Stanley Fish. Veio fechar as honras da escola. E, em honra dele, na recepcao serviu-se peixe. Ah, sobre o que disse: nothing new. E foi excelente.
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quinta-feira, 28 de julho de 2005
Caderno da Escola, sem acentos nem cedilhas (12)
Vi esta noite o Mondovino, filme sobre a globalizacao e os produtores de vinho (de Franca, Italia, Argentina, da California e do Brasil). A imagem inicial e de Pernambuco; banda sonora, Amalia Rodrigues. A sala estava (como quase todas aqui em Cornell) a escaldar e a unica maneira de suportar aquele calor era com duas ventoinhas gigantescas, uma de cada lado do ecran. Um zunido tremendo. Um calor horrivel. E eu toda arrepiada a ouvir a Amalia e a ter saudades, saudades de casa (alo, Zabelinha...).
O filme poderia ter menos uns vinte minutos (as ultimas vezes que fui ao cinema sai da sala com esta sensacao. Nao e bom...), mas tem um elemento muito curioso: a camara deixa-se seduzir por todos os caes (alo, Luquinha!...) que aparecam na cena. O cao e, portanto, um elemento de raccord e, ao mesmo tempo, de destronizacao do tema principal. Fiquei sem saber (mesmo!) se o filme era (mesmo) sobre vinhos ou nao seria antes sobre a paixao de Nossiter pelos canitos (assim mesmo). Bem, na verdade, pode ser ate sobre muitas outras coisas, nomeadamente (e isto pode ser visto como a minha ultima grande personificacao do argumento americano) a expressao de afirmacoes politicas e a interrogacao sobre o sentido da recusa do sistema capitalista. Haveria muito (mesmo muito) a dizer sobre esta recusa, ou sobre o tom de inevitabilidade com que o filme tinge o monopolio dos Mondavi. Mas se calhar isso passara para outro blog.
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domingo, 24 de julho de 2005
Caderno da Escola, sem acentos nem cedilhas (11)
Entro na ultima semana de aulas. O momento alto destes dias sera a comunicacao de Stanley Fish. Ha 11 anos atras, foi o seminario dele q frequentei na minha estreia na Escola. Dizem que quanto mais velho melhor. Veremos. Ha uns dias, saiu uma cronica sua no NYTimes, sobre as duvidas que pairam nas ideias dos americanos a proposito da nomeacao de um dos juizes do Supremo Tribunal. Se fosse so sobre isso, nem sequer o referiria.
terça-feira, 19 de julho de 2005
Caderno da Escola, sem acentos nem cedilhas (10)
E isto e para a Lagarta.
Entro hoje na fase Peer Gynt. E, tenha eu tempo bastante e saude, hei-de aprender o diabo daquela lingua!
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Caderno da Escola, sem acentos nem cedilhas (9)
Este agora e para a Mulher do Lado (ola!), que gosta de poemas e (muito!) da vida. Tambem e do Cavell, da Introducao a Pursuits... e segue o argumento em que o autor justifica a escolha de Ibsen e de algumas comedias de re-casamento (inventou ele este genero) dos anos 30 em Hollywood para reflectir sobre problemas filosoficos. Le-lo tem sido uma verdadeira experiencia de extase. Entendam-no (o extase) como quiserem. Vai tambem em portugues (o melhor que consigo).
"The Ibsen, and these films, declare that our lives are poems, their actions and words the content of a dream, working on webs of significance we cannot or will not survey but simply spin further. In everyday life the poems often seem composed by demons who curse us, wish us ill; in art by an angel who wishes us well, and blesses us."
Pt: "Ibsen, assim como estes filmes, declaram que as nossas vidas sao poemas, que nelas as accoes e as palavras sao o conteudo de um sonho a laborar em novelos de sentido que nao podemos nem queremos deslindar mas enrolamos cada vez mais. Na vida do dia-a-dia, os poemas parecem feitos por demonios que nos amaldicoam, que nos querem mal; na arte, por um anjo que nos quer bem e nos abencoa."
Caderno da Escola, sem acentos nem cedilhas (8)
Este e, antes de mais, para a Anabela. Do Cavell para a Anabela, simplesmente porque foi de ti que me lembrei quando li esta passagem. Esta na Introducao a Pursuits of Happiness. E vai bilingue, para ficar clarinho. O italico aparece no livro.
