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domingo, 7 de julho de 2013

Da tradução

UMA VEZ QUE AS CRÓNICAS COLONIAIS ASSEVERAM QUE OS CONTRABANDISTAS FORAM OS VERDADEIROS FUNDADORES DESTA NAÇÃO

– «Cidadania nas favelas e nos guetos».
– Mais le projet a été rejeté?*
– Sim, pois a comissão da pós não vê
relação do Direito com o objeto.

– Pourquoi? Les habitants n'on pas de droits?
Il serait donc encore plus relevant!**
– Pois acharam minha pesquisa vã.
Os doutores não quiseram perdoar

a irrelevância de meu estudo.
– Pensent-ils que le problème est fini?***
– Eis o que pensam, não me iludo:

se fora da lei, não está no mundo.
– Viens avec moi.**** – Pra que sair daqui?
– Rechercher où est possible ton pays.*****


*  «Mais lê o projeto, tem verão rejeitado?» – O estrangeiro afirma não querer fazer a pesquisa científica nas férias de verão (quanto mais estudar, mais rejeitará a diversão), ao contrário da pesquisadora brasileira.
**  «Para quê? Os habitantes têm passos de direitos? Ele seria dom, âncora mais relevo!» – A pesquisa, afirma o estrangeiro, não teria muita utilidade, eis que os brasileiros já seriam cônscios de seus direitos, personificando em si mesmos o senso de dever. A exceção seriam as zonas costeiras, de relevo mais acidentado, talvez (o texto é obscuro neste ponto) devido ao maior contato com os estrangeiros.
***  «Pesam eles que o problema é fino?» – A questão era muito fina, de pouco peso. Por isso a comissão de pós-graduação rejeitou o projeto da pesquisadora, que era individual, portanto individualista, enfim burguês.
****  «Viena aveia mói» – O atraso do continente europeu evidencia-se no comportamento vienense ruralista de retaguarda, em nítido contraste com as políticas desenvolvimentistas de nosso país.
*****  «Procurar ou é possível teu pai.» – Ponto enigmático do texto. Talvez o estrangeiro seja realmente o pai da pesquisadora, razão pela qual ele não deseja que ela vá à Europa, onde ele seria responsabilizado judicialmente pela paternidade!

(Pádua Fernandes, in Telhados de Vidro n.º 18, Maio de 2013, pp. 88-89.)

domingo, 11 de novembro de 2012

(Post dedicado)

Uns versinho bem ingeno
Vamos agora estudar,
Não dão tese de poética,
Só cultura popular,
Ou seja, matéria inculta,
Bacharel quer Bachelard,
E sem Lacan, nem lá com
Derrida, vão nos negar
A teorética das bolsas
De estudo da capitar!
Só pra ver luta de classes
Com monóculo de Marx
É que servem as estrofe
Deste rasteiro arraiá,
Uns versinho sem ingenho,
É o que pode rascunhá
O povo plebe proleta
Sem nós, os intelectuá,
- O reitor vai tomar posse!
Vamos todos se apressar,
Nossa pesquisa científica
Será discurso copiá,
Deixe o poeta com nome
De passarinho banar:
Quando ele voa, não canta,
Se canta, deixa de voar.

(Patativa do Assaré diz que não faz verso, mas escreve na mente)

(o vôo canta sem voz)

(os ingênuos querem o engenho; os gênios esqueceram-no)

(na terra cultiva o vôo de pisá-la)

(mais que a virtude dos pássaros
e mais que o alado pesar:
quando lhe tiram o céu,
voa o vôo de cantar)

poesia não faz verso, escreve na mente

(Pádua Fernandes, que o leu aqui, aos 4'19''.
O palco e o mundo, Lisboa, & etc, 2002, pp. 41-42.)