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segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Requiem por Pelota

O Reboliço sabe: é da natureza dos bichos gatinos e caninos viverem, em regra, menos tempo que os bichos humanos. O mundo todo sabe isso. Mas não entra no coração dos humanos ver viajar os outros seres para as dimensões insensíveis. A Misha já viu seguirem duas boas amigas: quando se foi a Sasha, conseguiu alinhavar o texto que a Em Cena publicou, com desenho de Bruno Silva (consegue ler-se nas três imagens, em baixo). Agora, que abalou a Pelota, foi o Isaïes quem falou.

NO ERA SÓLO UN GATO, ERA PELOTA
Cuando nos deja algún animal con el que hemos compartido parte de nuestra vida, a veces escuchamos a gente que, quizá con buena intención, suelta comentarios tipo "pero si sólo era un gato", "mejor eso que si se hubiera muerto un familiar", o "menos problemas". Bueno, este tipo de frases son de una crueldad extrema. Pelota no era "sólo un gato". Tenía un nombre propio y una manera de ser. Era una entidad completa, única y maravillosa con la que he tenido la suerte de convivir durante más de catorce años y que ha dejado una huella indeleble en mi vida, alguien que estuvo a mi lado de manera incondicional cuando pasé por una depresión; que subía al sofá, a la cama, allá donde estuviera para darme cariño, para ronronear a mi lado y decirme que ella estaba allí, que todo estaba bien; un ser que venía a buscarme cuando yo escribía en el despacho y me tocaba el brazo con una patita para que le acariciara la cabeza (y juro que, al hacerlo, su mueca parecía la de una sonrisa). Alguien con quien compartí yogures (le volvían loca), quilómetros de viajes al Empordà o al Delta del Ebro cuando era más pequeñita, libros, películas, cada uno disfrutando a su manera (ella, por ejemplo, ronroneaba muy fuerte cuando le leía libros o poemas en voz alta). Alguien que dependió de mí cuando llegó a casa, un cachorrito de pocos meses, y que dependió de mí estas últimas semanas, cuando tuve que alimentarla manualmente, seis veces al día, a la espera de que volviera a comer por su cuenta. Por quien tuve que cancelar viajes y alterar planes, y lo volvería a hacer una y mil veces porque cuando Pelota venía donde yo estaba, me miraba de esa manera tan suya, con los ojos entrecerrados, y se ponía a ronronear, me estaba regalando algo bellísimo e incondicional: la confianza, el cariño más absoluto. Y nunca, nunca dejó de hacerlo. ¡Cuánta gratitud y cuánta constancia había en el amor de mi gata! Por supuesto que se me ha muerto un familiar, no me da vergüenza admitirlo, aunque este familiar sea felino, y no pienso mitigar mi dolor porque Pelota no fuera humana. Me va a costar tiempo y muchas lágrimas acostumbrarme a no volverla a ver nunca más. A incorporarla como parte viva de mí y de mi historia sin que duela. Mi querido Jaime escribió, en unas páginas inolvidables sobre la muerte de su compañero felino Mr. O'Donnell: "los gatos son, quizás, entidades demasiado metafísicas como para necesitar creer en la idea de un más allá"*. Pelota era en sí misma un principio y un fin, era la vida entera y fue también su punto final. Se durmió con la cabecita apoyada en la palma de mi mano, sin sufrir. Diciéndome, como siempre, que todo estaba bien. Diciéndome gracias, diciéndome hasta siempre. Y sin ella mi vida ya no volverá a ser la misma. La foto es una de las últimas que tomé de Misha y Pelota juntas. Pelo, que se sabía cuidada y protegida, es la que sonríe. Y Misha mira como me está observando justo ahora que escribo esto: como diciéndome "no te preocupes, yo todavía estoy aquí, yo sigo contigo, como siempre".
*Jaime Manrique, Latin Moon in Manhattan




domingo, 15 de julho de 2018

("Pass on")


(Imagem publicada no Twitter @Wordsworthians [ou, The Romanticism Blog], do monumento a Boatswain, cão de Lord Byron. O Reboliço lê as palavras de John Hobhouse, amigo de Byron, a encimar os versos do poeta inglês: "Perto deste lugar jazem os Restos daquele que possuiu Beleza sem Vaidade, Força sem Insolência, Coragem sem Ferocidade, e todas as virtudes Humanas sem os Humanos Vícios. Este louvor, lisonja inexpressiva se fosse dedicado a humanas Cinzas, é só um tributo de justiça à Memória de BOATSWAIN, um CÃO que nasceu em Newfoundland em Maio de 1803 e morreu em Newstead a 18 de Novembro de 1808."
O pobre bicho morreu de raiva; o dono cuidou dele até ao finamento, sem qualquer receio de contágio. A lápide legenda o túmulo que, ao que consta, é maior do que a sepultura do próprio Byron.)

