Mostrar mensagens com a etiqueta Família. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Família. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

A Tia Patrocínia

O Reboliço visita a tia Patrocínia quando Deus quer. É quando pode, e de cada vez parece-lhe pouco. A tia Patrocínia vive num prédio do centro de Lisboa. É um prédio onde não mora quase mais ninguém e os que lá estão vão de passagem ou são os homens das obras, que andam a arranjar aquele e os prédios vizinhos. "Dou-lhes qualquer coisinha," diz a tia Patrocínia, amparada pelo corrimão de ferro pintado há uns dias, "Coitados, andam nisto dias inteiros, trabalham muito, vá, uma cervejinha." Ficam-se-lhe as garrafas das minis entre os vasos de manjerico, agora alinhados na plataforma do andaime, com a hortelã e a romãzeira. "Poooois, não vês? Então, vieram-me trazer a arvorezinha, e eu cuidei dela. Agora, tem aí uma romã, já viste? Dá graça." O Reboliço diz à tia Patrocínia que na casa dela só há coisas boas. "É verdade," responde-lhe a tia. "A única ruim sou eu," e ri-se de sorriso e olhos a brilhar.
Dá aos pombos, aos pardais, aos gatos, aos cachorros e a quem, de humano, lhe apareça em casa, quase sempre sem aviso. "Ainda hoje tinha pensado em ti, vê lá. É verdade. Fiz uma sopinha, já estava à tua espera," vai dizendo, enquanto serve duas, três conchas do caldo denso, couves e nabiça, cenouras tenras, que não a deixam mentir.

sábado, 21 de julho de 2012

Barranco da Corte

Há um lugar, próximo da aldeia, onde as árvores não são baixas, a terra é pouco seca e cresce o agrião e o poejo. Como cresce a muita água, apesar dos Verões em que é quase nada, quase nada sopra, give them some air, nem se ergue de frescura.
Descíamos a margem, agarrados aos troncos dos eucaliptos e dos arbustos de canas finas, a correr e a falar alto, e, à medida que se descia, as vozes iam ganhando eco de água e do arco de betão por baixo da estrada. A estrada vinha da aldeia, vínhamos de bicicleta a fazer corridas e o que ia à frente olhava muitas vezes para trás, como quem se angustia e se diverte com não ser ultrapassado - but not too fast, too soon.
Quase não havia carros naquele caminho: fazia-se a piada de aparecer o Belo Tói, o terror da estrada de Vale de Rocins, que podia surgir de uma curva a sessenta à hora, capaz de colher algum. O asfalto era vazio além dos que corríamos para o Barranco da Corte, o silêncio era desse vazio e um riso só já o alargava, as árvores à volta faziam do sol mais um a correr atrás de nós, ora a ver-se ora não, e as vozes, e o riso, e o desafio, deves apanhar-me, deves, deves!, eram tudo o que se ouvia, levantado da estrada com o zzzzzizzzzizzzzz dos aros e das correntes das bicicletas. Quando a curva virava a descer, tirávamos os pés dos pedais e o declive fazia a velocidade. À entrada do pontão, abandonávamos as bicicletas, deitadas na terra com pouca erva.
Na margem - no lado da água, mesmo quando era só um fio que corria e, problema poético que não geológico, "margem" se tornava um nome impróprio - tentávamos que os sapatos não se molhassem e caminhávamos juntos, muito perto uns dos outros, de braços a tocar nos braços e nos flancos, a falar fosse do que fosse, estivesse ou não ali, enquanto procurávamos o seixo mais redondo, o mais brilhante, o mais ajustado saberíamos lá a quê. Ou só a olhar para o cheiro forte dos poejos.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

