(Foto "springstillfar", ou as nuvens a imitar a árvore: Vasco Célio.)
segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010
O Reboliço é um nefelibata (26)
"Vers les cinq heures du soir, tous les enfants sont tristes: ils commencent à comprendre ce qu'est le temps. Le jour décline un peu. Il va falloir rentrer pourtant, être sage, et mentir."
Que é como se Stéphane Audeguy dissesse, a abrir a sua teoria sobre as nuvens: "Pelas cinco da tarde todas as crianças estão tristes: começam a compreender o que é o tempo. O dia tomba um bocadinho. Mas vai ser preciso voltar para casa, ser-se sábio e mentir."
domingo, 7 de Fevereiro de 2010
Quando vão ao monte, as mulheres da vila trazem cestos de ovos, laranjas em cima.
(Foto em picado sobre duas laranjas verde-Espanha, uma Baía e três tangerinas da aldeia na fruteira de bétula de Kuopio e uma galinha de louça das Caldas; com a miséria de máquina em modo manual e sem correcção posterior do foco: Reboliço.)
>
Fotos
sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010
Pata, pata
O Reboliço acorda, espreguiça-se ainda de olhos fechados, pata direita esticada atrás, pata esquerda esticada à frente, sacode o pêlo, faz soar a esquila e ergue o focinho a cheirar o ar que o sol alargou. Vai desperto a trautear uma moda mexida que lhe faz lembrar o Petaner.
terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010
segunda-feira, 1 de Fevereiro de 2010
Um lindo moinho de eixo
No blogue Dias com Árvores, as sementes de vento deixaram nuvens arrastadas e um belo moinho.
domingo, 31 de Janeiro de 2010
O Reboliço é um nefelibata (25)
(Foto das nuvens do Poço Novo na tarde de domingo: Vasco Célio.)
>
Cunhadão,
Fotos,
Nefelibata
O Reboliço é um nefelibata (24)
*
WHEN I have fears that I may cease to beBefore my pen has glean'd my teeming brain,
Before high piled books, in charact'ry,
Hold like rich garners the full-ripen'd grain;
When I behold, upon the night's starr'd face,
Huge cloudy symbols of a high romance,
And feel that I may never live to trace
Their shadows, with the magic hand of chance;
And when I feel, fair creature of an hour!
That I shall never look upon thee more,
Never have relish in the faery power
Of unreflecting love;—then on the shore
Of the wide world I stand alone, and think,
Till Love and Fame to nothingness do sink.
(John Keats, 1795-1821.
Jane Campion resolveu pôr em filme o que Andrew Motion tinha escrito na biografia do poeta.)
Jane Campion resolveu pôr em filme o que Andrew Motion tinha escrito na biografia do poeta.)
sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010
(Post dedicado ao Paulo)
O Reboliço passa na estrada e olha para um lado e para o outro, a ver onde estão as amendoeiras mais carregadas, quais as que ganharam mais flor de ontem para hoje, se são mais as brancas ou as cor-de-rosa, um festim nas tardes de Janeiro. Lembra-se de sair, com a turma, nos dias assim frios, e de irem desenhar as flores das amendoeiras. Lembra-se da voz da Dona Antónia a explicar porque tinham de as desenhar à vista, onde elas estavam, para não arrancarem os ramos das árvores, que cada flor daria uma fruta. Lembra-se que tudo isto lhe lembra sempre que vê as flores nos ramos das amendoeiras. No seu pensamento passam os nomes das terras onde ainda se consegue ver mais do que só uma ou outra árvore desgarrada: "Goldra. Quartos. Poço Novo. Alfarrobeira. Campina. Goncinha."
quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010
House of Bamboo
Uma das coisas de que mais gosto em House of Bamboo é a quantidade de imagens tomadas com a câmara desde cima, a olhar verticalmente para o chão. A casa de bambu do título passa a ser Tóquio inteira - as casas na água, as pontes de bambu, os teatros e os mercados, as ruas pequeninas vistas desde a roda gigante de um parque de diversões. Isso, o modo como Mariko (Shirley Yamaguchi), mesmo aflita e a fugir de um suposto inimigo, descalça as sandálias de madeira e as deixa do lado de fora antes de correr a porta de papel da casa do tio; e uma imagem lindíssima, poucos minutos depois do início do filme, dos pés de um homem morto sobre a neve com o Monte Fuji ao fundo.