When some proud Son of Man returns to Earth,
Unknown to Glory, but upheld by Birth,
The sculptor’s art exhausts the pomp of woe,
And storied urns record who rests below.
When all is done, upon the Tomb is seen,
Not what he was, but what he should have been.
But the poor Dog, in life the firmest friend,
The first to welcome, foremost to defend,
Whose honest heart is still his Master’s own,
Who labours, fights, lives, breathes for him alone,
Unhonoured falls, unnoticed all his worth,
Denied in heaven the Soul he held on earth –
While man, vain insect! hopes to be forgiven,
And claims himself a sole exclusive heaven.
Oh man! thou feeble tenant of an hour,
Debased by slavery, or corrupt by power –
Who knows thee well, must quit thee with disgust,
Degraded mass of animated dust!
Thy love is lust, thy friendship all a cheat,
Thy tongue hypocrisy, thy heart deceit!
By nature vile, ennobled but by name,
Each kindred brute might bid thee blush for shame.
Ye, who behold perchance this simple urn,
Pass on – it honours none you wish to mourn.
To mark a friend’s remains these stones arise;
I never knew but one -- and here he lies.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

A filha-gata

(Foto da Perdida com a filha-gata no quintal: Prima Luísa, à pressa, à pressa, depois de o Tio Chico, seu pai, a ter chamado, "Anda cá ver isto, a gatinha mamando na Perdida." O Tio explica hoje: "Já não a apanhou a mamar, mas foi um instante de nada, entre a gatinha largar a mama e a Luísa fazer o retrato: não vês a posição dos bichos?" A Perdida era, como já se disse aqui, um bicho muito particular. Um dia, uma gata teve por ali crias e ela perfilhou-lhe uma: teve leite e tudo. Em chegando por lá o Isidro, que era visita regular e dado à brincadeira, metia-se com ela: "Eu levo-ta, Perdida. Fico-te com a gatinha." Parecia que o entendia, aquela mãe. Ficava possuída, ladrava-lhe com uma fúria que ninguém lhe conhecia e mordia-lhe os canos das botas altas, rosnando, enquanto ele avançava e ria, está claro. [Depois da morte da Perdida, foi o Isidro quem lhe recolheu a filhota.])

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

(Cada vez que contamos uma história esquecemo-la mais e mais.)

Em 1925, Mikhail Bulgakov escreveu uma novela alegórica chamada Coração de Cão. (Só viria a ser publicada em 1987, e em Portugal teve, pelo menos, três edições - a primeira, nos Estúdios Cor, sem data de publicação, mas certamente anterior a 87 e feita, provavelmente, a partir de uma versão que circulava clandestina; as mais recentes na Vega, em 2008 e na Alethêia, em 2014.) A história de Bulgakov tem pouco a ver com o filme de Laurie Anderson, mas os títulos coincidem e a realizadora faz, nisso, mais uma remissão a uma constelação de obras que iluminam o céu canino do filme. Onde o perfeito texto de Bulgakov é satírico, dorido de denúncia, de comunidade, dá o olhar de Anderson uma visão privada, íntima e doce. É um filme sobre contar histórias, ao passo que o livro de Bulgakov é uma das muitas histórias que podem ser contadas.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

MaNi

O MaNi chegou há uns dias, desmamado cedo, os olhinhos ainda como ensonados, pequeno o tempero da alma, vagus blandus animal - da raça do Sorna, mas pêlo ao contrário: mormente escuro e marcado, sobre os olhos, castanho melaço; o colar, extremo de patas e ponta da cauda caídos em balde de cal e a ponta do focinho como quem permanentemente roubasse a nata fresca do prato do leite. Anda a farejar tudo o que é formiga à volta da casa; rói as ervas como se fossem os mais saborosos ossos, o mais apetecível biscoito. Cheira os cheiros da Luca, do Sorna, do Petaner e dos vizinhos caninos todos. Porque não cabe em si é que cresce um bocadinho cada hora. O Reboliço olha-o, desconfiado do que virá a ser aquela forma patuda e ansioso por ver-lhe o porte mais imponente e poder, por fim, fazer-se entender. Olá, sou o Reboliço. Diz-me: o que pensas fazer da vida?