So long lives this

Ponham-se uns trinta anos para trás de hoje. Nada de blogues, nada de Internet. Nada de jornais digitais, livros digitais, bibliotecas ou livrarias digitais. Nada de multibanco, ATM, tirar notas da parede, comprar bilhetes de comboio pelo telemóvel - ah, quase nada de telemóveis. Televisão o dia todo, televisão por cabo - nada. Vinho em pacotes? Nada. Comida light? Zero calorias, iogurtes sem gordura? Nada. Ultracongelação, nada. Massificação de produção de fruta, nada, aqui perto. Agora devolvam-se os trinta anos. Como, como é possível que as ameixas do moinho saibam ao mesmo sabor, fresquem a mesma frescura, polpem a polpinha mesma, a mesma amarela, a mesma doce, a mesma que escorre quando a ferem os dentes com lenta, amorosa dentada, a mesmíssima árvore que não, por nada, se altera?
Foto das ameixas - e dos doces, doces cinco figos - que a mãe e o pai apanharam e expediram, pela tia: Reboliço, lambuzado.

sábado, 9 de junho de 2012

Sopa de mosquinhas

O Reboliço ouve rádio de manhã, gosta muito. Está a ouvir no rádio uma voz a ensinar a fazer a sopa de beldroegas e lembra-se das manhãs de sábado quando vinha o Verão: ia com a mãe à praça, comprar o peixe, o pão, a fruta, as verduras, o feijão e o que de fresco chamasse os olhos e as paredes entrançadas da alcofa. Depois, já na bancada  da cozinha, branca e muito brilhante que lhe dava forte o sol no mármore -  "baixa-me essa persiana, que daqui a nada não se pode estar -, as duas tigelas, uma vazia e a outra carregadinha das beldroegas até ao bordo. As mosquinhas, era o que lhes chamava. Sopa de mosquinhas, que separar as folhas dos talos era como mexer em asas de moscas, assim ovaladas e, ao sol, quase transparentes. A tigela vazia ia-se pondo cheia de asinhas de mosca. Não se usavam os talos na sopa e o do queijo de cabra viria a ser uma inventada descoberta dos lados do Alentejo de cima. No de baixo, e naquela alentejana algarvia bancada com sol aos sábados de manhã, era a erva, batata, azeite, cebola, o sal, a água e mais nada, ou, quando muito, uns ovinhos escalfados. E o peixe a seguir. Grelhado por baixo da janela aberta, por onde o fumo saía em rolos e o calor entrava, branquinho no prato e na goela.

domingo, 3 de junho de 2012

Fazer uma cama

O Reboliço senta-se sossegado nos ladrilhos à entrada do quarto. Estende as patas da frente para ganhar altura e estica o focinho. Quase nada lhe treme o coto que é a cauda, apesar da satisfação da cena: a mãe faz a cama. A colcha, a manta, o lençol de cima - de manhã cedo tinha ficado tudo puxado para os pés da cama, a arejar com a janela aberta. Quando volta ao quarto, a mãe alisa o lençol de baixo, dobrando-se e indo de um lado ao outro do colchão, as mãos lisas a estender bem o pano e a ajustá-lo em cada ponta. Então, o Reboliço vê-a tornar a trazer até à cabeceira o lençol de cima, deixar-lhe meio amarrotado o extremo e agarrar a manta, que estica até chegar quase ao bordo do mal amanhado lençol: depois alisar e fazer a dobra, direita, igual dos dois lados da cama, nem mais curta nem mais comprida, e por cima de tudo estender a colcha. Nesse ponto, o Reboliço deita-se e observa a última parte do ritual, a que o faz entrar muito devagar no sono e no sonho: a mãe agarra nas almofadas e, moldando-as sem as sacudir, ajeita-lhes a lã de que são feitas, para as afofar e tirar delas a forma das cabeças que dormiram. O Reboliço fecha os olhos e adormece também, a lembrar-se da mãe sentada ao lume com duas alcofas junto da cadeira: uma para a lã ainda em monte amarelado, por cardar; a outra, forrada com um panal branquinho, para a lã que os dedos abriram sobre o colo, limparam de impurezas e fizeram em transparência de nuvem, e que fecharão o rectângulo de pano da fronha com agulha e linha branca.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Roseira que deram favas

