(Insta-foto do lindo turbo cão novel, enquanto cresce: MF. É um belo exemplar da sua raça canina, o que sempre encanta o Reboliço. Obrigada, F.! Muita saúde.)
Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2012
Sábado, 25 de Fevereiro de 2012
Tarte de maçã para o senhor Rothko
O Reboliço pergunta-se se o palato dos artistas será muito diferente do seu. A julgar pelo que lhes preparam, ao menos os gostos serão os mesmos.
Sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2012
Terça-feira, 21 de Fevereiro de 2012
- Reboliço, desenhas-me uma casota?
- Eu, Luca? Estás a pedir ao serzinho errado: o arquitecto é o mano, sabes disso.
- Oh... ele nem sequer lê as Cartas, vai lá saber do que eu preciso.
- Sabe, sabe, se escreveres uma cartinha só para ele, e lhe explicares muito devagarinho o que queres. Vais ver que, pelo menos, te responde. E, quem sabe, talvez daqui a uns anos alguém se lembre do teu pedido.
- Eu, Luca? Estás a pedir ao serzinho errado: o arquitecto é o mano, sabes disso.
- Oh... ele nem sequer lê as Cartas, vai lá saber do que eu preciso.
- Sabe, sabe, se escreveres uma cartinha só para ele, e lhe explicares muito devagarinho o que queres. Vais ver que, pelo menos, te responde. E, quem sabe, talvez daqui a uns anos alguém se lembre do teu pedido.
Segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2012
O Reboliço é um nefelibata (67)
Love is a seeking for a way of life; the way that cannot be followed alone; the resonance of all spiritual and physical things. Children are not only of flesh and blood — children may be ideas, thoughts, emotions. The person of the one who is loved is a form composed of a myriad mirrors reflecting and illuminating the powers and thoughts and the emotions that are within you, and flashing another kind of light from within. No words or deeds may encompass it.
Friendship is another form of love — more passive perhaps, but full of the transmitting and acceptance of things like thunderclouds and grass and the clean granite of reality.
Art is both love and friendship, and understanding; the desire to give. It is not charity, which is the giving of Things, it is more than kindness which is the giving of self. It is both the taking and giving of beauty, the turning out to the light the inner folds of the awareness of the spirit. It is the recreation on another plane of the realities of the world; the tragic and wonderful realities of earth and men, and of all the inter-relations of these.
I wish the thundercloud had moved up over Tahoe and let loose on you; I could wish you nothing finer.
O amor é um procurar um modo de vida; o modo que não se pode seguir a sós; o eco de todas as coisas espirituais e físicas. Os filhos não são só de carne e osso — podem ser ideias, pensamentos, emoções. A pessoa de quem é amado é uma forma composta de uma miríade de espelhos, que reflectem e iluminam as forças e os pensamentos e as emoções que estão dentro de nós, e assim brilham com outro tipo de luz, desde dentro. Não há palavras nem actos que o compreendam.
A amizade é outra forma de amor — mais passiva, talvez, mas cheia da transmissão e da aceitação das coisas, como uma nuvem de trovoada e a relva e o limpo granito da realidade.
A arte é ao mesmo tempo amor e amizade, e compreensão; o desejo de dar. Não é caridade, que é a dádiva das Coisas, é mais do que gentileza, que é a dádiva de si mesmo. É o receber e o dar da beleza, o virar na direcção da luz as pregas interiores da consciência do espírito. É o recriar, num outro plano, das realidades do mundo; as trágicas e maravilhosas realidades da terra e dos homens, e de todas as relações entre estas coisas.
Oxalá a nuvem de trovoada esteja por cima do Tahoe e chova agora sobre ti; não poderia desejar-te nada mais belo.
