terça-feira, 10 de janeiro de 2006

Moinhos na poesia (1)

A propósito de uma batalha com um amigo, o Reboliço teve a ideia de transcrever poemas em que encontrasse a palavra ou referências a "moinho": de vento, de água, literais ou metafóricos. Não os buscará. Se vierem ter com ele, deixa-os aqui nas Cartas.
O primeiro é um Neruda, achado numa belíssima antologia de poesia sobre cinema (imagine-se!), chamada - com justeza - O Bosque Sagrado.

ODE A UM CINEMA DE BAIRRO

Meu amor,
vamos
ao cinema de bairro

A noite transparente
gira
como um moinho
silencioso, elaborando
estrelas.
Tu e eu entramos
no cinema
do bairro, cheio de meninos
e aroma de maçãs.
São as antigas fitas
os sonhos já gastos,
na pantalha
da cor das pedras
ou das chuvas.
A bela prisioneira
do vilão
tem olhos de lagoa
e voz de cisne.
Correm
os mais vertiginosos
cavalos
da terra.

Os vaqueiros
perfuram
com os seus tiros
a perigosa lua
do Arizona
Com a alma
num fio
atravessamos
estes ciclones
de violência
a formidável
luta
dos espadachins na torre, certeiros como vespas
a avalanche emplumada
dos índios
abrindo um leque na pradaria.
Muitos dos rapazes
do bairro
adormeceram,
fatigados do dia na farmácia,
cansados de esfregar as cozinhas.

Nós
não, meu amor.
Tão pouco vamos perder
estes sonhos:
enquanto estivermos
vivos
faremos nossa
toda
a vida verdadeira.
Os sonhos também:
todos
os sonhos
sonharemos.