quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Natacha (*)




Do lado de fora das salas, casinhotas de madeira entre os pinheiros, o Reboliço observa o desplante, o atrevimento com que a gata Natacha invade uma aula e ali se deixa ficar, quase duas horas inteiras, para desfrute de alunos, impaciência da professora e beleza, afinal, de todos. Olha de fora, o Reboliço, e vê-a procurar o canto mais morno do lugar: onde entra a réstia do sol da manhã, onde um colo de calor se lhe oferece, onde o aparelho que bafora o ar aquecido ronrona. Olha de fora e ouve a voz da professora, esforçada entre as deleitadas risadas e a desatenção do grupo, ler, a propósito, Vítor Silva Tavares: "Gosto e não gosto de gatos. Gato felino, gosto; gato gordo, não gosto; gato maluco, gosto; gato molenga, não gosto. Gato é companhia. Cão também, mas gato é outra companhia, companhia especial. Gato não é amigo, não é fiel; gato é egoísta, é ditador; gato não lambe botas, não arremelga o olho; gato é senhoria, é sua excelência, é mimalho, é lascivo. E tem ronha, tem muita ronha: faz das patas algodão ou garra, conforme a sua conveniência."(**) Ouve a voz que lê e observa a Natacha, gata melíflua, dengosa no que lhe convém, que é o ameno da sala a escondê-la do fresco da rua - e vê-a a escapar-se, indiferente, mal lhe foge o sol do vão da porta, para outra sala com gente e calor.
(Fotos da gata sobre uma das mesas da sala de aula e do corredor entre as salas, no campus pinheiral: Reboliço)


(*)"Natacha" foi o nome que ganhou a gata porque o dia em que fez a sua aparição marcou o aniversário da aluna com aquela graça.
(**) Vítor Silva Tavares, "o gato", in revista Cão Celeste, nº 9, Julho de 2016, p. 123.
Originalmente publicado no jornal Diário Popular, 19/6/1963.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Oh...

O Reboliço chama a Tiaga de lado para lhe dizer que há no céu dos gatos um companheiro novo, de ronronar especial.

sábado, 22 de outubro de 2016

Moinhos com vento

(Fotografia: Eduardo Hernandez-Pacheco; parte de um conjunto de diapositivos realizados em Portugal [talvez na região Oeste] entre 1917 e 1942. Fonte: Centro Português de Fotografia)

Merci, cher Miguel!

(Foto das capas de duas edições das Cartas de Alphonse Daudet, enviadas pela amiga mão do Miguel de Carvalho: Reboliço, de patinhas postas a agradecer.)

[The Saints of Modern Art*]

Nem mistral nem calema, nem nevróticas danças
de feiticeiros contra as tensas muralhas
de um qualquer império. Um dos grandes poetas
da língua e do tempo morre numa cela de xisto e cal,
e nada pede. Esse era o seu único desejo
e habita-o como se fosse mansarda da alma
e toda a mesquinhez tivesse sido assoreada
na cave. Finalmente, encontrou o seu lugar
no mundo, um lugar só seu, em que as ombreiras
rangem como órgão de igreja afinado
pelas tempestades. Tem um harém de memórias
e vive numa orgia de ervas de cheiro, ao fundo
das narinas. Do sol, chega-lhe a proporção exacta
para que a penumbra não cegue de alegria.
Conquista e reconquista cada passo, até saber-se
definitivamente amado pelo seu povo de aranhas
e nervais. Talvez pudesse ter sido de outro modo,
ter nascido com asas e sem a atracção para o precipício
que o tornou celerado e menestrel. Que nada!
Recorda agora um profeta, feliz como uma galinha
do mato, que viu, a oriente, entregue ao acto de comer
ininterruptamente até sentir, de novo, fome:
a profecia do homem consumou-se e isso basta-lhe,
como um pensamento vazio ou um ruído branco.
Quando, finalmente, a morte vier assenhorear-se de si,
recebê-la-á com um abraço lânguido, quase sensual,
e juntos partirão à procura de um local que àquele se assemelhe,
sem que, para merecê-lo, seja preciso viver, que é como quem diz
quebrar o coração.

Miguel Martins
(publicado aqui em 05/06/2016 e no livro Desvão, não [edições], em Setembro de 2016)
(*Charles A. Riley II sobre o ideal ascético na arte contemporânea)

sábado, 15 de outubro de 2016

"Ars Poetica?"

Sempre aspirei a uma mais espaçosa forma
que fosse livre das pretensões de poesia ou prosa
e nos fizesse entender uns aos outros sem expor
autor ou leitor a sublimes agonias.

Na essência mesma da poesia há qualquer coisa indecente:
uma coisa se produz que não sabíamos ter,
piscamos então os olhos, como se saltasse um tigre
e ali estivesse à luz, batendo a cauda.

Por isso se diz, com justeza, que a poesia é ditada por um daimonion,   
ainda que seja exagerado afirmar que é um anjo.
É difícil descobrir de onde vem esse orgulho dos poetas,
quando tantas vezes a exibição das suas fragilidades os envergonha.

