Toutinegra do Moinho. Lágrimas furtivas
deslizavam nas faces das meninas.
No cache-pot pintado com lírios Arte-Nova
murchavam os lilases do quintal.
Quando nos anos sessenta emigrei,
descobri que afinal “La Fauvette du Moulin”,
de Emile Richebourg, cantava noutros prados
longe dos moinhos do Guadiana.

A infância refugiada nos cadernos,
a casa vendida, os lilases-da-Pérsia decepados 
fizeram prédios feiíssimos e caros no quintal
e as meninas da casa que restaram
estão agora nos retratos sempre lindas
e os moinhos para sempre submersos.
(O Reboliço agradece muito à Fernanda Dias, autora destes versos,
que lhos deu como se fossem "uma papoula ou um malmequer".)

segunda-feira, 8 de junho de 2015

THE MORBID ANATOMY OF SOME OF THE MOST IMPORTANT PARTS OF THE HUMAN BODY

Novos poemas da Inês Dias , numa revista à ESC:ALA com mais letras e retratos lá dentro.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Fiesta Lost, Fiesta Regained

Na ampla sala de convívio, o Reboliço anunciara a amigos, conhecidos, amigas e seus maridos, que no passado dia 21, depois de muitas voltas, à ideia e à cidade-aldeia, denunciara na esquadra PSP mais próxima da sua residência o furto da viatura Ford Fiesta, branco, amado e bem corrido, que o acompanha há uns 20 anos (dos quase 26 que tem de vida) e tem dois pares de jantes que alto lá com elas, conforme aparece no boneco do Instagram. E mais pedia que, se por aí o vissem, perdido, perneta, e desolado de saudades, lhe dessem notícia. Hoje, pela hora de almoço, quase uma semana passada em paradeiro desconhecido, reapareceu o automóvel. Acto contínuo à comunicação, o Reboliço tratou de imaginar a história com aquilo que ainda não sabe: quem é a pessoa que o levou, porque quis ou teve de levar aquele bicho logo, de entre todos os que diariamente dormem na rua (isso até talvez saiba:  o depósito de combustível estava cheio, o carro é velho e, por isso, fácil de arrombar e de pôr a rodar); ou o que fará com ele depois de o ter de novo nas mãos (está na capital, não se sabe ainda bem em que condições, tirando que lhe rebentaram a coluna da direcção e deve ter batidas que não iam "de origem")... Enfim, muita coisa. Mas há, para lá das incertezas, factos certos-certos - e que são melhores nesta história toda do que em qualquer ficção que se invente: o Sr. Agente da Polícia de Segurança Pública que comunicou a reaparição, com acentuado sotaque alentejano, é o Agente Esperança. Donde o Reboliço conclui que a esperança comanda a vida. Ou melhor, que a esperança é a última a entrar em cena. Não. Bolas. Que quem tem esperança não merece castigo. Desorientado, o Reboliço pediu ajuda para acertar com o ditado e ganhou, além de um dichote novo ("Agente Esperança Olho-vivo encontra carro perdido", que lhe mandou o JJ), uma linda quadra, essa aí de baixo, oferecida pelo Cão do Vizinho António (A.M.F.). Graças, dá o canito - graças às orações do pessoal, ao santo Antoninho, a Nossa Senhora das Cousas Perdidas e, principalmente, sobretudo e acima de tudo, à PSP.

Quem espera sempre alcança,
Diz o povo e é certinho!
Foi-se a coluna e a mudança,
Mas apareceu o carrinho!

terça-feira, 26 de maio de 2015

"Arrodeado de flôr"

O Reboliço se gosta de ouvir as vozes dos escritores!

segunda-feira, 25 de maio de 2015

terça-feira, 19 de maio de 2015

"que és santo nome"

