quarta-feira, 21 de outubro de 2009

A Perdida

(Foto da Perdida no seu lugar favorito do quintal ao sol: Luísa Apolónia (ou Henrique?). Obrigada!)

    Que tinha morrido a Perdida. Havia já quase três semanas, e só agora soubera. "Houve choro um dia inteiro, e fizeram-lhe um funeral. Ficou enterrada no ferragial do tio Chico. A tia Mariana chorou que se fartou." Nada de espantar, pensou o Reboliço. A Perdida tinha sido encontrada muitos anos antes, atirada para um monte de lixo. Não era já bebé, mas era um cão pequeno e sem grande futuro. Foi o Henrique que a levou para dentro de casa. Passaram-se anos até ela deixar a tia chegar-se-lhe ao pé: só comia depois de não haver ninguém junto ao prato, e sempre com um olho a espreitar por cima do ombro curto. Depois de a tia ganhar a confiança da bicha, foram outros tantos anos até que alguém lhe pudesse tocar para uma festa. O Reboliço aproximava-se, fazia-lhe boquinhas doces, chamava o nome dela cheio de mel, mas, assim que passava o meio metro do seu limite, ela escapava-se. Ficava muito quieta, a olhar quem se aproximava, e media-lhe tudo: a altura, o passo, a voz, o cheiro.
    Quando alguém chegava à casa, entrado pela porta sempre aberta do casão, vinha a ladrar esganiçada desde o fundo do quintal, ladrava sem intervalo entre os latidos, quase num guincho de "Venham ver e digam-me se está bem que entre, que eu corpo não tenho para o impedir, mas a voz, ah!, a voz darei até morrer por esta casa que me acolheu." Quem era da casa ia entrando, indiferente ao tamanho da Perdida e ao aumento que lhe faziam no corpo os latidos. "Perdiiiiida...", diziam, sem sequer baixarem a cabeça nem desperdiçarem com ela mais do que o nome.
     Aos poucos, a Perdida habituou-se a reconhecer as visitas mais frequentes e as mais familiares. Ladrava-lhes ao som da chegada com uns latidos zangados e fortes, "Aqui não entrarão, não entrarão, que eu não deixo!", mas não tardava nada a chegar-lhe ao focinho o cheiro conhecido, que transformava a zanga num ladrar de boas-vindas: "Então, então, há que tempos que não se deixavam ver, como é que estão todos?" Da mudança na saudação até à confiança para ganhar festas já não distaram grandes meses. Hesitava em pôr-se quieta, a jeito para um coçar de lombo ou um afago entre as orelhas, as patinhas pequenas a pisar o chão como se ali estivesse um tapete de brasas. Ia cedendo, cedendo, até que se aquietava de um todo: já sem ladrar nem mexer muito, saía-lhe um meio ganido meio suspiro de gozo, que não vinha da boca, não vinha da garganta, não vinha de ponto nenhum exacto, mas era exalado pela cor de mel do pêlo curto. A cauda, não mais que um tocozinho no fim do fio do lombo, tremia de contentamento, enquanto as patas de trás quase vergavam e o corpo se queria derreter naquele minuto.
     Tinha os olhos mais ternos que o Reboliço já vira em cadela alguma. Na cor, eram um nadinha mais castanhos do que o pêlo - o que lhes dava a ternura, porém, não era o tom, mas a consciência da gratidão, e isso vinha-lhe com um saber largo que tinha sobre todos os seres, sobre tudo o que se passava à sua volta. O Reboliço lembra-se disto e ouve-lhe os passinhos, que já há alguns anos se aventuravam para fora do casão, para a rua, quando o dono saía. Ouve-lhe os passinhos e o ladrar a ecoar no casão. Lembra-se de uma vez - que lhe contaram - em que a Perdida salvou de se afogar num bidão de chapa um gato jovem e descuidado que andava pelos muros. O bidão estava encostado do lado de lá da porta do quintal, já depois da garagem, a caminho da horta e do galinheiro. Ali estava, enferrujado e enraizado no chão de terra, a aparar a água da chuva que serviria para regar as pequenezas: salsa, coentros, a hortelã e o poejo, e até os espinafres, que a dispensavam.
     No início do quintal, junto à porta da cozinha, o tio Chico e o pai conversavam. Havia os ruídos da aldeia: uma motorizada que passava na rua, um carro mais lançado, alguma vizinha que conversava com outra à sombra das paredes, nada de muito. Conversavam os dois homens em pé, de costas para a distante porta do quintal, quando a Perdida rompeu por ali numa berraria aflita que ainda sobrepunha mais os latidos uns aos outros. "Venham cá, venham cá, venham depressa, cá depressa, venham!" ia e vinha, a correr o quintal todo, e chegava-se aos homens mais aflita ainda. O tio Chico pôs-se a enxotá-la, "O raio da cadela, mas o que é que tu queres? Vai-te lá embora", e ela virava costas e fugia, lançada, para o lado da horta e do galinheiro; fugia só uns três ou quatro metros e estacava, o corpo de frente para lá, mas de focinho virado para os homens, a ladrar de novo: "Aqui! Venham comigo depressa!", ladrava. Eles, nada. Continuaram a conversa até que a insistência do bicho, por hábito sossegado, os fez estranhar e andar para onde ela com tanta aflição parecia chamá-los. Assim que percebeu neles o sentido de a seguirem, correu até à porta do quintal e pôs-se a ladrar encostada ao bidão da água da chuva, focinho empinado. Quando os homens chegaram lá perto, devagar, ainda a conversar, ouviram os miados do gato, miados ou ganidos, ou o que era aquele som agudo que a criatura fazia. O pai muniu-se de uma pá comprida que lá estava, não fosse o bicho, sôfrego pela vida, dar-lhe para arranhar. Mal o gato viu o pau da pá, patinhas para que as quis, agarrou-se a ele, safou-se de um salto e nunca mais ninguém lhe pôs a vista em cima. Os homens voltaram para o quintal e para a conversa. A Perdida ia a andar ao lado deles, já sossegada, com os quadris a fazer baloiçar o toco da cauda, de satisfeita, e, então sim, calmamente indiferente à sorte do felídeo.