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sexta-feira, 12 de maio de 2017

"Sinais de fogo, os homens se despedem"

(O Reboliço escuta, outra vez, as vozes do Rodrigues e do Jorge, no quarto da pensão da Figueira, quando o primeiro conta da descoberta do mundo.)
"Eu julgava que o mal era uma coisa que havia em mim, uma raiva que me enchia, uma miséria que cobre toda a gente. Mas agora sei que não é. Não está dentro de mim, nem me enche, nem cobre todos. Não existe. Estás a ouvir? Não existe. E, se ele não existe, como posso eu adorar seja quem for que me salve? Não há de que salvar, não há quem salvar, não há quem salve. Não existe.
- Então o que é que existe?
- Tudo o que não tem importância. Só o que não tem importância existe."
(Jorge de Sena, Sinais de Fogo, ed. Asa, p. 223.)

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Excessivamente belo

“I put it out of the exhibition because it’s too beautiful. It’s too much. I couldn’t allow it.”

O Reboliço pensa que Anselm Kiefer não explica porque se esqueceu de retirar das salas da Royal Academy todas as outras suas obras. Demasiado belas? O que seria "demasiado belo"? O estômago a encolher à vista dos estames gigantes de girassóis? A recordação do par de sapatos usados, pendurados para fora da tela, arrastados do chão de Van Gogh, ou imaginados em versos de Jorge de Sena, que os viu primeiro? Existirá, pergunta-se o Reboliço, quanto seja "demasiado belo"?

domingo, 8 de junho de 2014

"Que tudo isto sabereis serenamente"

Tiens. Em língua de rafeiro, tanto faz escrever francês ou português. Uma exclamação é uma exclamação - e uma exclamação com ponto final mostra a surpresa sempre esperada. Tiens, minha linda, a morte, como ensina o mestre dela, "é de todos e virá". Veio à Orlando e quase de certezinha passou e levou com ela o Petaner. O Petaner... cão cardiaque, cão cardiaque. Ãu. Mião.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Transportar colunas


"De toda a parte vieram, / a rastros, dorso, em carros, convergindo / para a cidade branca, atravessando os rios, / as serranias áridas, as planícies pálidas; / e as chuvas lavavam-nos da poeira do tempo / e dos caminhos." O poema todo, "Mesquita de Córdoba", já aqui apareceu inteiro por duas vezes. Foi dele que o Reboliço se lembrou quando soube da existência deste novo mapa. Dele e das colunas da Mesquita, que vieram lá de Constantinopla, tão longe, tão longe, até quase ao Ocidente, a al-Gharb.

domingo, 10 de maio de 2009

Artemidoro

(Foto: Reboliço, no British Museum.)
A tua múmia está no Museu Britânico
entre as fileiras tristes do segundo andar.
Alguém ta descobriu num cemitério copta,
que os areais e o tempo haviam ocultado,
por séculos de calma eternidade
que em teu caixão não profanado por
ladrões de sepulturas conheceste.
Secaste assim serenamente, enquanto
quem tu eras se perdeu depressa
nas memórias humanas que habitaste.
Não eras rei, nem príncipe. E célebre
talvez o tenhas sido para os mercadores
que trataram contigo, para os teus amigos
com quem ceavas altas horas, para
tua mulher, teus filhos (só, quando pequenos,
te viam gigantesco e absorto e paternal).
A múmia que ficou de ti (só ressequida pele
rasgada aqui e ali, mostrando os ossos
por onde as sujas ligaduras se soltaram)
não se distingue das outras na fileira
envidraçada em que há decénios pó,
um fino pó, será de ti ou Londres.
Importa o teu caixão, ou mais, a tampa
em que, segundo os usos do teu tempo,
um pintor cujo ofício principal seria
retratar os mortos te compôs um rosto.
É bem possível que tu próprio encomendasses,
risonho e pensativo, esse retrato, ou que,
depois de ter's morrido, teus irmãos de igreja
te hajam decidido e colocado
essa máscara nobre de tragédia,
convencional tragédia em palcos de outro mundo.
Possível é também que esse retrato fosse
menos que tua máscara um rosto
que se escolhia - por ti ou só por eles escolhido
para esse último acto: o de estar morto
de olhos abertos para o que desse e viesse.
E o teu líquido olhar ficou fitando
- num jeito que passou a Creta,
atravessou incólume Veneza,
o Tintoreto e Roma até Toledo,
em que é de Apostolado para o Greco.
Mas para ti e os teus - um pouco egípcios,
um pouco sírios, gregos e romanos,
cristãos e persas: Cristo Pantocrator,
Ísis, Pan-háguia, os anjos e os profetas,
Demeter, a Fortuna, o Jano bifrontal,
Ormuzd e Ariman, Pitágoras, Platão,
o deus Ptah, Adónis, Minotauro,
e as bacantes agitando o tirso -
mas para ti e os teus, entre esse mar
de Ulisses e de António, de Pafos e de Chipre,
e o deserto da Esfinge e dos Colossos
que à madrugada num gemer saúdam,
mas para ti e para os teus, nas margens debruçados
para o murmúrio lamacento que afogou Antínoo -
que seria esse olhar tão líquido e profundo que me fita
envidraçado pela morte e pelas crenças todas
e também pela vidraça que, interposta,
nos não separa menos do que os séculos?

