sexta-feira, 20 de janeiro de 2006

A primeira vez que o Reboliço foi sozinho à casa de banho, à noite, na aldeia.

A casa da aldeia da mãe tinha a casa de banho no quintal. O quarto onde dormia o Reboliço era o mais distante da porta do quintal, ao fundo do corredor comprido. Uma noite, quis ir à casa de banho. Era inverno e a casa estava em silêncio. A aldeia toda estava em silêncio. Levantou-se devagarinho da cama, com cuidado para não acordar a mana, e enfiou as patinhas nos chinelos frios. Cerrou os dentes com medo do barulho, quando o trinco da porta chiou. Fora do quarto, o corredor estava iluminado pela luz da lua, que entrava através das telhas de vidro. Uns passos adiante, ouvia o resto do fogo a crepitar, já só brasas. Eram uns estalidos abafados, mas naquele silêncio ouviam-se como foguetes que rebentassem. O Reboliço seguiu - e, quanto mais devagar seguiam as patinhas, mais depressa lhe fugia o coração. Quando chegou à segunda metade do corredor, depois da cozinha, parou em frente ao quarto do avô. Naquele quarto quase nunca entrava: havia um certo resguardo pelo espaço onde se lembrava vagamente da avó, que morrera havia poucos anos. No lado oposto do corredor, ficava o quarto dos pais. Não queria, por nada, que acordassem. Talvez por querer provar que conseguia ir sozinho, ou talvez porque durante o dia fizera alguma traquinice e não se sentia no direito de pedir que o acompanhassem. Teria de ir sozinho, não poderia ser de outra maneira.
Chegou-se à porta grande de madeira grossa e correu o ferrolho pesado, mais os gatos de cima e os de baixo. O ruído dos ferros nos ferros fazia eco pelo corredor vazio e parecia-lhe o desmoronar de montanhas cheias de pedras e metal. Fazia um gesto de cada vez, para deixar que o silêncio se interpusesse e acalmasse aquela zanga de ferros. O coração batia-lhe mais depressa, mais depressa, mais depressa a cada pequeno e maior ruído. Quando deu aberta a porta, escapuliu-se num segundo para o outro lado - e estacou.
O silêncio era aquilo tudo: a noite de céu cinzento escuro, as estrelas de brilho esbatido, ofuscadas pelo halo da lua. As árvores tinham folhas quase verde-escuras, mas ainda no negro. Não se ouvia um animal, ninguém, nem um bulir de vento. O Reboliço ficou contaminado pela imobilidade e pela ausência de ruídos. Depois de um tempo estendido, o sinal do seu corpo relembrou-lhe a razão por que estava ali: entrou na casinha, aliviou-se e voltou para dentro da casa. De novo lá dentro, correu em bicos de patas para o quarto, entrou, fechou atrás de si a porta e saltou, num salto mudo, para dentro dos lençóis. A mana respirava ao seu lado, o mano na cama pequena. Não conseguiu fechar os olhos e fitou a telha de vidro, por cima de onde só imaginava a lua. Em vez de acalmar, o coração excitava-se, entre duvidoso ainda e feliz com a descoberta que fizera: não estava lá fora nenhum papão!