"A work one cares about is not something one has read as something one is a reader of; connection with it goes on, as with any relation one cares about. (Thoreau's copy of Homer is open on his table at Walden. So far as philosophy is a matter of caring about texts, meditation is its work before argumentation, since the end of the caring cannot be expressed in a conclusion which you might take away from the text.)"
Pt (ok, um bocadinho macarronico...): "Uma obra de que se gosta nao e tanto uma coisa que ja lemos, mas mais uma coisa de que somos leitores; a ligacao com ela continua, assim como com uma relacao de que gostamos. (Sobre a mesa de Thoreau, em Walden, esta aberto o seu exemplar de Homero. Na medida em que a filosofia e uma questao de se gostar de textos, a meditacao aparece antes da argumentacao: nao e possivel exprimir numa conclusao, que pudesse ser retirada do texto, o fim desse gostar.)"
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sábado, 16 de julho de 2005
Caderno da Escola, sem acentos nem cedilhas (7)
O caminho para a residencia e ladeado pelo Centro de Artes Performativas da Universidade de Cornell, projecto de James Stirling. Do lado das arvores passa o Cascadilla Creek, com quedas de agua que tem do melhor (e fresco nas tardes quentes, o unico sitio onde se consegue estar) e do pior (faz uma barulheira que nao deixa dormir ninguem!).
(Foto: Reboliço)
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Fotos,
Onde andei,
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domingo, 10 de julho de 2005
Caderno da Escola, sem acentos nem cedilhas (6)
Daqui deste lado (ia dizer do Atlantico, mas nem sei ja se ainda existe, de tanto o nao ver...) do mundo, pois, os melhores momentos de leitura sobre o que se passa na Europa tenho-os a ler as vozes do Casmurro. Acho muito sensata a ideia de fazer um referendo sobre a independencia de Portugal.
Por ca, Cavell foi de ferias e deixou a substitui-lo um homem sisudo e gorducho chamado Ibsen (mais eficaz, no meu entender). Quando este acaba o turno, entram uns seres estranhos que nascem de sementes gigantes, chamados "body-snatchers". Ontem a noite estava o domitorio sem nenhum destes guardas e, para nos esquecermos do desconsolo de nao termos vigias, atiramos uma festa (e o que dizem aqui, "throw a party", como se a lancassem para longe). "We had great fun. I can't believe it lasted until 3a.m.!" Pois e, onde haja tugas e outros latinos (duas exemplares dos primeiros e uns cinco dos segundos), uma festa nao e a brincar...
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quarta-feira, 6 de julho de 2005
Caderno da Escola, sem acentos nem cedilhas (5)
(Ou: A segunda ilusao, mas com final feliz.)
No final do lanche que a Escola oferece semanalmente, Dominick LaCapra, cioso da sua regiao e das tarefas do bom anfitriao, levou o grupo a ver a mais alta queda de agua dos EUA - uns 35 pes mais alta do que as de Niagara, mas de corrente bem menos impressionante, um fio grosso de agua a derramar-se do fundo de um V gigantesco e verde num lugar chamado Taughannock. Entre a conversa com Sepp Gumbrecht, as tropelias do filho pequenino de um colega do Sri-Lanka (qual e a palavra para "habitante do Sri-Lanka"?), as perguntas sobre o sentido das palavras portuguesas que tinham ficado pelas linguas de paragens sul-asiaticas, a noite foi caindo. No caminho de regresso, fatigada da caminhada, olhei para o trilho encoberto pelas arvores altas, que escureciam a paisagem com maior rapidez que a viagem do sol, e pareceu-me ver, por momentos muito fugidios, uma serie de pequenas luzinhas. ("Ok, esta na hora de diminuir as leituras, ja dei cabo dos olhos!") Continuava a conversa, ficava mais negra a estrada, e as luzes persistiam, cada vez mais reais - mas ninguem no grupo falava delas, parecia que era eu a unica a ve-las, e o meu susto aumentava. Acabei por perder o medo e a vergonha: "Estao a ver umas luzinhas?" "Os pirilampos? Sim, por aqui sao muito poucos. No Sri-Lanka chegam para iluminar as clareiras." O relvado junto ao pavilhao onde tinha sido servido o lanche era um tapete de luzes. Moscas-de-fogo, e como lhes chamam.