Artemidoro: escuta! No silêncio ouves
os «buses» que passam, a gralhada que
em salas mais curiosas visitantes fazem.
Que mais escutarás com esses olhos que ouvem
atentamente os breves estalidos que o eterno,
como o romper da aurora nas estátuas,
provoca em nós e em nossas coisas, fissurando
a pouco e pouco a carne, a pele, os ossos, tudo
o que de deuses palpita e ressuscita em nós,
e em que talvez, sereno mercador, nem mesmo acreditasses?


Lisboa, 28 de Abril de 1959
Jorge de Sena, Metamorfoses [in Poesia II, Moraes Editores, pp.75-76]

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Mesquita de Córdoba

Haviam sido os fustes de pequenos bosques
a recortarem-se no azul do céu,
ao cimo das colinas, ou à beira de água
espelhando-se nelas como a cristalina
de ninfas ondulância. O dardejar do tempo
e da cristandade os fulminou. Jaziam
tombados entre as ervas, como sexos
dormindo na revôlta grenha; ou, 'inda agudamente,
inúteis penetrando sem desejo
a macieza húmida das nuvens.
-------------------------------Róseos,
brancos, irisados, foram convocados
para a glória de Alá. De toda a parte vieram,
a rastros, dorso, em carros, convergindo
para a cidade branca, atravessando os rios,
as serranias áridas, as planícies pálidas;
e as chuvas lavavam-nos da poeira do tempo
e dos caminhos.
----------------Um a um erguidos,
já de um a outro os arcos se dobravam,
tão curvamente ultrapassados, duplos,
na intensidade tensa de reuni-los
em floresta imensa, erguidos e coroados.
E de bosquetes para, aladas frondes,
serem dos deuses o repouso, ou de
nítidas cercas em triclínios calmos,
vieram concentrar-se na penumbra
em que o mihrab a um lado é uma estridência de ouro.
De novo um tecto é o que sustentam na viril
segurança para que são fustes. mas um tecto só:
de toda a parte vieram, ruínas fulminadas,
suportes dispersos dos deuses e dos homens,
para alinhar-se múltiplos na escrita
marmórea e colunar da inefável glória
do nome que é um tecto horizontal
sobre o deserto humano, frio como as lages,
macio como a aragem que se enrosca neles,
cruel como a faísca que os derrubaria,
e ardente como o sol que amadurece
os laranjais do páteo.
---------------------Vieram e ficaram
floresta exacta.
----------------Alá partiu, deixando a branca
cidade às moscas, à poeira, às torres de onde
dura de sinos se tornou a voz
do muezzin cantando à tarde.
------------------------------Mas
alguém pode partir de uma tão rígida
viril floresta: deuses traduzidos
e congregados para Sua glória?


