quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

"Um trilho no bosque"

Tu não dás por mim.
Ando em ti como um trilho no bosque,
contemplo o esplendor das tuas costas rochosas,
a união inseparável entre o escuro e a luz.

Nas nascentes pantanosas, cor de ferrugem
falas das tuas entranhas sem nada esconder,
espalhas o perfume embriagante do rosmaninho.

Nas florestas de pinheiros dourados
voam em bandos as aves ligeiras,
tilintam sem levarem sinos.

Os texugos e as raposas abrigam-se nas tocas
sob as pedras, contam
calmamente os passos dos caminhantes.

Nos teus vales, como nas dobras dos teus membros,
crescem fetos, crescem as manchas de abetos,
ali habita o pensamento sobre a morte,
a pegada do alce não se esvai do musgo.

Avanço sobre o paul, sobre as gastas rochas lisas.
Porque sou de todas as formas e idades,
calcado e calcorreado por antepassados e descendentes.

Amo-te para sempre, porque o trilho
não se perde do bosque sem se
destruir, ainda que permaneça o bosque.

Quase não precisas de mim. Uma árvore quase
não precisa do canto dos pássaros nos seus ramos, mas
louvo-te como uma melodia obstinada.

Em ti louvo a existência.
Transformaste a substância tempestuosa do universo
no sorriso permanente de uma tarde intemporal,
no palco solene da beleza humana,
como se fosses um bosque onde
me perderei.

(Pentti Holappa, Vuokralla täällä [Eis um locatário], 1983; tradução de Merja de Mattos-Parreira e Ana Soares, Fundação Casa de Mateus, Junho de 2001. A propósito do Estado do Bosque, outras palavras lindas, de um estranho crente neo-beckettiano.)