Ansel
Sábado, 18 de Fevereiro de 2012
O dia da rádio
O Dia Internacional da Rádio foi há uns dias, a 13. O Reboliço, muito amigo da telefonia, lembra-se de como o avô ficava de orelha colada ao aparelho, a escutar e a comentar o que ouvia. Quando entrou a televisão na casa do moinho, alimentada por uma pequena bateria igual à dos automóveis, o avô não abandonou a maneira como se ligava ao mundo fora do pequeno socalco e do limite do poço, da figueira e das oliveiras: no fim do dia, sentado à mesa, a cabeça baixa com os punhos a segurarem cada lado do rosto, os olhos fechados, acendia o cubo mágico e, quando a senhora apresentadora dizia "Boa noite, senhores tele-espectadores", respondia, sem levantar cabeça nem olhos, "Bô-nôte..."
Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2012
Sem gabardina
Esta noite, Barbara Hannigan agarrou em Ligeti, tirou a gabardina e dirigiu, cantou, foi intérprete de ópera e actriz de teatro, até artista de circo. Da orquestra, perguntaram-lhe "Mas que raio de passa aqui?" Como em Berlim há dois anos, a mesma fatiota e tudo.
Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2012
Grande André Tavares!
No momento em que a Dafne se prepara para encerrar a subscrição d'A Vida no Campo (corram, se ainda não subscreveram: é só até dia 17) e para inaugurar o Painel, conferências "para fazer circular no contexto português um conjunto de novos autores que se tem afirmado com fulgor no campo da teoria, crítica e pensar da arquitectura num plano internacional," o editor da Dafne dá ao Tantas Páginas uma longa entrevista sobre o seu projecto editorial, a experiência de edição de livros de arquitectura e ao redor, e ainda o que pensa do livro na era digital. O Reboliço continua a agradecer ao André a bondade do seu empenho.
Segunda-feira, 13 de Fevereiro de 2012
Pudor
Se alguma das minhas palavras
te agrada
e mo dizes
nem que seja apenas com os olhos
eu desato
a rir feliz
mas estremeço
como uma mãe pequena e jovem
que ainda cora
se um transeunte lhe diz
que o seu filho é belo.
te agrada
e mo dizes
nem que seja apenas com os olhos
eu desato
a rir feliz
mas estremeço
como uma mãe pequena e jovem
que ainda cora
se um transeunte lhe diz
que o seu filho é belo.
(Antonia Pozzi traduzida por Inês Dias. Muito obrigada!)
("io mi spalanco")
Pudore
Se qualcuna delle mie parole
ti piace
e tu me lo dici
sia pur solo con gli occhi
io mi spalanco
in un riso beato
ma tremo
come una mamma piccola giovane
che perfino arrossisce
se un passante le dice
che il suo bambino è bello.
(Antonia Pozzi, 1º de Fevereiro de 1933, 12 dias antes de completar 21 anos.
Anda, Inês, continua o que estavas a fazer.)
Sábado, 11 de Fevereiro de 2012
Quer saber-se muito concretamente.
(Foto do relógio sem mãos de Fernando Baguinho, sapateiro, fadista e poeta concreto: Reboliço, no fim do percurso da tarde por novazantigas oficinas de Alfama e da Mouraria, na Lisboa Autêntica.)
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Fotos,
Onde andei
Moinho de Castro Verde
No Fugas, suplemento do Público de sábado passado, sugere-se o Entrudo de Entradas para ir brincar ao Carnaval - e ilustra-se a sugestão, ora nem mais!, com o Moinho de Castro Verde. O moinho é lindo, tem nuvens atrás (como se vê na foto da página do Fugas) e ali se pode comprar trigo e milho do bom. Quem lá mói agora é o Mestre António, depois de o Mestre Chico se ter reformado. O moinho pertence à Câmara Municipal de Castro Verde, que o recuperou (ainda contou, para o recuperar, com o saber do avô Chico) e o mantém assim, e assalariado o moleiro. É muito bom sugerir a ida ao belo Moinho, Fugas - assim como será bom avisar os leitores que Entradas fica a uns 11 quilómetros de Castro Verde.
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Público
Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2012
Mitos, rimas e futebol
Poesia em forma de bola, sem indicação explícita de autoria, mas atribuível a Jack Lang.
Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2012
Polly Jean Dickens
Goddamn Europeans!