(No final do filme aprendi uma palavra nova: "unstinting". "Twentieth Century Fox acknowledges the contributions of ... the Tokyo Metropolitan Police Department, whose cooperation was unstinting throughout the production of the film.")
(No final do filme aprendi uma palavra nova: "unstinting". "Twentieth Century Fox acknowledges the contributions of ... the Tokyo Metropolitan Police Department, whose cooperation was unstinting throughout the production of the film.")
quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010
"to seek an answer"
Ah these sunsets and sunrisings, dawns and dusks that pull so much from our eyes, from our foreheads and arms growing soft and furrowed beneath age. And tell me for what reason the animal body passes through these tall grasses, along the ledges and windows of day and night, why these leaning red flowers still opening and closing with the wind and the night, why these silver images flickering from far windows down through the alleyways, why this sense of solitude in rooms filled with people, why the sense of loneliness as arms stretch away from the body of a lover, why these quiet moments of desperation along the coast, the standing platform on the wall of the sea, the shift of sands and winds, the continual rippling of waters, the indigo that claims it all - water wind sea skies and the deepest corridors of the heart -
David Wojnarowicz, In the Shadow of the American Dream:
The Diaries of David Wojnarowicz, Ed. and with an Introduction by
Amy Shoulder, New York, Grove Press, p. 106.
terça-feira, 26 de Janeiro de 2010
Uma voz como outra qualquer
"Lemos melhor do que líamos e escrevíamos há quatrocentos anos?" O Reboliço ouve Virginia Woolf fazer a pergunta e pensa em como gostaria de a ouvir ler não mais do que este pedacinho que escreveu:
- Also the sea tosses itself and breaks itself, and should any sleeper fancying that he might find on the beach an answer to his doubts, a sharer of his solitude, throw off his bedclothes and go down by himself to walk on the sand, no image with semblance of serving and divine promptitude comes readily to hand bringing the night to order and making the world reflect the compass of the soul. The hand dwindles in his hand; the voice bellows in his ear. Almost it would appear that it is useless in such confusion to ask the night those questions as to what, and why, and wherefore, which tempt the sleeper from his bed to seek an answer.
Virginia Woolf. To the Lighthouse,
ed. by Sandra Kemp. London/New York, Routledge, 1996 [1994], pp. 130.
(Obrigada, ssv.)
ed. by Sandra Kemp. London/New York, Routledge, 1996 [1994], pp. 130.
(Obrigada, ssv.)
domingo, 24 de Janeiro de 2010
Botãozinho de Sechuan
(Foto da acmella oleracea, também conhecida como Szchechuan button, sansho button, ou jambu: Vasco Célio. O Reboliço ainda sente todas as papilas tremidas pelo sabor da planta de ar inofensivo e não se surpreende quando descobre que é usada em produtos de beleza com o mesmo efeito tensor do botox.)
>
Comidinha,
Cunhadão,
Fotos,
Onde andei
sexta-feira, 22 de Janeiro de 2010
Polvo e peixe-diabo (ou peixe-porco)
(Fotos dos polvos que ainda mexiam e dos peixes-diabo [a que os pescadores chamam assim porque dificilmente se deixam apanhar]: Reboliço de manhãzinha na venda de peixe dos pescadores em Quarteira. Depois de se mandar para a lota a grande parte do que foi pescado, os pescadores mais pequenos vão vender as (excelentes) sobras atrás do mercado, onde as dispõem sobre os aventais ou sacos de plástico e apreçam a venda conforme o ollhar - do peixe e do freguês. A nesga de sol sobre os polvos não é estreita por haver nuvens a cobri-lo, que o dia estava aberto, alegre. É da muita gente que havia a escolher, a vender, a regatear e a comprar.)
>
Comidinha,
Fotos,
Onde andei
terça-feira, 19 de Janeiro de 2010
(Post dedicado à Dona Renata)
(Foto: Vasco Célio; criação de linguado, trufa laminada, bacon, pipoca de torresmo e tupinambo disfarçado de trufa: Jonnie Boer. O seu restaurante, De Librije, em Zwolle, na Holanda, fica na antiga biblioteca de um convento.)
- És uma insensível, Luca. O chef Boer é um artista e o que ele aqui faz é o que se chama um trompe l'oeil.
- Lá vem ele, pronto! De há uns dias para cá parece que está sempre a espirrar: Escoffier para aqui, trompe l'oeil para ali, Gillardeau para acolá. Até o Sorna já se queixou.
