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quinta-feira, 22 de junho de 2017

(Um espaço interior)

21

Um espaço interior
criei
nestes poemas

onde estalam os móveis
e os sentidos

onde as ideias
a meia-luz
respiram

e a vida
as imagens
não se reflectem

nos vidros

(António Reis, Poema Quotidianos, Lisboa, Portugália - Colecção Poetas Hoje, com prefácio de Eduardo Prado Coelho, p. 23. Quando se anuncia para daqui a três semanas a reedição, na Tinta-da-China. deste precioso livro de poemas.)

terça-feira, 28 de abril de 2015

Reis sobre Oliveira

Quando, em 1963, se mostrou pela primeira vez Acto da Primavera, viu-se o filme que Manoel de Oliveira foi construindo, a partir do maravilhamento que o contaminou a encenação de uma Paixão de Cristo na aldeia de Curalha (Trás-os-Montes) - no que foi assistido, entre outros, por António Reis, por sua vez maravilhado aprendiz e visionário.

terça-feira, 3 de junho de 2014

O lugar

"a árvore é mais do que um produtor de sombra, é uma memória que virá sempre associada àquela arquitectura, àquele lugar"

(António Belém Lima sobre o que o cinema pode ensinar à arquitectura, a propósito de Trás-os-Montes. No mais recente fascículo da colecção "O Lugar dos Ricos e dos Pobres na Arquitectura e no Cinema em Portugal". Da Dafne.)

domingo, 29 de novembro de 2009

Amanhã


(Foto da página inicial da entrevista de Alexandra Lucas Coelho a 
Margarida Martins Cordeiro e da foto de Nelson Garrido que mostra que ela 
é amiga: Reboliço. A versão digital das duas pode ser vista aqui. Obrigada, A.)

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Primeiro, isto.

Agora, isto.
(António Reis está em alta - mas, como lembra Alexandra Lucas Coelho, continua a não haver edição em DVD de Trás-os-Montes, um dos filmes mais fugidios da história do cinema português. Nem de Jaime. Nem de Ana. Nem de Rosa de Areia.)

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

António Reis > Pedro Costa

Ora vejam se a isto não se poderá chamar um passo em frente:


(Foto do anúncio no caderno "ípsilon" do Público de hoje: Reboliço. 
À atenção do Paulo, e do Daniel, e da Carolin, e da Anabela, 
e da Graça, e da Cris, e do Rafa, e  da Marina, e da Alda, 
e do Jean Pierre, e do Telmo, e do Manuel, e da Ana, 
e do Wiliam, e da Fernanda, e do Mauro, e do Tiago, e da Patrícia. 
Ena, já somos uns quantos! A imagem amplia, para se ler melhor.)

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Trás-os-Montes (restaurado)

.....Vi ontem a cópia que a Cinemateca restaurou do filme Trás-os-Montes (António Reis e Margarida Cordeiro). O som tem algumas melhorias, apenas. A imagem tem a cor bem tratada, sim senhor. Mas o que sempre me intriga - e ontem, de novo, me pareceu que havia cenas que antes não vira -, é que de cada vez que o vejo há nele momentos que é mesmo como se os visse pela primeira vez. Não sei se é só da minha má memória (mas agrava-se isto quando reparo que a cópia exibida ontem tem 100 minutos, ao passo que na ficha do filme a duração é de 110 minutos - gralha?).
.....André Bazin escreve a certa altura (num texto curto sobre L'Espoir, o filme de Malraux), acerca da diferença entre livros e filmes: "Une phrase absconse se relit, une séquence trop elliptique est définitivement perdue." Se pensar que não vejo Trás-os-Montes em casa, com o comando do leitor de video na mão, faz todo o sentido. O ensaio de Bazin mostra como o cinema, ao contrário do que se pensa, é uma arte não elíptica, que "não aguenta a descontinuidade. Apesar da sua estrutura retalhada em 'planos', o discurso cinematográfico tende cada vez mais a evitar a ruptura." Penso na minha experiência com este e os outros filmes de António Reis e concluo que Bazin está certo: é quem vê que instaura nos filmes as cisões, as elipses, os rasgões no tecido. Nada disso está lá.
(Recordo que o mesmo aconteceu ao ver um filme como A Arca Russa, de A. Sokurov, coisa filmada num plano único, sem cortes nenhuns de montagem.)

domingo, 13 de abril de 2008

(Foto: Reboliço no regresso e no rescaldo de Turismo Infinito. Ansioso por rever outras nuvens, num céu de tela.)