Estranha o Reboliço que, não sendo o tempo das azeitonas, ainda a engrandecer no ramo, se tenha ido lembrar da avó Adelaide. A avó Adelaide, mais justamente bisavó, era a mãe do avô Chico, o moleiro do Moinho Grande. Morreu já o Reboliço tinha uns sete ou oito anos - por isso se lembra dela. Lembra-lhe a sua figura, curvada velhinha vestida de preto, lenço na cabeça sempre, meias a cobrir o que a saia não tapasse, sapatos gastos no fim da pessoa, e o xaile, de grossa renda também negra, a acentuar a moldura. Já passava dos noventa e pouco falava - com os outros, que consigo mesma era uma ladainha permanente, de "Hum-hum. Hum-hum", como se fosse um baloiço a pender-lhe da voz, uma sílaba a descer quando a outra subia, todo o dia, ora sentada numa cadeira dentro da casa, ora de roda das oliveiras, ao rabisco, mesmo quando já não havia senão caroços velhos, restos de frutos desprezados que as mãos mais apressadas tinham deixado fora das sacas de serapilheira. Andava ao rabisco, la glâneuse. O que apanhava a avó Adelaide? Algum mal veria nos pequenos bagos escuros, que fazia entrecortar os sons de voz com o esconjuro "Jesus, que és santo nome de Jesus!, que és santo nome de Jesus!" Onde pusesse o santo nome de Jesus não entrava, cria ela, mal nenhum.
(Obrigada, Zé.)

terça-feira, 12 de maio de 2015

Do ouro do dia

Ou–

Sair para o jardim que vai secando,
Ou– repousar, verdejante, sob os ramos que enxameiam –
A questão repousa no seu próprio equilíbrio
E o azul pesa a sua grande indiferença.
Droit de Seigneur: a luz do sol, brotando,
Aqui, ou sobre os antigos Montes Malvern,
Escolherá Copérnico e Ptolomeu.

Virar a primeira página do imenso por ler,
Ou– vaguear por uma margem há muito conhecida –
Os dedos sabem, ao mexer-se, por onde ir,
E levaremos deles a curiosa atenção
Até perto do coração; observe-se o voo do canário
Que deve explorar mansões de ar e de luz,
Que o seu amarelo vivo é definitivo.

Seguir o curso da sombra monte acima,
Ou– erguer os olhos até ao deslumbre do céu aberto –
Acordamos com coros cerimoniais, damos com
Cada folha de erva a resolver a questão de Hamlet:
Um gato velho, ébrio com o orvalho do rebordo,
Estas flores, meio abertas e apropriadas.
Numa manhã de maio, o mundo é de ouro.


Or

To step out into the drying garden,
Or rest greenly under the swarming branches –
The question rests in its own equipoise
And blue weighs out its great indifference.
Droit de Seigneur: the springing sunlight,
Here, or upon the antique Malvern Hills,
Will choose Copernicus, and Ptolemy. 

To turn the first page of the great unread,
Or idle down a long-familiar margin –
The fingers know direction as they move,
And we will take their curious attention
Closely to heart; observe the Brimstone’s flight
Who must explore mansions of air and light,
For his crisp yellow is definitive. 

To follow shadow’s course along the hill,
Or lift the eyes to dazzles of plain sky –
We wake to ceremonial chorus, find
Each blade of grass resolving Hamlet’s question:
An old cat, fuddled in the border dew,
These flowers, half-opened and appropriate.
On a May morning, the word is golden.

Peter Scupham (1981)
Tradução: AIS

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Moinhos na Poesia (68)

Moinho sem Velas

Meu moinho abandonado,
meu refúgio de inocente,
meu suspiro impertinente,
meu social transtornado.

Meu sussurro de oceano,
meu ressoar de caverna,
minha frígida cisterna,
minha floresta de engano.

Minha toca de selvagem,
meu antro de vagabundo,
minha torre sobre o mundo,
minha ponte de passagem.

Meu atributo coitado,
meu tanger de hora serena,
rolo de pedra morena,
silêncio petrificado.

(António Gedeão, sugerido por MM - obrigada!)

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Ano primeiro - ano segundo


(Foto dos moços da alegria no moinho, altaneira testemunha: Vasco Célio. Faz um ano hoje, estava o trigo já alto, verde lindo, as papoilas vermelhavam e sobreviviam, por amoroso cuidado da mãe, à chacina de ervas, as favas iam direitinho da terra para a panela, casca e tudo, de tenras. E o Reboliço, num rebuliço feliz, atava as patinhas, num nó cerrado, às patinhas do companheiro amado.)

terça-feira, 28 de abril de 2015

Reis sobre Oliveira

Quando, em 1963, se mostrou pela primeira vez Acto da Primavera, viu-se o filme que Manoel de Oliveira foi construindo, a partir do maravilhamento que o contaminou a encenação de uma Paixão de Cristo na aldeia de Curalha (Trás-os-Montes) - no que foi assistido, entre outros, por António Reis, por sua vez maravilhado aprendiz e visionário.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Esta noite: noite cerrada - noite aberta

 
(O desenho do touro, capa do livro lindo lido, é da Bárbara Assis Pacheco.
Como na feira, haverá rifas da sorte.)

domingo, 19 de abril de 2015

Renascida fénix

Quando se pensava (porque o autor assim, também, terá pretendido que se pensasse) que morrera num incêndio, eis que revive In Ballast to the White Sea. O Lowry que é e não é.