Que homem razoável se quereria uma cidade de demónios,
comportados como se estivessem em casa, falando em muitas línguas,
e que, não satisfeitos com roubar-lhe lábios ou mão,
labutam em mudar-lhe, conforme lhes convém, o fado?

É verdade que hoje se sobrestima o mórbido,   
e podereis pensar que estou só brincando
ou que achei mais um modo
de louvar a Arte usando-me da ironia.   

Houve um tempo em que só os livros sábios se liam,
o que nos ajudava a suportar as dores e as misérias.
Isso, afinal, não é bem o mesmo
que folhear os milhares de obras que saem das clínicas psiquiátricas.

Ainda assim, o mundo está diferente do que parece
e somos diferentes do que nos vemos em nossos desvarios.
Por isso as pessoas mantêm silenciosa integridade,
assim ganhando o respeito de familiares e vizinhos.

O propósito da poesia é lembrar-nos
como é difícil ser-se uma só pessoa,
já que a nossa casa está aberta, sem chaves nas portas,
e que entram e saem à vontade invisíveis convidados.

Aquilo que aqui digo, concedo, não é poesia,
pois os poemas deveriam ser escritos rara e relutantemente,
sob insuportável pressão e apenas com a esperança
de que os bons espíritos, e não os ruins, nos escolhem para seu instrumento.

Berkeley, 1968
(Tradução: AIS, a partir da versão inglesa do autor,  Czeslaw Milosz.
Obrigada, Adalberto Müller.)

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Três vivas para o Senhor Dylan!

(O Reboliço republica a sua versão de "Long and Wasted Years," belíssimas, tempestuosas palavras do mais recente prémio Nobel da Literatura)

Passou tão longo tempo
Desde que nos tivemos amor e almas verdadeiras
Houve um dia, um dia breve, em que fui o teu homem

Ontem à noite ouvi-te falar enquanto dormias
A dizer coisas, minha querida, que não deverias
És capaz de ter de ir presa, um destes dias

Haverá um lugar aonde possamos ir?
Alguém que possamos visitar?
Talvez seja contigo igual ao que é comigo

Não vejo a família há vinte anos
Coisa difícil de entender, às tantas já estão mortos
Perdi-lhes o rasto desde que perderam a terra

Agora ginga, querida, berra e dança
Já sabes do que se trata
Seja como for, o que fazes aqui ao sol?
Não sabes que pode dar-te cabo da moleirinha?

O meu inimigo afocinhou no pó
Caiu morto na estrada e perdeu o brilho
Foi brutalmente atropelado, ficou espatifado
Morreu em desgraça, tinha um coração de ferro

Uso óculos escuros a tapar-me os olhos
Há ali segredos que não consigo ocultar
Anda cá, minha querida,
Olha, e desculpa lá se te ofendi, sim?

Dois comboios vão lado a lado, quarenta milhas de distância
Descem a linha do Oriente
Não tens de te ir embora
Só vim ter contigo porque és minha amiga

Acho que enquanto estava de costas
Atrás de mim todo o mundo ardia
Já passou algum tempo
Desde que atravessámos aquele tão longo corredor

Chorámos era uma manhã gelada e fria
Chorámos porque se nos despedaçava a alma
Lá se vão as lágrimas
Lá se vão estes longos, anos perdidos

(Tempest, 2013)

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Moinhos na Poesia (79) / O Reboliço é um Nefelibata (94)

POETA

Poeta poeta sem bruxedo
Três dias depois do naufrágio
Moinho moinho de neve
As costas estão carregadas de nuvens

Todos vós sois grifos
Vosso coração sangra pelo nariz
Mas os pássaros são armários repletos
Os pássaros que no céu estão mais quentes que as mãos

Cala-te rouxinol ao fundo da vida
Eu sou o único cantor de hoje

Dir-te-ei mil vezes
Que minhas costas estão carregadas de nuvens
Mas tenho comigo a flauta mágica do querubim selvagem

(Vicente Huidobro, Natureza Viva, tradução de Luís Pignatelli, Lisboa, Hiena, 1986. Obrigada às Edições Averno)

terça-feira, 4 de outubro de 2016

O Reboliço colecciona calendários (33)

Faz quatrocentos e trinta e quatro anos que o Papa Gregório instituiu dos dias do ano a contagem que haveria de ter o seu nome. O país do Reboliço foi dos primeiros a adoptá-lo e ainda bem que foi logo assim e não andaram em indecisões mais tempo: nesse ano de começo, cortaram dias à conta e, em vez de 5 de Outubro (ainda nem se adivinhava que viria a ser feriado; por assim dizer, em 1582 nem toda a gente saberia que o poema publicado uma década antes, chamado Os Lusíadas, era a obra que era), o dia a seguir a 4 foi 15 de Outubro. Vivesse nessas datas o Reboliço e teria sido o transtorno bem grande.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Droooning

O Reboliço ouve um zumbido, mosca, mosquito?, lá abre um olho, nada de ver. Fecha outra vez os dois olhos, suspira fundo e, nisso, ergue-se-lhe e desce-lhe o peito, o focinho sobre as patas. Quer continuar a dormir, mas o zumbido cresce, fica um ruído mecânico: não é insecto. Levanta uma orelha, depois a outra, abre os dois olhos no segundo em que o focinho aponta para o céu, e vê como uma estranha libélula grande. "Um drone," recorda. Desce o focinho, as orelhas, cerra os olhos, franze o cenho e tenta readormecer.