Take me back to beautiful England
And the grey damp filthiness of ages
And battered books
And fog rolling down behind the mountains
On the graveyards and dead sea-captains.
Let me walk through the stinking alleys
To the music of drunken beatings
Past the Thames river glistening
Like gold hastily sold - for nothing.
For nothing!
Let me watch night fall on the river
The moon rise up and turn to silver
The sky move
The ocean shimmer
The hedge shake
The last living rose quiver.
Take me back to beautiful England
And the grey damp filthiness of ages
And battered books
And fog rolling down behind the mountains
On the graveyards and dead sea-captains.
Let me walk through the stinking alleys
To the music of drunken beatings
Past the Thames river glistening
Like gold hastily sold - for nothing.
For nothing!
Let me watch night fall on the river
The moon rise up and turn to silver
The sky move
The ocean shimmer
The hedge shake
The last living rose quiver.
Segunda-feira, 6 de Fevereiro de 2012
Weegee
O Reboliço revolve-se no lugar, incomodado por não querer sair e por se sentir preso ao de sempre; dá a volta, dá mais meia volta sobre si mesmo, suspira, deita o corpo enrolado e entala o focinho entre as patas da frente. Se estivesse da outra banda, pensa, iria ver fotografias reveladas com compaixão.
Sábado, 4 de Fevereiro de 2012
A sopa do Reboliço (2)
(Hip-foto da sopa da tia, a ferver na panela: Reboliço, de focinho no ar e a ouvir a tia: "Já está o comer orientado.")
A sopa do Reboliço
O Reboliço deita-se ao sol, ao comprido sobre a tijoleira - que está frio? Não, a tijoleira ensolarada, deste sol sem nuvens que a janela atira, é como se fosse chão estival. Pisca muito os olhinhos, que quase lacrimejam da luz que quer sugar toda. O lombo quase quase lhe arde do calor, mas não se mexe. Que o sol de Inverno é traiçoeiro? Venha-lhe essa traição, que aceitará com amor. Atrás de si, num rebuliço imparável, a tia sai de casa, entra em casa, vai à varanda, volta da varanda, destorce os lençóis ainda húmidos, apanha os lençóis já secos, vai falando - "A tia Lurdes faz hoje 83 anos." -, comentando as compras, a retrosaria que há na rua e por que nunca tinha dado, vai e torna, e de repente a cozinha enche-se do cheiro de sopa a fazer-se. As cenouras, frescas, cheiram assim que a faca lhes corta fininha a pele; as verduras que trouxe da aldeia - "a ver o que se pode apurar ainda" - perfumam a casa toda; a panela, já ao lume, faz exalar vapores a misturar o alho, o xuxu, o nabo, a batata. Ah, Reboliço!, o gozo destas coisas que te levam para todas as sopas que viste fazer, para todas as que já fizeste, as que deste a provar e comeste, para todas as belas sopas do mundo.
Sexta-feira, 3 de Fevereiro de 2012
O Reboliço é um nefelibata (66)
As nuvens de Ambera Wellmann saltam para os olhos do Reboliço, roliças, plumas, redondas, escuras de tempestade a ir-se embora, branquinhas sobre mantas de papoilas. Muitas nuvens, muitas nuvens.
(Obrigada, MM.)
Quinta-feira, 2 de Fevereiro de 2012
"Ilhas"
O Cunhadão expõe em Olhão. Rima e coiso. É ir ver, até dia vinte e três deste mês. Rima outra vez. E a Ria Formosa é muito airosa.
- De onde vens, Reboliço?
- Nem imaginas, Luca: venho de ver uma estrela dos filmes mudos, uma estrela fantástica, maravilhosa.
- Ai sim? E quem era?
- Eish, é que nem fazes ideia! Um verdadeiro actor!
- Um actor? Isso seria algum Sean Connery, não?
- Qual quê - era o Uggie, Uggie, o cão. Um Jack Russell Terrier, que só visto, só visto. Do cinema mudo, mesmo: só lhe faltava falar!
