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terça-feira, 29 de agosto de 2023

O Reboliço é um nefelibata (98)

(António Olaio, "My home is a logo #10"
1998 Círculo de Artes Plásticas de Coimbra.
Coisa linda feita de cão e nuvens.)



segunda-feira, 28 de setembro de 2020

terça-feira, 5 de junho de 2018

O Reboliço é um nefelibata (96)

- De que mais gostas, homem enigmático, diz? teu pai, tua mãe, tua irmã, ou teu irmão?
- Não tenho nem pai nem mãe, nem irmã, nem irmão.
- Teus amigos?
- Usais uma palavra cujo sentido até hoje ignoro.
- Tua pátria?
- Desconheço a sua latitude.
- A beleza?
- Muito me agradaria gostar dela, deusa e imortal.
- O ouro?
- Detesto-o como detestais Deus.
- Eh! de que gostas, então, extraordinário estrangeiro?
- Gosto das nuvens... das nuvens que passam... além... além... as maravilhosas nuvens!
*
- Qui aimes-tu le mieux, homme enigmatique, dis? ton père, ta mère, ta soeur ou ton frère?
- Je n'ai ni père, ni mère, ni soeur, ni frère.
- Tes amis?
-Vous vous servez là d'une parole dont le sens m'est resté jusqu'à ce jour inconnu.
- Ta patrie?
- J'ignore sous quelle latitude elle est située.
- La beauté?
- Je l'aimerais volontiers, déesse et immortelle.
- L'or?
- Je le hais comme vous haïssez Dieu.
- Eh! qu'aimes-tu donc, extraordinaire étranger?
- J'aime les nuages... les nuages qui passent... là-bas... là-bas... les merveilleux nuages!

Charles Baudelaire, Petits poèmes en prose, I (1869)

domingo, 7 de maio de 2017

O Reboliço é um nefelibata (95)

CANÇÃO DE MAIO

Em certos dias maio
é um touro de chuva
e o lume dum raio
atravessa uma nuvem

Porém rapidamente
acaba a trovoada
e uma névoa quente
sai da terra molhada

Em terra corre o touro
que de maio é o signo
e de tarde o besouro
ao calor zune estrídulo

Num muro branco voga
paciente o caracol
como alguém que se afoga
num mar com muito sol

Gastão Cruz, Rua de Portugal, Assírio e Alvim, 2002, p. 33.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Moinhos na Poesia (79) / O Reboliço é um Nefelibata (94)

POETA

Poeta poeta sem bruxedo
Três dias depois do naufrágio
Moinho moinho de neve
As costas estão carregadas de nuvens

Todos vós sois grifos
Vosso coração sangra pelo nariz
Mas os pássaros são armários repletos
Os pássaros que no céu estão mais quentes que as mãos

Cala-te rouxinol ao fundo da vida
Eu sou o único cantor de hoje

Dir-te-ei mil vezes
Que minhas costas estão carregadas de nuvens
Mas tenho comigo a flauta mágica do querubim selvagem

(Vicente Huidobro, Natureza Viva, tradução de Luís Pignatelli, Lisboa, Hiena, 1986. Obrigada às Edições Averno)

domingo, 12 de junho de 2016

O Reboliço é um nefelibata (93), ou O mundo da literatura



How to live. What to do

Last evening the moon rose above this rock
Impure upon a world unpurged.
The man and his companion stopped
To rest before the heroic height.

Coldly the wind fell upon them
In many majesties of sound:
They that had left the flame-freaked sun
To seek a sun of fuller fire.

Instead there was this tufted rock
Massively rising high and bare
Beyond all trees, the ridges thrown
Like giant arms among the clouds.

There was neither voice nor crested image,
No chorister, nor priest. There was
Only the great height of the rock
And the two of them standing still to rest.

There was the cold wind and the sound
It made, away from the muck of the land
That they had left, heroic sound
Joyous and jubilant and sure.

