domingo, 14 de maio de 2017

Extra! Extra!

O Miguel Martins tem um novo blogue. Extingue O Único Verdadeiro Deus Vivo e abre um "Extra Light", suave cachimbo de milho (o que pode significar que abandona, até ver, a vida olímpica e segue uma outra, humílima via). Vá por onde for, que seja permitido ao Reboliço continuar a segui-lo.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

"Sinais de fogo, os homens se despedem"

(O Reboliço escuta, outra vez, as vozes do Rodrigues e do Jorge, no quarto da pensão da Figueira, quando o primeiro conta da descoberta do mundo.)
"Eu julgava que o mal era uma coisa que havia em mim, uma raiva que me enchia, uma miséria que cobre toda a gente. Mas agora sei que não é. Não está dentro de mim, nem me enche, nem cobre todos. Não existe. Estás a ouvir? Não existe. E, se ele não existe, como posso eu adorar seja quem for que me salve? Não há de que salvar, não há quem salvar, não há quem salve. Não existe.
- Então o que é que existe?
- Tudo o que não tem importância. Só o que não tem importância existe."
(Jorge de Sena, Sinais de Fogo, ed. Asa, p. 223.)

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Uma elegia

A CHUVA JOGA À CORDA NAS JANELAS DE MAPUTO, MEU CARO BB
Não sei se foi de mansinho ou se o biltre
do anjo te levou na canastra. Mas não cheguei
a contar-te o flash-back com o meu tio linotipista 
que ao megafone te chamava, “pede-se a presença
no refeitório do bandarilheiro Armando!”. 
Quarenta anos depois, em entrevista
que te fiz, ébrios como aqueles centauros
que se mergulhavam no mel, segundo o Plínio,
descobri-te humilde, inseguro, ansioso
por confidenciares que tomavas o teu romance
por uma bodega – ou menos nutrido que qualquer bodegón 
de castiço andaluz – e que a vida tem sótãos &
armadilhas para os bandarilheiros que anseiam
tornar-se "matadores". Também eu, também a mim,
meu querido Armando (no 25 de Abril estava
a tentar safar o couro do açougueiro Dias 
– atraía-me filha, a justiça não usava rímel ¬-
em risco de ser linchado porque, clamava a turba,
oferecia os piores chouriços aos nossos libertadores)
me calhou descobrir aos cinquenta e oito
que a poesia simplesmente me evadia do trabalho físico
e que a escolhi contra os cem metros obstáculos
ou o Cristo nas argolas e na mira de que ela obtivesse
junto das miúdas o efeito hílare do papagaio
que repetisse “o mangalho”em trinta e duas línguas.
Se depois melhorou (o que eu duvido) 
foi porque a caneta exercida a (torr)esmo
pode vir a pesar tanto como o arado
que sulca a terra pedregosa e ai o alheado labor
do espírito desata a transpirar
e topa que lhe aderiram à lâmina detritos de osso,
nódulos de sangue e as garatujas em sémen
de cães que se imitam na fosforescência
e rabiam em círculos num truncado horizonte de sílabas,
pelo fito vão de lamber a própria piça
ao primeiro espanejar do vento
nas asas do anjo. Nada
de muito dignificante, meu caro, cacos
peneirados na rede da astúcia,
mais vaidade que polpa
no momentâneo trajecto entre os astros.
Desta vez atingiu-te a cornada e pressinto
que dispensavas ter já o céu por vizinho,
pois preferias o riso, o escandido relance
da vizinha que te media o papillon;
sentires que a tua voz cava
subia ao terraço para te indignares com palavras
que atiravas como brasões à multidão.
Partilhámos algumas garrafas, trocámos acenos
e ouriços (o fado e outras despercepções
nos separavam) mas a maldita usura
do tempo… igualou-nos.
A chuva joga à corda nas janelas de Maputo,
e, arreliado, ouço o baque-baque
das bátegas a acordar o tique-taque
que me constela as veias.
Isto anda tudo ligado, diria o Guerra Carneiro,
outro iracundo capaz de uma gentileza milenária.
Chove nas vidraças, certamente um breve
aguaceiro, como tu, como eu, como nós,
os encanzinados que tristemente
não chegam a integrar o cartel dos "matadores".

