quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

6ª resposta

Ao desafio lançado aqui pelo Miguel Martins, respondi com o relato da leitura de O Estrangeiro, de Albert Camus (numa edição igual à que aparece na imagem com que o Miguel ilustrou o post).
Não me lembro de ter lido a primeira frase. Nem a segunda. Mas recordo com imagem vívida a sensação de não poder senão continuar a ler, do desconforto e da necessidade de ler. A primeira frase que sublinhei foi “Isto não quer dizer nada.” É a quarta, se contar como terceira a que inclui aquilo que um telegrama dizia (“‘Sua mãe falecida. Enterro amanhã. Sentidos pêsames.’”). Foi aí que parei, detida por este atirar para a insignificância a notícia da morte de uma mãe. Por aquele tempo, habitando um quarto interior no segundo andar de um apartamento antigo, suado lugar depois de ruas e demasiados degraus, no Alto do Pina, desatava quanto podia os nós que me prendiam à minha. De uma infância e juventude agarrada às suas saias negras (tão enlutada andou), passava a regrar o tempo entre telefonemas para os montes além do Tejo, muito depois da Serra do Caldeirão, onde a província era ainda, no começo dos noventa, um lugar de acesso demorado e duro – e não só por falta de moedas para o que na altura eram os telefones públicos. Fazia-me eu e os livros eram o que tornava inconsútil a junção daqueles dois retalhos, o da vida antiga e o da vida nova. 
“Isto não quer dizer nada.” Assim se oferecia (e eu, por aquele sublinhado, aceitava) anular o que estava para trás. Sem imaginar o que viesse daí por diante – no livro e nessa que em mim estava a criar, as palavras encontravam-me num quarto que o apartamento tinha cheio de sol às horas da tarde. Era um dia de semana, devia ter voltado das aulas. A casa estava vazia de quem habitualmente ali andava: como o meu quarto não tinha janelas para a rua, invadi aquele onde o sol entrava e de onde ouvia a zoada quieta da rua, vizinhas a falar de janela em janela, poucos automóveis, alguém a perseguir alguém em corrida, uma gargalhada do café da esquina, umas portas abaixo. O segundo andar permite esta distância e esta contiguidade. Seria Verão? O livro comprei-o pelo fim de Setembro – talvez fosse o começo de um Outono, quando as tardes são mornas, quantas vezes sem nuvens, e o ar seco faz propagar os sons como se estivessem ainda mais longe. Havia uma cadeira. Havia uma cadeira que instalei no meio do quarto – à medida que fui lendo, foi como se se fixasse mais ao chão, e as veias onde passava o meu sangue passassem a ser os veios da madeira onde me sentava, imóvel, as mãos nada mais que ramos ressequidos no vento do que imaginava da praia que lia, do quarto de hotel, da cela da prisão, passando as páginas, passando as páginas, passando as páginas.
“O facto de a sentença ter sido lida, não às cinco da tarde, mas às oito horas da noite” tirava à condenação tão grave a seriedade que Mersault esperava – na minha ideia, que a lera pelas cinco da tarde, a gravidade pesava-lhe séria. Às oito da noite talvez já me revolvesse entre a que deixava ir embora, quieta para sempre, conformada com a ordem e a familiaridade que até ali sentira à minha volta, e esta que chegava com o estrangeiro (“Quem é o estrangeiro?”, escrevi numa nota à margem), inquieta, daí para a frente insone, daí para diante refém de uma consciência de conhecer-me a me estranhar que cada letra naquelas folhas ia afiando.