"O que disse a velha"

Vou-te contar. Havia um jardim ao lado da bomba. Terra inculta que me deram.
O meu pai fazia canteiros. Derivações de carreiros. Padrões geométricos.
Recortes. Bolbos da minha mãe. A textura da terra.
Pedra. O cheiro da água. Eu podia semear fosse o que fosse.

Vou-te contar. Havia um lago. Rugas de lama. Cachorrinhos que ali se afogavam.
Arrastados para a margem. Sacalhadas que se rasgavam. Sem salvação.
Nomes que lhes dei. Devolvidos à água. Cada pequeno splash.
As espirais alargavam. O meu rosto em rugas.

Vou-te contar. Havia uma garça-real. Constante. Regressava.
Pernilonga. Crescia por cima da água. Cortina de salgueiros.
Tudo quieto. Uma coroação de plumas.
Inflexões de música. Nada se mexia.

Vou-te contar. Havia colinas. Luz. Néctar de trevos.
Mais flores do que nomes. Carregava braçadas.
Quebrava os estames. Cheirava a Verão.
Correias no meu pescoço. Tornozelos. Os ossos dos pulsos. Sem nada saber.

Vou-te contar. Havia um rapaz. Olhos como o céu.
Olhos como os do meu pai. Crianças imaginadas. Quartos emprestados.
Quartos pintados. Histórias inventadas.
Histórias. Futuros. Não sabíamos nada.

Vou-te contar. Havia um homem. Veias sob a pele.
Ossos. Mal estavam ali. Respiração descontínua.
Luz verde num écrã. O bip intermitente.
Luz falsa. Música falsa. Uma pessoa a morrer.

Vou-te contar. Tinha-lhe visto o rosto na mortalha.
A correr e a sangrar. Feridas nas mãos dele.
Imagens no vidro. De cores e de chumbo.
Rostos nas estátuas. Uma cruz sobre o coração dele. A luz sempre a apagar-se.

Vou-te contar. Havia uma sala. Branca. Um prato branco na mesa.
Um homem à mesa. Notas na voz dele. Uma canção que eu conhecia.
Beleza nos movimentos do rosto dele. Os braços dele. Arrepio de asas.
Toca. Toca-me. Mas já tinha tocado. Esquecera-me de tudo.

Vou-te contar. Há dias insuportáveis. Planos horizontais.
Minuto a minuto. Cada longo tic. Tenho estado só.
A noite passada. O sonho da garça-real. O alcance das asas.
A ouvir-se pelo ar. Escuta. Escuta. Estou a desaparecer.

Tradução: AIS


"What The Old Woman Said"

I will tell you this. There was a garden by the pump. Fallow land given me.
My father built flowerbeds. Offshoots of paths. Geometric patterns.
Cuttings. Bulbs from my mother. The texture of earth.
Stone. The smell of water. I could grow anything.
I will tell you this. There was a pond. Wrinkles of mud. Pups that were drowned there.
Dragged to the bank. Sacksful slit open. Way beyond saving.
Names that I gave them. Returned to the water. Each small splash.
Spirals expanding. My own face rippling.
I will tell you this. There was a heron. Constant. Returning.
Stilt-leg. Growing above water. Curtain of willows.
Everything still. A crowning of feathers.
Inflections of music. Nothing was moving.
I will tell you this. There were meadows. Light. Nectar from clover.
More flowers than I could name. Armfuls I carried.
Stems that I split. Smelling of summer.
Chains on my neck. Ankles. The bones of my wrists. Knowing nothing.
I will tell you this. There was a boy. Eyes like the sky.
Eyes like my father's. Children imagined. Rooms that were borrowed.
Rooms  that were painted. Stories invented.
Histories. Futures. We knew everything.
I will tell you this. There was a man. Veins under skin.
Bones. Barely there. His stuttered breathing.
Green light on a screen. Intermittent beeping.
False light. False music. Someone was dying.
I will tell you this. I had seen his face on the shroud.
Running and bleeding. Wounds on his hands.
Pictures on glass. Coloured and leaded.
Faces on statues. A cross through his heart. Light  always fading.
I will tell you this. There was a room. White. A white plate on the table.
A man at the table. Notes in his voice. A tune that I knew.
Beauty in the movements of his face. His arms. Frisson of wings.
Touch. Touch me. But he already had. I had forgotten everything.
I will tell you this. Some days are unbearable. Horizontal planes.
Moment to moment. Each long tick. I have been lonely.
Last night. A dream of a heron. The span of his wings.
Sounding through air. Listen. Listen. I am disappearing.