Lá em cima, as patas e o corpo do boneco movimentam-se pelo ar. No chão, alguém que o comanda estuda os terrenos e vai carregando num botão: clicclicclic.

(Foto do Moinho Grande, do quadrado de implantação, terreno em volta, árvores, poço e outras construções: João Pereira, para o grupo As Paredes de Beja também têm Sentimentos. Obrigada pela autorização.)

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Moinho de Pastor

A livraria Paralelo W avisa que está de férias até 29 deste mês. E, para ilustrar o tempo de pausa, mostra uma das muitas e muito lindas fotografias que Artur Pastor fez de moinhos portugueses. Esta, reproduzida em baixo, foi feita na praia da Apúlia, no Alto Minho, entre os anos de 1950 e 1962. Por um acaso, não muito longe (mas tão distante no tempo) de onde o Reboliço passou os dias da Romaria da Senhora da Agonia.


(Poderiam ser apanhadores de sargaço, o homem e a mulher que se vêem à esquerda, em baixo, e que ajudam a entender a grandeza da duna-sopé de moinho - não fosse o volume do que carregam tão estendido na direcção do céu; não fosse, apesar de tudo, transportável sobre aqueles corpos.)

domingo, 14 de agosto de 2016

Fogo no nicho

(Na aldeia, em pequeno o Reboliço dormia no quarto maior, interior, com o mano e a mana. Uma cama grande para elas, uma mais pequenina para ele. A porta de duas lâminas dava para o corredor que vinha da mercearia e ia para o quintal. Quando se arranjou a casa, disse a mãe aos pedreiros: "Descubram-me aí os nichos que o quarto tinha, de quando eu era moça." A mãe, antes, então, ali dormira com a mana dela: um dos nichos, pequeno, de frente para a porta, começava ao metro e meio de altura e tinha menos disso até terminar, um pouco mais de largura e de profundidade igual. Servia como se fosse mesa de cabeceira. O outro, mais alto, começava mais em baixo na parede e era como que fechado por um pano ao alto. Ali se guardava a roupa das meninas da casa. Os nichos haviam sido cobertos e durante anos ninguém se lembrou deles. Até que a mãe pediu aos pedreiros que os devolvessem à casa. No Verão, a telha de vidro deste quarto tem de ser tapada de papéis [quando havia a mercearia, era papel manteiga, o mesmo onde se faziam as contas ou embrulhava o pão, com o que se fazia os cartuchos para o feijão e o grão], ou o calor mata a gente. Quando bate ali de manhã, alguma fresta entre o papel, o vidro e a alvenaria do telhado deixa passar o sol que não se quer dentro de casa e projecta, no nicho grande, a labareda.)

terça-feira, 26 de julho de 2016

Dia dos Avós

(Foto de pés de tomate de Inverno ao sol de Verão: Reboliço. O pequeno Matias - que já foi mais pequeno... - dizia hoje que queria saber quem tinham sido os bisavós dos bisavós da mãe dele. Ufffff... O Reboliço nem dá conta dos bisavós que teve, quanto mais dos bisavós deles. Foi à varanda, afastou os dois pés de tomateiros - pesados dos frutos, já quinze esferas de tamanhos diferentes - e semeou uma árvore genealógica. Se brotar, será daqui a algum tempo.)

domingo, 10 de julho de 2016

10 de Julho, Dia do Portugal das Comunidades Desportivas

O Reboliço ouve os amigos que aconselham: "Larga as redes sociais!" Mas, conforme diz a @jonasnuts, o Twitter® "é a melhor forma de acompanhar jogos de futebol" (o Reboliço acrescentaria "e telenovelas e debates políticos e actualizações de notícias"). A celebração, em rede, parece-lhe mais ampla. E, à conta das contas dos jogadores nas ditas cujas redes, até parece que lhes sente o som do peito na batida do abraço, enquanto lhes dá os parabéns.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Os Bichos

O Reboliço gostaria de dar a ler à Professora Maria Esthel Maciel as histórias sobre bichos, que Miguel Torga escreveu. E de ler o que ela, então, escrevesse.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

"The essential is not inaudible"

O Reboliço escuta, no programa que o Robert Harrison gravou neste solstício passado, a voz de Inga Pierson a falar, autorizada, sobre o livro Frankenstein, escrito há 200 anos por Mary Shelley e publicado pela primeira vez em 1818.
(O podcast do programa está aqui - o episódio sobre Frankenstein é o primeiro da lista, com a data de 29/06/2016)

domingo, 26 de junho de 2016

Le photographe de la vie moderne

Algum dia terias de ser levado de nós. Obrigada, Bill, por seres os nossos olhos.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

What, now?