- Nem imaginas, Luca: venho de ver uma estrela dos filmes mudos, uma estrela fantástica, maravilhosa.
- Ai sim? E quem era?
- Eish, é que nem fazes ideia! Um verdadeiro actor!
- Um actor? Isso seria algum Sean Connery, não?
- Qual quê - era o Uggie, Uggie, o cão. Um Jack Russell Terrier, que só visto, só visto. Do cinema mudo, mesmo: só lhe faltava falar!
Terça-feira, 31 de Janeiro de 2012
Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2012
Moinhos na poesia (37)
Aqui declaro que não tem fronteiras.
Filho da sua pátria e do seu povo,
A mensagem que traz é grito novo,
Um metro de medir coisas inteiras.
Redonda e quente como um grande abraço
De pólo a pólo, a sua humanidade.
Tendo raízes e localidade,
É um sonho aberto que fugiu do laço.
Vento da primavera que semeia
Nas montanhas, nos campos e na areia
A mesma lúdica semente,
Se parasse de medo no caminho,
Também parava a vela do moinho
Que mói depois o pão de toda a gente.
Filho da sua pátria e do seu povo,
A mensagem que traz é grito novo,
Um metro de medir coisas inteiras.
Redonda e quente como um grande abraço
De pólo a pólo, a sua humanidade.
Tendo raízes e localidade,
É um sonho aberto que fugiu do laço.
Vento da primavera que semeia
Nas montanhas, nos campos e na areia
A mesma lúdica semente,
Se parasse de medo no caminho,
Também parava a vela do moinho
Que mói depois o pão de toda a gente.
(Miguel Torga, Nihil Sibi, Coimbra, 1948, p. 25.)
Domingo, 29 de Janeiro de 2012
"O começo do fim do mundo, também conhecido como negligência."
Onde se descreve uma catástrofe como a sessão de poesia que também. Que também.
(Obrigada, Alexandra.)
O Reboliço é um nefelibata (65)
Scivola la penna
verso l'inguine della pagina,
ed in silenzio si raccoglie la scrittura.
Questo foglio ha i confini geometrici
di uno stato africano
in cui disegno
i filari paralleli delle dune.
Ormai sto disegnando
mentre racconto ciò
che raccontando si profila.
É come se una nube
arrivasse ad avere
forma di nube.
verso l'inguine della pagina,
ed in silenzio si raccoglie la scrittura.
Questo foglio ha i confini geometrici
di uno stato africano
in cui disegno
i filari paralleli delle dune.
Ormai sto disegnando
mentre racconto ciò
che raccontando si profila.
É come se una nube
arrivasse ad avere
forma di nube.
Raridades
As raridades, pensa o Reboliço, são aves raras. Raras de avistar, raras de ver, raras de caçar com os olhinhos que piscoteiam com a luz da Primavera temporã. Sai de casa, Reboliço: vai para a Ria, vai para o Ludo. Vai caminhar, patinhas nuas no fresco da areia, as orelhas cheias do sandeado ruído dos grãos a entranharem-se nos dedos.
Sábado, 28 de Janeiro de 2012
De volta
(Hip-fotos dos livros, recuperados ao João quase vinte anos depois, com café de cafeteira, risos, loja linda: Reboliço. Viveram recolhidos, os livros, o tempo de uma juventude toda, a minha e a daquele rapaz que uma professora em começo de carreirinha acreditava, no junto dos pés nas juras, que não se fazia. Mentiras imensas de quem nada sabia, nada sabia.)
Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2012
Terça-feira, 24 de Janeiro de 2012
Moinho criativo
José Carlos Torre vive perto dos moinhos da Apúlia e desenha, desenha, desenha. Publica o que faz no tumblr Moinho Criativo. É assim mesmo.
Domingo, 22 de Janeiro de 2012
Decénios
IX
Sfortunati decenni... così vivi
da non poter essere vissuti
se non con un'ansia che li privi
di ogni quieta conoscenza, con l'inutile
dolore di assisterne la perdita
nella troppa prossimità... Muti
decenni, di un secolo ancor verde,
e bruciato dalla rabbia dell'azione
non trascinante ad altro che a disperdere
nel suo fuoco ogni luce di Passione.
