quinta-feira, 30 de junho de 2005

Caderno da Escola, sem acentos nem cedilhas (4)

(No final da aula de hoje da Toril Moi.)

A minha frente, um pouco a direita, esta o volume de capa dura das Philosophical Investigations de Wittgenstein (edicao bilingue), fechado, sobre a mesa. O montinho branco das paginas constrasta com a capa e a lombada, negras e inscritas a dourado. Olho para ele, num relance, e parece-me ver uma luzinha fugidia a sair do fundo das paginas, das ultimas, mesmo antes de comecar a faixazinha preta da contracapa, que sobressai. Penso que e o cansaco dos olhos, mas fico mais atenta a partir desse momento fragilmente iluminado. Uns segundos depois, outra luzinha: e como se estivesse dentro das paginas e quisesse sair delas! Penso entao, enquanto o resto da turma discute Cavell e a poesia e, ao mesmo tempo, em surpresa e incredulidade, faco um ar de espanto e empurro o tronco um pouco para tras na cadeira: so pode ser Caeiro, a satisfacao de saber que a metafisica de tudo e tudo nao ter metafisica nenhuma - e isso que Wittgenstein nos quer mostrar (se alguma vez quis, e mostrar, a alguem que nao a si mesmo) e essa luz esforca-se por sair daquela prisao de linguagem do dia-a-dia a exigir um pensamento nada quotidiano.

Da terceira vez que reparo, ha um festival de luzes e todas vao dar as lentes dos oculos da mulher sentada dois lugares para a minha direita, que brinca com eles na mao.

sábado, 25 de junho de 2005

Caderno da Escola, sem acentos nem cedilhas (3)

- O que da cruzar um mafioso com um desconstrucionista?
- "An incomprehensible offer" (usem o sotaque dos Sopranos, faxavor...)

quarta-feira, 22 de junho de 2005

Caderno da Escola, sem acentos nem cedilhas (2)

A noite, mesmo depois de fechar as janelas, D. continuava a ouvir muito alto o barulho do ribeiro que passava em cascata ao lado da casa. Para conseguir adormecer, imaginou - com muita forca - que era o marulhar zangado numa praia do seu pais.

segunda-feira, 20 de junho de 2005

Caderno da Escola, sem acentos nem cedilhas (1)

Quando chegaram a cidade, comecava o sol a baixar. As sombras das arvores e das casas ficavam compridas nos passeios e nos jardins das traseiras. Dai a nada, apareceria a lua e so lhe faltaria uma fatiazinha do lado esquerdo.

A residencial nao era nada do que estavam a espera e uma delas quis procurar um hotel para aquela noite. D. levou-a ate ao unico hotel da cidade e ficou no carro, enquanto ela regateava o quarto com a recepcionista. Deixou ligados o motor e as luzes - a sua frente via um outro automovel comprido, azul escuro. Ao fim de uns dez minutos, resolveu parar o motor e desligar as luzes. Foi pouco antes de o fazer que o homem saiu do carro da frente, que pensara que estivesse vazio, e comecou a olhar com ar interrogativo para o Chevrolet Impala cor de bronze. Quando o homem se aproximou, trancou as portas por dentro. Depois de ele dar umas passadas largas ate a traseira do carro, D. viu pelo retrovisor que o homem tirava do bolso da camisa duas esferograficas. Reparou nos suspensorios caidos, uma tira fina pendente de cada lado do tronco e, agora, num certo bambolear dos seus passos. O homem acenava para a placa da matricula, com as duas canetas na mao. Aproximou-se da janela do condutor. D. abriu uma fresta pequena, so o suficiente para nao lhe entregar o receio que, aquelas horas da noite, deveria sentir. Foi quando o homem, que entretanto baixara o tronco ate si, lhe estendeu a mao esquerda e, respondendo a um aceno de cabeca, lhe gritou com voz, apesar de tudo, simpatica, "WOULD YOU CARE FOR A PEN?"

sexta-feira, 17 de junho de 2005

Como as palavras nos vão, silenciosamente, deixando


(Foto: Reboliço)

R.I.P.


(Foto: Reboliço)

quinta-feira, 9 de junho de 2005

Loppu!