domingo, 12 de abril de 2015

O Reboliço é um nefelibata (73)

(Foto: Reboliço, encantado a ver na parede do Moinho Grande o espelho do céu com nuvens. Foi o raio do sol que, no Dia dos Moinhos Abertos, transformou cal, pedra e areia em superfície reflectora.)

quarta-feira, 8 de abril de 2015

O Reboliço é um nefelibata (72)

Vieram as tempestades de Abril, luz luz luz, trovão, rasgão, trovão luz, e o Reboliço esconde o focinho debaixo das patas, a afugentar o susto. Distrai-se, entretanto, a conhecer os meios de transporte que só funcionam para lá da trovoada.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Dia Nacional dos Moinhos

Hoje, sábado e domingo

(Cartaz: Mana Gabriela, com foto do Mano no Moinho: Cunhadão Vasco Célio.
Como não pôde ir hoje a Beja, o Reboliço ficou a olhar para os velhos moinhos de Mykonos. 500 anos e ainda a girar.)

sexta-feira, 3 de abril de 2015

(Republicação)

[Liberdade exegética]

....."A Agustina Bessa-Luís pôs na boca da personagem Fanny Owen [...], durante um baile, esta afirmação: 'A alma é um vício.' Com este dito, o que teria ela querido expressar? Verdade é que eu, para mim, não atinava. Porém, soava-me bem ao ouvido. E, sem conseguir um significado plausível, a minha curiosidade não se detinha. Apesar de ninguém me explicar esta insólita afirmação, sem eu próprio lhe encontrar razão de ser, ficou-me tal dito latente até hoje. Cheguei mesmo a perguntar à própria Agustina por que razão teria ela posto na boca da Francisca tal afirmação. E que significado poderia ter. Mas a Agustina declarou-me candidamente 'Não sei. Foi coisa que me saiu ao escrever. Que se me soltou.'
.....Continuei desolado, porque o dito me tocava e me despertava uma forte curiosidade. Até que, ultimamente, me ocorreu uma certa ideia que me parecia ajustar-se a esse dizer 'A alma é um vício.' O que é que então me ocorreu? Justamente, o vício. Porque ele mesmo, pela sua característica de ser vício, dum corpo que, uma vez possuído, só com enorme dificuldade esse mesmo corpo se liberta dele. Ora, quando a personagem Francisca diz 'A alma é um vício,' teria a Agustina inconscientemente querido dizer que o corpo enquanto vivo jamais se liberta da sua própria alma. Numa tentativa de compreensão, tombei finalmente nesta ideia: o vício caracteriza-se por ser algo de que o corpo, uma vez possuído por ele, só muito dificilmente dele, vício, se liberta. E assim, de conclusão em conclusão, acabei por chegar a esta ideia peregrina: a de que a alma é a rainha dos vícios. Será assim? Mais: assim sendo, tal como agora me estou a perguntar, e dada a consciência constitutiva do dito vício, não será então que o meu cinema é o vício da minha alma?"
(Manoel de Oliveira, 15 de Janeiro de 2008. Transcrito daqui.)

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Oh!!!