Le ultime stanze gremisce la pura
paura espressa in cristalline zone
d'infantile e senile cinismo: scura
e abbagliata l'Europa vi proietta
i suoi interni paesaggi. E matura
qui, se più trasparente vi si specchia,
la luce della tempesta; i carnami
di Buchenwald, la periferia infetta
delle città incendiate, i cupi camions
delle caserme dei fascismi, i bianchi
terrazzi delle coste, nelle mani
di questo zingaro, si fanno infamanti
feste, angelici cori di carogne:
testimonianza che dei doloranti
nostri anni può la vergogna
esprimere il pudore, tramandare
l'angoscia l'allegrezza: che bisogna
essere folli per essere chiari.
(Pier Paolo Pasolini, "Picasso", 1953. Poema publicado inicialmente na revista Botteghe Oscure, em 1953, e feito a propósito de uma mostra de Picasso na Galleria Nazionale d'Arte Moderna, em Roma; republicado na antologia Le Ceneri di Gramsci, de 1959. Há-de seguir-se tradução, o tempo querendo e ajudando o Mano. O título do post deve-se a F. - obrigada!)
Sábado, 21 de Janeiro de 2012
A biblioteca de Mallarmé
O Reboliço astonishes and astounde-se perante o mar de carvão sobre papel, paralelipípedos entre as ondas, um livro de Mallarmé entalado entre duas paredes de tijolo, cores, formas, palavras.
Sábado, 14 de Janeiro de 2012
Peixe lindo!
(Hip-foto dos chocos, enormes chocos machos enormes, listados e trémulos ao toque, trémulos do pouco de vida ainda dentro deles, sobre a banca, de alumínio fria, no mercado de Olhão: Reboliço, antes de almoçar robalos, de almoçar lingueirão, de almoçar salmonetes, de almoçar linguados e carapau.)
>
Fotos
Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2012
Moinho da freira
(Foto do óleo sobre madeira de Leopoldo Battistini, emoldurado na homónima sala-museu da Escola Secundária Marquês de Pombal: Reboliço, a trabalho.)
Terça-feira, 10 de Janeiro de 2012
"Green Acres"
Veste-se o Álvaro Domingues de Oliver e a Dafne ninfa de Lisa Douglas e sai-se da Rua da Estrada para a Vida no Campo. De subscrição aberta, vai-se por aqui - é à confiança.
Domingo, 8 de Janeiro de 2012
Oh...
Belated, este é um "Oh..." de lamento e simultânea surpresa. O Reboliço aprendeu num único dia das imagens, do nome e da morte recente de Vittorio de Seta. Obrigada, mano, obrigada, Dona Angelita!
Água
O Reboliço vê escorrer da torneira um fio de água, ouve-lhe o gorjeio vertical, e pensa. Pensa que há uns anos, quando não ouvia falar em escassez, cada vez que via abrir uma torneira era como se assistisse a uma ocasião ritual: não mais do que aquele fio, o fio bastante para o balde, para a cafeteira, para os dedos de uma mão. Dentro da casa da aldeia não havia canalização: os banhos eram fora, numa casinha do quintal; para o resto que na casa se fazia com água - o comer, o lavar a loiça, o encher a panela de ferro ao lume - tinha que se ir buscar água à torneira do quintal, o extremo de um tubo levantado do chão, rente à parede pouco mais de um metro, com uma pia de pedra cor de barro encarnado no solo e com um buraquinho redondo no meio. Se o que vinha recolher a água fosse balde ou garrafão, era no chão que ficava - o garrafão um desafio de acertar a linha da água na entrada estreita e distante do gargalo; o balde uma piscina onde se criavam rodelas de líquidas rugas, de onde os salpicos, que enfeitiçavam, faziam ouvir de dentro "Olha ao que estás a fazer, não me desperdices a água!" Não era considerado um bem escasso, não pedia campanhas de poupança. Era desde sempre uma preciosidade, uma ocasião, o convívio com um ser que agradecia ter sido, pela brevidade de uns segundos, libertado.