António Cabrita
(Publicado no seu mural de Facebook em 11-05-2017.
A lembrar Baptista-Bastos, falecido dois dias antes.)

domingo, 7 de maio de 2017

O Reboliço é um nefelibata (95)

CANÇÃO DE MAIO

Em certos dias maio
é um touro de chuva
e o lume dum raio
atravessa uma nuvem

Porém rapidamente
acaba a trovoada
e uma névoa quente
sai da terra molhada

Em terra corre o touro
que de maio é o signo
e de tarde o besouro
ao calor zune estrídulo

Num muro branco voga
paciente o caracol
como alguém que se afoga
num mar com muito sol

Gastão Cruz, Rua de Portugal, Assírio e Alvim, 2002, p. 33.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Rosetta

(Imagem do écran: Reboliço, a ver nele a praia de um escuro mar.)

Há muitos, muitos anos, o Reboliço ouvia falar sobre uma "pedra de Roseta," espécie de talismã de historiadores e linguistas. Aparecia como coisa mítica, de que só conhecia imagens, más reproduções - nada que chegasse à magia do nome, que o fazia associar rosa e pedra numa mesma sequência. Depois veio a vê-la no museu. Hoje pode vê-la quando quer: passar como se fosse o dedo pela superfície, aproximar como se fosse o olho para melhor ver como se fossem aumentadas as incisões que nela existem. Tacto, olhar, converge tudo, por cablagens misteriosas e mágicas duplas numéricas, para a tela de um bendito, magnífico computador.

terça-feira, 2 de maio de 2017

"casa fechada"

depois, de uma caixa de laca tiraste retratos
amarelecidos, tua mãe, de cabaia, numa festa,
os tios viajados, sorridentes,
num país invernoso, com chapéus.

passeios de domingo, tua avó contigo ao colo,
solenes casamentos, parentes de nomes esquecidos,
com folhos  laços a multidão das primas.

nas paredes da casa tantos anos fechada
fenece o papel ingénuo com grinaldas 
brinquedos, a espada do bisavô, o copo de prata,
o travesseiro de faiança, tudo me mostras.

como num sonho choro com as pontas dos dedos,
inventariando o teu bazar de mágoa.


(Fernanda Dias, Rio de Erhu, Fábrica de Livros, p. 30.)

sábado, 22 de abril de 2017

"Faro, 1952"

O café, do outro lado a livraria
essa a meta da tarde
quando esfria a pele sem que
frio fique o dia,
as linguagens regressam às cúpulas
de folhas
e os treze nocturnos ainda nos esperam
sob o inerte
torreão do fim da infância,
escutaremos alguns
no pobre piano íntimo, o sexto
repetido como alma dos
dias,
percorremos a rua
até onde entra nela a aragem da ria,
e o café dum lado, do
outro a livraria,
à porta o chapéu largo e a barba
branca
dum poeta do passado
Gastão Cruz, Rua de Portugal, Assírio e Alvim, 2002, p. 31.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Moinhos na poesia (83)

...
com os profetas dando às costas e aos desertos
síria não perdeu a fome
os estrangeiros que vieram     fosse de onde fosse
foi para que os de cá enfunassem mais tarde as caravelas
deitassem ao vento os moinhos de quixote
as invasões soltaram os predadores
para seguirem     de cristo ao peito     o trilho das especiarias
sem as malhas prateadas dos guerreiros médios
ei-los
que foram ao saque
à conquista do pavor dos conquistados
autos das barcas se fizeram aos mares com ouros na volta
e dos reinados     dos senhores reinadios     ficaram os castelos
e o eco das heráldicas
dos ourives ainda se fala e dos ornatos de manuel nos pelourinhos
as calçadas desaguando em naus flutuando com primor
entre os guinchos de cordame e papagaios
...