A tia Mariana diz, "Mas ainda não provaste estas que eu fiz. Que história é essa de não gostares de favas? Desde quando é que não gostas de favas?" Deve haver uns mais de quarenta anos, pensa o Reboliço. "Ah, esta moça..., agora que não gosta de favas..." E cantar, pergunta a tia, gostará de cantar? A prima Luísa recolhe a cabeça entre as mãos, abana-a, maldiz a sorte, enquanto as vozes, mas afinadas!, entoam:

Tenho lá no meu quintal
Uma roseira enxertada
Que dá rosas - tantas, tantas,
E também dá rosas brancas,
E dá rosas encarnadas.
E dá rosas amarelas
Que são rosas de primeira.
Como não há outra igual,
Tenho lá no meu quintal
Aquela linda roseira.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

O dia da rádio

O Dia Internacional da Rádio foi há uns dias, a 13. O Reboliço, muito amigo da telefonia, lembra-se de como o avô ficava de orelha colada ao aparelho, a escutar e a comentar o que ouvia. Quando entrou a televisão na casa do moinho, alimentada por uma pequena bateria igual à dos automóveis, o avô não abandonou a maneira como se ligava ao mundo fora do pequeno socalco e do limite do poço, da figueira e das oliveiras: no fim do dia, sentado à mesa, a cabeça baixa com os punhos a segurarem cada lado do rosto, os olhos fechados, acendia o cubo mágico e, quando a senhora apresentadora dizia "Boa noite, senhores tele-espectadores", respondia, sem levantar cabeça nem olhos, "Bô-nôte..."

domingo, 8 de janeiro de 2012

Água

O Reboliço vê escorrer da torneira um fio de água, ouve-lhe o gorjeio vertical, e pensa. Pensa que há uns anos, quando não ouvia falar em escassez, cada vez que via abrir uma torneira era como se assistisse a uma ocasião ritual: não mais do que aquele fio, o fio bastante para o balde, para a cafeteira, para os dedos de uma mão. Dentro da casa da aldeia não havia canalização: os banhos eram fora, numa casinha do quintal; para o resto que na casa se fazia com água - o comer, o lavar a loiça, o encher a panela de ferro ao lume - tinha que se ir buscar água à torneira do quintal, o extremo de um tubo levantado do chão, rente à parede pouco mais de um metro, com uma pia de pedra cor de barro encarnado no solo e com um buraquinho redondo no meio. Se o que vinha recolher a água fosse balde ou garrafão, era no chão que ficava - o garrafão um desafio de acertar a linha da água na entrada estreita e distante do gargalo; o balde uma piscina onde se criavam rodelas de líquidas rugas, de onde os salpicos, que enfeitiçavam, faziam ouvir de dentro "Olha ao que estás a fazer, não me desperdices a água!" Não era considerado um bem escasso, não pedia campanhas de poupança. Era desde sempre uma preciosidade, uma ocasião, o convívio com um ser que agradecia ter sido, pela brevidade de uns segundos, libertado.

sábado, 31 de dezembro de 2011

- Luca!, Petaner!, parem lá um bocado. Mas o que é que vocês andam aqui a fazer à roda, à roda, que não me deixam sossegar?
- Queremos saber notícias da prima, Reboliço. Como é que ela está?
- Está tudo bem, só está ainda assim azamboeirada.
- Está o quê?
- Meio apardalada.
- Pois se ela ainda é Pardalinha...