>
Família
Sábado, 7 de Janeiro de 2012
Sexta-feira, 6 de Janeiro de 2012
Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2012
A chave tem o pai.
(Foto do pai a segurar a chave do moinho, ao fim da tarde: Vasco Célio/Stills, para a campanha da Releve. Ao fundo, vê-se um dos moinhos velhos.)
Domingo, 1 de Janeiro de 2012
Não faças pouco (post a pedido)
(Foto da peça completa de Yohji Yamamoto, em exposição no Victoria & Albert Museum em Junho do ano passado: Reboliço, a olhar para lá do vidro.)
Gado de lana caprina
"Versos a uma cabrinha que eu tive"
Com seu focinho húmido
Esta cabrinha colhe
Qualquer sinal de noite
De que a erva se molhe.
Daquela flor pendente
Pra que seu passo apela
Parece que a semente
É o badalinho dela.
Sua pelerina escura
Vela-a da noite sentida;
Tem cada pêlo uma gota,
Com passos, poeira, vida.
De silêncio, silvas, fome,
Compõe nos úberes cheios
Toda a razão do seu nome
E fruto de seus passeios.
Assim já marcha grave
Como os navios entrando,
Pesada dos pensamentos
Da sua vida suave.
E enfim, no puro penedo
De seus casquinhos tocado,
Está como o ovo e a ave:
Grande segredo
Equilibrado.
Com seu focinho húmido
Esta cabrinha colhe
Qualquer sinal de noite
De que a erva se molhe.
Daquela flor pendente
Pra que seu passo apela
Parece que a semente
É o badalinho dela.
Sua pelerina escura
Vela-a da noite sentida;
Tem cada pêlo uma gota,
Com passos, poeira, vida.
De silêncio, silvas, fome,
Compõe nos úberes cheios
Toda a razão do seu nome
E fruto de seus passeios.
Assim já marcha grave
Como os navios entrando,
Pesada dos pensamentos
Da sua vida suave.
E enfim, no puro penedo
De seus casquinhos tocado,
Está como o ovo e a ave:
Grande segredo
Equilibrado.
de João Cabral de Melo Neto. Ao pai da Gracinha. Obrigada, C.)
O Reboliço é um nefelibata (64)
"A uma ovelha"
Entre as meigas ovelhas pobrezinhas
Que eu guardo pelos montes, uma existe
Que anda longe, balindo, sempre triste,
E vive só das ervas mais sequinhas.
Que pressentes na alma? Que adivinhas?
Etérea voz de dor acaso ouviste?
Que foi que tu nas nuvens descobriste?
Não és irmã das outras ovelhinhas!
Sobes às altas fragas inclinadas,
E contemplas o sol que desfalece
E as primeiras estrelas acordadas...
E assim ficas a olhar o céu profundo,
Faminta dessa relva que enverdece
Os outeiros e os vales do Outro Mundo.
Entre as meigas ovelhas pobrezinhas
Que eu guardo pelos montes, uma existe
Que anda longe, balindo, sempre triste,
E vive só das ervas mais sequinhas.
Que pressentes na alma? Que adivinhas?
Etérea voz de dor acaso ouviste?
Que foi que tu nas nuvens descobriste?
Não és irmã das outras ovelhinhas!
Sobes às altas fragas inclinadas,
E contemplas o sol que desfalece
E as primeiras estrelas acordadas...
E assim ficas a olhar o céu profundo,
Faminta dessa relva que enverdece
Os outeiros e os vales do Outro Mundo.
(Teixeira de Pascoaes)
Sábado, 31 de Dezembro de 2011
O Reboliço colecciona calendários (23)
(Hip-foto do veritable calendrier de poche, o primeiro de 2012 a entrar para a colecção: Reboliço, a meditar sobre bons momentos do ano que fica para trás.)