(Jorge de Sena, in Metamorfoses, escrito em Araraquara, 7-8/1/1963)

quinta-feira, 4 de maio de 2006

Um poema de História

(para o JH)

"Mesquita de Córdova"

Haviam sido os fustes de pequenos bosques
a recortarem-se no azul do céu,
ao cimo das colinas, ou à beira de água
espelhando-se nelas como a cristalina
de ninfas ondulância. O dardejar do tempo
e da cristandade os fulminou. Jaziam
tombados entre as ervas, como sexos
dormindo na revôlta grenha; ou, inda agudamente,
inúteis penetrando sem desejo
a macieza húmida das nuvens.
Róseos,
brancos, irisados, foram convocados
para a glória de Alá. De toda a parte vieram,
a rastros, dorso, em carros, convergindo
para a cidade branca, atravessando os rios,
as serranias áridas, as planícies pálidas;
e as chuvas lavavam-nos da poeira do tempo
e dos caminhos.
Um a um erguidos,
já de um a outro os arcos se dobravam,
tão curvamente ultrapassados, duplos,
na intensidade tensa de reuni-los
em floresta imensa, erguidos e coroados.
E de bosquetes para, aladas frondes,
serem dos deuses o repouso, ou de
nítidas cercas em triclínios calmos,
vieram concentrar-se na penumbra
em que o mihrab a um lado é uma estridência de ouro.
De novo um tecto é o que sustentam na viril
segurança para que são fustes. Mas um tecto só:
de toda a parte vieram, ruínas fulminadas,
suportes dispersos dos deuses e dos homens,
para alinhar-se múltiplos na escrita
marmórea e colunar da inefável glória
do nome que é um tecto horizontal
sobre o deserto humano, frio como as lages,
macio como a aragem que se enrosca neles,
cruel como a faísca que os derrubaria,
e ardente como o sol que amadurece
os laranjais do páteo.
Vieram e ficaram
floresta exacta.
Alá partiu, deixando a branca
cidade às moscas, à poeira, às torres de onde
dura de sinos se tornou a voz
do muezzin cantando à tarde.
Mas
alguém pode partir de uma tão rígida
viril floresta: deuses trazidos
e congregados para Sua glória?

(Escreveu isto Jorge de Sena em Araraquara, entre 7 e 8 de Janeiro de 1963, de acordo com a edição onde o poema foi incluído, da responsabilidade de Mécia de Sena: Poesia II, das Edições 70, 1988.)

segunda-feira, 30 de maio de 2005

Em Lisboa

"Sentei-me num dos bancos, e fiquei a saborear aquela paz, aquele isolamento, aquela claridade que a passagem de um eléctrico de quando em quando amarelava fugidiamente. Às vezes, percorrendo distraidamente certas porções de Lisboa, houvera à minha volta, ou deslizara a meu lado, alguma atmosfera como aquela. Outras vezes, numa rua modificada ou alargada, em que demolições inconclusas enchiam de escombros e de lixo, ou de paredes interiores semi-demolidas em que sinais de vida ainda se agarravam, um dos lados da rua, eu sentira que, do lado oposto e não atingido pelas modificações, um velho palacete, ou uma correnteza de humildes casas, projectavam uma aura semelhante àquela, apenas já marcada por uma condenação senil. Ainda outras vezes, como por exemplo, na Graça, na Estrela, nas Amoreiras, ou na Costa do Castelo, a atmosfera matinha-se, mas mais palpitante, como quando, ao silêncio que só os passos cortavam, se sobrepunha no ar um eco de vozes, de gritos longínquos, de burburinho feito da agitação tranquila em muitas ruas diversas."
(Sinais de Fogo, p. 491)

Não é possível congratular-me com isto: a leveza de ter usado um texto não meu para me dispensar de escrever eu mesma custa o castigo de me roer por não ter sido eu mesma a escrever estas palavras. Bendito, e humilde, Jorge de Sena...