Tríptico com o episódio de Aino: Akseli Gállen-Kallela
Eram 5 e 38 da tarde. Acabámos de verter para português os cinquenta Cantos do Kalevala. Um ano e dez meses de trabalho, muitos versos, peripécias e descobertas depois, escrevemos, a soletrar, a palavra F.I.M. Chega a hora de musicar, de dar ritmo e leitura mais digna a cada um dos versos. As histórias são magníficas; os heróis, familiares. E eu mesma já dou por mim a falar "kalevalês".

quarta-feira, 8 de junho de 2005

Sair de casa

Diz Marlowe: "Acontece que em miúdo eu tinha a paixão dos mapas. Ficava horas a olhar para a América do Sul, a África ou a Austrália, e divagava por todas as glórias da exploração. Naquele tempo o mundo ainda tinha muitos espaços em branco, e sempre que eu via algum deles particularmente convidativo (mas isso todos eram), punha-lhe o dedo em cima e dizia: quando eu for crescido hei-de lá ir. Lembra-me que o Pólo Norte era um desses lugares. Pois bem, ainda lá não estive nem vou tentar conhecê-lo. Foi-se-lhe o encanto. Outros espalhavam-se à volta do Equador e em toda a espécie de latitudes dos dois hemisférios. Estive nalguns e... olhem, o melhor é nem falar nisso."
(Joseph Conrad, O Coração das Trevas, trad. Aníbal Fernandes, ed. Estampa, pp.24-25)

sábado, 4 de junho de 2005

"Condomínios privados fecham acesso a praias do Algarve" (jornal Público, 1 de Junho de 2005)

Iam lá quase todas as tardes - ela, o pai, o irmão e a irmã. Bastava que o vento não fosse muito frio, assim que chegava a casa, o pai pegava neles e levava-os. Dentro da carrinha azul escura, iam os dez quilómetros a fazer figas para que estivesse maré baixa. Nunca se preocupavam em ler o almanaque, ou em tomar nota das horas a que houvera baixa-mar no dia anterior, ou que lua estava. Certamente, o pai saberia tudo isso, mas não queria, por nada, perder aquela ansiedade em que os via, que lhes punha os pensamentos no mar, só no mar, e lhes fazia acreditar que sim, a maré baixa fora convocada pela força das suas vontades.

Mal parava o motor da carrinha, desciam a correr e a correr atravessavam a ponte cor de rosa: do meio dela confirmavam que a água quase deixava ver o fundo do ribeiro, e abalavam em maior correria ainda, passavam os canaviais solitários ao lado do carreiro que subia a duna e, já descalços, tentavam ser os primeiros a molhar os pés.

Chegavam à Falésia sempre quando já não havia ninguém na praia, ou quase ninguém. Mesmo nos dias de maré rasinha, quando a conquilha abundava nas poças muito brilhantes da areia castanha, só um ou dois homens puxavam os arrastos de cintura, para lá e para cá. O areal, branco, limpo e amplo, era só para eles. O mar, liso-liso e de um azul que começava a escurecer, não era de mais ninguém. Quando nadavam, nesses dias, nus, ficavam em silêncio a escutar os anéis de água centrífuga que se alongavam dos seus corpos. Às vezes, sim, conversavam. Perguntavam "já imaginaste, se...?", e não queriam saber a resposta. A praia estava toda à volta deles, a areia lisa e o mar amplo, liso e escuro.

Uma vez, enquanto se moviam suspensos na água que lhes marcava as presenças com curvas a afastarem-se, perceberam ali perto uma série de pequenas esferas. Seriam como berlindes dos grandes, castanhos, ou só escurecidos, a boiar à sua frente. Quiseram vê-las mais de perto, mas, com o pequeno alvoroço do movimento, as esferinhas tinham desaparecido. Nem minutos a seguir, viram-nas de novo, a surgirem todas ao mesmo tempo à tona das ondinhas de azul-negras, deslocadas para poente. Tentaram outra vez aproximar-se, com mais suavidade, a flutuar só e a deixar que a corrente débil os guiasse. Viram então, porque a água transparecia ainda nos círculos à volta delas, as pequenas cabeças de um grupo de tartarugas. Debaixo das rugazinhas do mar, as carapaças pareciam pouco maiores que mãos grandes abertas e cada cabeça era o tal berlinde com dois olhos muito abertos, todos na mesma direcção. Ficaram sabe-se lá quanto tempo - até depois do sol-pôr - a brincar àquilo: meio metro perto delas, as tartarugas submergiam; logo reapareciam ao longe, e eles voltavam a flutuar até onde as cabeças tinham assomado, para submergirem outra vez.

Na areia molhada, o pai acenou-lhes e regressaram: os olhos vermelhos de tanto tempo no sal, a tiritar de já não haver sol, enrolaram-se nas toalhas que ainda tinham o seu calor.

quinta-feira, 2 de junho de 2005

À porta do Zé Fome, com a minha Casal Boss

Nem parece uma frase notável, mas houve foguetes e tudo!