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

A família Energia (o moinho na publicidade)

Um dia deste Verão, o Reboliço deitou-se à sombra da buganvília, encostado ao sopé do monte, recolheu as patinhas da frente, pousou o focinho sobre a gravilha e deixou que aquela gente toda fizesse o rebuliço que quisesse. Meteram o pai e a mãe ao barulho e até nas cordas das velas do moinho puseram luzinhas...
(Filme de Pedro Matos, CBB Pictures.)

sábado, 5 de novembro de 2011

Memografia (1)

Na aldeia havia as adegas. A tia mandava ir buscar vinho para o comer, ia-se às adegas. Havia a adega da rua de trás, mais próxima da mercearia, e havia a do primo Manel Inácio - a adega do Caiado. Era a mais concorrida porque era a maior e ficava no centro da aldeia. À adega do Caiado íamos só com autorização da mãe, que nos endireitava as saias dos vestidos ou as golas das camisas e dizia, resignada, "Pronto, vão lá. Mas não se ponham a comer tudo o que ele vos der."
O primo Manel Inácio era tão bondoso como era alto e gordo. Era tão amigo de dar quanto lhe eram lentos o olhar e a voz: "Olh', olh', olhós algarvios...", dizia devagar, com pausa entre cada palavra inacabada, quando chegávamos e as nossas três silhuetas se recortavam para dentro da adega escura, sempre mais escura que o dia, mesmo se a porta era um alto portão escancarado. Também lentamente, a olhar para um lado e para o outro, as sombras escuras à nossa volta, passávamos a lonjura do que deveriam ser quatro ou cinco metros que iam da soleira ao balcão; por duas filas de mesas quadradas com homens sentados que, minuto após minuto, reconhecíamos da família: "Tu és da Maria ou da Nita? Dá lá saudades, que ainda somos primos."
O balcão do Caiado era longo e alto, muito alto para as nossas alturas. O mano e a mana não lhe chegavam, por mais que pendurassem as manitas no rebordo - fosse como fosse, a atenção estava no que ficava ao alcance dos olhos: a montra de vidro dava a ver os pacotes de alcagoitas, o que ali vínhamos cobiçar. Quando levávamos o primo Henrique, bebé, lá vinha o Manel Inácio pegar-lhe ao colo, homem grande com o pequeno nos braços a apontar para todos os vidrinhos de garrafas, jarros, copos, pires com tremoços. Os meus olhos, de cuidado, seguiam o pequeno primo, afilhado. Então, atrás dos dois começava a reparar nos papéis malamente pendurados que enchiam as paredes: calendários com mulheres só-mei-vestidas, uma página ou outra da Gaiola Aberta, a tabela dos jogos do clube da aldeia, um aforismo copiado em papel manteiga. Para lá do balcão e do estrado de madeira de onde o Caiado aviava, para lá da parede que separava da cozinha, havia as talhas, enormes, bojudas do chão ao tecto. Depois disso havia de ser o quintal, mas era terreno por conhecer, como proibido.
Hoje, na aldeia só há taberninhas, tascas: o Correia, no Moinho de Vento, perto do campo da bola, e um ou outro café com a arca de gelados cá fora. As adegas, onde os homens cantavam e à noite faziam do silêncio da aldeia um lugar onde a gente se aninhava, fecharam, foram demolidas, ficaram sem ninguém.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Tarde de Verão

O Reboliço aproveita a moleza no dia de feriado: a calma das ruas, a cidade a alentar por baixo do sol de um Outubro licencioso. Prepara a mesa para o almoço. É a mesma mesa de duas abas, tampo de fórmica e pernas de ferro preto que se abria no pino do Verão para acrescentar à habitual, quando apareciam de surpresa os muitos primos, imaginada logo a alegria da tarde na praia ou nos pinheiros, o tacho de arroz com todos, o cheiro a pimento assado. Quando, volta não volta, se ouvia a mãe na cozinha: "Deixem-se de andar gansejando aqui à minha roda e vão mas é pôr a mesa!"

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Foi bonito.

