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terça-feira, 7 de abril de 2009

Próspero e Demétrio

.....ARIEL
Your charm so strongly works 'em
That if you now beheld them, your affections
Would become tender.

.....PROSPERO
Dost thou think so, spirit?

.....ARIEL
Mine would, sir, were I human.

.....PROSPERO
And mine shall.
Hast thou, which art but air, a touch, a feeling
Of their afflictions, and shall not myself,
One of their kind, that relish all as sharply,
Passion as they, be kindlier moved than thou art?
Though with their high wrongs I am struck to the quick,
Yet with my nobler reason 'gainst my fury
Do I take part: the rarer action is
In virtue than in vengeance: they being penitent,
The sole drift of my purpose doth extend
Not a frown further. Go release them, Ariel:
My charms I'll break, their senses I'll restore,
And they shall be themselves.


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.....ARIEL
O teu feitiço tão bem os trabalha
que se agora os visses, as tuas afeições
se enterneceriam.

.....PRÓSPERO
Assim pensas, espírito?

.....ARIEL
As minhas sim, senhor, fora eu humano.

.....PRÓSPERO
E as minhas também.
Tens tu, que és só ar, um mover, um sentir
Das suas aflições, e não hei-de eu
Um dos deles, que anseio com o mesmo ardor,
Sofro como eles, me emocionar mais do que tu?
Ainda que de seus altos danos seja vivamente ferido,
Ainda assim, com minha mais nobre razão contra minha fúria
Tomo parte: há mais rara acção
Na virtude que na vingança: sendo eles penitentes
O móbil só do meu propósito não se alonga
Nem mais um esgar. Vai libertá-los, Ariel:
Quebrarei os meus feitiços, os sentidos lhes restituirei.
E eles tornarão a si.


(No fim da última peça de Shakespeare, Próspero tira dos ombros o manto dos seus poderes e, com humildade, pede o aplauso que o libertará. Recorda, perdoa e sai de cena.)

quinta-feira, 19 de março de 2009

(Foto da capa deste objecto belíssimo: Reboliço. A propósito disto.)

"Da loja"

O cão do vizinho António leu o post sobre Kavafis, da semana passada, e recordou-se do poema "Da Loja," o seu favorito. Disse dele que "é dos mais simples, e [que o] fez visualizar uma ourivesaria situada num daqueles espaços comerciais das cidades orientais, de fachada verde, com luz eléctrica ligada durante o dia, porque situada na semi-obscuridade, e o joalheiro de fato e colete azuis, e bigode." Que coisa curiosa, a memória do que se leu... Aqui está o poema, cão vizinho. Com a cor verde, de facto, de uma seda de embrulhar as flores ou jóias. O homem que as vende talvez seja joalheiro, talvez tenha uma loja de penhores, talvez seja florista, ou nada disso seja e venda o que quer e aprecia e não há na natureza.

.......DA LOJA

.......Embrulhou-as com cuidado, ordenadamente
.......na seda verde excelente.

.......Lírios de pérolas, rosas de rubis,
.......violetas de ametistas. Tais como ele as quis,

.......as apreciou, as viu belas; não como na natureza há
.......as viu e as estudou. Dentro do cofre as deixará,

.......amostra do seu eficaz e ousado labor.
.......Se na loja entrar um qualquer comprador

.......tira outra dos estojos e vende - jóias singulares -
.......pulseiras, anéis, cordões, e colares.


(in Os Poemas, trad. de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis, Lisboa, Relógio d'Água, 2005, p. 113.)

sexta-feira, 13 de março de 2009

Poeta de vejez

"[C]on Kavafis sucede algo excepcional; si en los poemas de su juventud, y a veces de su madurez, parece muy a menudo mediocre y sin personalidad, en sus poemas de vejez nos produce la impresión de descubrir continuamente algo nuevo y digno de atención. Es 'un poeta de vejez.' [...] Es curioso y raro; murió a los setenta años y, sin embargo, nos dejó con la amarga curiosidad que experimentamos ante un hombre que se pierde cuando aún está lleno de vigor."
(Yorgos Seferis, "K. P. Kavafis, T. S. Eliot: paralelos,"
Conferência de Seferis no Instituto Britânico de Atenas em Junho de 1947,
publicada em Diálogo sobre la poesía y otros ensayos, 1989, Barcelona,
Editorial Júcar, 1989. Trad., prólogo e notas de J. A. Moreno Jurado, pp.103-104.)