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quinta-feira, 6 de junho de 2013

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Dizer afecta o pensamento

Este artigo de Lera Boroditsky (que suscitou no blogue do Jason Kotke uma série de comentários e algumas ideias estranhas sobre os falantes de espanhol) ajuda-me a perceber algumas particularidades sobre a língua e sobre a cultura da Finlândia. No finlandês não há marca morfológica de género nas palavras nominais (nomes próprios, adjectivos, nomes comuns, particípios, pronomes). Para Boroditsky, cujas conclusões se fundamentam em testes feitos com falantes de línguas em que as marcas de género são evidentes (alemão e espanhol), o pensamento dos finlandeses deve ser, então, mais difícil de definir. A ideia de que os traços da linguagem moldam o pensamento não é nova. Testá-la deveria ajudar a clarificar e a consolidar a ideia. Estranhamente, tendo a concordar mais com as conclusões se me abstrair dos testes que conduziram a elas. (Kleist vira ainda outro lado da relação entre o pensamento e a linguagem.)

quinta-feira, 15 de março de 2007

SOBRE O PRODUZIR PENSAMENTO À MEDIDA QUE SE FALA (III e última parte)

(As duas primeiras partes podem ser lidas aqui e aqui.)

"Algo muito diferente acontece quando o espírito, antes de qualquer enunciação, tem completo o pensamento. Nessa altura, tem de ficar-se pela mera expressão e isso, em vez de o estimular, não tem outro efeito senão o de torná-lo mais lasso. Então, quando uma ideia se exprime de maneira confusa, não significa que resulte de um pensamento também confuso; pelo contrário, pode dar-se o caso de as ideias mais confusamente expressas serem as que foram pensadas com mais clareza. Muitas vezes, numa reunião em que através de uma vivaz conversa ocorre uma impregnação contínua dos sentidos com ideias, aquelas pessoas que, por serem menos habilidosas no discurso, por regra se retraem, de repente são inflamadas por um movimento convulsivo, tomam as rédeas da conversa e trazem ao mundo algo incompreensível. Sim, pareceria que, tendo chamado para si a atenção, através de um gesto embaraçado dão a entender que elas mesmas já não conseguem saber ao certo o que tinham querido dizer. É possível que tais pessoas tenham pensado algo de facto acertado e muito claro. Mas a alteração repentina de actividade, a transição do seu espírito, do pensamento para a expressão, reprimiu toda a excitação do espírito, necessária à manutenção do pensamento como urgente na sua criação. Em casos assim, é mesmo indispensável ter o discurso logo à mão, para que aquilo que a um tempo tivermos pensado, e que nesse mesmo tempo não tivermos conseguido extrair de nós, possamos, tão depressa quanto possível, em sucessão exprimir. E em geral, aquele que, de entre dois de igual clareza, com maior rapidez se avançar ao seu oponente, sobre este terá vantagem, pois mais forças do que ele trará para o campo de batalha. Que uma certa excitação da mente, também para a apresentação de ideias que possamos já ter tido, é necessária, torna-se ainda mais óbvio quando a uma mente aberta e esclarecida se fazem perguntas como: o que é o Estado? Ou: o que é a propriedade? Ou coisas deste tipo. Se estes jovens se encontrassem numa reunião em que sobre o Estado ou sobre a propriedade se discorresse durante algum tempo, talvez chegassem com rapidez, por comparação, separação e combinação de conceitos, à sua definição. Porém, aqui, onde falta totalmente a preparação do entendimento, vêmo-los deterem-se e só um examinador incapaz diria que não sabem definir. Não que nós saibamos, mas antes que um certo estado nosso sabe. Só os espíritos vulgares, pessoas que do que o Estado seja aprenderam ontem e amanhã terão já esquecido, terão aqui a resposta pronta. Talvez de facto não haja pior ocasião para se expor as qualidades do que precisamente um exame público. Tirando o facto de ser detestável e ferir e provocar a sensibilidade que um qualquer erudito negociante de cavalos nos examine o conhecimento e que, consoante sejam cinco ou seis, assim nos compra ou abandona: é tão difícil do sentimento humano extrair melodia e dele sacar o seu som peculiar; é tão fácil desafinar entre mãos inábeis, que mesmo o mais traquejado conhecedor dos homens, que fosse magistralmente versado na obstetrícia dos pensamentos, como Kant lhe chama, poderia aqui cometer erros devido ao desconhecimento do seu puérpero de seis semanas. O que, aliás, na maioria dos casos ainda garante a esses jovens, mesmo aos mais ignorantes, um bom resultado é a circunstância de os próprios ânimos dos examinadores, quando o exame é público, estarem demasiado constrangidos para conseguirem fazer um juízo isento. É que não só se sentem frequentemente as indecências de todo este processo - claro que nos envergonharíamos de pedir a alguém que esvaziasse à nossa frente a sua bolsa, quanto mais a alma -, como também a sua própria razão terá aqui que ser sujeita a uma inspecção perigosa, e os examinadores bem podem agradecer a Deus quando, eles próprios, conseguem sair de um exame sem se terem exposto, porventura com maior ignomínia do que o recém-licenciado que examinaram.
(A continuar)"
(Escreveu Kleist que continuaria, mas suicidou-se e deve ter-se esquecido de dar seguimento, pelo menos a isto. O ensaio foi escrito provavelmente entre 1805 e 1806 e publicado pela primeira vez em 1878. A versão inglesa que usei está neste livro; a castelhana, neste. O texto em alemão vem transcrito aqui. Para traduzir as frases derradeiras tive a ajuda inestimável da Ana Cabral. Obrigada, amiga!)

