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quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Felizes 3/4 de século, meu pai.


"Um testamento, do avesso: O que te dou, que a mim tens dado"

(As coisas que oferecemos são, afinal, as que desejamos de volta)
As palavras ditas - "brinco", e brincas; "e esta, conheces?" –
não do dicionário de verbos, não só.
Antes jeitos, "toma este", pendores de cabeça
para olhar o mundo de outro,
pouco mas tão diferente, ligeiro ângulo
de vista ou de sentido. Um mover de olhos,
na direcção branda do mundo, onde está o que
sempre foi mas nunca, por piedade, nomeado.
Glória esta de me dizeres
a mais bela, de o ser, como todas o somos,
de verdade.
Ou de, sem ter o nome pronunciado, sentir,
a cada sorriso que te dou, dado de ti,
as sílabas completas - agudas, breves.
As tuas, como as minhas.

(AIS, 20.XI.2014)

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

A chave tem o pai.

(Foto do pai a segurar a chave do moinho, ao fim da tarde: Vasco Célio/Stills, para a campanha da Releve. Ao fundo, vê-se um dos moinhos velhos.)

domingo, 18 de dezembro de 2011

Rimas à bomba de água (trazidas pelo pai)

Num destes domingos, o pai entregou ao Reboliço as famosas décimas. Todos os Natais, todas as Páscoas, todas as ocasiões que juntam gente no Moinho, fala-se nas "décimas à bomba". Conta o pai:

Foram feitas pelo tio Manuel Fernandes, irmão da avó Adelaide (mãe do meu pai), a propósito da tentativa de engendrar um sistema para tirar água do poço do moinho, que havia sido aberto em 1956 ou no ano anterior. Os trabalhos de construção da bomba para tirar água faziam-se aos fins-de-semana, com o dito Manel da Fábrica, responsável pela ideia e pela condução dos trabalhos, mais o mestre Duarte, que era o encarregado do armazém de sucata do Luís Serrano e que fornecia grande parte dos materiais para a obra, e mais dois ou três compinchas. Todo este pessoal bebia e comia bem, pelo que eram sacrificados para o efeito um ou dois galináceos, os quais eram sempre copiosamente regados do bom vinho da venda da Ti' Passinhas, casa que já há bastos anos deixou de existir. Ora, foi com base nos trabalhos que serviam de pretexto a estes convívios bem comidos e melhor bebidos que o Ti' Manel, observador, dedicou estas décimas.

MOTE
Manuel da Fábrica fez uma bomba
Que até trabalha sozinha.
Não tira é água nenhuma,
Mas tira carne de galinha.

I
É um dos melhores artistas
Que temos nesta cidade.
Eu confesso a verdade:
Faz tudo às primeiras vistas,
Tem por isso muito valor;
Trabalha que é um primor,
A sua ideia não tomba.
Vai êxitos alcançando,
Para a frente trabalhando -
Manuel da Fábrica fez uma bomba.

II
Levantara o seu nome assim,
Fazendo estas obras de arte.
Tem encomendas para toda a parte:
Isto não mais terá fim.
Faz tudo muito bem feito,
Pois é em tudo perfeito.
Na marcha principal caminha,
Trabalha à sua vontade.
Eu confesso a verdade:
Que até trabalha sozinha.

III
O homem já se aborrece
De tanta encomenda que tem!
Pois vejam lá isto bem,
O que esta ideia merece:
Merece ser bem puxada
Para ver se não esquece.
Dou a minha opinião, em suma,
Que se faça a propaganda.
Tem fama em toda a banda,
Não tira é água nenhuma.

IV
Vou dar-lhes uma novidade
Que faço eu muito bem,
Que não se descubra a ninguém.
É esta toda a verdade:
A bomba faz uma fineza,
Digo isto com vaidade,
E pela verdade caminha.
Não tira água na certeza, 
Trabalha que é uma beleza, 
Mas tira carne de galinha.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Do pai (2)

Uns dias depois de escrever o episódio da Castanha, o pai mostrou este, sobre o Margot. O Reboliço quis saber de onde teria vindo ao cão aquele nome, mas ganhou as mesmas: diz que não se lembra, o pai. Chamavam-lhe margôu, era só isso.