(Foto do desenho que o pequeno Matias fez no dia preciso em que, em referendo, uma maioria de votantes britânicos escolheu deixar o grupo europeu, a União: Reboliço, sem saber bem o que será daqui para a frente - ou sequer se essa deverá ser, ainda, preocupação sua.)

terça-feira, 21 de junho de 2016

O senhor Young

Correram oito anos desde que o Reboliço assistira a uma ocasião das mais engrandecedoras da sua alma minusquinha. Nesse dia de 2008, viu e ouviu num palco junto ao rio Tejo o senhor Neil Young - and his Electric Band - cantarem e tocarem música e outra coisa qualquer que achou ser mais do que música e luz e movimento, mas até hoje não consegue designar por nome que se conheça. Quando, no começo deste ano, se apercebeu que aquela pessoa estaria dentro do espaço da sua Península, ou seja, perto, a fazer coisa que prometia semelhante, decidiu no segundinho que haveria de estar presente. Depois de pensar noutros animais de som, e da tal outra coisa, que já não podem fazer disso estando vivos, como o senhor David Bowie, ou o senhor Prince, mais se agradeceu ter-se decidido andar. Andou. E ouviu. E veu. No fim do sábado 18 do mês em que está, o senhor Young entrou e saiu do palco sem tirar o seu chapéu em ocasião alguma, o que, podendo ser visto como sinal de má educação, ali era modo de o sinalizar a ele e de o proteger de alguma corrente de ar - isto foi tudo em campo aberto, junto a um rio outro, chamado Manzanares, e nunca se sabe ao fresco do anoitecer. A uns dez minutos de ter começado a função que ali o levava, perante o universo que o via, no palco e numas gigantescas telas de imagem aproximada da perfeição, apontou o senhor Young um indicador à lua cheia que subia do outro lado do céu, em frente a ele. Não precisou de cantar "Harvest Moon", que o coração do Reboliço ali logo ouviu no seu ouvido interior e gostou. O senhor Young esteve no palco sozinho mais de meia hora, cantou e tocou harmónica, a sua old guitar e órgão, e só depois entraram na convivência musical dele os meninos filhos de Willie Nelson (Lukas e Micah Nelson, e a banda deles chama-se Promise of the Real), todos cumpridores do serviço que ali lhe faziam e de corpos em permanente sobressalto pela incredulidade de estarem a alinhar acordes com o senhor Young. O senhor Young serviu duas horas e meia, mais minuto menos minuto, repetiu (chama-se "encore"), o que, naquele festival, se acontecera, não fora perante a atenção do Reboliço, e mais teria ficado, não fosse a clemência do aplauso lhe perdoar os 70 anos, apesar de em vão os tentar ver num corpo de camisa aos quadrados, mas acima de tudo a consciência de que, se somos viventes criaturas de uma divindade qualquer, ela nos possui e não nós a ela, e lhe devemos, portanto, obediência e respeito: o que nos der, pouco que seja, é o mais e o melhor, e tem um fim. Quem parece ter-se apercebido também do que se passou neste fim de dia ao pé do rio de Madrid foi o Fernando Navarro, que escreveu no jornal El País.

(Foto das telas onde apareciam duas meninas que lançavam sementes e regavam flores no palco, a preparar a entrada do senhor Young: Reboliço, lembrando-se que os trabalhos mais recentes do senhor Young têm sido dedicados, também, a alargar a consciência sobre a modificação genética de sementes - sementes de plantas que as pessoas comem.)

(O Reboliço teve ainda, neste verdadeiro festival, o reencontro com um menino de belas cordas e voz, Gary Clark, Jr., e apanhou outra surpresa com o inacreditável e maluco senhor Perry Farrell, que além do grupo chamado Jane's Addiction levou ao palco senhoras semi despidas e tudo e tudo e gostou muito de tocar música e de cantar e via-se que sim; e conheceu uma Band of Horses que provou que, se há animais pelo nome, é que são gente boa.)

domingo, 12 de junho de 2016

O Reboliço é um nefelibata (93), ou O mundo da literatura



How to live. What to do

Last evening the moon rose above this rock
Impure upon a world unpurged.
The man and his companion stopped
To rest before the heroic height.

Coldly the wind fell upon them
In many majesties of sound:
They that had left the flame-freaked sun
To seek a sun of fuller fire.

Instead there was this tufted rock
Massively rising high and bare
Beyond all trees, the ridges thrown
Like giant arms among the clouds.

There was neither voice nor crested image,
No chorister, nor priest. There was
Only the great height of the rock
And the two of them standing still to rest.

There was the cold wind and the sound
It made, away from the muck of the land
That they had left, heroic sound
Joyous and jubilant and sure.