segunda-feira, 7 de abril de 2008

O milho pesado

Encontro em A Cidade e as Serras parte de uma frase que me soa a uma cena estática do filme Jaime: "muitas vezes (...) avaliara o grão espalhado pelas salas sonoras." No filme de António Reis não há qualquer som a acompanhar a cena. É uma sala escura numa casa pobre, ao contrário do "robusto casarão de granito" que Zé Fernandes visitara. No meio da sala, iluminado com foco directo e só, uma mancha de grãos de milho, a cor amarelo-torrada num contraste liso com o castanho do soalho. No meio da mancha, um guarda-chuva preto aberto. Não é mais do que isso: um graneiro sem ninguém, a que fugiu quem ali se podia abrigar da chuva; um guarda-chuva esquecido a deixar o azar aberto num graneiro escuro e silencioso. Isto é: como a mesma coisa, uma sala de grão, pode ser mostrada com tons tão diferentes. O exaltado ribombar da paródia serrana de Zé Fernandes, turista blasé numa Paris entediante, e a dolorosa ausência de Jaime Fernandes, homem das Beiras exilado numa casa de saúde mental de Lisboa durante os últimos trinta e um anos da sua vida.

domingo, 2 de março de 2008

"E a palavra arca é muito bonita."
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(António Reis em entrevista a João César Monteiro sobre Jaime.
Publicada na Celulóide nº 29, de 20 de Abril de 1974, e republicada aqui.)

quarta-feira, 11 de janeiro de 2006

Moinhos na poesia (3)

Vejo, outra vez, as fotografias que tirei em Trás‑os‑Montes. Quase
todas mentem. Nenhuma dor intolerável delas ficou. Nenhuma esperança.
Qualquer raiz.

Trás‑os‑Montes seria para Paul Strand ou Van Gogh, que chegavam
a terras de fogo sem pressa, e só partiam exangues, com os sentidos
destruídos. Seria para Miguel Torga, que foi criado por uma águia e nunca
esqueceu o gosto de uma cebola com sal.

... porque contemplei fragas e a amplidão deixei.
Vi queimar florestas e as razões oculto.
Ouvi cantar as aves e o cristal perdi.

Fermentava o feno.
Voltavam os ramos e os engaços.
O linho era erva, a amêndoa silêncio.

Como quem parte de uma sombra para um poema, e de uma folha
guardada para a memória, parto de imagens fluídas para uma província perdida.

Nove meses de inverno. Três de inferno.
E a primavera?

Bato a porta [sic] abertas. Ninguém responde.
Há colmo caído no chão de sobrado. Azeite vertido, manhuços
intactos.
Corro à fronteira seca e grito. Clamo. Nomes com geada.
Ninguém responde...

E os arados? Os arados deixados às portas das vossas casas, gravados à navalha nas portas das vossas casas?

Se me queres algo
Sal-me al camino.


Ao caminho? Só vejo penedia de chumbo, tresmalhada, estalada,
oh mirandeses !

Corvos. Corvos e águias. Águias e lobos.
E longe, o som de lã de um tamboril... pastora muda chamando o
seu rebanho.

Quedos, quedos, cavaleiros!
El‑rei vos manda contar...


Somos vultos e estamos longe num cavalo tremedal.

Anda daí, se queres benir,
‘garra la capa e bamos.
El camino ié de todos,
la capa ié de nós ambos
.

Mas a terra... quem vai fabricar a terra?
E ainda esta manhã ouvi, em Cércio, a Alvorada!

Tu não ouviste, em Cércio, a Alvorada...
ou cantigas de abaular ; a cantilena da pedra.
Ouviste falar de erva no trigo,
a trovoada
e as pedras dos moínhos a cairem na água.

Deixais só, D. Filomena, com um pente de oiro na mão !

Sonhas...

a D. Filomena é uma nuvem, um polvorinho de folhas.
Quem vês com pentes de oiro na mão? As mulheres vestidas de
negro ? as suas mãos pousadas no regaço têm cartas vindas de França.

Azedões em muralhas. Estevas cobrindo os castros.
Cerâmicas neolíticas na escuridão das grutas.

Em vão os juncos esperam ser cestos. Em vão as ribeiras esperam
as moiras.
Nos olmos cavados não há tentações.

Talvez nos pombais haja amor ainda,
a cal seja um ovo
e o ovo uma ave...

........................
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........................

É xisto de casas que apanho do chão. É uma tábua que prego e
uma candeia que acendo. É uma talha que lavo, uma azeitona que corto.
Um vento que estendo.

É um baldio que escavo. Uma gadanha que afio. Uma encosta
que subo e um tempêro [sic] que lembro.

É uma trança que solto.
Um escano que fecho,
que não vendo,

e uma roca que fio...

ANTÓNIO REIS
Trás‑os‑Montes – Junho de 1969.

[edição no Boletim da Casa Guérin, s.d., facsimilada em
António Reis e Margarida Cordeiro: A Poesia da Terra, Cineclube de Faro, 1997, pp.37‑43]

sexta-feira, 9 de dezembro de 2005

Yerma

Sento-me para escrever algumas das coisas que direi sobre Yerma, mas não há meio. A fotografia do filme era a única referência que tinha antes de o ver: Acácio de Almeida, que produziu e fotografou no Trás-os-Montes, no Rosa de Areia e que iniciou a sua colaboração com o cinema espanhol nos anos 80. Mas o filme deu-me mais do que isso: deu-me o texto de Lorca, os olhos de Aitana Sánchez-Gijón e os gritos mudos, de dentes cerrados, de uma alma tacanha e fatal (discreto, mas assim a personagem o exigia, Juan Diego).