>
Calendários,
Fotos
- Luca!, Petaner!, parem lá um bocado. Mas o que é que vocês andam aqui a fazer à roda, à roda, que não me deixam sossegar?
- Queremos saber notícias da prima, Reboliço. Como é que ela está?
- Está tudo bem, só está ainda assim azamboeirada.
- Está o quê?
- Meio apardalada.
- Pois se ela ainda é Pardalinha...
- Queremos saber notícias da prima, Reboliço. Como é que ela está?
- Está tudo bem, só está ainda assim azamboeirada.
- Está o quê?
- Meio apardalada.
- Pois se ela ainda é Pardalinha...
Quinta-feira, 29 de Dezembro de 2011
PRESÉPIO TRADICIONAL DA NAZARÉ
Porque o amanhã já começou.
Veio com um telefonema,
sem deixar dormir a véspera
ou sonhar uma espera diferente.
Instalou-se de costas para nós,
mais o seu cortejo de sintomas:
pastoras de rigoroso negro
como velas apagadas,
um pouco de sangue no nariz,
mãos afinal iguais, vazias.
Já não sobra tempo, no meu corpo,
para outra vida. Mas se lhe forçassem
uma canção de embalar, seria apenas
o arco exacto entre o cemitério cobiçado
pelas ondas e a beleza desamparada
de um penhasco a desmoronar-se
eternamente sobre o mar. E eu no fundo.
Veio com um telefonema,
sem deixar dormir a véspera
ou sonhar uma espera diferente.
Instalou-se de costas para nós,
mais o seu cortejo de sintomas:
pastoras de rigoroso negro
como velas apagadas,
um pouco de sangue no nariz,
mãos afinal iguais, vazias.
Já não sobra tempo, no meu corpo,
para outra vida. Mas se lhe forçassem
uma canção de embalar, seria apenas
o arco exacto entre o cemitério cobiçado
pelas ondas e a beleza desamparada
de um penhasco a desmoronar-se
eternamente sobre o mar. E eu no fundo.
Inês Dias, 27-28 de Dezembro de 2011
("This is the reason why I affirm that Kurtz was a remarkable man. He had something to say. He said it. Since I had peeped over the edge myself, I understand better the meaning of his stare, that could not see the flame of the candle, but was wide enough to embrace the whole universe, piercing enough to penetrate all the hearts that beat in the darkness." Joseph Conrad, Heart of Darkness, 1899.)
Terça-feira, 27 de Dezembro de 2011
Gems
Am I, Red?
Can she be human?
Thank thee.
What goes on? You got tears in your eyes.
Don't stop, Mikey. Keep crooning.
How are the mighty fallen...
There! Now they're open!
I'm standing here, solidly in my own two hands and going crazy...
I look wonderful - I smell good, too!
Ah, George... Very high morals, very broad shoulders.
Say something, stupid!
Doubtless without a doubt.
I think men are wonderful.
Class, my eye!
My fiancé that was, that is.
Can she be human?
Thank thee.
What goes on? You got tears in your eyes.
Don't stop, Mikey. Keep crooning.
How are the mighty fallen...
There! Now they're open!
I'm standing here, solidly in my own two hands and going crazy...
I look wonderful - I smell good, too!
Ah, George... Very high morals, very broad shoulders.
Say something, stupid!
Doubtless without a doubt.
I think men are wonderful.
Class, my eye!
My fiancé that was, that is.
(Falas soltas, de personagens à solta, de The Philadelphia Story. Em sequência cronológica. Neste filme trabalha um belíssimo grupo de profissionais encabeçado por Jimmy Stewart. Ou por Katherine Hepburn. Ou por Cary Grant. Ou por Virginia Weidler. Trabalhadores, enfim.)
Segunda-feira, 26 de Dezembro de 2011
O Reboliço é um nefelibata (63)
(Foto das nuvens sobre o avô e a avó junto ao monte, mais os girassóis secos: Chantal ou Marie Lemeunier, belgas de Baelen, de passagem pelo Moinho na Primavera de 1989.)
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