Abel Neves, Úsnea, Averno, 2015, 57.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Moinhos na poesia (82)

RECORDAÇÃO

O Nordeste sopra,
O mais querido entre os ventos
Pra mim, pois promete fogoso
Espírito e boa viagem aos navegantes.
Vai pois agora e saúda
O belo Garona,
E os jardins de Bordéus
Ali onde na margem escarpada
Segue o atalho e para o rio
Lá baixo cai o regato, enquanto em cima
Contempla um nobre par
De carvalhos e choupos argênteos;


Ainda me lembro bem, e como
Inclina os largos cumes
O bosque de olmos, por sobre o moinho,
Enquanto no pátio cresce uma figueira.
Em dias de festa vão
As mulheres morenas por ali
Em chão de seda,
No mês de Março,
Quando a noite é igual ao dia,
E por sobre os atalhos vagarosos,
Pesadas de sonhos dourados,
Passam brisas embaladoras.


Mas que me dê,
Cheia de luz escura,
Alguém a taça cheirosa,
Que eu possa repousar; pois doce
Seria entre sombras o sono.
Não é porém bom
Sem alma ser de mortais
Pensamentos. Mas é bom
Conversar e dizer
O que vai no coração, ouvir muito
De dias de amor,
E de acções que acontecem.


Mas onde estão os amigos? Belarmino
Com o companheiro? Muitos
Têm receio de ir à fonte;
Pois é no mar que começa
A riqueza. eles,
Como pintores, ajuntam
O belo da Terra e não desdenham
A guerra alada, e
Viver solitário, anos a fio, sob
O mastro sem folhas, onde não iluminam a noite
Os dias de festa da cidade,
Nem a lira nem a dança nativa.


Mas agora foram pra os Índios
Os homens,
Além no cume alteroso
Junto aos vinhedos, onde
Desce o Dordogne
E juntamente com o soberbo
Garona largo como um mar
O rio acaba. Mas o mar tira
E dá memória,
E o amor também prende diligente o olhar.
Mas o que fica, os poetas o fundam.

(Hölderlin, Poemas, Prefácio, selecção e tradução de Paulo Quintela, 2ª edição revista e muito ampliada, Atlântida. Coimbra, MCMLIX, 381-385. Composto provavelmente entre 1803/04, e publicado pela primeira vez no anuário de poesia de Seckendorf de 1808. Muito obrigada, Ana & Isabel!)

quarta-feira, 29 de março de 2017

Rilke a Hölderlin


... 
Se um tal, eterno, houve um dia, porque é que nós desconfiamos ainda do terrestre? em vez de no transitório seriamente aprender os sentimentos de qualquer
inclinação, futura no espaço?
(Rainer Maria Rilke, 1914. In Hölderlin, Poemas, Prefácio, selecção e tradução de Paulo Quintela, 2ª edição, revista e muito ampliada, Atlântida, Coimbra, 1959, s/p.)

domingo, 26 de março de 2017

Moinhos na Poesia (81)

Agora, é um ribeiro que nos acompanha e desaparece; muito embora numa fuga para trás, repetindo a verde, a branca estrada; logo, um vermelhar fumegante de telhado; viandantes que nos amaldiçoam; um cão, saltando, que arremete; mala-posta que passa, num turbilhão de poeira, furado de gestos humanos; galinhas esvoaçando; aquela presa de água, entre salgueiros; um velho perfil de moinho; uma junta de bois aterrorizada; um cavaleiro abraçado ao pescoço de uma égua que recua, aos corcovos, sobre a valeta; lavradores, curvados, no trabalho, férreas enxadas da pobreza reflectindo oiro, ao sol…
Teixeira de Pascoaes, A Beira (Num Relâmpago) / Duplo Passeio, Assírio e Alvim, p. 39. Pascoaes viajou num Isotta Fraschini entre São João de Gatão e Arganil, em Agosto de 1915. A emoção de correr, naqueles tempos, a 40km horários!

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

"EM PROPÓSITO DA TRADUÇÃO"