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Luca (14/11/2004-8/12/2015)

(Foto, re-publicada: Reboliço há uns anos bons, no Poço Novo, a lembrar o Sorna e a Luca, que foi ontem ter com ele ao céu dos cães. Boas viagens, queridos, queridos amigos.)

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Valente

(Foto da Luca, com um pedaço de orelha, dois dentes e muitos caracóis a menos: Mana. O Reboliço pensa que, porque defendeu a casa e se sentiu bem ao pisar de novo aquele chão, o orgulho da Luca lhe deve estar inteiro.)

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Os cães, ai, os cães

O Reboliço está em oração pela Luquinha. A bicha, que é um nico de pessoa mas é cão à mesma e deve ser filha de boa gente, sentiu-se, ontem de madrugada, e reagiu à invasão territorial de dois mastins vizinhos. Desacompanhada, que já não há Sorna para ladrar nem Petaner para ganir, foi parar ao hospital com as mazelas naturalmente decorrentes do confronto. Há-de recompor-se, espera-se. A reza é, também, à Nossa Senhora de Fátima Guerreiro.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Entrada de diário

É dia 13 de outubro, ia escrever o Reboliço, com consciência forte de ser agosto, de estar calor, de ser Verão. Mas a palavra seria outubro, é como é. Nada no que o levava a escrever teria relação com o que o faz andar, uma patinha à frente da outra, quando não se trocam e o empurram para o chão. Ia escrever que é 13 de outubro, que muitos dias já o separavam do que tinha escrito em último, mais recente lugar, mas não é outubro e não há tantos dias assim que escreveu. Faltou foi dizer tudo o que sucedeu entre o que por mais recente publicou nas Cartas e o que agora quer descrever. Um pássaro nasceu, dentro da gaiola onde habita, penado de branco, com o pai canário e mãe canária (na varanda da casa, porém, mora encostado ao muro um ovo de tamanho médio, será de pombo de rua, enjeitado por algum que ali o deixou; nem uma fenda possui e está sobre chão rijo, encostado a rijo muro). Isto foi o que sucedeu: nasceu um pássaro e houve quatro - três que seriam canários e um que talvez pombo - os quais não.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

"O Cão Através dos Tempos" (na Cão Celeste nº 4)

Eu tive dois cães na vida. Um chamava-se Carolina, era uma gata. A Carolina foi lá para casa mais ou menos pequena, era cachorrinha, mas já muito sabida. Siamesa de rabo torcido e curto, a cor do pêlo a variar entre o bege e o cinza clarinho, com as pontas das orelhas e das patas, o focinho e uma que outra tonalidade - não se poderia dizer mancha - a escurecer. Era, já disse ali, muito sabida. Ia aprendendo, ladina de rápida, e ensinava logo. Ou mostrava que aprendia. Sabia bem, por exemplo, o que queria - de comer, de lugar onde estar, de clima do dia. E sabia que muitas das coisas que queria eram mais ferozes do que a sua inteligência. Acasalar. Era a bruteza que mal aceitava: o que sofria no querer não tinha descrição: uivos ouvidos do sexto andar para a rua, nas ruas de trás, e facilmente ganhava aos gatos da vizinhança. Acasalou, se não me engano, duas vezes. De incesto, com um avô, ou tio-avô, ou trisavô, tanto se lhe dava, desde que fosse gato macho como ela não era. Uma dor só, o querer, ficava só dor com o não querer, que de igual ferocidade eram os gritos do acto. Nada fez entender nunca, aos dois machos com que acasalou, e pelo ar confundido que ganhavam, que o rigoroso cumprimento daquela vontade (que em rigor a cumpriam, e mais não lhes chegava ela a pedir-lhes) não servisse o fim do sofrimento mas o aguçasse. Cadelas... As bogas demasiado quentes. Que as queria, bastava uma fervura para amaciar a carne e lhes ferrar o dente. “Espera, não sejas sôfrega, Carolina,” nada. Aquilo devia andar um ou dois dias com dor no queimado céu da boca, mas era o céu que ganhava com as bogas quentes. A janela. Mas a janela nunca a enganou, ali sempre se controlava e vencia a vertigem do lançar-se. Horas, de horas a fio do lado de dentro, se era Inverno, a língua mínima a varrer cada quadrante de pêlo curto, cada pele nua entre os dedos almofadados, o rosa da língua e o rosa da pele, o sonzinho de raspar ao de leve a ouvir-se quase amplificado pelo vidro. Ou do lado de fora, entre os poucos vasos da varanda, se fazia mais calor, a cabeça através das grades de ferro, focinho perpendicular à rua pequenina, que via, com a curiosidade a fazer-lhe mover cabeça e mais nada, lá em baixo. Queria a janela, a Carolina, e tinha-a, e dia após dia a gozava como ninguém.

