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quarta-feira, 29 de março de 2017

Rilke a Hölderlin


... 
Se um tal, eterno, houve um dia, porque é que nós desconfiamos ainda do terrestre? em vez de no transitório seriamente aprender os sentimentos de qualquer
inclinação, futura no espaço?
(Rainer Maria Rilke, 1914. In Hölderlin, Poemas, Prefácio, selecção e tradução de Paulo Quintela, 2ª edição, revista e muito ampliada, Atlântida, Coimbra, 1959, s/p.)

domingo, 3 de novembro de 2013

O Reboliço é um nefelibata (84)


Ambiente de Outono
O ar é morno como na sala de passagem
onde, em silêncio, já se espera a morte;
sobre as telhas molhadas há uma claridade
mais pálida
 que a de uma vela prestes a extinguir-se.

A água da chuva ronca nas caleiras,
o vento lânguido autopsia as folhas mortas
e, como um bando de narcejas espaventadas,
as nuvenzinhas seguem, receosas, pelo céu cinzento.
("Herbststimmung", Rainer Maria Rilke.
Tradução: AIS, a partir daqui. Com a ajuda da Ana - obrigada!)


domingo, 13 de fevereiro de 2011

"Ogni testo è contemporaneamente la partita giocata e le regole da giocare." (post dedicado)

E na xícara a fenda abre
um trilho para a terra dos mortos.
(W. H. Auden)

... como quando uma fenda atravessa uma xícara.
(R. M. Rilke)

Recebo de ti esta xícara
vermelha para beber nos meus dias
um a um
nas manhãs pálidas, as perlas
do longo colar da sede.
E se cair a partir-se, quebrado,
eu, de compaixão,
pensarei em repará-la,
para prosseguir os beijos ininterruptos.
E a cada vez que a asa
ou o rebordo se quebrem
voltarei a uni-los
até que o meu amor complete
a obra dura e lenta do mosaico.
~
Desce pelo declive
cândido da xícara
pelo interior côncavo
e luzente, como relâmpago,
a fenda,
negra, fixa,
sinal de um temporal
que continua a troar
sobre a paisagem sonora,
de esmalte.
(Valerio Magrelli, pp. 66 e 68 da edição bilingue. Tradução minha.
O título do post é uma frase do autor na entrevista ao Circolo Culturale Albatross.)