quinta-feira, 30 de junho de 2005

Caderno da Escola, sem acentos nem cedilhas (4)

(No final da aula de hoje da Toril Moi.)

A minha frente, um pouco a direita, esta o volume de capa dura das Philosophical Investigations de Wittgenstein (edicao bilingue), fechado, sobre a mesa. O montinho branco das paginas constrasta com a capa e a lombada, negras e inscritas a dourado. Olho para ele, num relance, e parece-me ver uma luzinha fugidia a sair do fundo das paginas, das ultimas, mesmo antes de comecar a faixazinha preta da contracapa, que sobressai. Penso que e o cansaco dos olhos, mas fico mais atenta a partir desse momento fragilmente iluminado. Uns segundos depois, outra luzinha: e como se estivesse dentro das paginas e quisesse sair delas! Penso entao, enquanto o resto da turma discute Cavell e a poesia e, ao mesmo tempo, em surpresa e incredulidade, faco um ar de espanto e empurro o tronco um pouco para tras na cadeira: so pode ser Caeiro, a satisfacao de saber que a metafisica de tudo e tudo nao ter metafisica nenhuma - e isso que Wittgenstein nos quer mostrar (se alguma vez quis, e mostrar, a alguem que nao a si mesmo) e essa luz esforca-se por sair daquela prisao de linguagem do dia-a-dia a exigir um pensamento nada quotidiano.

Da terceira vez que reparo, ha um festival de luzes e todas vao dar as lentes dos oculos da mulher sentada dois lugares para a minha direita, que brinca com eles na mao.