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domingo, 1 de janeiro de 2012

Gado de lana caprina

"Versos a uma cabrinha que eu tive"

Com seu focinho húmido
Esta cabrinha colhe
Qualquer sinal de noite
De que a erva se molhe.

Daquela flor pendente
Pra que seu passo apela
Parece que a semente
É o badalinho dela.

Sua pelerina escura
Vela-a da noite sentida;
Tem cada pêlo uma gota,
Com passos, poeira, vida.

De silêncio, silvas, fome,
Compõe nos úberes cheios
Toda a razão do seu nome
E fruto de seus passeios.

Assim já marcha grave
Como os navios entrando,
Pesada dos pensamentos
Da sua vida suave.

E enfim, no puro penedo
De seus casquinhos tocado,
Está como o ovo e a ave:
Grande segredo
Equilibrado.
(Vitorino Nemésio, a lembrar o "Poema da cabra",
de João Cabral de Melo Neto. Ao pai da Gracinha. Obrigada, C.)

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Moinhos na poesia (21)


CANTIGAS À MINHA VIOLA

Minha viola de luxo,
Minha enxada de cantar,
Meu instrumento de fogo,
Caixinha do meu chorar!

Viola, bordão de prata,
Vida violeta, violeta...
Prima, coração que mata,
Poeta! Poeta! Poeta!

No florão da minha viola
Pus uma tira de espelho
Para ver, de quando em quando,
Se estou novo se estou velho.

Ó viola encordoada
Com quinze cravos de aposta,
Minha pêra acinturada ,
Minha maçã da Bemposta!

Quando te toco nas cordas,
À boca do coração,
Vou-me sangrando em saúde
Que nem sumo de limão.

Tens os pontos doiradinhos
Tens os espaços de luto,
Cada prima é uma flor,
Cada cravelha é um fruto.

Pendurada a tiracolo
No teu cordão cor de vinho,
És o meu saco de cego,
O meu burro e o meu moinho.

Meu amor, deixa falar!
Dorme, não percas a esperança,
Morta, na minha viola,
Serás sempre uma criança.

Que seis meninas de arame
É que te levam à campa,
Com seis florinhas de pau
Espetadinhas na tampa.

E o limão, a violeta,
A madrepérola, o espelhinho,
Hão-de te servir de terra
E de mortalha de linho.

 (Vitorino Nemésio, Festa Redonda, 1950. 
Ouvido na voz de Joaquim Manuel Magalhães.)

domingo, 25 de maio de 2008

Moinhos na poesia (12)

............................2.

De Rembrandt a Van Gogh a tinta és tu
Em rosa de bateira e sol de vinho.
O tempo fez-se-me fome,
Mas levantas os braços - e é o moinho.

Como a corça na Haia plo rebento
E a ponte levadiça,
Vais em maneira, amor e movimento,
Vela da tarde, dique do meu sangue:
Afinal só um pouco de mulher
Que a palavra detém e águas cultivam.

Graça do vento em céus inesperados,
Gaivota és para mim que nasci delas;
No milagre de sermos encontrados
Já de Amesterdão são nossas as janelas.

Taça a taça trocámos anéis áureos
De vinho português sobre holandilha:
Quem via - como saber
Se era braço de noivo ou mão de filha?

Mas sempre tinta à tarde! Eras a Lua
Que em foice adestra os calmos céus dos pôlders:
Eu ceifava a manhã nos teus cabelos,
Contava-os um a um,canal abaixo,
E, deitado nos verbos que te evocam,
Feliz com um pintor que vende pouco,
Era holandês por ti...

Que, bem pensando,
O que eu cá sou, céus de Van Gogh, é louco!
29.1.1963

(Vitorino Nemésio, "Andamento Holandês", Obras Completas, Vol. II - Poesia, INCM, Lisboa, 1989, pp. 378-379.)