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segunda-feira, 4 de julho de 2005
Ameijoas e mexihao
Tudo regado com limanito, a saber a alho e a deixar os dedos molhados antes do pao. No Leao d'Ouro, restaurante na College Avenue em Toronto. Com direito a empregado com sotaque minhoto e tudo! A gloria da diaspora...
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quinta-feira, 30 de junho de 2005
Caderno da Escola, sem acentos nem cedilhas (4)
(No final da aula de hoje da Toril Moi.)
A minha frente, um pouco a direita, esta o volume de capa dura das Philosophical Investigations de Wittgenstein (edicao bilingue), fechado, sobre a mesa. O montinho branco das paginas constrasta com a capa e a lombada, negras e inscritas a dourado. Olho para ele, num relance, e parece-me ver uma luzinha fugidia a sair do fundo das paginas, das ultimas, mesmo antes de comecar a faixazinha preta da contracapa, que sobressai. Penso que e o cansaco dos olhos, mas fico mais atenta a partir desse momento fragilmente iluminado. Uns segundos depois, outra luzinha: e como se estivesse dentro das paginas e quisesse sair delas! Penso entao, enquanto o resto da turma discute Cavell e a poesia e, ao mesmo tempo, em surpresa e incredulidade, faco um ar de espanto e empurro o tronco um pouco para tras na cadeira: so pode ser Caeiro, a satisfacao de saber que a metafisica de tudo e tudo nao ter metafisica nenhuma - e isso que Wittgenstein nos quer mostrar (se alguma vez quis, e mostrar, a alguem que nao a si mesmo) e essa luz esforca-se por sair daquela prisao de linguagem do dia-a-dia a exigir um pensamento nada quotidiano.
Da terceira vez que reparo, ha um festival de luzes e todas vao dar as lentes dos oculos da mulher sentada dois lugares para a minha direita, que brinca com eles na mao.
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sábado, 25 de junho de 2005
Caderno da Escola, sem acentos nem cedilhas (3)
- O que da cruzar um mafioso com um desconstrucionista?
- "An incomprehensible offer" (usem o sotaque dos Sopranos, faxavor...)
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quarta-feira, 22 de junho de 2005
Caderno da Escola, sem acentos nem cedilhas (2)
A noite, mesmo depois de fechar as janelas, D. continuava a ouvir muito alto o barulho do ribeiro que passava em cascata ao lado da casa. Para conseguir adormecer, imaginou - com muita forca - que era o marulhar zangado numa praia do seu pais.
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segunda-feira, 20 de junho de 2005
Caderno da Escola, sem acentos nem cedilhas (1)
Quando chegaram a cidade, comecava o sol a baixar. As sombras das arvores e das casas ficavam compridas nos passeios e nos jardins das traseiras. Dai a nada, apareceria a lua e so lhe faltaria uma fatiazinha do lado esquerdo.
A residencial nao era nada do que estavam a espera e uma delas quis procurar um hotel para aquela noite. D. levou-a ate ao unico hotel da cidade e ficou no carro, enquanto ela regateava o quarto com a recepcionista. Deixou ligados o motor e as luzes - a sua frente via um outro automovel comprido, azul escuro. Ao fim de uns dez minutos, resolveu parar o motor e desligar as luzes. Foi pouco antes de o fazer que o homem saiu do carro da frente, que pensara que estivesse vazio, e comecou a olhar com ar interrogativo para o Chevrolet Impala cor de bronze. Quando o homem se aproximou, trancou as portas por dentro. Depois de ele dar umas passadas largas ate a traseira do carro, D. viu pelo retrovisor que o homem tirava do bolso da camisa duas esferograficas. Reparou nos suspensorios caidos, uma tira fina pendente de cada lado do tronco e, agora, num certo bambolear dos seus passos. O homem acenava para a placa da matricula, com as duas canetas na mao. Aproximou-se da janela do condutor. D. abriu uma fresta pequena, so o suficiente para nao lhe entregar o receio que, aquelas horas da noite, deveria sentir. Foi quando o homem, que entretanto baixara o tronco ate si, lhe estendeu a mao esquerda e, respondendo a um aceno de cabeca, lhe gritou com voz, apesar de tudo, simpatica, "WOULD YOU CARE FOR A PEN?"
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