Wallace Stevens, sugerido por Colm Tóibín na introdução que em 2014
escreveu à edição de Fiesta: The Sun Also Rises.

domingo, 5 de junho de 2016

Li letro de moun moulin

O Reboliço não se decide se a sedução que sente pelo que desconhece opera por convite a conhecer, ou se por maravilhamento perante o que, por indecifrável, não lhe é fácil racionalizar. Desconfia que seja uma colecção dos dois. O grande amigo grande mostrou-lhe a porta para os textos de Alphonse Daudet em língua provençal, e é um regalo de ler sem perceber quase nada (sim, porque lhe conhece de cor as histórias), mas sentir um bocadinho o sardo, um bocadinho o catalão, pitada aqui, pitada ali de francês, de espanhol, de antiquíssimo português: é, por exemplo, Anfons o Daudet.

sábado, 4 de junho de 2016

Oh...

Nos três anos em que esteve impedido de combater nos ringues (e com o título de campeão suspenso) por se recusar a combater os seus iguais no Vietname, Mohamed Ali ganhava a vida a dar palestras por universidades e escolas dos Estados Unidos. Começou titubeante, mau pregador, e veio ganhando experiência, confiança e retórica. Tinha o espírito, precisou de o esculpir. Uma fabulosa história de vida.
(O Reboliço nota que o senhor presidente Barack Obama, que é principalmente dono de dois cães de água e isso é só, sublinhou, referindo-se a Ali, que não era "poeta tão hábil ao microfone" quanto era "no ringue lutador" - mas ombreava, ainda assim, com o senhor Nelson Mandela e o senhor Martin Luther King por ter lutado para fazer do mundo um lugar mais justo, mais decente onde viver.)

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Nassar (Prémio Camões 2016)


(Foto da página final, que era em branco, de Lavoura Arcaica [1975], Companhia das Letras, 3ª edição, revista pelo autor, 22ª reimpressão, 2006: Reboliço. O Reboliço leu, até ver, um único livro de Raduan Nassar. Foi nas férias de 2006 [ano em que lho ofereceu muito amiga mão], e destacara, então, algumas linhas. Quando hoje [como faz às vezes] o reabriu, recordou outras, mas de escrita sua. Davam conta da posição, da voz, do momento da leitura.)

quinta-feira, 12 de maio de 2016

#WITHOUTSHOES

O que não falta no mundo são marcas de produtos a publicitar o que se vende, nem estratégias de mercado, pensa o Reboliço. Também há cada vez mais gente a fazer fotografias e a mostrá-las pelas telas de telefones e outros zingarelhos. Em contrapartida, demasiada gente no mundo vive uma vida inteira sem saber o que seja um telefone, ou sem poder utilizar coisas dessas, assim como há ainda (muita, muita) gente descalça. No meio de tudo o que há, a TOMS, uma empresa que vende sapatos, lembrou-se de fazer campanha para calçar crianças que não têm sapatos: "mostre os seus pés descalços e, por cada imagem, calçaremos uma criança". A campanha pretende oferecer até 100.000 pares de sapatos a crianças em dez países. Escolheram o passado dia 10 para "sensibilizar para o problema", e nesse dia o Instagram encheu-se (ainda mais) de pés descalços, que o Reboliço se encantou de ver. Entre eles, não estranhou que duas belas patinhas aparecessem com o fundo de um moinho com papoilas nos campos provençais - eis aqui, com a permissão da autora da imagem, @Elisaparkranger:



quarta-feira, 11 de maio de 2016

Pastor(e)al

"Ponto de fuga"

Manhã de Abril, passeio para lá da cidade,
os montes de vinhedos pendurados,
torres de igreja e fileiras de ciprestes.
Um pano de oliveiras em grossas pinceladas de verde prateado.
Nem a selvajaria de lavagens automáticas nem estaleiros de construção
molestam a raia enraivecida do subúrbio.
Apenas uma casa de pedra se aninha na quinta, por baixo de
telhas vermelho-recortadas em acentuada perspectiva.
Poderia ser um quadro renascentista,
onde num vale qualquer um descalço
pastor sentado guarda o rebanho e,
perto, passa um soldado de fato garrido.
Não é difícil crer que se está em 1553
e se olha para o mundo através de
uma janela; a direito, estrada abaixo
até onde alcança a vista, onde as linhas paralelas
convergem até um único ponto de fuga,
como se fosse o futuro.

Sue Hubbard
Tradução: AIS. O original está aqui.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Liberdade

(Foto da pintura do pequeno Matias no chão da terra: Mana Gabriela. O sobrinho primeiro do Reboliço nasceu da Mana Gabriela e do Vasco - nem um nem outro eram nascidos quando foi do 25 de Abril, nem, por necessidade, os filhos deles. O Mano João, que é gémeo da Gabriela, igual - e os filhos dele e da Angela nascem também em liberdade. O Reboliço, apesar de já nascido havia naquela data três anos e meio, não guarda memória do dia. Mas dos que vieram depois, da alegria de celebrar aquilo que começou por ser só uma palavra, depois foi conceito e agora é o mote de uma vida, o que mais o alegra é isto de ter dedos cheios de tinta e perceber que do corpo de um canito a uma expressão dele se pode fazer o caminho sem constrangimentos, sem peias, com sorrisos e risos de ir às lágrimas. Por coincidência igual de feliz, repara ainda, o Dia da Liberdade é também o Dia Mundial dos Penguins.)