sábado, 10 de fevereiro de 2007

SOBRE O PRODUZIR PENSAMENTO À MEDIDA QUE SE FALA (II)

"Penso no 'trovão' com que Mirabeau dispensou o Mestre de Cerimónias que, a seguir ao último Conselho monárquico de 23 de Junho, em que o Rei ordenara a dispersão dos Estados, regressou à sala onde ainda estavam reunidos e lhes perguntou se tinham ouvido a ordem do Rei. 'Sim', respondeu-lhe Mirabeau, 'ouvimos a ordem do Rei.' Tenho a certeza que, ao começar assim de modo tão cordial, não pensara ainda nas baionetas com que haveria de terminar. 'Sim, meu senhor', tornou, 'ouvimos as ordens' - vê-se que ainda não está muito certo do que pretende. 'Mas com que direito', continuou, e subitamente abre-se-lhe uma torrente de ideias monstruosas, 'nos vem o senhor dar as ordens? Nós representamos a Nação.' Era disso que precisava! 'A Nação dá ordens, não as recebe' - o que o impele, ali e naquele momento, ao máximo da ousadia. 'E para me fazer completamente claro' - e só então encontra palavras para expressar toda a força da sua alma e a sua capacidade de resistência: 'Ora diga ao seu Rei que daqui não iremos a lugar nenhum senão a toque de baionetas.' - Após o que, satisfeito consigo mesmo, se sentou. - Quanto ao Mestre de Cerimónias, teremos que o imaginar em completa bancarrota espiritual por este encontro de ideias. Existe uma lei que se aplica, muito semelhante àquela segundo a qual, se um corpo sem electricidade própria entra no ambiente de um corpo electrificado, de imediato a electricidade do último carrega o primeiro. E tal como, no corpo electrificado, por efeito recíproco ocorre um reforço da electricidade inata, assim a confiança do nosso orador, ao aniquilar o seu oponente, se converteu numa ousadia inspirada e extraordinária. Visto desta maneira, talvez tenha sido um franzir de lábios ou um ambíguo ajeitar dos punhos de uma camisa que conduziu à alteração do estado de coisas em França. Sabe-se que, mal o Mestre de Cerimónias se retirou, Mirabeau se ergueu e propôs: 1) que logo ali se constituísse uma Assembleia Nacional e 2) que fosse declarada inviolável. Depois de, como uma garrafa de Leyden, se ter descarregado, Mirabeau ficou de novo neutro e, regressado da ousadia, cedeu o passo à precaução e ao medo de Châtelet. - Eis uma correspondência notável entre os fenómenos do mundo físico e os do mundo moral, que, levada aos extremos, se manteria mesmo nas circunstâncias mais insignificantes. Mas deixo agora a minha comparação e regresso ao ponto em causa. Também La Fontaine, na sua fábula 'Les animaux malades de la peste', em que a raposa é obrigada a justificar-se ao leão e não sabe a que há-de recorrer, nos dá um exemplo importante da produção gradual do pensamento a partir de um impulso provocado pela pressão. A fábula é conhecida. Grassa a peste entre os animais, o leão convoca os maiores do reino e informa-os de que, para aplacar os céus, deverá oferecer-se um sacrifício. Sendo muitos os pecadores entre eles, os maiores deverão salvar os restantes da destruição. Para tal, pede-lhes que confessem o mais sinceramente que possam os seus pecados. Pela sua parte, admite que, por força da fome, já reduziu vidas de muitas ovelhas; de cães também, quando lhe chegam demasiado perto; até, em momentos deliciosos, chegou a comer o pastor. Se ninguém acusa fraquezas piores do que aquelas, então ele, o leão, de bom grado morrerá. 'Senhor', diz a raposa, ansiosa por afastar de si mesma a tempestade, 'foste longe demais no vosso zelo e generosidade. Que mal há em teres morto uma ou duas ovelhas? Ou um cão, essa vil criatura? E: quant au berger', continua, pois é esse o seu trunfo, 'on peut dire', ainda que não saiba o quê, 'qu'il méritoit tout mal', confiante na sorte e com isso já se enredando, 'étant', palavra pobre, mas que a faz ganhar tempo, 'de ces gents là', e só então chega à ideia que a livra de apuros, 'qui sur les animaux se font un chimérique empire.' - E prossegue, até provar que o burro, o asno sequioso por sangue (devorador de ervas e outras plantas) é o mais adequado ao sacrifício. Posto o que, todos se atiram ao animal e o despedaçam. - Tal discurso não é mais do que pensamento em voz alta. A sucessão de ideias e os signos delas prosseguem lado a lado e convergem os actos mentais implicados por umas e por outros. Então, o discurso não é de maneira nenhuma impedimento; não é, como se poderia dizer, um travão da mente, mas antes uma segunda roda a girar paralela sobre o mesmo eixo.