Uma vez, o Mano respondeu a uma brincadeira do Cineclube de Faro, que perguntava sobre as "tiradas de engate" de que mais se gostava no cinema. Escolheu a cena de Aniki-Bóbó em que o Carlitos pergunta à Teresinha se quer ir brincar com ele. É de alegrias destas que o Reboliço se recorda quando, muito grato, recorda Manoel de Oliveira.

domingo, 29 de março de 2015

"Mas o mais enternecedor de tudo são os cães" (uma década inteira)

O Reboliço levantou-se ao chamamento dos canários: o Juninho, mais expedito, deu primeiro pelos primeiros raios de sol; depois a Laranjinha e o Branquinho. Espreguiçar espreguiçar espreguiçar, bocejar, bocejar, bocejar, acertar os relógios. A Ria, ao fundo da janela, enfeitava-se de luz e de azul - o Reboliço olhava e deixava que o calor lhe entrasse nos ossos. Os dias mais longos, a Primavera, a Páscoa a chegar: a memória levava-o, sem esforço, até dez anos antes. Ao dia em que as Cartas começaram a ser escritas. Sem surpresa, mas com o acaso do seu lado, reencontrou a edição em que pela primeira vez leu as de Daudet, lá para 1980, vertidas por Ricardo Alberty e ilustradas por Georges Beuville. E ali se viu, reconfigurado, ao fundo da página 13. Nem de propósito: comemorou.


sábado, 21 de março de 2015

"Para que serve a poesia?"

O Festival Poesia & Companhia lança a pergunta. O cão do vizinho António, sempre atento aos tópicos de pertinência, aprontou-se a responder. Isto é, a perguntar também.
(Logo mais, hoje de tarde, conversa-se sobre o tema na cidade velha, em Faro.)

                                        Perguntei-me certo dia,
                                        Depois de bem mal dormido,
                                        P´ra que serve a poesia, 
                                        Se a tudo dá mais sentido.

                                        Faz as mulheres mais bonitas?
                                        E torna o céu mais azul?
                                        E transforma esparto em fitas?
                                        E fitas de seda ern tule?

                                        Faz das estrelas diamantes?
                                        Torna belo o que está mal?
                                        E põe tudo como dantes,
                                        Quando já nada é igual?

                                        (Faz da singela silarca,  
                                        Depois de entrar em castelos, 
                                        Estando à mesa do monarca
                                        Rainha...dos cogumelos?)

                                        Decidi.-me a experimentar,
                                        P´ra que serve a poesia, 
                                        E a quem queria namorar,
                                        Escrevi versos noite e dia.

                                        Pensando chegar primeiro,
                                        A coisa não correu bem : 
                                        A moça tinha parceiro,
                                        Lá vim p´ra trás com desdém.

                                        Com um olho arroxeado,
                                        Cabeça um pouco a zumbir, 
                                        Andei assim, devastado, 
                                        Sem comer e sem dormir...

                                       Troquei as noites por dias,
                                       E a água pelo vinho,
                                       E todas as companhias, 
                                       Pelo meu andar sózinho.

                                       E quere-me cá parecer,
                                       Que depois daquele dia, 
                                       Fiquei assim sem sabêr,
                                       P´ra que serve a poesia...
A.M.F.
10-III-2015

quarta-feira, 11 de março de 2015

Pierre Gonnord

O Reboliço espanta-se com imagens das fotografias de nómadas da raia entre o Alentejo e a Extremadura. Numa galeria de Nova Iorque podem ver-se estes rostos, engrandecidos, as rugas da pele que o sol curtiu, que os ramos das árvores gravaram. E os cavalos.

terça-feira, 10 de março de 2015

Festival de Poesia

(Republicado, com acertos, consoante o que se diz. O Reboliço revels. Ainda.)

when your school friends start having kids of their own they’re
too grown for sleepovers smoking cigarettes like red vines we’re drinking red wine out of sippy cups and we are all
growing up in different directions
we've got facial hair and dreadlocks nose rings and pregnancy scares we just
can’t seem to keep our hands off of each other’s business so
we grab fistfuls of tantrum and throw them into the sun hoping these back-lit highways help us forget where we came from I have seen good friends

fall for bad women and the closest excuse I’ve ever heard of for drinking sounds an awful lot like burying love like marrying for love sounds an awful lot like too much responsibility so
keep you keepsakes to yourself there no secrets here you want it?
just take it
there’s nothing sacred
hungry?
just eat it no need for permission we’re all just broken people trying to keep from getting forgotten about so

we run wherever the waves are breaking spend our youth chasing foxtails and pretty skirts but
we light fires to blow up dresses and we’ve burnt down more princesses than a boy scout with a nicotine problem so
we get burned

lesson learned so we burn our first names into palms of past lovers write poems on the mile markers of highways and toss these high school diplomas into the ocean 'cause we all know what it feels like to come from privilege
welcome