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Um de três

No nº 19 da revista Telhados de Vidro (2014), publicaram-se três poemas - chamou-se ao grupo "A céu aberto" - dedicados a Miguel de Carvalho, pela sua Coimbra. Um de Manuel de Freitas, um de Inês Dias e este que em baixo se vê, num retrato que lhe fez o próprio livreiro de Carvalho.




quarta-feira, 13 de abril de 2016

Este sábado

O segundo sábado traz o mano às Conversas sobre Criatividade em Loulé:


domingo, 10 de abril de 2016

Para que serve a poesia?

O Reboliço gosta muito de ler poemas e de falar sobre ler poemas. Serve-lhe o gosto, portanto, a poesia. E o palato ansioso: com azeite, mel, queijo, cavacas, borrachões e outras doçuras beirãs que ganhou em troca de leituras.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Simenon sim!

(Foto do Miguel Martins, enquanto na sexta-feira passada discursava, na Universidade do Algarve, sobre Georges Simenon, a sua vida e obra: Reboliço, a lembrar-se de Balzac, outro prolixo escritor.)

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Morse > Lewis

(Foto da televisão a mostrar Lewis que se despede de Morse: Reboliço, a pensar no trabalho dos actores, no carinho das personagens, na inteligência do olhar de quem fez aquela série e viria a fazer Inspector Lewis. Morreu Morse [em 2000] e morreria John Thaw dois anos depois, de um cancro no esófago. Paz às almas dos homens cuja vontade é só beber muito, comer bem, pensar melhor, right the wrongs of the world e achar alguém a quem amar. Lewis sobreviveu-lhe, mas, como o seu carácter só excedia o de Morse em gentileza e a bonomia, teve de achar um parceiro que de Morse herdasse, ao menos, o wit.)

quinta-feira, 31 de março de 2016

Oh...

Quando o Reboliço era cachorro, tinha um pensamento branco que ora o ajudava a adormecer, ora o assustava, de tão absolutamente branco. Era nada mais do que isso: um pensamento branco. E o branco era tudo, era todo o pensamento. A Zaha Hadid tinha entrado no pensamento do Reboliço e plantado lá um edifício. Branco.
(Adeus, Zaha. Fugiste sem avisar.)

quarta-feira, 30 de março de 2016

Janis

Que nome é esse, Janis?, interroga-se o Reboliço. Lembrou-se dela a propósito de um Bobby McGee que com ela entrou num dia de chuva na boleia de um camião, em Baton Rouge (coisa de esborratar e passar a mão suja, encarnada, sobre os jeans já gastos, ou a suja bandana encarnada) e seguiu para o Kentucky antes de ir para Oeste à procura do sol e de um lar - achou-o em Salinas, perto do Pacífico. Vai uma mulher à boleia com um homem e cantam, eles mais o camionista, os blues de alguns dias de estrada - I was holding Bobby's hand in mine. Vai a mulher, segue viagem e "deixa-o escapar", que achou - o homem achou - o lugar que procurava para assentar. Em 1970. A verdade é que quem ficaria a residir e se furtaria à viagem seria uma mulher. Foi assim que Kris Kristofferson imaginou quando escreveu a canção: Bobby foi a mulher que lhe aqueceu as noites, soube dos seus segredos, e, "Bobby clapping hands" ao som das canções que ambos cantaram com o camionista, recusou seguir viagem. Na versão de Janis (Janis, que nome é o teu?), a de uma mulher sobre um homem, a liberdade - não ter nada a perder - não vale nada se não for livre, se não for de graça; na do homem sobre uma mulher, o nada nada vale, mas é de graça. Há na escolha da mulher a possibilidade de um preço a pagar pela liberdade, que passa a ser diferente de não ter nada a perder. Quando o homem canta, porém, é um dado adquirido que a liberdade não tem qualquer custo. 
(E a propósito de George, nome certo de cão.)

terça-feira, 29 de março de 2016

Fazer caras

O Reboliço não se cansa de gente divertida. Pensa que os donos do Bo e da Sunny são assim, divertidos. Séria gente divertida, que gosta de ler, de dar a ler, de fazer ler, de animar leituras. Num dia de Páscoa, como os que agorinha mesmo passaram, soube que juntaram moços pequenos e lhes leram, animados, sobre onde estão as coisas selvagens. O que se riu!

quarta-feira, 9 de março de 2016

Anúncio

Daqui a uns dias, em boa companhia:



sábado, 13 de fevereiro de 2016

Moinhos na poesia (78)


"Le Moulin" (fragment)

… Tandis que devant moi,
Dans la clarté douteuse où s’ébauchait sa forme,
Debout sur le coteau comme un monstre vivant
Dont la lune sur l’herbe étalait l’ombre énorme,
Un immense moulin tournait ses bras au vent.
D’où vient qu’alors je vis, comme on voit dans un songe
Quelque corps effrayant qui se dresse et s’allonge
Jusqu’à toucher du front le lointain firmament,
Le vieux moulin grandir si démesurément
Que ses bras, tournoyant avec un bruit de voiles,
Tout à coup se perdaient au milieu des étoiles,
Pour retomber, brillant d’une poussière d’or
Qu’ils avaient dérobée aux robes des comètes ?
Puis, comme pour revoir leurs sublimes conquêtes,
A peine descendus, ils remontaient encore.

