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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

PRESÉPIO TRADICIONAL DA NAZARÉ

Porque o amanhã já começou.
Veio com um telefonema,
sem deixar dormir a véspera
ou sonhar uma espera diferente.

Instalou-se de costas para nós,
mais o seu cortejo de sintomas:
pastoras de rigoroso negro
como velas apagadas,
um pouco de sangue no nariz,
mãos afinal iguais, vazias.

Já não sobra tempo, no meu corpo,
para outra vida. Mas se lhe forçassem
uma canção de embalar, seria apenas
o arco exacto entre o cemitério cobiçado
pelas ondas e a beleza desamparada
de um penhasco a desmoronar-se
eternamente sobre o mar. E eu no fundo.

("This is the reason why I affirm that Kurtz was a remarkable man. He had something to say. He said it. Since I had peeped over the edge myself, I understand better the meaning of his stare, that could not see the flame of the candle, but was wide enough to embrace the whole universe, piercing enough to penetrate all the hearts that beat in the darkness." Joseph Conrad, Heart of Darkness, 1899.)

sábado, 24 de setembro de 2011

"aquela mistura de absurdos, surpresa e perplexidade, num tremor de revolta a estrebuchar"*

O Reboliço não sabe o que mais o surpreende: se as imagens mostradas, se a possibilidade da descoberta (descoberta?), se a semelhança com a ideia que tem do que se passa no cérebro para ver, aquela mistura, se o facto de ser tudo a cores. A cores?
*Marlowe a perguntar aos que o ouvem, no Nellie, se conseguem ver Kurtz só do que ele lhes conta, da narrativa que diz ser como tentar contar um sonho.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Laboratório de sonhos

Mesmo quando está a entrar no relato que o há-de de envolver a ele e aos seus companheiros a bordo do Nellie, como a escuridão da noite sobre o Tamisa, Marlow suspende a voz e hesita na narrativa, como se se sentisse incapaz de continuar a contar o que se passou na sua viagem pelo Congo:

     It seems to me I am trying to tell you a dream - making a vain attempt, because no relation of a dream can convey the dream-sensation, that commingling of absurdity, surprise, and bewilderment in a tremor of struggling revolt, that notion of being captured by the incredible which is of the very essence of dreams.*

A vacuidade da tentativa, apesar de tudo, não o impede de contar - de tentar contar. É muito forte o impulso de trazer para fora e dar a conhecer - a quem ouve, mas sobretudo a quem conta - aquilo que é o vago de um sonho. Que se diz em frases como "era como se fosse um goivo, mas tinha a corola de um amor-perfeito", ou "eu sabia que eras tu, mas a tua cara era a de uma tia-avó que nunca conheci". Um laboratório de sonhos só pode ser uma fábrica de literatura imperfeita, uma caixa postal de que ninguém conhece chave nem sequer fechadura.

* Em português, na versão de Teresa Amaro, ficou: "Parece-me que estou a tentar contar-lhes um sonho - uma tentativa vã, porque o relato de um sonho não pode transmitir aquela sensação de sonho, aquela mescla de absurdidade, surpresa e complexidade, aquela sensação de sermos capturados pelo inacreditável que é a própria essência dos sonhos." (O Coração das Trevas, Edição MilFolhas, Público, Lisboa, 2004, p. 43. Logo acrescento a versão de Aníbal Fernandes - é capaz de não ter "absurdidade" nenhuma.)

domingo, 25 de janeiro de 2009

Régio em modo conradiano

"é naquilo a que pobres homens chamam doença - que o outro mundo se nos abre. [...] Mas dele não pressentimos senão como um espaço, ou uma auréola, ou um abismo, que vertiginosamente se afirma aproximando-se até nos engolir, e recuando infinitamente, e ampliando-se a indizíveis, incompatíveis, insondáveis confins..."
(José Régio, Jogo da Cabra Cega, 1934, Brasília Editora, 4ª edição, 1982, pp. 217-218.)

quinta-feira, 21 de setembro de 2006

Na foz do Congo

"Subir o rio era o mesmo que viajar para trás, até às primeiras idades do mundo, quando a vegetação transbordava da terra e as árvores reinavam. Uma torrente deserta, um grande silêncio, a floresta impenetrável. O ar era quente, espesso, muito pesado e mole. A luz solar não tinha alegria. Longos troços de rio deserto perdiam-se por lonjuras de enorme sombra. Nas margens de areia prateada, hipopótamos e crocodilos tomavam lado a lado banhos de sol. As águas largas corriam entre uma confusão de ilhas arborizadas: uma pessoa perdia-se naquele rio como num deserto, e todo o dia tropeçava em baixios, tentava encontrar um canal navegável e acabava por julgar-se vítima de um feitiço, isolada para sempre do que até ali conhecera - sei lá onde - muito longe - talvez noutra vida."
(Joseph Conrad, O Coração das Trevas, na versão que me ensinou a amar Conrad, que Aníbal Fernandes publicou em 1983 na editorial Estampa, p. 69.)

