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quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Dos antepassados

     A tia Patrocínia leva para o quarto pedacinhos de pão. Atira-os da janela: "São para os pardais, que são meus parentes," explica. "O meu avô, Manuel Joaquim Pardal, era o que não acreditava em bruxas. Era casado com a avó Patrocínia, que foi de quem eu tive o nome, e era a mãe do teu bisavô, José Manuel Pardal, que casou com a tua bisavó Júlia, a minha mãe, mãe da tua avó Mariana e de quem a tua mãe teve o nome. Um dia, estava o Manuel Joaquim a dormir, apareceram-lhe duas bruxas e procuraram-lhe: 'Manuel Joaquim, acreditas em bruxas ou não acreditas?' E ele disse-lhes assim: 'Deixem-me da mão. Vão ali falar com a minha Patrocínia, que ela dá um alqueire de trigo a cada uma.' Então elas foram e deixaram-no sossegado. Eram as duas bruxas. Pois. E a minha avó Patrocínia também não acreditava em bruxas nem em padres, nem em benzeduras. Era uma pessoa já muito moderna."
     O Reboliço ouve as palavras da tia e, com as histórias dos Pardais e daquela Patrocínia que enxotava bruxas com alqueires de trigo, ficou a pensar num vale perdido do outro lado do Atlântico, num homem de apelido Van Winkle, num tempo que já não existe e que a tia Patrocínia nunca conheceu.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

A Tia Patrocínia

O Reboliço visita a tia Patrocínia quando Deus quer. É quando pode, e de cada vez parece-lhe pouco. A tia Patrocínia vive num prédio do centro de Lisboa. É um prédio onde não mora quase mais ninguém e os que lá estão vão de passagem ou são os homens das obras, que andam a arranjar aquele e os prédios vizinhos. "Dou-lhes qualquer coisinha," diz a tia Patrocínia, amparada pelo corrimão de ferro pintado há uns dias, "Coitados, andam nisto dias inteiros, trabalham muito, vá, uma cervejinha." Ficam-se-lhe as garrafas das minis entre os vasos de manjerico, agora alinhados na plataforma do andaime, com a hortelã e a romãzeira. "Poooois, não vês? Então, vieram-me trazer a arvorezinha, e eu cuidei dela. Agora, tem aí uma romã, já viste? Dá graça." O Reboliço diz à tia Patrocínia que na casa dela só há coisas boas. "É verdade," responde-lhe a tia. "A única ruim sou eu," e ri-se de sorriso e olhos a brilhar.
Dá aos pombos, aos pardais, aos gatos, aos cachorros e a quem, de humano, lhe apareça em casa, quase sempre sem aviso. "Ainda hoje tinha pensado em ti, vê lá. É verdade. Fiz uma sopinha, já estava à tua espera," vai dizendo, enquanto serve duas, três conchas do caldo denso, couves e nabiça, cenouras tenras, que não a deixam mentir.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Uma cozinha com sol

O Reboliço olha para o chão da cozinha da tia Patrocínia, a farejar. Mosaicos hidráulicos, como se vê de moda nalguns lugares e ali sempre foram chão. Aqueles três ou quatro, com as mesmas, velhas fendas a atravessá-los, quase alfabeto passeado de formigas umas vezes, e a fazê-los fazer o que debaixo dos pés era ruído que avisava lá dentro que alguém entrava. Balançavam, um tudo nada, os fendidos, debaixo dos pés, com o som. A porta, descaída, de igual maneira alertava - os de dentro e o gato grande, que andava nos telhados e se apressava a espreitar, se a tia saía da cozinha para a varanda cheia de sol. Não esperava comida; só a conversa dela, a perguntar-lhe pelos donos, pelos pombos que ele incomodava, pelas passeatas entre escadas de incêndio e corrimãos. Lembra-se disso e perscruta o quadrado que formam aquelas traseiras de prédios, com um meio de clarabóias (a iluminar a garagem oficina, lá em baixo) e franja, em frente, de árvores frondosas. Lembra-se e procura o gato - que não está, se não se mostra. Lembra-se, de patinhas fincadas no chão ensolarado e o focinho a apontar para o grande cão branco, do prédio em frente, que assestou, há dias, no canto da sua escada e lhe diz agora, num silêncio duro, resignado e meigo: "Escusas, Reboliço, de estar aí. Também a espero há dias e já percebi que não há mais."

sábado, 31 de outubro de 2009

Anéis de prata eram de lata.

A tia Patrocínia lembrou mais uma personagem da aldeia: Mestre Lino, o latoeiro. Fazia cafeteiras, regadores, formas para fazer queijo, tabuleiros de lata para os bolos, alguidares de zinco. "E dava-nos anelinhos. Anéis de prata eram de lata." A tia conta como iam todas contentes com os anéis que o Mestre Lino lhes fazia.

segunda-feira, 15 de maio de 2006

"Deixa torrar, que 'tá brando..."

O Reboliço tem tido muita gente boa a contar-lhe histórias. Desde novo (ia escrever "pequenino", mas pequenino sempre ele foi). A Senhora Virgília, por exemplo, que lhe dava misturas preciosas da menina do Touro Azul com episódios do Velho Testamento, enquanto lhe ensinava a ver as horas. Ou a Tia Patrocínia, que pontua as histórias com perguntas retóricas sobre a moral de cada acontecimento e remata, antes da resposta, com um "Pooooois" prolongadíssimo. É ela que usa a expressão, que quer dizer "aguardemos para ver o que daqui sai..."