Guy de Maupassant, 23-24 octobre 1897
(Obrigada, amigo.)

sábado, 30 de janeiro de 2016

Lewis < Morse

Foto de dois wasted men em momento inspiracional: Reboliço. Depois de Inspector Lewis, o Reboliço assiste aos episódios de Inspector Morse. Pela ordem, portanto, inversa à da narrativa da série. Mas como gosta de descobrir a verdade do que o velho Lewis conta sobre o antigo chief-detective, vendo-o (a Lewis) em novo!

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Lazarus

Olhem cá para cima, estou no céu
Tenho cicatrizes que não se vêem
Tenho drama, não mo podem roubar
Agora todos sabem quem sou

Olhem cá para cima,
estou em perigo
Já nada tenho a perder
Estou tão no alto, a cabeça a andar à roda
Deixei cair o telemóvel

Não é mesmo coisa minha...?

Quando cheguei a Nova Iorque
Vivia que nem um rei
Depois gastei o que tinha
Andava à tua procura

Ou assim ou de maneira nenhuma
Já sabes, ficarei livre
Como aquele pássaro azul
Não é mesmo coisa minha...?

Ah, ficarei livre
Como aquele pássaro azul
Ah, ficarei livre
Não é mesmo coisa minha...?

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Moinhos na Poesia (77)

(Foto da página inicial da canção "Grilos e grilões", de Sidónio Muralha: Reboliço, encantado. O volume chama-se Bichos, bichinhos e bicharocos, é uma edição facsimilada da 1ª, de 1949, com textos de Muralha, ilustrações de Júlio Pomar, então com 23 aninhos, e inclui as pautas - e um CD, nesta reedição - de Francine Benoit; saiu na althum, em co-edição com a Centauro e o Museu do Neo-Realismo de Vila Franca da Xira, em 2010. A cantiga é uma alegoria sobre a opressão dos fracos pelos fortes: do mais neo-realista que existir poderia.)

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

(Cada vez que contamos uma história esquecemo-la mais e mais.)

Em 1925, Mikhail Bulgakov escreveu uma novela alegórica chamada Coração de Cão. (Só viria a ser publicada em 1987, e em Portugal teve, pelo menos, três edições - a primeira, nos Estúdios Cor, sem data de publicação, mas certamente anterior a 87 e feita, provavelmente, a partir de uma versão que circulava clandestina; as mais recentes na Vega, em 2008 e na Alethêia, em 2014.) A história de Bulgakov tem pouco a ver com o filme de Laurie Anderson, mas os títulos coincidem e a realizadora faz, nisso, mais uma remissão a uma constelação de obras que iluminam o céu canino do filme. Onde o perfeito texto de Bulgakov é satírico, dorido de denúncia, de comunidade, dá o olhar de Anderson uma visão privada, íntima e doce. É um filme sobre contar histórias, ao passo que o livro de Bulgakov é uma das muitas histórias que podem ser contadas.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

MaNi

O MaNi chegou há uns dias, desmamado cedo, os olhinhos ainda como ensonados, pequeno o tempero da alma, vagus blandus animal - da raça do Sorna, mas pêlo ao contrário: mormente escuro e marcado, sobre os olhos, castanho melaço; o colar, extremo de patas e ponta da cauda caídos em balde de cal e a ponta do focinho como quem permanentemente roubasse a nata fresca do prato do leite. Anda a farejar tudo o que é formiga à volta da casa; rói as ervas como se fossem os mais saborosos ossos, o mais apetecível biscoito. Cheira os cheiros da Luca, do Sorna, do Petaner e dos vizinhos caninos todos. Porque não cabe em si é que cresce um bocadinho cada hora. O Reboliço olha-o, desconfiado do que virá a ser aquela forma patuda e ansioso por ver-lhe o porte mais imponente e poder, por fim, fazer-se entender. Olá, sou o Reboliço. Diz-me: o que pensas fazer da vida?

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Luca (14/11/2004-8/12/2015)

(Foto, re-publicada: Reboliço há uns anos bons, no Poço Novo, a lembrar o Sorna e a Luca, que foi ontem ter com ele ao céu dos cães. Boas viagens, queridos, queridos amigos.)

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

O Reboliço é um nefelibata (92)

NUVENS

Ao dobrar de uma curva da estrada, encontro o fotógrafo celeste. Imóvel ao lado do tripé, braços cruzados sobre o peito, espera que o vento misture de tal modo luz e sombra que a cor do céu possa entrar toda inteira no breve enquadramento da máquina fotográfica. Assim que me aproximo, começa a procurar nos bolsos e, franzindo um pouco os olhos (creio que cada vez mais lhe custa ver ao perto), vai tirando imagem sobre imagem: pedaços de céu com grandes massas de nuvens muito brancas, ou azuis como os montes ao longe, ou levemente pintadas de vermelho e cor-de-rosa como os frutos do verão. «Não é bonito, isto?», pergunta. Depois voltamos a olhar para as fotografias, com a surpresa de quem vai à janela olhar o céu e se dá conta de estar a ver um pormenor do universo: «quanto mais as nuvens nos parecerem imóveis, mais nos movemos nós, viajantes de uma nave imensa. Como se não houvesse nenhum vento e, sabe-se lá porquê, a Terra começasse a rodar ligeiramente mais depressa».