O outro era o Sorna. O Sorna fez transformações. Mudou a mãe de uma pessoa para outra. Chamou-a, do canto do quintal onde dormitava, enquanto os irmãos de ninhada brincavam, reboludos, caudazinhas espetadas de ter nascido e querer sondar com as anteninhas tudo. O Sorna não. O mundo todo de que precisava estava no espaço do seu ser, pêlo branco, definidas manchas cor do mel que se lhe derramava dos olhos. Chamou a mãe e a mãe trouxe-o lá para casa. Foi pequeno pouco tempo: os sete ou oito meses de o criarmos para lhe fixar a afeição. “Anda, Sorna.” Qual saltos, saltinhos, agarrar de trela. Era nas calmas. Assim que se achava na rua, se dava uma corrida, era a trote baixo. “Podem mudar-lhe o nome, a gente é que lhe pôs Sorna, que ele mal se mexe.” Muda nada. “Anda, Sorna.” Nunca percebeu para que foi isto de estar aqui. Sair, sim, saía. Saía mais se o deixassem preso muito tempo. Se o prendessem, queria sair. Estando solto, dava a sua voltinha, e isso, nada mais. Encostava-se. O gozo de se rebolar na terra vermelha, depois de lhe darem banho? Ah, sim. Era. Ou não. As trombadinhas que, do corpanzil em que se tornara, mandavam a mãe ou a mim ao chão, deixavam nódoas negras do amor doméstico dele. Também. Talvez. O Parafuso, contingente da essência que foi multiplicar-se aquele seu ser. Isso seria. O mel dos olhos do Sorna só dizia “Estou aqui. Deixa-te ficar, não precisamos de fazer grandes corridas.”

Tive dois cães, que foram como um cão de vida única, colada aos outros cães todos que moram no universo do mundo. O Sorna, que era um cão, e a gata Carolina.

(Escrito em 2 de Setembro de 2013 - altura, mais dia, menos dia, do desaparecimento último do Sorna - para a Cão Celeste nº 4, onde veio a ser publicado com ilustrações magníficas de Bárbara Assis Pacheco.
Republicado aqui por ocasião do lançamento do nº 5 da Cão Celeste.)

domingo, 8 de junho de 2014

"Que tudo isto sabereis serenamente"

Tiens. Em língua de rafeiro, tanto faz escrever francês ou português. Uma exclamação é uma exclamação - e uma exclamação com ponto final mostra a surpresa sempre esperada. Tiens, minha linda, a morte, como ensina o mestre dela, "é de todos e virá". Veio à Orlando e quase de certezinha passou e levou com ela o Petaner. O Petaner... cão cardiaque, cão cardiaque. Ãu. Mião.

sábado, 29 de março de 2014

Nove anos, nove

Fez nove anos agora que se escreveu a primeira destas cartas. Por estes dias, o Reboliço anda a dormir mais do que é costume - as mais das vezes, para se esquecer da chuva. Se fareja o ar, fareja a terra, medita e quer fixar uma frase ou uma memória, vem num instante um atropelo que o sossega e não dá fim do que no pensamento começara. Já se viu, com isso, arreliado. Mas ladra a caravana das frases perdidas e o Reboliço, despreocupado, há nove anos que passa.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Uma cozinha com sol