to America

where we bleed in red white and blue vintage and rugged individualism we love factory workers and We Can Do It M-16s and the 4th of July so we try to hide behind the lies of Peter Pan but we
can’t grow out of our hand guns so we hand them to our fathers say “American youth don’t pull triggers anymore” pretending we are worth our weight in adventure
that we are both World War II survivors and Vietnam protestors we hate our government but love our country so we burn our flag to hide our Bibles in its smoke rings and we’ve been blowing halos
of discontent down Route 66 and badmouthing every town we rub our lips against we are not some retro makeshift bohemian kissing booth for the upper middle class to write home about
not a dialogue box to be exaggerated over cocktails we do not own bodies without holes in them

when we all have different reasons for the holes in our knees some from writing prayers and others of us from answering them
we have fallen in love with an era we were not born to so we photoshop our photos to look older and vintage weathered and worn from make believe years in shoeboxes, top dresser drawers and tucked into wartime helmets keepsakes from a time before we had lived lives worth the photographs we are nothing
but fake patriots and hippies without Hendrix who like the good ol’ days and Levi’s Denim Old vinyl and Bob Dylan we’re making villains out of growing up and throwing up peace signs smoking peace pipes like the Native Americans
for some stupid reason

I am so proud to be part Native American and even though my skin tone reads like plagiarism
I cite it in my bone structure know nothing of their struggle but everything of their feathers and we love to pickpocket from cultures we are fond of but there are some nights
when I wanna wrap my last name in smallpox just to remind myself I am a part of something bigger than this nation's youth tragedy or movement as long as the earth is willing to straighten our her spine we will dance with her
even if the sparks are self-made righteous we will write to it
spread your holy skeleton across the teeth of God dare him to whisper shadow chaser
you are worth more than where you came from
you are not your grandfather’s shotgun nor your grandmother’s garden you're a house fire without
a name a freedom fighter’s wet dream he knows you closest when he cleans himself a cold shower has a way of reminding of who you have been and of the bodies you have made caskets out of
I can no longer lie in your bed without checking for a pulse
six weeks sober is just long enough to get thirsty again

please do not get thirsty again

we are all both a first born and a biggest regret we make all of our own mistakes and I would not ask you to carry your nations' dead

only your own

we have forgotten how to live without pictures to prove it life only happens when it gets tweeted people are dying 140 characters at a time
and we filter everything like it’s 1975 tag me “Patriotic” #America @afraidtoactyourage sounds a lot like growing up

(Alex Sparks)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Moinhos na Poesia - popular (67)

"Pique pique
Eu piquei
Grão de milho
Eu achei
Fui levá-lo
Ao moinho
O moinho
Não moeu
Foram lá os ladrões
Que me levaram os calções"



(Obrigada, Xana!)

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Oh...

A nossa Miss Marple...

domingo, 18 de janeiro de 2015

Dedicar

(Alphonse Daudet, Lettres de mon Moulin, Le Livre de Poche, Paris, 1969.)
(Alphonse Daudet, Lettres de mon MoulinFlammarion, Paris, 1949.)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Prendas ao Reboliço

(Muito obrigada, Miguel.)

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Moinhos em Aguarela

(Imagem: reprodução de aguarela de Leonel Borrela, uma das que tem feito do Moinho Grande, ou a partir dele. Mede 34x25cm e foi feita em 2002. A mó esteve encostada àquela parede largos e largos anos. As barras continuam azuis, no Moinho Grande e na casa do vizinho António. Já os outros dois moinhos, ao fundo, são assim de lindos na memória que o Borrela aqui fixa.)

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Artur Pastor

Moinho, Algarve. Década de 50/60.
(Foto de um moinho algarvio, entre outros, moinhos e paisagens, tudo tão lindo: Artur Pastor, "década de 50/60". Pastor, pastor de lugares. Obrigada por me mostrares as imagens. O catálogo de uma recente exposição é consultável online. Descarregável, até.)

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Excessivamente belo

“I put it out of the exhibition because it’s too beautiful. It’s too much. I couldn’t allow it.”

O Reboliço pensa que Anselm Kiefer não explica porque se esqueceu de retirar das salas da Royal Academy todas as outras suas obras. Demasiado belas? O que seria "demasiado belo"? O estômago a encolher à vista dos estames gigantes de girassóis? A recordação do par de sapatos usados, pendurados para fora da tela, arrastados do chão de Van Gogh, ou imaginados em versos de Jorge de Sena, que os viu primeiro? Existirá, pergunta-se o Reboliço, quanto seja "demasiado belo"?