"Em casos muitos discute-se se tradução é para ser mais fidel a originalis ou se deve torcer a modos de encaixar na língua que traduz. As posições ambas partem aos porém da ideia de que há duas línguas, uma + uma, y que o trilho de uma a altra se debuxa em reta linha. Esta tradução não brota de ideia tal, pero de que língua há muita, mesmo que só com nome um. Ou seja, é português lusitano o destino do doc deutsch de Wedekind, mas o que é isso está em aberto. Faz-se donc uso de gramática e vocábulo recognescíveis, mixando tempos, geos, origens e por fora aí, esfocinhando-se por tirar tapete de norma, o que é idêntico a intentar ilimitar e dar força à variedade. Em não havendo linha, não se sabe adonde vai aportar a frase que vem após, e assi, ao menos, vive-se menos previsível, move-se o peso de conhecimentos sabidos e queda-se mais leve leve. Népia más que questo. É só apenas poder e aos porque poder assi, crê-se, mais bom é. Com bom, entenda-se livre."
(Nota sobre a tradução de O Despertar da Primavera, Uma Tragédia de Juventude, uma re-elaboração linguística que fez José Maria Vieira para o Teatro Praga, peça apresentada no Centro Cultural de Belém este fim-de-semana e que o Reboliço, muito contente, foi ver e aplaudiu.)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

6ª resposta

Ao desafio lançado aqui pelo Miguel Martins, respondi com o relato da leitura de O Estrangeiro, de Albert Camus (numa edição igual à que aparece na imagem com que o Miguel ilustrou o post).
Não me lembro de ter lido a primeira frase. Nem a segunda. Mas recordo com imagem vívida a sensação de não poder senão continuar a ler, do desconforto e da necessidade de ler. A primeira frase que sublinhei foi “Isto não quer dizer nada.” É a quarta, se contar como terceira a que inclui aquilo que um telegrama dizia (“‘Sua mãe falecida. Enterro amanhã. Sentidos pêsames.’”). Foi aí que parei, detida por este atirar para a insignificância a notícia da morte de uma mãe. Por aquele tempo, habitando um quarto interior no segundo andar de um apartamento antigo, suado lugar depois de ruas e demasiados degraus, no Alto do Pina, desatava quanto podia os nós que me prendiam à minha. De uma infância e juventude agarrada às suas saias negras (tão enlutada andou), passava a regrar o tempo entre telefonemas para os montes além do Tejo, muito depois da Serra do Caldeirão, onde a província era ainda, no começo dos noventa, um lugar de acesso demorado e duro – e não só por falta de moedas para o que na altura eram os telefones públicos. Fazia-me eu e os livros eram o que tornava inconsútil a junção daqueles dois retalhos, o da vida antiga e o da vida nova. 
“Isto não quer dizer nada.” Assim se oferecia (e eu, por aquele sublinhado, aceitava) anular o que estava para trás. Sem imaginar o que viesse daí por diante – no livro e nessa que em mim estava a criar, as palavras encontravam-me num quarto que o apartamento tinha cheio de sol às horas da tarde. Era um dia de semana, devia ter voltado das aulas. A casa estava vazia de quem habitualmente ali andava: como o meu quarto não tinha janelas para a rua, invadi aquele onde o sol entrava e de onde ouvia a zoada quieta da rua, vizinhas a falar de janela em janela, poucos automóveis, alguém a perseguir alguém em corrida, uma gargalhada do café da esquina, umas portas abaixo. O segundo andar permite esta distância e esta contiguidade. Seria Verão? O livro comprei-o pelo fim de Setembro – talvez fosse o começo de um Outono, quando as tardes são mornas, quantas vezes sem nuvens, e o ar seco faz propagar os sons como se estivessem ainda mais longe. Havia uma cadeira. Havia uma cadeira que instalei no meio do quarto – à medida que fui lendo, foi como se se fixasse mais ao chão, e as veias onde passava o meu sangue passassem a ser os veios da madeira onde me sentava, imóvel, as mãos nada mais que ramos ressequidos no vento do que imaginava da praia que lia, do quarto de hotel, da cela da prisão, passando as páginas, passando as páginas, passando as páginas.
“O facto de a sentença ter sido lida, não às cinco da tarde, mas às oito horas da noite” tirava à condenação tão grave a seriedade que Mersault esperava – na minha ideia, que a lera pelas cinco da tarde, a gravidade pesava-lhe séria. Às oito da noite talvez já me revolvesse entre a que deixava ir embora, quieta para sempre, conformada com a ordem e a familiaridade que até ali sentira à minha volta, e esta que chegava com o estrangeiro (“Quem é o estrangeiro?”, escrevi numa nota à margem), inquieta, daí para a frente insone, daí para diante refém de uma consciência de conhecer-me a me estranhar que cada letra naquelas folhas ia afiando.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Feijanito

(Desenho do canito Feijão, a assinalar o seu quinto ano de felicíssima e amada existência aos cuidados do Zé e da Lurdes: Liliana Sequeira, do outro lado do mundo. Parabéns do Reboliço!)