A voz de Manoel de Oliveira e o texto do Evangelho segundo São Mateus sobrepõem-se às imagens do pão, na tela da sala Luís de Pina: "A que é semelhante o reino dos céus? - O reino dos céus é semelhante ao fermento que uma mulher tomou e escondeu em três medidas de farinha, até ficar tudo levedado."
A parábola fala do fermento que se multiplica em pão, da fé que se espalha entre os homens. Na sala, multiplicados por oito, estão Luís, o moleiro que na tela joeirava o trigo e se escusava à câmara, e Adelaide, a antiga mulher vestida de negro: quatro netos, três bisnetos, um trineto.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

"Abrir os cofres", abrir as arcas

Hoje ao fim da tarde (19h30), na sala Luís de Pina da Cinemateca Portuguesa, serão exibidos os documentários O Pão, de Manoel de Oliveira (versão de 1964), As Palavras e os Fios, de Fernando Lopes (1962), Nocturno, de Jacinto Ramos (1962) e O Fogo e o Aço, de António Ruano (1966). O filme de Oliveira mostra imagens, captadas ainda na década de 50, de um moinho em Beja onde, durante pouco tempo, laborou o bisavô Luís. Lá aparece, a joeirar o trigo e a carregar uma saca, sob o olhar de uma gata pequenina. A bisavó Adelaide também se vê, ao lado do moinho, num exterior de postal ilustrado. Entre outras moendas, novas na altura, e já antigas. Os três outros filmes serão iguais mimos e a sessão será apresentada pelo Professor Paulo Miguel Martins.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Paixão

O chão do quarto do avô é de uma tijoleira velha, muito esburacada e velha - é mais do que porosa. Tem a cor da terra e é mau de varrer que só visto. Mas é o chão do quarto do avô. Foi esse chão que pisei, um dia de muitos. Tinha chegado ao monte era já manhã avançada e estranhara não ver o avô a pé. (Quando entrei na cozinha, o Reboliço, deitado à lareira, só abanou a cauda um bocadinho.) Disse-me a avó que ele estava “ali para o quarto, hoje não se quer erguer.” “Posso ir lá vê-lo?” “Vai, vai lá que ele ainda está deitado.” Encontrei-o sentado na cama, cabisbaixo. Não sei se tinha os olhos fechados, mas todo o rosto olhava o chão, a tijoleira tão gasta. O cajado ainda estava encostado à cabeceira. Levantou a cabeça só o suficiente para me dar um sorriso pálido. “Então, avô? O que se passa hoje?” “Filha da minh’alma...”, começou, com a voz triste. “Às vezes entra-me uma paixão pelo organismo...” Foi quanto bastou para me fazer rir, ele olhar para mim, os olhos sorrirem-lhe e passarmos adiante. Para mais aquele dia.

sábado, 21 de agosto de 2010

Montes Velhos (3)

Quem mandou fazer este moinho foi um tal Zé Maria Padeiro, de Beja, que quis comprar ali o moinho do meio. O dono do moinho não o quis vender, e então ele disse que havia de construir um moinho ao contrário dos outros (ao contrário, porque as mós em vez de estarem no piso de cima estão no piso intermédio). O trisavô Francisco Gertrudes veio à inspecção e viu este moinho a ser construído e depois mais tarde comprou-o (já não sei se foi ao Zé Maria Padeiro); antes de comprar este, tinha comprado ali o Moinho da Forca, ao pé da cidade – depois de vender esse é que comprou este. Já era moleiro. Comprava trigo para os moinhos, por conta da família Galvão, de Beringel, que tinha uns poucos moinhos: de vento e de água, no Guadiana. Uma moagem em Beringel era destes Galvões. Segundo dizia o avô Chico, o Francisco Gertrudes fornecia a farinha para a família Galvão. Morou em Beja, nas Portas de Moura; tinham lá um depósito de farinha (por isso é que chamavam à Francisca Ramos a tia Chica da Farinha). Quando veio de Beringel para Beja já vinha comprometido com a Francisca Ramos, avó do Manuel Ferro (o trisavó da Glória). Possivelmente, depois de ter feito a inspecção, ficou por aqui, porque começou a comprar o trigo para os Galvões de Beringel.

