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segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Moinhos na poesia (39)

Era como uma téla marinha, encaixilhada em cantarias brancas, suspensa do céu azul em face do terraço, mostrando, nas variedades infinitas de côr e luz, os episodios fugitivos d'uma pacata vida de rio: ás vezes uma véla de barco da Trafaria fugindo airosamente á bolina; outras vezes uma galera toda em panno, entrando n'um favor da aragem, vagarosa, no vermelho da tarde; ou então a melancolia d'um grande paquete, descendo, fechado e preparado para a vaga, entrevisto um momento, desapparecendo logo, como já devorado pelo mar incerto; ou ainda durante dias, no pó d'ouro das sestas silenciosas, o vulto negro de um couraçado inglez... E sempre ao fundo o pedaço de monte verde-negro, com um moinho parado no alto, e duas casas brancas ao rez d'agoa, cheias de expressão—ora faiscantes e despedindo raios das vidraças accezas em braza; ora tomando aos fins de tarde um ar pensativo, cobertas dos rosados tenros de poente, quasi similhantes a um rubor humano; e d'uma tristeza arripiada nos dias de chuva, tão sós, tão brancas, como nuas, sob o tempo agreste.
(Os Maias: Episódios da Vida Romântica, capítulo I;
Porto, Livraria Internacional de Ernesto Chardron, 1888. Versão web.)

segunda-feira, 7 de abril de 2008

O milho pesado

Encontro em A Cidade e as Serras parte de uma frase que me soa a uma cena estática do filme Jaime: "muitas vezes (...) avaliara o grão espalhado pelas salas sonoras." No filme de António Reis não há qualquer som a acompanhar a cena. É uma sala escura numa casa pobre, ao contrário do "robusto casarão de granito" que Zé Fernandes visitara. No meio da sala, iluminado com foco directo e só, uma mancha de grãos de milho, a cor amarelo-torrada num contraste liso com o castanho do soalho. No meio da mancha, um guarda-chuva preto aberto. Não é mais do que isso: um graneiro sem ninguém, a que fugiu quem ali se podia abrigar da chuva; um guarda-chuva esquecido a deixar o azar aberto num graneiro escuro e silencioso. Isto é: como a mesma coisa, uma sala de grão, pode ser mostrada com tons tão diferentes. O exaltado ribombar da paródia serrana de Zé Fernandes, turista blasé numa Paris entediante, e a dolorosa ausência de Jaime Fernandes, homem das Beiras exilado numa casa de saúde mental de Lisboa durante os últimos trinta e um anos da sua vida.