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Moinhos na poesia (80)

"Robot-democracy
In a robot-democracy, nobody is willing to serve, / even work is unwilling, the worker is unwilling, unwilling. / The great grind of unwillingness, the slow undergrind of hate / and democracy is ground into dust / then the millstones burst with the internal heat of their own friction."
D. H. Lawrence, Pansies [1930]
(Foto da página 33 de D. H. Lawrence, Amores Perfeitos [II],
selecção e tradução de João Concha e Ricardo Marques, não [edições], 2017:
Inês Dias. Obrigada!)

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Palácio da Fonte da Pipa

(Foto do Palácio da Fonte da Pipa, depois do fogo: Pedro Cabeçadas, 24/01/2016)

O Reboliço lê o texto da historiadora Luísa Martins, numa brochura publicada em 2008 (enquanto olha para as imagens de Gastão de Brito e Silva):
"No local onde se ergue o 'Palácio da Fonte da Pipa' existiu uma fonte à qual recorriam as pessoas da 'vila de Loulé.' As terras da Fonte da Pipa foram compradas por Marçal [de Azevedo] Pacheco, que quis erguer aí um palacete (a partir de 1875) semelhante aos que vira nas suas viagens ao Norte da Europa, enquanto advogado, político (Partido Regenerador), deputado, presidente da Câmara de Loulé, cidadão. A propriedade foi batizada de 'Quinta da Esperança,' nome que não permaneceu na memória popular. Não se conhece ainda quem foi o arquitecto que desenhou o palacete mas sabe-se que o seu construtor foi José Verdugo, que também trabalhou na construção do Mercado Municipal de Loulé. O decorador foi José Pereira Júnior (Pereira Cão), pintor e ceramista de Lisboa, que também trabalhou no restauro e decoração do Palácio da Ajuda por altura do casamento do príncipe D. Luís. Marçal Pacheco faleceu no ano de 1896 sem ter visto terminada a construção do seu palacete de sonho. Em 1920, a família do antigo presidente vendeu a Quinta a Manuel Dias Sancho, banqueiro de S. Brás de Alportel. Dias Sancho introduziu melhorias, mandando eletrificar o palácio e construir os bancos dos jardins embutidos com conchas, corais, búzios, cascas de caracol, porcelana, cerâmica, num estilo Kitsch de feição romântica que envolve todo o edifício e jardins. Nos anos de 1927/29 os bens da Casa Bancária de Manuel Dias Sancho, a título ressarcivo, foram entregues ao Banco do Algarve. Por sua vez, Francisco Guerreiro Pereira terá comprado a Quinta ao banco. O amor deste novo proprietário às plantas exóticas permitiu que ainda hoje permaneçam nos jardins espécies florais não autóctones. Após a morte de Francisco Guerreiro Pereira, foi herdeiro da Quinta o seu filho, o Dr. Guerreiro Pereira, de Faro. Em 1981, este médico vendeu a propriedade à empresa "Quinta da Fonte da Pipa, Urbanizações, Lda". A Quinta da Fonte da Pipa não está isenta de histórias de fantasmas, almas penadas e sons estranhos. Ainda hoje permanece o anátema tão arreigado na crença popular de fenómenos supostamente psicofónicos aí acontecidos. O que se deve, provavelmente, ao facto de ter aí havido jogos de interesses materiais, onde o cenário dos fantasmas foi instalado propositadamente a fim de afastar quaisquer interessados na propriedade, ou ainda porque, durante a epidemia da pneumónica (1916/18), foram provavelmente lá sepultadas vítimas dessa doença."
(A partir de portfólio e artigos arquivados no Centro de Documentação da
Divisão de Cultura e História Local da Câmara Municipal de Loulé)