Folha-ostra e girassol-batateiro
O Reboliço ia nas suas patas pequenas a caminhar depressa para a beira da Luca, ansioso por lhe contar a novidade.
- Sabes? Hoje provei duas coisas que nunca, mas nunca, me tinham tocado nas tabelas.
- Deixa-me adivinhar! Patê de fígado de coelho em latinha gourmet para gatos - já comi, é de lamber os beiços até à ponta dos bigodes.
- Não sejas parva, Luca. São duas ricas e estranhas comidas. Uma é a erva-ostra: se me tivessem só contado, não acreditaria. É uma planta que nasce perto das praias da Escócia e da Terra Nova, e sabe a ostras como se lhe tivessem injectado uma essência marinha recolhida no mar da Galiza, ou por ali. Um sabor intensíssimo.
- Nunca tinha ouvido falar disso. E a outra iguaria?
- Da outra pensava eu que era alho negro (assim como alguns dos cozinheiros pensavam, imagina). Até já tinha lido umas linhas sobre isso e achado curioso.
- E que diabo seria? Alho torriscado?
- Não, mas parecido. O alho negro é um alho normal, mas como se fosse fermentado ou apodrecido de propósito. Mas, afinal, não era senão um tubérculo disfarçado de trufa. Girassol-batateiro, tupinambo.
- Muito bem. Pois eu cá, Reboliço, hoje também comi do melhor: ração seca roubada aos caqueiros do Sorna e do Petaner. Imbatível. E as flores das amendoeiras? Já viste como estão a rebentar?
- Sabes? Hoje provei duas coisas que nunca, mas nunca, me tinham tocado nas tabelas.
- Deixa-me adivinhar! Patê de fígado de coelho em latinha gourmet para gatos - já comi, é de lamber os beiços até à ponta dos bigodes.
- Não sejas parva, Luca. São duas ricas e estranhas comidas. Uma é a erva-ostra: se me tivessem só contado, não acreditaria. É uma planta que nasce perto das praias da Escócia e da Terra Nova, e sabe a ostras como se lhe tivessem injectado uma essência marinha recolhida no mar da Galiza, ou por ali. Um sabor intensíssimo.
- Nunca tinha ouvido falar disso. E a outra iguaria?
- Da outra pensava eu que era alho negro (assim como alguns dos cozinheiros pensavam, imagina). Até já tinha lido umas linhas sobre isso e achado curioso.
- E que diabo seria? Alho torriscado?
- Não, mas parecido. O alho negro é um alho normal, mas como se fosse fermentado ou apodrecido de propósito. Mas, afinal, não era senão um tubérculo disfarçado de trufa. Girassol-batateiro, tupinambo.
- Muito bem. Pois eu cá, Reboliço, hoje também comi do melhor: ração seca roubada aos caqueiros do Sorna e do Petaner. Imbatível. E as flores das amendoeiras? Já viste como estão a rebentar?
domingo, 17 de Janeiro de 2010
Diversão
O Reboliço pensa que da próxima vez que lhe disserem para se divertir há-de querer saber qual dos sentidos do verbo está na ideia de quem lhe fala.
sexta-feira, 15 de Janeiro de 2010
Diary scenes
O Reboliço está por sua conta para ilustrar as Cartas: o Cunhadão criou o seu próprio blogue. Um a sério, diário e tudo. Para ver imagens como esta ou esta; ou esta, no habitat criado pelo seu artífice.
Adenda: Mais fotos suas no Mesa Marcada, a acompanhar o Festival Gourmet no Vila Joya até 24/01.
quarta-feira, 13 de Janeiro de 2010
O herói protege - dos dois lados.
(Robert Wilhelm Ekman, Väinämöisen Soitto [O Tocar de Väinämöinen], 1853-1869.
Parece que esta imagem será uma réplica dessa de baixo, que terá ardido num incêndio em Abril de 1978. Em nenhum lugar na Internet encontrou o Reboliço referência às medidas, nem do original nem da suposta réplica - mas, se este é de facto um substituto daquele, esta fotografia de 2009 sugere não só a dimensão da obra, como que as reproduções que circulam do original online [e na capa da edição italiana de Kalevala] o mostram muito diferente do que pareceria. O Reboliço pende mais para a ideia esborratada e vaga da imagem de baixo do que para esta limpidez com cisne branco; mas do que gostava mesmo era de ver os dois quadros um ao lado do outro, nas paredes do Ateneum ou do Kiasma.)
terça-feira, 12 de Janeiro de 2010
Protege, herói, o intento.