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Sábado que vem

(Cartaz da iniciativa a partir de ilustração de Daniela Lisboa Gomes)

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Felizes 3/4 de século, meu pai.


"Um testamento, do avesso: O que te dou, que a mim tens dado"

(As coisas que oferecemos são, afinal, as que desejamos de volta)
As palavras ditas - "brinco", e brincas; "e esta, conheces?" –
não do dicionário de verbos, não só.
Antes jeitos, "toma este", pendores de cabeça
para olhar o mundo de outro,
pouco mas tão diferente, ligeiro ângulo
de vista ou de sentido. Um mover de olhos,
na direcção branda do mundo, onde está o que
sempre foi mas nunca, por piedade, nomeado.
Glória esta de me dizeres
a mais bela, de o ser, como todas o somos,
de verdade.
Ou de, sem ter o nome pronunciado, sentir,
a cada sorriso que te dou, dado de ti,
as sílabas completas - agudas, breves.
As tuas, como as minhas.

(AIS, 20.XI.2014)

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Oh...

(Foto da condição meteorológica exótica, bela e adversa: FRD, in memorian Anthímio de Azevedo.)

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

No dia do passamento do poeta que os versos da lei da morte libertaram


"Prefácio"

Assim é que elas foram feitas (todas as coisas) —
sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.
Insetos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra
Dependimentos demais
E tarefas muitas —
Os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não
Que as moscas iriam iluminar
O silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
Que as moscas não davam conta de iluminar o
Silêncio das coisas anônimas —
Passaram essa tarefa para os poetas.

(Manoel de Barros, Poesia Completa, Leya, 2011, pp. 288-289.)

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

"Quis hunc nostrum chamaeleonta non admiretur?"

(Foto do animalejo frente à mão de M.: Reboliço, a analisar riscas e escalas)

"Disse-me um poeta moçambicano, que havia encontrado numa ilha do Equador um camaleão que, anichando-se no ombro dos aedos quando bordam no vento as ravinas da memória, segregam missangas para o enfeite das raparigas. Residirá aqui a razão do que me pedem: que passeie pelo ombro dos poetas com a vocação do refratário, ébrio nos mantos da miragem?

Há uma genealogia da mimesis que talvez tenha em Pico della Mirandola o príncipe de uma nova dinastia. Para este florentino da Renascença o homem não reflete passivamente o cosmos e investe na tutela do seu destino: já não admite uma essência pré-determinada, assume-se numa vontade de ser. Aqui se nutre a sua fascinante asserção de que o homem é um camaleão."

(António Cabrita, "O eco são todas as vozes", prefácio a
O Bosque Sagrado, realização: Jorge Sousa Braga, António
Ferreira, Álvaro Magalhães, Porto, Gota de Água, 1986, p. 11.)

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Moinhos na Poesia (66)

ALENTEJANO RETÁBULO
          A um operário

A cizânia da vergonha
nesse toucado de espinhos.
Cravada junto ao retrato

de par secreto de amantes:
dois rapazes foragidos
no moinho solitário.

Entre oliveiras e pedra,
toutinegras ou pardal.
Alecrim, tomilho, murta:

carne solar de crioulo
roçando corpo trigueiro
- além da curva do monte.

E no verde manto de erva
- o alegre trevo do sexo.
Do par secreto de amantes,

ao moinho condenado
por uma folha, por verde
folha de trevo da sorte.

Entre lebres e furões
- asa de corvo no céu.
Dois rapazes amarrados

ao seu moinho de vento
- em noite de lua clara,
fora do mapa do mundo.

José António Almeida, Arco da Porta do Mar, Lisboa, &etc, 2013, pp. 65-66.

sábado, 1 de novembro de 2014

(Pelos Finados)

(Antes do aniversário, ganhara uma palavra nova, também do Ricardo, que mexe no que a gente diz e torna e vira e muda os dizeres. Mas é mais de lutos, dos santos todos que andam velando. Eis aí "Farelo", onde escreveu "cizânia".)