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Fonte da Pipa

O Reboliço lembra-se da primeira vez que visitou os jardins e, por fora, o palácio da Fonte da Pipa. Ia no grupo da escola primária, com a sua Dona Antónia a comandar. O passeio teria sido por um Inverno como o de agora - além dos desenhos que se fizeram do palácio, teve de desenhar as flores das amendoeiras. Talvez por isso aquele palácio, tão fora da vila, tão excêntrico, sempre lhe estivesse associado, na ideia, ao que mais elementarmente, para si, definia o Algarve. Ardeu hoje de madrugada, com chamas de fogo. Morreu - ficou só paredes, sem as torres, sem os tectos pintados nem as colunas decoradas, as escadarias vastas, as janelas de muitos feitios, o sentido que faziam os muretes enfeitados com as cores dos cacos cerâmicos que, anos depois da visita inicial, lhe faziam lembrar os de um parque-jardim em Barcelona. Morreu, foi-se de vez, depois de há uns anos o terem meio escondido atrás de um longo muro de pedra, a bordejar a propriedade. Morrera já um pouco quando ao portão, distante da entrada uns 100 metros, lhe tinham estacionado dois gigantes de pedra que sussurravam a quem passasse "vai-te daqui." A vida do palácio eram os fantasmas que se dizia morarem ali e que hoje devem ter endoidecido, sem abrigo para assombrar.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Dylan - de novo, mas não só

De novo, pensa o Reboliço, Bob Dylan. Mas embrenha-se no artigo do New York Times e dá-se conta de que não é só o homem-tema que o atrai: ali descreve-se uma aula, descreve-se a disposição de uma matéria de estudo, um método de pesquisa. (Pouco tem a ver com investigação científica, a não ser onde ciência é, afinal, saber.)

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

No vermelho

O Reboliço continua no vermelho (natalino, se calhar), enquanto relê um dos primeiros livros que comprou com dinheiro seu, há mais de trinta anos, numa livraria de Faro que já não há quase tanto tempo.




Na última página, não numerada, da introdução - sem indicação de autor -, remete-se para outra escrita ainda:


quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

O Reboliço está a passar o Natal na neve

(Porque escuta a voz de Anne Carson - como poderia ser a de Merryll Streep, pensa...)

O Reboliço colecciona calendários (35)


(Foto do tão lindo bouquet sobre o calendário do ano em que se casaram os pais, e da página do mês em que se deu o enlace, no Moinho Grande, num Domingo, faz hoje anos: Reboliço, emudecido de grato à linda Inês, que lho ofertou.)

domingo, 25 de dezembro de 2016

(Natal de há seis anos)

Enroscado ao pé do lume, o Reboliço dormita ao vuruururuuururuuu hipnotizante do fumo a gastar o madeiro - só não entra no mais fundo do sono porque os troncos finos, o musgo seco e alguma carcaça de insecto interrompem, a estalar, a melodia das brasas. Do monte do lado vem o cantar de um galo temporão: despede-se da perua e dos gansos que, presos debaixo da mesa de pedra, no quintal, aguardam na bebedeira doce a chegada da morte e da panela.
O Moinho fita tudo isto, indiferente aos dias que são, às pessoas que há e às que não estão. Já viveu quantos Natais?, quantas festas? Agora exibe no começo do socalco um letreiro branco a letras negras: "propriedade privada" - coisa estranha para enxotar algum casal que quisesse encostar às suas paredes o namoro, alguma raiva de motor a patinar nas ervas daninhas que os dedos não apanharam. É do Moinho, ou do Reboliço, a indiferença? Atrás da nogueira jovem (já tem umas dúzias de ramadas cheias de folhas, agora secas, quase dois metros de altura e outro tanto de amplitude de copa), o telhado da garagem anima-se com a bulha de três dos cães do vizinho - andam ao cheiro de rato ou de coelho que ali se tenha acoitado. Nem ouvem o "Qu'é da rua!" a mandá-los para o outro monte. Latem, caçam, farejam, o entusiasmo nas caudas e nos focinhos a brilhar.
Numa das janelas do Moinho, a que fica por cima da porta, vêem-se três ou quatro marcas de mãos enfarinhadas. Algum visitante pequeno, alegre de ter experimentado a macieza moída, quis ver como parecia o vidro assim decorado.
O dia está frio, mas só o bastante para se querer fazer lume e não sair da casa. O Reboliço, agradecido, reentra na dormência. Vê-se noutros lugares, terras sem fogo de lenha nem precisão dele, com o calor só de haver gente, outras luzes, novidades. Quando o tronco estala de novo, abre um dos olhos e, pelo vidro da porta, vê de relance um gato rápido e esguio atrás dos passarinhos brancos de cabeça azulada, que desde manhã saltitam pelas pedras da rua. "Quatro lumes tenho eu nesta casa," ouve dizer a dona grande. O dono cantarola ao abrir da noite: "Já lá vem nascendo o Sol, lá das bandas do Algarve - Ai, enganei-me, é a Lua, que o Sol não nasce tão tarde."