(Robert Wilhelm Ekman, Väinämöisen Soitto [O Tocar de Väinämöinen], 1866.)
segunda-feira, 11 de Janeiro de 2010
Oh...
Um dos filmes que mais me maravilharam nos últimos anos foi Les Amours d'Astrée et de Céladon. Lembro-me de estar constantemente a fazer o esforço de me convencer que as imagens que via vinham da vontade de um homem que já passara os oitenta anos de vida e tinha uma obra toda, inteira, para trás. É que parecia um filme de início de carreira, em tudo o que tinha de novidade de proposta, da frescura de uma descoberta, da surpresa, do encantamento que me habituo, estupidamente, a esperar de quem tem muito tempo à sua frente e começa agora a ver o mundo. Na minha cabeça, Rohmer é também o mais hábil observador de Shakespeare no cinema. E o realizador de La Boulanger de Monceau.
>
Eric Rohmer,
Óbito
- Reboliço, mas o que é que se passa?
- Luca, a verdade não sei.
- É que andas a ladrar de uma maneira tão esquisita...
- É só assim que me sai,
Dias levo a versejar,
Versos às vezes sem rima,
Versos também a rimar.
- Não será uma doença? Cá para mim, é uma infecção qualquer. Já pensaste em telefonar para o gabinete do Dr House? Diz que trata casos assim estranhos. É capaz de descobrir que é do chá que bebes, ou da vizinha que morou há dois anos naquele monte.
- Pois coisas vi de encantar,
Luca, e dizer não consigo:
Se é doença de matar,
se é só um vírus amigo.
- Credo, Reboliço, parece coisa do Diabo, cruzes! Vai-te embora, que ainda por cima é má poesia! Shusssh! Fecha a matraca.
- O matraquear já calo,
Para longe vou versejar.
- Vai-te embora, sim. Eu cá vou com o Petaner correr atrás das motas. Esse, ao menos, nem ladrar sabe, faz só assim um arfar fundo – aquilo deve ser da sua condição cardíaca.
- Luca, a verdade não sei.
- É que andas a ladrar de uma maneira tão esquisita...
- É só assim que me sai,
Dias levo a versejar,
Versos às vezes sem rima,
Versos também a rimar.
- Não será uma doença? Cá para mim, é uma infecção qualquer. Já pensaste em telefonar para o gabinete do Dr House? Diz que trata casos assim estranhos. É capaz de descobrir que é do chá que bebes, ou da vizinha que morou há dois anos naquele monte.
- Pois coisas vi de encantar,
Luca, e dizer não consigo:
Se é doença de matar,
se é só um vírus amigo.
- Credo, Reboliço, parece coisa do Diabo, cruzes! Vai-te embora, que ainda por cima é má poesia! Shusssh! Fecha a matraca.
- O matraquear já calo,
Para longe vou versejar.
- Vai-te embora, sim. Eu cá vou com o Petaner correr atrás das motas. Esse, ao menos, nem ladrar sabe, faz só assim um arfar fundo – aquilo deve ser da sua condição cardíaca.
domingo, 10 de Janeiro de 2010
O Reboliço colecciona calendários (13)
E gostaria muito, mas mesmo muito, de ter este na sua colecção.
quinta-feira, 7 de Janeiro de 2010
O Reboliço é um nefelibata (23)
(Foto do caderninho de nuvens, oferta que a Dona Angelita trouxe do Castello Sforzesco, "para que o novo ano seja leve e fugaz como o céu": Reboliço, com o Photo Booth.)
>
Fotos,
Nefelibata
quarta-feira, 6 de Janeiro de 2010
segunda-feira, 4 de Janeiro de 2010
O Reboliço é um nefelibata (22)
(Foto "Diary Scenes: Day 0401": Vasco Célio, que viu hoje o espaço entre as nuvens como se a Lhasa fosse por ali a subir e a cantar "Mirenme, a la vida vuelvo ya.")
Oh...
O Reboliço pensa que é difícil aceitar que nos dias de hoje, num país dito avançado, alguém morra de cancro da mama aos 37 anos. Mas a verdade é que se morre seja do que for, onde quer que seja e desde que se esteja vivo.