O cão Margot

   Era um grande setter inglês. O rabo creio que fora cortado quando pequenote, tinha menos de um palmo. O pêlo era grande, castanho ondulado. As orelhas penduradas, era meigo e lindo o cão da minha infância.
   Na época das chuvas e na Primavera, quando a erva crescia nas searas, eu e o meu irmão, munidos de sachos e de um saco, íamos apanhar erva para os coelhos nos campos de trigo. O cão sempre nos acompanhava. Colhíamos as ervas: lentugas, cardos brancos, orelha de lebre, serralhas, chapéu de lagarto, etc. - nos catacuzes e nas tengarrinhas os coelhos não pegavam muito. O Margot ia farejando por ali à nossa volta, procurando buracos de ratos do campo, os musaranhos, ou malhada de lebre - só para se distrair, porque na realidade o pobre não tinha pedalada para lebres! Se por adregue em algum desses buracos lhe cheirava que havia rato, o animal esgravatava o terreno, brando por ter sido lavrado e ter humidade, até encontrar o bichinho. Este saltava da toca, cheio de medo, e o cão, furibundo, ia fugindo atrás dele sem o conseguir apanhar. Não era cão para grandes corridas: voltava depois para junto de nós, a abanar a réstia de cauda, como que a dizer que já se tinha divertido.
   O saco cheio das ervas apanhadas, atavamo-lo e colocavamo-lo atravessado sobre o lombo do cão. Depois, com um de nós de cada lado para manter o saco equilibrado, o Margot, dócil e satisfeito, levava a carga até ao monte.
   Nalgumas tardes de Primavera, a aproveitar a boa disposição do Margot, que gostava de brincar, fazíamos às vezes autênticas touradas, acenando-lhe com um saco de trigo vazio. O bicho atirava-se e quando conseguia apanhar o saco não o largava e puxava-o, às arrecuas - volta e meia lá ficava um saco rasgado.
   Envelheceu muito digno, o lindo cão. Veio a morrer tranquilamente à sombra do moinho numa tarde de Verão. Estava na posição favorita dele, estendido com o focinho descansando sobre as patas dianteiras a apanhar o fresco, com o vento da maré a dar-lhe de frente. As grandes orelhas pendidas levantavam ligeiramente com a brisa e assim ficou, numa imagem de tranquilidade impressionante. Quando estranhamos a demora naquela posição, demos com ele já sem vida. E chorámos. Ainda hoje me emociona a lembrança. Querido bicho!

Beja, 22 de Novembro de 2011
Chico Soares

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Do pai

No Domingo passado o pai fez 72 anos. O Reboliço passou o dia com os olhos numa fotografia que mostra dois pais: o avô Chico, sentado num dos degraus de pedra do sopé do moinho, a olhar para um lado; e o pai Chico, moço novo, nem vintaninhos ainda, sentado acima dele, no chão do sopé, a olhar para outro. Atrás dos dois está o moinho, de velas armadas. Talvez tenha sido feita pela altura em que o pai Chico presenciou o fenómeno que conta no relato que aqui se publica agora e a que chamou, muito singela e certeiramente, "A Castanha."