(Tradução: AIS. A terceira e última parte está aqui. A sintaxe, por vezes estranha, é marca de Kleist.)

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

SOBRE O PRODUZIR PENSAMENTO À MEDIDA QUE SE FALA (I)

(Isto ainda há-de ser para corrigir. E há-de ir em três partes. O título do post é o título que Kleist deu ao ensaio.)

"Sempre que haja alguma coisa que queiras saber e pelo meditar não o consigas, o conselho que te dou, engenhoso e velho amigo, é que converses sobre o tema com o primeiro conhecido que encontres. Não terá de ser particularmente perspicaz, nem te digo que lhe peças a opinião, nada disso. Pelo contrário, deverás tu dizer-lhe de imediato o que é que queres saber. Vejo espanto no teu rosto. Ouço-te replicar que, em pequeno, te ensinaram a falar apenas daquilo que já entendesses. Nessa altura, porém, sem dúvida que te referias à educação dos outros - mas o meu desejo é que fales na sensata intenção de te educares a ti mesmo; assim, como se aplicam regras diferentes em circunstâncias diferentes, talvez se permita que sejam válidas as duas. Dizem os franceses que 'l'appétit vient en mangeant' e a máxima é igualmente verdadeira se a transformarmos em 'l'idée vient en parlant'. Quantas vezes já me sentei à secretária, perante documentos de algum caso difícil, e busquei o ponto de vista a partir do qual o tentasse agarrar. O meu hábito na altura, nesta ânsia do meu mais profundo ser pelo esclarecimento, é olhar para o candeeiro, como se olhasse para o ponto mais brilhante. Ou, se me ocorre um problema de álgebra e preciso de encontrar um ponto de partida, tenho de possuir a equação que exprima as relações determinadas e a partir das quais, por cálculo simples, possa encontrar a solução. Agora, pasma! Se disto falar com a minha irmã, sentada na mesma sala com o seu trabalho, aprenderei mais do que aquilo que talvez obtivesse depois de matutar horas a fio. Não significa que ela mo diga, de facto, pois não conhece o Código Penal, não estudou Euler nem Kästner. Nem sequer é por fazer perguntas inteligentes que me conduz ao centro da questão, embora muitas vezes, atrevo-me a dizer, isso deva ser feito. Mas porque possuo uma ideia vaga logo à partida, relacionada de longe com aquilo que ando a procurar, se me atrever a começar com ela, o meu pensamento, à medida que prossegue o meu discurso e pela necessidade de encontrar um fim para tal começo, dará forma à minha ideia inicialmente confusa e torna-la-á completamente clara; de tal maneira que, para meu espanto, atingirei a compreensão assim que chegar ao final da frase. Acrescento alguns sons desarticulados, demoro-me nas conjunções, talvez faça uso de aposições sempre que seja necessário, e posso recorrer a outros truques que agilizarão o discurso, tudo para ganhar o tempo de fabricar a minha ideia na oficina do pensamento. E, neste processo, nada me ajuda mais do que se a minha irmã fizer um movimento como se se preparasse para me interromper: tal tentativa, vinda do exterior, de arrebatar o pensamento àquilo a que se agarra excita ainda mais a minha ideia já de si muito trabalhada e, como um general em circunstâncias extremas, o seu poder eleva-se a um grau ainda maior. Para isto é que, no meu entender, Molière usava a sua criada; permitir que ela corrigisse com o seu o pensamento dele implicaria uma humildade de que desconfio ele não ter sido possuidor. Ė uma coisa estranhamente inspiradora ter à nossa frente um rosto humano enquanto falamos; muitas vezes, o olhar que anuncia que um pensamento meio exprimido já foi entendido dá-nos a expressão da metade que falta. Acredito que muitos grandes pensadores desconheciam, no momento de abrir a boca, o que iriam dizer. Mas a convicção de que seriam capazes de extrair todas as ideias necessárias das próprias circunstâncias e da excitação mental que gerariam deu-lhes a coragem para confiar na sorte e começar."

Heinrich von Kleist, escrito provavelmente entre 1805 e 1806. Publicado pela primeira vez em 1878. A versão inglesa que usei está neste livro; a castelhana, neste. Tradução: AIS.

(A meio da tradução, passeio pela blogosfera e encontro isto. Tinha de comentar...)

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

A alma e o sentimento

Na magnífica novela Michael Kohlhaas, quando a personagem, enraivecida pela injustica social, está prestes a decidir-se pela vingança e a abandonar a sua conduta até ali exemplar, diz o narrador: "Esta era a primeira vez que a sua alma, bem educada pelo mundo, se preparava para suportar algo que não estava de acordo com os seus sentimentos." Grande Kleist.