(Rosa Maria Martelo, A Porta de Duchamp, Lisboa, Averno, 2009, p. 14.)

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Moinhos na Poesia (76)

Romance Alentejano

I

Talham os moinhos
A sua farinha coleante
Irrequietos sulcam os heróis
Searas usurpadas
Passeando o sólido hálito
Pelas veredas lunares dos olivais.

Uma metalurgia de gestos
Dilui os seus perfis de jade
Pressinto-lhes na voz
A sabedoria imolada
Carótida que o bárbaro dedo esmaga.

(Carlos Eurico da Costa, enviado por divina, amiga mão.)

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

O Reboliço colecciona calendários (32)

(E tem uma colecção de amigos que sim senhor! Muito obrigada, menino Alfarrabista.)

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Não abandonar a comédia

O Reboliço ouve falar pessoas como Jon e Tracy: Jon Stewart não abandonou a comédia; esta é a razão por que, desde logo, é inteligente e cómico e um bom exemplo.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Ondas do mármore

(Foto do sub-inspector Hathaway a contemplar a estátua mortuária de Percy Bysshe Shelley, em Oxford: Reboliço. O corpo do poeta aparece reclinado, como terá dado à costa perto de Viareggio, depois de uma tempestade em que naufragou. O Reboliço vê os episódios de Inspector Lewis como quem assistisse ao serviço religioso e ouvisse, dos poetas, "Fazei isso em memória de mim.")

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

"To sleep, perchance to dream"

O Reboliço vê o capítulo inicial da série policial Lewis, adaptação da tragédia Hamlet, e pensa na permanência das histórias.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Hino mundial contra a violência doméstica (ou "Jamé, mané!")

O Reboliço escuta a voz madura, gutural, e pensa na energia jovem que sai dela. Salvé, Elza!

Cadê meu celular?
Eu vou ligar prum oito zero
Vou entregar teu nome
E explicar meu endereço
Aqui você não entra mais
Eu digo que não te conheço
E jogo água fervendo
Se você se aventurar

Eu corro solto o cachorro
E, apontando pra você
Eu grito: péguix guix guix guix
Eu quero ver
Você pular, você correr
Na frente dos vizinhos
Cê vai se arrepender de levantar
A mão pra mim

Cadê meu celular?
Eu vou ligar prum oito zero
Vou entregar teu nome
E explicar meu endereço
Aqui você não entra mais
Eu digo que não te conheço
E jogo água fervendo
Se você se aventurar

Eu corro solto o cachorro
E, apontando pra você
Eu grito: péguix guix guix guix
Eu quero ver
Você pular, você correr
Na frente dos vizinhos
Cê vai se arrepender de levantar
A mão pra mim

E quando o samango chegar
Eu mostro o roxo no meu braço
Entrego teu baralho
Teu bloco de pule
Teu dado chumbado
Ponho água no bule
Passo e ofereço um cafezim
Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim

Cadê meu celular?
Eu vou ligar prum oito zero
Vou entregar teu nome
E explicar meu endereço
Aqui você não entra mais
Eu digo que não te conheço
E jogo água fervendo
Se você se aventurar

Eu corro solto o cachorro
E, apontando pra você
Eu grito: péguix guix guix guix
Eu quero ver
Você pular, você correr
Na frente dos vizinhos
Cê vai se arrepender de levantar
A mão pra mim

E quando tua mãe ligar
Eu capricho no esculacho
Digo que é mimado
Que é cheio de dengo
Mal acostumado
Tem nada no quengo
Deita, vira e dorme rapidim
Você vai se arrepender de levantar a mão pra mim

Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim
Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim
Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim
Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim

Mão, cheia de dedo
Dedo, cheio de unha suja
E pra cima de mim? Pra cima de muá? Jamé, mané!

Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Moinhos na Poesia (75)

A CALMA

O sol caustica a prumo a rústica devesa!
Exala-se da terra um bafo ardente; o gado,
Sedento, mal resfolga à sombra do montado,
Nas fulvas crispações dessa fornalha acesa.

Canta, refresca o ouvido a água na represa
Da azenha e ao longe a voz dum melro fatigado
Quebra, de quando em quando, o silêncio pesado
Da sesta, que adormenta em roda a natureza -

Arquejam, bico aberto, as galinhas e os patos;
E eu que, a escorrer suor, abro os olhos a custo,
Esperguiço-me, acordo, e artista como um grego,

O meu olhar pagão vê, através dos matos,
Mover-se o corpo nu, elástico, robusto,
Dum filho do moleiro a chapinhar no pego.


(António de Macedo Papança, Conde de Monsaraz, Musa Alentejana, 1908. Obrigada, Rui!)