- Nunca tinhas visto o Call Girl, Reboliço?
- Não, Luca, a verdade é que não.
- És um tonto. E gostaste?
- Sim, gostei. Do que gostei mais foi de ver a casa da Dona Miquelina. Isso e a Avenida Alonso Gomes, toda alinhadinha, com as Bicas de Água e as árvores de laranja azeda.
- Mas essa avenida é na Cabeça Gorda; diz que as filmagens foram em Ferreira do Alentejo...
- Mas essa avenida é na Cabeça Gorda; diz que as filmagens foram em Ferreira do Alentejo...
- Algumas, sim. Mas a placa de "Vilanova" é na entrada da aldeia, da avenida. Sempre achei fotogénica aquela entrada.
- E da história, gostaste?
- E da história, gostaste?
- Não é má, está bem contada. Não entendo é como uma mulher pode atrair mais olhares do que as pedras daquele chão, as paredes velhas, o quintal com o poço e as chaminés da casa.
domingo, 3 de Janeiro de 2010
Música para os ouvidos do Matias (5)
Há lengalengas que o Reboliço sabe de cor. Estes versos de José Fanha, sem música de instrumentos, têm bom ritmo de dizer e de lembrar. O Reboliço recomenda-os ao Matias: "A tua mãe que tos cante, que também os sabe."
"Romance ingénuo de duas linhas paralelas"
Duas linhas paralelas
muito paralelamente
iam passando entre estrelas
fazendo o que estava escrito:
caminhando eternamente
de infinito a infinito.
muito paralelamente
iam passando entre estrelas
fazendo o que estava escrito:
caminhando eternamente
de infinito a infinito.
Seguiam-se passo a passo
exactas e sempre a par
pois só num ponto do espaço
que ninguém sabe onde é
se podiam encontrar,
falar e tomar café.
exactas e sempre a par
pois só num ponto do espaço
que ninguém sabe onde é
se podiam encontrar,
falar e tomar café.
Mas farta de andar sozinha
uma delas, certo dia,
virou-se para a outra linha
sorriu-lhe e disse-lhe assim:
«Deixa lá a geometria
e anda aqui para o pé de mim...»
uma delas, certo dia,
virou-se para a outra linha
sorriu-lhe e disse-lhe assim:
«Deixa lá a geometria
e anda aqui para o pé de mim...»
Diz a outra: « Nem pensar!
Mas que falta de respeito!
se quisermos lá chegar
Mas que falta de respeito!
se quisermos lá chegar
temos de ir devagarinho
andando sempre a direito
cada qual no seu caminho!»
andando sempre a direito
cada qual no seu caminho!»
Não se dando por achada,
fica na sua a primeira
e sorrindo, amalandrada
pela calada, sem um grito
deita a mãozinha matreira:
puxa para si o infinito.
fica na sua a primeira
e sorrindo, amalandrada
pela calada, sem um grito
deita a mãozinha matreira:
puxa para si o infinito.
E com ele ali à frente,
as duas a murmurar,
olharam-se docemente
e sem fazerem perguntas
puseram-se a namorar:
seguiram as duas juntas.
as duas a murmurar,
olharam-se docemente
e sem fazerem perguntas
puseram-se a namorar:
seguiram as duas juntas.
Assim nestas poucas linhas
fica uma estória banal
com linhas e entrelinhas
fica uma estória banal
com linhas e entrelinhas
e uma moral convergente:
o infinito, afinal,
fica aqui ao pé da gente.
o infinito, afinal,
fica aqui ao pé da gente.
sábado, 2 de Janeiro de 2010
sexta-feira, 1 de Janeiro de 2010
quinta-feira, 31 de Dezembro de 2009
Prenda de Ano Velho
(Foto do granizo sobre o carro na estrada entre Oleiros e Urraca, há uns minutos: Cunhadão, com a máquina do telefone.)