No original, as sombras mantêm-se, mas há outra luminosidade:

"Going up that river was like travelling back to the earliest beginnings of the world, when vegetation rioted [pois, verbo impossível e lindíssimo, aqui] on the earth and the big trees were kings [que é diverso de "reinavam", enfim]. An empty stream, a great silence, an impenetrable forest. The air was warm, thick, heavy, sluggish. There was no joy in the brilliance of sunshine ["there was no", mas o que fica da frase é o "brilliance of sunshine", e não tanto a ausência de "alegria" do português]. The long streches of the waterway [não é bem "rio", é "caminho de água"; entendo que não o possa ser em português, mas "waterway" tem a magia das epopeias antigas] ran on, deserted, into the gloom [de quantas palavras em português se fará o conradiano "gloom"? Aqui, de nenhuma.] of overshadowed distances. On silvery sandbanks hippos and alligators sunned themselves side by side. The broadening waters flowed through a mob of wooded islands; you ["uma pessoa" é o correcto, mas "you" atinge com tanto mais poder quem lê: é connosco que estão a falar] lost your way on that river as you would in a desert, and butted all day long against shoals, trying to find the channel, till you thought yourself [de novo] bewitched and cut off for ever from everything you had known once - somewhere - far away - in another existence [que diferença, de "another life"!] perhaps.
(Isto está na página 59 da edição da Penguin de Heart of Darkness, preparada em 1995 por Robert Hampson.)

domingo, 13 de novembro de 2005

Vamos com calma...

Conrad é um degrau direitinho, virado para Lowry. Pode haver na leitura os tais saltos de tigre, pois claro. Mas quem está em Conrad deixe-se estar mais um bocadinho. Vá-se desassossegando devagar e, mais adiante, quando já estiver na fase de levitação, retire com a segurança de um inconsciente o tapete voador e, então sim, agarre-se ao vulcão.

segunda-feira, 3 de outubro de 2005

Novelos de marinheiros

Fala Conrad do sentido que as histórias dos marinheiros (chama-lhes "novelos") têm para Marlow, a personagem que narra a maior parte da história de Heart of Darkness: "to him the meaning of an episode was not inside like a kernel but outside, enveloping the tale which brought it out only as a glow brings out a haze, in the likeness of one of these misty halos that sometimes are made visible by the spectral illumination of moonshine." Para mim, este é um dos excertos mais vertiginosos de interpretar e, imagino, de traduzir.
(Aníbal Fernandes traduziu-o assim: "para ele, o significado de um episódio não estava no seu interior como um caroço mas fora, a envolver a história e a dar-lhe realce, como o calor que provoca a névoa, como esses halos de vapor que o fantomático luar por vezes faz visíveis." Isto foi em 1983. O ano passado, Teresa Amaro pensou de maneira um pouco diferente: "para ele, o significado de um episódio não estava no interior, como um caroço, mas no exterior, envolvendo a história, como a luminiscência que faz sobressair a neblina, tal como esses halos indistintos que por vezes se tornam visíveis sob a luz espectral do luar." E passa-se isto tudo na segunda página da novela.)

quarta-feira, 8 de junho de 2005

Sair de casa

Diz Marlowe: "Acontece que em miúdo eu tinha a paixão dos mapas. Ficava horas a olhar para a América do Sul, a África ou a Austrália, e divagava por todas as glórias da exploração. Naquele tempo o mundo ainda tinha muitos espaços em branco, e sempre que eu via algum deles particularmente convidativo (mas isso todos eram), punha-lhe o dedo em cima e dizia: quando eu for crescido hei-de lá ir. Lembra-me que o Pólo Norte era um desses lugares. Pois bem, ainda lá não estive nem vou tentar conhecê-lo. Foi-se-lhe o encanto. Outros espalhavam-se à volta do Equador e em toda a espécie de latitudes dos dois hemisférios. Estive nalguns e... olhem, o melhor é nem falar nisso."
(Joseph Conrad, O Coração das Trevas, trad. Aníbal Fernandes, ed. Estampa, pp.24-25)