O Reboliço olha para o chão da cozinha da tia Patrocínia, a farejar. Mosaicos hidráulicos, como se vê de moda nalguns lugares e ali sempre foram chão. Aqueles três ou quatro, com as mesmas, velhas fendas a atravessá-los, quase alfabeto passeado de formigas umas vezes, e a fazê-los fazer o que debaixo dos pés era ruído que avisava lá dentro que alguém entrava. Balançavam, um tudo nada, os fendidos, debaixo dos pés, com o som. A porta, descaída, de igual maneira alertava - os de dentro e o gato grande, que andava nos telhados e se apressava a espreitar, se a tia saía da cozinha para a varanda cheia de sol. Não esperava comida; só a conversa dela, a perguntar-lhe pelos donos, pelos pombos que ele incomodava, pelas passeatas entre escadas de incêndio e corrimãos. Lembra-se disso e perscruta o quadrado que formam aquelas traseiras de prédios, com um meio de clarabóias (a iluminar a garagem oficina, lá em baixo) e franja, em frente, de árvores frondosas. Lembra-se e procura o gato - que não está, se não se mostra. Lembra-se, de patinhas fincadas no chão ensolarado e o focinho a apontar para o grande cão branco, do prédio em frente, que assestou, há dias, no canto da sua escada e lhe diz agora, num silêncio duro, resignado e meigo: "Escusas, Reboliço, de estar aí. Também a espero há dias e já percebi que não há mais."

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

O núcleo caudado

O Reboliço, que é um cão muito observador e leitor, nunca se submeteu a um teste de ressonância magnética. Não é que não seja capaz de ficar longos minutos sentado, em sossego, de orelhas tapadas e a ser digitalizado, milímetro a milímetro, por uma máquina. Nunca calhou, nunca precisou. Capaz de nunca vir a precisar. Se acontecesse, haveria de ser engraçado ver como reagiriam os senhores cientistas das maquinais experiências. Que os cães são também pessoas. Pois sim. Tudo é também pessoas. Ou cães. Concentradinhos nos seus caudados núcleos - ou, em linguagem canina, as caudas, as caudas.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Pó de pedrinhas


O Reboliço observa a azáfama e sorri: limpar o moinho é ter trabalho de Sísifo. Desde que o moleiro se foi, quem trata do trigo no moinho são os pássaros, o vento e as aranhas. Não se preocupam em moê-lo, e mais usam folha do que grão. A ventania e as aves carregam-no, dão-lhe entrada pelas frestas, pelas frinchas. As aranhas prendem nas teias a palha das espigas, os mais levezinhos troncos secos, amarelados que se encostam à finura força transparente e lúcida. Cada buraco entre a madeira, no piso de topo, é um apartamento forrado - os pardelhos fazem ali vida e criação, protegidos das rajadas, do frio e da calma quente pela parede caiada, pedra antiga e reboco. Não há recantinho redondo que lhes não seja morada, fofo e ameno. Igual as aranhas, menos esquisitas na escolha do poiso. Em tudo ligam, liam, atam, tecem. Entra pela porta um homem, nem cinco dias de serem limpas as teaças já lá estão de novo, a entaramelarem-se pelo rosto e pelos cabelos, finas, lúcidas, transparentes. São cartões das aranhas para as visitas: esta é a nossa casa; entrem, fiquem à vontade.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

O Reboliço pensa: "Haverá alguma ligação entre a imagem da explosão de Hiroshima na capa de um jornal de ontem, a ilustrar uma referência ao discurso do senhor mui excelente presidente desta res publica, e a citação meteórico-metafórica, por uma excelentíssima senhora, de outra, existencialíssima, que na origem se referia a vítimas e carrascos do Holocausto?" Pensou, pensou, pensou, ficou com o pequenino cérebro todo aos nozinhos, deu meia volta, deu mais volta inteira, e deitou o lombo na pedra fresca e ainda orvalhada do poial.