A vida faz farinha connosco, trata-nos como joio, mói-nos o caroço, até sermos cizânia, pó e nada. Esta existência, farelo que cai em saco roto, é um esmagamento em mó menor.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Pelos começados

(Foto dos dois páussros saídos da casca, mais do ovo de recuerdo - que já lá está há quase dois meses e não há meio de o descartarem - no ninho da mãe Laranjinha: Reboliço, encantado com o afã, os gorjeios de papos cheios e os regurgitares para entregar no bico aberto a papa, com os banhos de água fresca, as sacudidelas de penas e o olhar e olhar, mirar e remirar com a cabecinha de lado para não pisar nenhum, o saltinho breve e o amanhar de penas, da mãe, sabe lá quem vê o que vai debaixo da asa, debaixo do colo quente e dos trinadinhos muito baixos, para não acordar quem come mesmo a dormir.)

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Moinhos na Poesia (65)

MOINHO, MOINHO MEU
 para a Ana Isabel Soares,
moleira do Moinho Grande
 
Moinho,  moinho meu,
existe entre as mós grão
mais moído do que eu?

Vós, minha grainha,
sois a mais rala entre
as gramíneas do reino. 
Ricardo Álvaro, 29/X/2014
(Faz notar o autor que "rala", ali, equivale a "ralada", além
fora, lá. Lá-lá-lá, canto de aniversário. Obrigada, amigo.)

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Parar nos ovos

As férias dos donos levaram os pássaros até Linda-a-Velha. A canária ia já com um ovo no ninho - gorado, por certo, havia umas três semanas no quente e nem estalava nem era rejeitado - e deitou outros dois. Destes, viu o Reboliço hoje eclodir um e sair o segundo filho da Laranjinha e do Branquinho. É feio, o bicho, mas bonito. Juninho, o mano velho, ainda nem deve ter-se apercebido. A mãe anda pé dentro e pé fora, a comer, a lavar-se, na lida, e a ver se não deixa o novo apanhar nenhuma corrente de ar. Uma estafa, os pássaros, Reboliço. (Se este for macho, é Lindinho; se fêmea sair, fica Lindinha, e pronto.)

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Não procures mais pelo teu caderno de geografia.
Tirei-to da sacola.
Não quiseste ir comigo à matiné,
domingo passado.
Contaram-me os meus amigos
que estavas na companhia do Bermúdez,
o grandote que pratica luta livre.
Contaram-me que estavas muito bonita,
e que te rias a cada momento.
Não procures mais pelo teu caderno de geografia.
Agora que está a chover,
assoma-te à janela
e verás passar oitenta barquitos de papel.
Não procures mais pelo teu caderno de geografia.
Jairo Aníbal Niño (1941-2010)
Tradução: AIS. Obrigada, AID

terça-feira, 14 de outubro de 2014

"Manda bala!"

(Em breve nas bancas de jornais de poesia.)

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Hoje à noite em Lisboa; repete no Sábado

Ide, ide ver o Marcel Pagnol de há 60 anos. Ou as Cartas do Daudet feitas de luz.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Ou: "Balada das Vinte Meninas Friorentas"

Vinte meninas, não mais,
Eu via ali no beiral:
Tinham cabecinha preta
E branquinho o avental.

Vinte meninas, não mais,
Eu via naquele muro:
Tinham cabecinha preta,
Vestidinho azul escuro.

As minhas vinte meninas,
Capinhas dizendo adeus,
Chegaram na Primavera
E acenaram lá dos céus.

As minhas vinte meninas
Dormiam quentes num ninho
Feito de amor e de terra,
Feito de lama e carinho.

As minhas vinte meninas
Para o almoço e o jantar
Tinham coisas pequeninas,
Que apanhavam pelo ar.

Já passou a Primavera
Suas horas pequeninas:
E houve um milagre nos ninhos.
Pois foram mães, as meninas!

Eram ovos redondinhos
Que apetecia beijar:
Ovos que continham vidas
E asinhas para voar.

Já não são vinte meninas
Que a luz do Sol acalenta.
São muitas mais! muitas mais!
Não são vinte, são oitenta!

Depois oitenta meninas
Eu via ali no beiral:
Tinham cabecinha preta
E branquinho o avental.

Mas as oitenta meninas,
Capinhas dizendo adeus,
Em certo dia de Outono
Perderam-se pelos céus.

Depois oitenta meninas
Na torre acima de tudo:
Tinham cabecinha preta,
e capinha de veludo.

E as minhas tantas meninas
Lá voaram, uma a uma:
E eu fiquei cheia de frio
E não voltou mais nenhuma…

(Matilde Rosa Araújo, O Livro da Tila, Lisboa, Livros Horizonte, 1957.)