sábado, 31 de março de 2012

Morro

O Reboliço vai e volta. O Rio tem prédios novos, zonas higienizadas, novas comunidades, que agora favelas já não se diz. Tem teleférico novo, no Morro do Adeus, na Fazendinha e no Morro do Alemão; tem prédio novo e meninos antigos a fazer malabarismos entre o pára-choques do carro da frente e o pára-choques do carro de trás, enquanto abre e não abre o sinal, dois verdes limões que parecem três, sobe e desce nas mãos, sobe e desce nas mãos, sobe e desce nas mãos do menino. O Rio, como canta o samba de 1988, "livre do açoite da senzala, preso na miséria da favela", que já não se diz favela, agora. O Rio vira, vai, muito rápido, tão histérico que buzina buzina, que ultrapassa a milímetros só do choque, como não se morre mais nesta cidade? "Aí, mas se morre! (Não olhe agora não, teve um acidente feio do outro lado.)" Olha, sim, Reboliço - mas olha para o lado da Lagoa, descansa os olhos na água lenta que os remos revoltam só tão pouco, que os morros vigiam e os prédios não desfeiam, a Lagoa que é a deságua daquelas ondas na noite da Atlântica, muito altas a mostrar a espuma e o táxi a correr a correr, como é possível, Reboliço, duas da manhã e o táxi corre como se fosse só ele na estrada, e cada um como se fosse só ele e são milhares, milhares, se parar o bicho pega, se pegar o bicho mata, como é possível que não se morra mais nesta cidade de morros? "Aí, mas se morre!"