domingo, 21 de abril de 2013

O Reboliço e a Luca pousam no parapeito da varanda as patas da frente. Deixaram a cozinha aos latidos dos três cães dos quintais vizinhos e à guincharia de gatos e folhagem maltratada, foram testemunhar.
- Pois se o Janeiro já passou, Luca.
- Digo-te que aquilo é arrufo de gato e gata. Quase em nada se matavam, tu não viste?
- Bem os ouvi. Mas era luta de rivais.
- Ateimo que não, Reboliço: ouves como este mia de choro? É gata ou gato com cio, que o outro, nem meia. - O gato que ficou estira-se sobre um muro, parece dolorido, não cessa o lamento. Espaça cada miado com o cerrar dos olhos, alongar de focinho e agitar de orelhas. A cauda, para um lado, para o outro, denuncia a ira que o choro quer disfarçar.
Vai-se acalmando a selva das traseiras dos prédios. Entre as folhas altas da couve, os jarros balançam pouco; os cataventos de plástico, são cinco, que o vizinho dispôs, nos extremos de cinco canas, ao longo do quintal do rés-do-chão, rodam devagar, todos no passo igual e lento ao ar morno da tarde.

domingo, 14 de abril de 2013

Um saco de lã

(O Reboliço olhou para a imagem e pensou: "Estou a olhar para um saco cheio de lã por cardar." Chegou à cozinha, sentiu o cheiro da lã, o cheiro hidratado da lã, e avançou até de onde o sentia. Tem o corpo baixo, precisou de subir o focinho e de baixar, com ele, o rebordo do saco. Espirrou uma vez, outra e terceira, depois de ter inspirado para farejar. Bastaram-lhe os três espirros. Regressou. Com uma das patinhas da frente baixou mais o rebordo e sacou para fora uma nuvem. Ficou o dia todo a olhar, a mexer-lhe, a cheirá-la, a brincar com ela. Sentada na cadeira pequenina, por baixo da janela por onde o sol entra, a mãe jogava a mão ao saco, puxava, mas para cima, para o colo, pedaços de lã, que ia abrindo com os dedos todos para fazer das mancheias grossas fiapos fininhos, sem impurezas, quase diáfanos. Depois dava-os à fronha de linho, aberta ao lado, que haveria de fechar para formar uma almofada. Foto das nuvens no céu: @macguffinevora. Obrigada.)

terça-feira, 12 de março de 2013

Uma fartura

- Então, esses poemas escreveu ela quando se separou?
- Pois foi, Luca. Mas uma separação é o menos. O bom foi ela ter escrito, e tão bem, a propósito disso. As palavras é que são o mais importante.
- Olha, eu sei. O Mestre Zé Cercas também faz assim.
- Quem?
- Sim, diz que tem uma casa muito farta. Diz "Eu estou farto da minha Maria e a minha Maria está farta de mim." É a mesma coisa.

sábado, 2 de março de 2013

Um gato londrino

O Reboliço acorda a meio da noite, na casa estranha que o acolhe. Desce as escadas (são escadas de madeira velha, corrimãos de madeira velha, e pisa com cuidado para evitar o ranger das tábuas, aqui sim, aqui - ui!, não; aqui mal se ouve, sim) até à cozinha, os olhos fixados no jarro do chá, na água que consolará pele, órgãos, pêlo, tudo desidratado pela ferocidade das máquinas de fazer e de manter calor. Mas no vidro da janela chama-lhe a atenção uma mancha silhueta, redonda grande em baixo, redonda menor em cima: um gato. Está do lado de fora, encostado ao vidro, empurrado contra a superfície aquecida do vidro, colado à transparência quente da janela. O Reboliço estaca, mira, as orelhas subidas, suspende a pata da frente, baixa-a devagarinho, mais cautela ainda do que nas escadas, um olho no gato o outro no jarro, a sede, o temor, a misericórdia. Se se mexe, ruído para a casa, susto para o gato - a noite arrefece. Se não se mexe, ah, a sede - mexe-se, então. Mexe-se a mancha peluda também, a silhueta alaranjada, um Garfield vadio, gordo e de rua, no tempo igual se mexe, mais astuto. O medo é dele, o frio para ele, a noite é à sua volta que se alarga. Mas é o Reboliço que, antes de chegar ao jarro, ao chá, à saciedade, patinha, patinha, patinha, se achega à janela, pousa as patas da frente sobre as costas da cadeira e toca com o focinho do lado de dentro do vidro, os olhos entristecidos pela fuga do gato e cegos sobre o escuro do jardim - "Não tinhas de ir. Não fiz de propósito." (Ouve, no pensamento, a história do escorpião e do sapo: "It's in our nature.")