Wallace Stevens, sugerido por Colm Tóibín na introdução que em 2014
escreveu à edição de Fiesta: The Sun Also Rises.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

O Reboliço é um nefelibata (92)

NUVENS

Ao dobrar de uma curva da estrada, encontro o fotógrafo celeste. Imóvel ao lado do tripé, braços cruzados sobre o peito, espera que o vento misture de tal modo luz e sombra que a cor do céu possa entrar toda inteira no breve enquadramento da máquina fotográfica. Assim que me aproximo, começa a procurar nos bolsos e, franzindo um pouco os olhos (creio que cada vez mais lhe custa ver ao perto), vai tirando imagem sobre imagem: pedaços de céu com grandes massas de nuvens muito brancas, ou azuis como os montes ao longe, ou levemente pintadas de vermelho e cor-de-rosa como os frutos do verão. «Não é bonito, isto?», pergunta. Depois voltamos a olhar para as fotografias, com a surpresa de quem vai à janela olhar o céu e se dá conta de estar a ver um pormenor do universo: «quanto mais as nuvens nos parecerem imóveis, mais nos movemos nós, viajantes de uma nave imensa. Como se não houvesse nenhum vento e, sabe-se lá porquê, a Terra começasse a rodar ligeiramente mais depressa».

(Rosa Maria Martelo, A Porta de Duchamp, Lisboa, Averno, 2009, p. 14.)

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

O Reboliço é um nefelibata (91)


(Instafoto do moinho dos Açores, a dar a ver nuvens onde só havia céu azul: Anam222. Obrigada!)

segunda-feira, 25 de maio de 2015

quarta-feira, 8 de abril de 2015

O Reboliço é um nefelibata (72)

Vieram as tempestades de Abril, luz luz luz, trovão, rasgão, trovão luz, e o Reboliço esconde o focinho debaixo das patas, a afugentar o susto. Distrai-se, entretanto, a conhecer os meios de transporte que só funcionam para lá da trovoada.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

O Reboliço é um nefelibata (89)

(Foto do prédio a esfarrapar as nuvens ontem à tarde, na Rodrigo da Fonseca, cidade grande: Miguel Pires, generoso, a pensar, com certeza, em fios de abóbora gila que querem ser labaredas. Obrigada!)

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Bem-vindo, pequeno!

(Foto do céu sobre Lisboa, na manhã do teu nascimento: tia Reboliço, a rolar na relva de contente.)

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

O Reboliço é um nefelibata (88)

"Reflexo do Cisne: duas faces de um postal"
Segundo Caroline Wright


Cygnus (face da imagem)

Sou caligrafia. No estuário salgado, na lagoa da aldeia,
Escrevo o meu nome a arabescos. Falo em branco
À nuvem, falo às águas enevoadas.
Sou o mais longínquo quadrante
Da noite sem estrelas
E além dela.

Sou peito
E vento e lua
E a pura distância
Das constelações, a persistência
Do desejo, as nebulosas de sistemas que estão
Para desaparecer: grito e eco, curvatura e descanso.    



Verso (mensagem) 

Liga agora.
O telefone está sem som.
Não há discurso, não há linguagem
A habitar os espaços vagos, nenhum aferidor
Pode medir distância assim silenciosa e absoluta
Somos incapazes de lhe falar por palavras, não o sabemos fazer.

Ouve a rua. As vozes nas lojas, na fila do autocarro,
Na plataforma. Qualquer coisa vem de volta,
Um eco, arabesco, uma espécie de cortejo,
Como os ritmos de uma imaginada
Língua: signo, Cygnus,
Eu, tu.


George Szirtes, "The Swan's Reflection: two sides of a postcard"
(Tradução: AIS. Obrigada, F.)

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

O Reboliço é um nefelibata (87)

(Foto de três moinhos na Serra de Gavinhos, Penacova, uns 15km a Noroeste de Coimbra: Alípio Padilha. Sublinha o fotógrafo a "particularidade de terem 'telhados' em zinco." Diz mais: que chegaram a existir ali 18 moinhos de vento. E de nuvens. A moer. Obrigada.)