O pai da avó Custódia era de Ferreira do Alentejo. A mãe dela morreu quando a avó tinha 5 ou 6 anos, no ano da pneumónica (1914 ou 1915), e morreu na mesma altura uma tia dela (foram as duas no mesmo caixão). O pai da avó Custódia, Manuel Dias, casou depois com a Josefa da Encarnação, que acabou de lhe criar os seis filhos (quatro homens: Joaquim, António, José e Marcolino; e duas mulheres, Francisca – nascida depois do Joaquim – e Maria Custódia, a mais nova). Só muito tarde (já o tio Luís tinha uns 17 anos) é que os netos souberam que a avó Zefa não era avó de verdade deles.

(Relato do tio Luís Soares em 2010, sentado à mesa em frente da porta da cozinha, que já foi janela e antes disso era parede nua da cavalariça. A mesa foi feita pelo avô Chico, que encheu de cimento o calço da roda de um carro de bestas e assentou o disco sobre uma estrutura de madeira. Tem uma data gravada no tampo: 10 de Maio de 1964.)

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Montes Velhos (2)

O tio Luís não sabe bem como é que a avó Adelaide veio a conhecer e a casar com o avô Luís. Ela casou nova, com 16 ou 17 anos; ele era uns sete ou oito anos mais velho. O pai do avô Luís era de Almodôvar. Deve ter ido viver para Aljustrel e casado aí – mais tarde veio para Beja e comprou além o Moinho da Forca, depois comprou este aqui. Foi quando o trisavô Francisco Gertrudes (avô do meu avô Chico) foi à inspecção, de Beringel para Beja, que viu este moinho aqui a ser construído. O bisavô Chico Gertrudes (avô do meu pai) era de Aljustrel. Morreu no ano em que o meu tio Luís fez três anos (em 1933) e parece que era descendente de castelhanos, de Castela – a tia Adelaide é que sabe disto.

(Relato do tio Luís Soares em 2010, sentado à mesa em frente da porta da cozinha, que já foi janela e antes disso era parede nua da cavalariça. A mesa foi feita pelo avô Chico, que encheu de cimento o calço da roda de um carro de bestas e assentou o disco sobre uma estrutura de madeira. Tem uma data gravada no tampo: 10 de Maio de 1964.)

domingo, 15 de agosto de 2010

Montes Velhos (1)

O pai da avó Adelaide era Joaquim Fernandes, um ferreiro em Montes Velhos, que era o filho enjeitado de um padre e teve uns oito ou nove filhos. A avó Adelaide era a mais nova e chamou-se Adelaide porque a filha mais velha tinha morrido e tinha-se chamado Adelaide (tinha nascido vinte anos antes de nascer a avó Adelaide). Esse ferreiro mandou o filho Manuel aprender a moleiro. Dos filhos homens, o Manuel era o mais novo (o meu mano Fernando, que já lá está, é que lhe chamava o “tio Manelzinho”). Depois, Joaquim Fernandes mandou fazer um moinho para o filho Manuel ir para lá trabalhar. (Outros irmãos da avó Adelaide: um parece que era Luís e estava para Casével. Eram uns quantos e parece que quase todos tinham aprendido a ferreiro a trabalhar com o pai.) Então, esse tal moinho foi feito em Montes Velhos. Um dia destes conheci um Carlos Fernandes (com pouco mais de 30 anos, casado com uma professora), sobrinho-bisneto da avó Adelaide, neto do Joaquim Canhoto, que era barbeiro, que era um dos sobrinhos da avó Adelaide. Este moço é filho do Francisco Fernandes, que era barbeiro como o seu pai. A prima Fátima também é filha do Joaquim Canhoto: ela é de Montes Velhos, casada com um polícia chamado António Ferro. Um irmão do Joaquim Canhoto (tio da Fátima e tio-avô do Carlos Fernandes), que era campino, andava com os touros bravos de um homem chamado Lampreia.