A Castanha

  O carrego do trigo para o moinho era feito num carro de besta só. Nos meus tempos de juventude, na metade da década de 50 do século passado, a carroça era puxada por uma mula pequena a que chamavam a Castanha, devido à cor do pêlo da bicha. O animal era danado para puxar o carro carregado de sacos de trigo. Muitas vezes carregava dez sacos de 60kg cada. No Inverno, muito embora não levasse essa carga toda, as rodas do carro afundavam-se no barro do caminho e a boa da Castanha, abanando as orelhas, com o dono ao lado agarrado a um dos varais do carro, animando-a, lá conseguia levar a carga até ao moinho.
  Um dia de Primavera, de manhã, com o céu completamente limpo, sem uma nuvem e com uma leve aragem, estava eu a pôr-lhe o cabresto, ao portão da cavalariça, notei que o animal estava demasiado quieto para o seu temperamento, algo esquivo quando se lhe metia o cabresto. Reparei nas orelhas muito afitadas, como quando presta atenção a qualquer coisa estranha. Então, olhei na direcção para onde olhava a Castanha e vi muito ao longe, a Noroeste, um pequeno e estranho ponto escuro, sobre o horizonte.Fiquei intrigado mas não liguei - e continuei a meter o cabresto na mula.
  Voltei a olhar o tal ponto e surpreendi-me ao ver que tinha aumentado bastante. Mantive-me a olhar e vi como que uma nuvem, ainda muito distante, com um movimento esquisito! Continuamos a olhar, eu e a mula, para aquela nuvem a aproximar-se, a aumentar e a ondular, ora subindo ora descendo. Só pode ser um bando de pássaros, pensei - mas que pássaros? Já nas proximidades do monte, apercebi-me finalmente tratar-se de uma nuvem imensa de pombos bravos (torcazes): milhares e milhares de aves como nunca até então tinha visto e nunca mais voltei a ver. Levaram alguns minutos a passar, de Noroeste para Sueste. Numa das ondulações em que baixaram e se aproximaram mais donde observava, ouviu-se um rumor como de uma grande enxurrada, tamanho era o barulho de tantas asas.
  Ainda hoje me espanta o facto de a Castanha se ter apercebido de que aquele pequeno ponto longe no  horizonte, onde fixou a sua atenção, era realmente coisa invulgar naquelas paragens.

Beja, 22 de Novembro de 2011
Chico Soares

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

4 meses, moço lindo!

(Matias e Francisco, neto e avô. Foto: Reboliço, depois de ter revisto o filme Pai e Filho, que o fez dormir, e recordado Mãe e Filho, que agora receia rever, de Aleksandr Sokurov. As imagens assim desfocadas e a sépia fazem filmes muito bonitos e nostálgicos. Mas onde quer que entre o Matias não cabe nostalgia nenhuma, porque aquele sorriso dá cabo de qualquer névoa, de qualquer sensação menos boa. É grande rapaz!)

quarta-feira, 25 de abril de 2007

"Francisco, levar-te-ei cravos vermelhos"

O título é de um poema* de Philip Levine sobre Francisco Ascaso; as flores seriam para deixar na tumba do revolucionário. Procuro mais informação sobre este anarco-sindicalista da Guerra Civil de Espanha e a maioria das páginas online vem emoldurada em anúncios de voos baratos para as capitais europeias.

*Não está disponivel na net. Já vejo se o encontro na Harper's Bazaar. Se for alguma coisa de jeito, ainda cometo a ilegalidade de o transcrever.

segunda-feira, 20 de novembro de 2006

sexta-feira, 17 de novembro de 2006

Filha ao pai

PROSPERO: ........... Alack, what trouble
Was I then to you!

MIRANDA: ............. O, a cherubin
Thou wast that did preserve me. Thou didst smile,
Infused with a fortitude from heaven,
When I have deck'd the sea with drops full salt,
Under my burthen groan'd; which rais'd in me
An undergoing stomach, to bear up
Against what should ensue.

Diz o pai - Céus, que empecilho terei sido para ti!
Responde a filha - Diz antes um anjo, que me preservaste. Sorriste, cheio de uma força celestial, quando eu de lágrimas salgadas enchia aquele mar e por minha desgraça rugia; e assim me deste estômago para aguentar tudo o que veio a suceder.

(The Tempest, I, ii, 151-158; a troca das personagens é da minha inteira vontade, da minha total responsabilidade.)

domingo, 29 de outubro de 2006

Maria e Francisco

Antes de, há 36 anos, serem

mãe

e

pai.