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

O Reboliço é um nefelibata (86)

(O Carlos Cardoso andou por Santiago do Cacém e apanhou esta maravilha, que rodeou de escuro para iluminar, de varas direitinhas, lindas nuvenzinhas e ervas verdinhas. O Reboliço agradece muito poder mostrar o boneco. Acrescentos, dada pelo pai a informação: se for o Moinho da Câmara de Santiago, aqui foi que se fez uma escola de moleiros, há uns bons anos.)

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O Reboliço é um nefelibata (85)

(Como de outras vezes, encanta-se com os olhares dos amigos para as nuvens. Se as nuvens encimam os moinhos, como é o caso destas, sobre um deles em Gröningen, que a Lígia Oliveira fotografou, fica dupla, tripla, multiplicadamente feliz. Obrigada!)

domingo, 3 de novembro de 2013

O Reboliço é um nefelibata (84)


Ambiente de Outono
O ar é morno como na sala de passagem
onde, em silêncio, já se espera a morte;
sobre as telhas molhadas há uma claridade
mais pálida
 que a de uma vela prestes a extinguir-se.

A água da chuva ronca nas caleiras,
o vento lânguido autopsia as folhas mortas
e, como um bando de narcejas espaventadas,
as nuvenzinhas seguem, receosas, pelo céu cinzento.
("Herbststimmung", Rainer Maria Rilke.
Tradução: AIS, a partir daqui. Com a ajuda da Ana - obrigada!)


domingo, 2 de junho de 2013

O Reboliço é um nefelibata (83)

[dedicado à AnneA]

não sei o que é uma aula de anatomia mesmo havendo uma
rapariga apaixonada que a descreva    mesmo pondo os olhos
n'a lição de anatomia do doutor nicolaes tulp de rembrandt com
os seus sete aprendizes mais o mestre e o digno cadáver cor de
luz estendido ali para a ciência e que ninguém olha    os que
estão presentes no quadro não olham    disputam outros sinais
mas cada dia é uma retoma da máquina que somos e apren-
demos com este livro    e neste horário e livres    uma vez    na
infância    num daqueles jogos imbecis com fisga    aos pardais
pude ver o pulsar do órgão motor de um pardal agonizante
entre o sangue e o lanho    até ali nunca me dera para julgar que
a anatomia estivesse tão próxima da teologia e nem isso logo
me ocorreu    foram necessários uns anos mais    um pas-
ar de nuvens    até compreender que o dissecar de um corpo
com bisturi é copiar para o papel um salmo
(Abel Neves, Quasi Stellar, Lisboa, Língua Morta, 2013, p. 60.)

quarta-feira, 22 de maio de 2013

O Reboliço é um nefelibata (82)

(... que contempla as nuvens, também, pelos olhos dos amigos. Foto do moinho e da nuvem ao longe: Liliana Navarra; foto do moinho e da nuvem mais perto: Ana M. Ferraria. Sem saberem uma da outra, passando ontem uma perto de Peniche e a outra ao lado de Odemira, e vendo estas maravilhas, alembraram-se, as maravilhosas, do Reboliço. Dispararam, amandaram, o Reboliço emocionaram. Muito agradecida.)

sexta-feira, 10 de maio de 2013

O Reboliço é um nefelibata (81)

(Foto: Debout sur L'Oeuf, na Foz do Mondego.)


Um muro de nuvens densas
Põe na base do ocidente
Negras roxuras pretensas.

Com a noite tudo acaba.
O céu frio é transparente.
Nada de chuva desaba.

E não sei se tenho pena
Ou alegria da ausente
Chuva e da noite serena

De resto, nunca sei nada,
Minha alma é a sombra presente
De uma presença passada.

Meus sentimentos são rastros.
Só meu pensamento sente...
A noite esfria-se de astros.

(1-5-1929 Poesias. Fernando Pessoa. [Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.] Lisboa: Ática, 1942 [15ª ed. 1995]. 116.)