O Reboliço olha para trás. Fica parado, a olhar, e cheira o ar ainda húmido. Mas, do mesmo lado de onde caiu a chuva e assobiou o vento dos últimos dias, ataca agora o sol de frente, bruto. O Reboliço pisca os olhos muitas vezes, vira o focinho outra vez e olha para a estrada. Cheira o chão, esgravata a terra com as patas traseiras e põe-se a andar.
quarta-feira, 30 de Dezembro de 2009
Matou a Família e Foi Ao Cinema
Uma das coisas de que mais gosto em Matou a Família e Foi Ao Cinema é a banda sonora. Não há como superar o desfile de Noel Rosa em "Vejo Amanhecer" e "Rasguei a Minha Fantasia", e Carmen Miranda em "Minha Terra Tem Palmeiras". Mas o filme é tão maldito que só encontro ligação online para outra cantiga, o menos interessante dos temas da banda sonora (ainda que igualmente sarcástico o seu uso no filme, e cínico até, com o final do disco riscado e repetido com crueza o "em te perder"). Nem Noel, nem Carmen, nenhuma das magníficas cantigas e vozes. Se alguém os quiser ouvir, misturados com muito jazz do bom, vai ter mesmo de fechar os olhos enquanto no YouTube passam as imagens enlouquecidas das histórias que Júlio Bressane se lembrou de inventar em 1969.
"Mais vale vela do que parcela."
(Foto do pai a recolher a última das velas ao fim do dia, em Dezembro do ano passado - muito diferente do céu deste fim de ano, plúmbeo e prenhe: Reboliço. Dito do Mano, que é um moço muito espirituoso.)
terça-feira, 29 de Dezembro de 2009
Moinhos
O Carlos Duarte mostra uns lindos moinhos (ou os esqueletos deles...) no seu Alto. Vai-se por aqui.
Vale a palavra - Carta ao Mano
Em 1790, tinha vinte anos, William Wordsworth fez o primeiro longo passeio a pé. Com o seu amigo Robert Jones caminhou pela França e pela Suíça. Foi dos Alpes - "da parte Sueste do cantão de Berna, não muito longe dos lagos de Thun e Brientz" - que, em 14 de Setembro desse ano, escreveu à irmã, Dorothy Wordsworth:
"I have had during the course of this delightful tour a great deal of uneasiness from an apprehension of your anxiety on my account. I have thought of you perpetually and never have my eyes burst upon a scene of particular loveliness but I have almost instantly wished that you could for a moment be transported to the place where I stood to enjoy it. I have been more particularly induced to form those wishes because the scenes of Swisserland have no resemblance to any I have found in England, and consequently it may probably never be in your power to form any idea of them. We are now as I observed above upon the point of quitting the most sublime and beautiful parts and you cannot imagine the melancholy regret which I feel at the Idea. I am a perfect Enthusiast in my admiration of Nature in all her various forms; and I have looked upon and as it were conversed with the objects which this country has presented to my view so long, and with such encreasing pleasure, that the idea of parting from them oppresses me with a sadness similar to that I have have always felt in quitting a beloved friend."
Daí em diante continuou a escrever: mais cartas, sonetos, outros poemas, o Prelúdio, de tudo. Uns oito anos depois deste passeio saiu a colecção de poemas que haveria de ser considerada o marco do Romantismo na Inglaterra, Lyrical Ballads, escrita com Samuel Taylor Coleridge. Então, sabias ou não sabias, mano?
segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009
Cortar, montar, colar
O Reboliço encontrou moinhos de papel. Para fazer. Na Agence Eureka, a mesma montra onde se expõem as ilustrações de Laure Devolvé para uma lindíssima edição belga de um dos contos que Alphonse Daudet incluiu nas suas Lettres de Mon Moulin, "La Chèvre de M. Seguin". (Tem havido muitos ilustradores para o livro de Daudet. A edição da Verbo Infantil, traduzida por Ricardo Alberty e publicada em 1978, vem decorada com desenhos de Georges Beuville; a da Europa-América, versão de Fernanda Pinto Rodrigues, de 1971, traz na capa um desenho com a assinatura "Xando/71".)
domingo, 27 de Dezembro de 2009
São Paulo, S.A.
Uma das coisas de que mais gosto em São Paulo, S.A. é o reflexo de quem filma no vidro da janela da varanda de uma sala onde Luciana e Carlos discutem, logo no começo do filme. É o olhar do que está de fora e observa o quadro mudo; a cidade agigantada a espreitar por uns segundos a little life daqueles, como dali a uns minutos espreitará outros e assim seguirá a deleitar-se na contemplação do que engoliu. Isso, saber que a fuga de Carlos tem o retorno boomeranguiano à São Paulo que o consome e que o apelido do realizador desta maravilha é Person. Persona.
Subscrever:
Mensagens (Atom)