(Relato do tio Luís Soares em 2010, sentado à mesa em frente da porta da cozinha, que já foi janela e antes disso era parede nua da cavalariça. A mesa foi feita pelo avô Chico, que encheu de cimento o calço da roda de um carro de bestas e assentou o disco sobre uma estrutura de madeira. Tem uma data gravada no tampo: 10 de Maio de 1964.)

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Dos antepassados

     A tia Patrocínia leva para o quarto pedacinhos de pão. Atira-os da janela: "São para os pardais, que são meus parentes," explica. "O meu avô, Manuel Joaquim Pardal, era o que não acreditava em bruxas. Era casado com a avó Patrocínia, que foi de quem eu tive o nome, e era a mãe do teu bisavô, José Manuel Pardal, que casou com a tua bisavó Júlia, a minha mãe, mãe da tua avó Mariana e de quem a tua mãe teve o nome. Um dia, estava o Manuel Joaquim a dormir, apareceram-lhe duas bruxas e procuraram-lhe: 'Manuel Joaquim, acreditas em bruxas ou não acreditas?' E ele disse-lhes assim: 'Deixem-me da mão. Vão ali falar com a minha Patrocínia, que ela dá um alqueire de trigo a cada uma.' Então elas foram e deixaram-no sossegado. Eram as duas bruxas. Pois. E a minha avó Patrocínia também não acreditava em bruxas nem em padres, nem em benzeduras. Era uma pessoa já muito moderna."
     O Reboliço ouve as palavras da tia e, com as histórias dos Pardais e daquela Patrocínia que enxotava bruxas com alqueires de trigo, ficou a pensar num vale perdido do outro lado do Atlântico, num homem de apelido Van Winkle, num tempo que já não existe e que a tia Patrocínia nunca conheceu.

domingo, 19 de julho de 2009

Dias de Verão

Os dias de Verão na aldeia eram dias de férias grandes. Isso queria dizer que não havia aulas e, portanto, que se aliviava a disciplina na casa. Mas dormir até tarde não estava nos hábitos da família. Se se dormia na casa da mercearia, aos dias de semana acordava-se ao som dos primeiros fregueses: antes das oito da manhã, que a partir das dez, onze, o calor obrigava a fechar a porta. O domingo era diferente. O Reboliço começava a despertar quando a luminosidade da manhã entrava pela telha de vidro, a única abertura do quarto grande (além da porta), onde dormia na mesma cama com a Mana, ao lado da cama do Mano. Não servia de nada encher aquele vão translúcido, esticar a cana de mais de dois metros e empurrar o papel pardo: o sol chegava ao dia e as paredes começavam a amarelecer, a cómoda e o guarda-fatos a ser mais do que sombras indefinidas, as cornucópias de ferro da cabeceira da cama a desenhar-se atrás dela, a traço cinzento escuro na cal. Acordavam as cores e as formas. Os barulhos vinham depois: duas vozes na cozinha, quebradas pelo arco do corredor e pelas estantes da despensa, que se ouviam mais límpidas quando a mãe ou a tia iam da cozinha para a despensa, vinham do quintal ou por alguma razão passavam a falar no corredor, para onde dava directamente a folha de madeira que era a porta do quarto. O Reboliço tinha dois passatempos: primerio, tentar distinguir qual das duas falava; quando se decidia, era sinal de já estar bem desperto. Depois, esperar pelo momento em que uma das duas, normalmente a mãe, se lembrava deles ("E aqueles moços, não acordam?"). Não tardavam depois dessa frase mais do que dois ou três minutos até que ela entrasse quarto adentro: "Meninos, vamos lá - levantar!" Vinham as cócegas, os ralhetes, os lençóis para trás, o dia inteiro à frente deles.