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quinta-feira, 20 de abril de 2017

Moinhos na poesia (83)

...
com os profetas dando às costas e aos desertos
síria não perdeu a fome
os estrangeiros que vieram     fosse de onde fosse
foi para que os de cá enfunassem mais tarde as caravelas
deitassem ao vento os moinhos de quixote
as invasões soltaram os predadores
para seguirem     de cristo ao peito     o trilho das especiarias
sem as malhas prateadas dos guerreiros médios
ei-los
que foram ao saque
à conquista do pavor dos conquistados
autos das barcas se fizeram aos mares com ouros na volta
e dos reinados     dos senhores reinadios     ficaram os castelos
e o eco das heráldicas
dos ourives ainda se fala e dos ornatos de manuel nos pelourinhos
as calçadas desaguando em naus flutuando com primor
entre os guinchos de cordame e papagaios
...

Abel Neves, Úsnea, Averno, 2015, 57.

sábado, 7 de setembro de 2013

"dedicado às aves"

"E nesse dia dedicado às aves compreendi que é possível, se o quisermos, discriminar a Beleza e nela ficarmos a imaginar-lhe mistérios, e talvez até conhecê-los, sem esquecermos o que a rodeia. Aconteceu-me enquanto observei um cuco, mas sei que acontece a outros enquanto lêem, por exemplo, Kant."
(Corações Piegas, pp. 113-114)

domingo, 2 de junho de 2013

O Reboliço é um nefelibata (83)

[dedicado à AnneA]

não sei o que é uma aula de anatomia mesmo havendo uma
rapariga apaixonada que a descreva    mesmo pondo os olhos
n'a lição de anatomia do doutor nicolaes tulp de rembrandt com
os seus sete aprendizes mais o mestre e o digno cadáver cor de
luz estendido ali para a ciência e que ninguém olha    os que
estão presentes no quadro não olham    disputam outros sinais
mas cada dia é uma retoma da máquina que somos e apren-
demos com este livro    e neste horário e livres    uma vez    na
infância    num daqueles jogos imbecis com fisga    aos pardais
pude ver o pulsar do órgão motor de um pardal agonizante
entre o sangue e o lanho    até ali nunca me dera para julgar que
a anatomia estivesse tão próxima da teologia e nem isso logo
me ocorreu    foram necessários uns anos mais    um pas-
ar de nuvens    até compreender que o dissecar de um corpo
com bisturi é copiar para o papel um salmo
(Abel Neves, Quasi Stellar, Lisboa, Língua Morta, 2013, p. 60.)