domingo, 4 de dezembro de 2016

Oh...

Há os senhores que morrem com 72 anos. E há aqueles que, sem idade, vivem sempre meninos. Obrigada, Billy, por John Harper.

sábado, 3 de dezembro de 2016

O Reboliço colecciona calendários (34)

"Anda cá, MaNi," chama o Reboliço. Chove, venta, a terra enlameou-se e o céu não larga o cinza. O cão novo não o atende, anda ao cheiro molhado das ervas verdinhas. O Reboliço dá meia volta, mais volta inteira e enrosca-se à porta da casa, a sonhar com lareiras e com as folhas de um calendário que voejam, uma e outra, até à chegada do mês derradeiro.


(Imagem do calendário de Dezembro, dois pássaros chegadinhos um ao outro: Theodoor van Hoytema, artista holandês nascido em 1863 e desaparecido para a gente em 1917. Em 1900 desenhou ilustrou os meses de 17 anos - deixou em rascunho 1918. Muitas graças à Inês.)

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Natacha (*)




Do lado de fora das salas, casinhotas de madeira entre os pinheiros, o Reboliço observa o desplante, o atrevimento com que a gata Natacha invade uma aula e ali se deixa ficar, quase duas horas inteiras, para desfrute de alunos, impaciência da professora e beleza, afinal, de todos. Olha de fora, o Reboliço, e vê-a procurar o canto mais morno do lugar: onde entra a réstia do sol da manhã, onde um colo de calor se lhe oferece, onde o aparelho que bafora o ar aquecido ronrona. Olha de fora e ouve a voz da professora, esforçada entre as deleitadas risadas e a desatenção do grupo, ler, a propósito, Vítor Silva Tavares: "Gosto e não gosto de gatos. Gato felino, gosto; gato gordo, não gosto; gato maluco, gosto; gato molenga, não gosto. Gato é companhia. Cão também, mas gato é outra companhia, companhia especial. Gato não é amigo, não é fiel; gato é egoísta, é ditador; gato não lambe botas, não arremelga o olho; gato é senhoria, é sua excelência, é mimalho, é lascivo. E tem ronha, tem muita ronha: faz das patas algodão ou garra, conforme a sua conveniência."(**) Ouve a voz que lê e observa a Natacha, gata melíflua, dengosa no que lhe convém, que é o ameno da sala a escondê-la do fresco da rua - e vê-a a escapar-se, indiferente, mal lhe foge o sol do vão da porta, para outra sala com gente e calor.
(Fotos da gata sobre uma das mesas da sala de aula e do corredor entre as salas, no campus pinheiral: Reboliço)


(*)"Natacha" foi o nome que ganhou a gata porque o dia em que fez a sua aparição marcou o aniversário da aluna com aquela graça.
(**) Vítor Silva Tavares, "o gato", in revista Cão Celeste, nº 9, Julho de 2016, p. 123.
Originalmente publicado no jornal Diário Popular, 19/6/1963.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Oh...

O Reboliço chama a Tiaga de lado para lhe dizer que há no céu dos gatos um companheiro novo, de ronronar especial.

sábado, 22 de outubro de 2016

Moinhos com vento

(Fotografia: Eduardo Hernandez-Pacheco; parte de um conjunto de diapositivos realizados em Portugal [talvez na região Oeste] entre 1917 e 1942. Fonte: Centro Português de Fotografia)

Merci, cher Miguel!

(Foto das capas de duas edições das Cartas de Alphonse Daudet, enviadas pela amiga mão do Miguel de Carvalho: Reboliço, de patinhas postas a agradecer.)