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sexta-feira, 10 de maio de 2013

O Reboliço é um nefelibata (81)

(Foto: Debout sur L'Oeuf, na Foz do Mondego.)


Um muro de nuvens densas
Põe na base do ocidente
Negras roxuras pretensas.

Com a noite tudo acaba.
O céu frio é transparente.
Nada de chuva desaba.

E não sei se tenho pena
Ou alegria da ausente
Chuva e da noite serena

De resto, nunca sei nada,
Minha alma é a sombra presente
De uma presença passada.

Meus sentimentos são rastros.
Só meu pensamento sente...
A noite esfria-se de astros.

(1-5-1929 Poesias. Fernando Pessoa. [Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.] Lisboa: Ática, 1942 [15ª ed. 1995]. 116.)

domingo, 4 de novembro de 2012

Pessoa

A propósito das leituras e das ouviduras de Quarta passada, registe-se a possibilidade de ler online, que é como quem diz, em linha, pelo menos três teses sobre o tema Fernando Pessoa. Uma, de Mestrado, está aqui. A outra, de Doutoramento, aqui. A terceira, igualmente, aqui.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Anúncio do que aí vem



O Reboliço pensa: se publicasse entre as Cartas toda a "Ode Triunfal", ou todo o "Opiário", ou o "Guardador de Rebanhos" com cada um dos poemas-ovelhas, seria certo e sabido que. Deixar os links para esses versos, deixa-os e mais sabe que. Então. Ouvir, verso a verso, um por um e todos do primeiro ao último, como ouviu ontem o Jorge Uribe defender que se faria e se fez, isso, oh!, a maravilha do que é irrepetível. Para as consolações do tempo depois, ameiga-se de saber que dia 21* deste mês haverá outra sessão de leituras, em voz alta, por pessoas vivas, de versos muito vivos e revivecidos. Será coisa orientada pela ciência de João Figueiredo, ciência dele sobre Camões. (No mais, o Reboliço re-ouve um Pessoa, hélas!, mais mortiço.)
*E não 14, pois a greve desse dia fará fechar o Metro e o Museu da Música, que fica dentro de dentro do Metro, encerrará.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

"na forma normal da letra redonda"

Onde Fernando pede licença para publicar Camilo.

sábado, 6 de agosto de 2011

"Olha que...

...as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria."

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Edições de luxo

O Reboliço está a ficar mal habituado: primeiro, Pessoa. Agora, os moinhos de La Mancha - capa dura, gravada a ouro e tudo.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Arquivo

O dossier pedagógico de Turismo Infinito está aqui.
A entrevista de António M. Feijó, responsável pela escolha dos textos para a peça, ao programa Pessoal e Transmissível, na TSF, aqui.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Opinião de Ofélia Queirós sobre Fernando Pessoa

O Fernando era um pouco confuso, principalmente quando se apresentava como Álvaro de Campos. Dizia-me então: «Hoje não fui eu que vim, foi o meu amigo Álvaro de Campos...» Portava-se, nestas alturas, de uma maneira totalmente diferente. Destrambelhado, dizendo coisas sem nexo. Um dia, quando chegou ao pé de mim, disse-me: «Trago uma incumbência, minha senhora, é a de deitar a fisionomia abjecta desse Fernando Pessoa, de cabeça para baixo, num balde cheio de água.» E eu respondia-lhe: «Detesto esse Álvaro de Campos. Só gosto de Fernando Pessoa.» «Não sei porquê», respondeu-me, «olha que ele gosta muito de ti.»
Raramente falava no Caeiro, no Reis ou no Soares.
(Daqui.)

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

(Alberto Caeiro sobre...

... o que o Reboliço gosta de fazer. E sobre como gosta de o fazer.)

31

Deito-me ao comprido sobre a terra com erva
E esqueço tudo quanto me ensinaram.
O que me ensinaram nunca me deu mais calor nem mais frio,
O que me disseram que havia nunca me alterou a forma de uma coisa.
O que me aprenderam a ver nunca tocou nos meus olhos.
O que me apontaram nunca estava ali: estava ali só o que ali estava.
(Daqui, p. 131.)

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Há tempo

....."Há muito tempo que não escrevo. Têm passado meses sem que viva, e vou durando, entre o escritório e a fisiologia, numa estagnação íntima de pensar e de sentir. Isto, infelizmente, não repousa: no aprodrecimento há fermentação.

.....Há muito tempo que não só não escrevo, mas nem sequer existo. Creio que mal sonho. As ruas são ruas para mim. Faço o trabalho do escritório com consciência só para ele, mas não direi bem sem me distrair: por detrás estou, em vez de meditando, dormindo, porém estou sempre outro por detrás do trabalho.

.....Há muito tempo que não existo. Estou sossegadíssimo. Ninguém me distingue de quem sou. Senti-me agora respirar como se houvesse praticado uma coisa nova, ou atrasada. Começo a ter consciência de ter consciência. Talvez amanhã desperte para mim mesmo, e reate o curso da minha existência própria. Não sei se, com isso, serei mais feliz ou menos. Não sei nada. Ergo a cabeça / de passeante / e vejo que, sobre a encosta do Castelo, o poente oposto arde em dezenas de janelas, num revérbero alto de fogo frio. À roda desses olhos de chama dura toda a encosta é suave ao fim do dia. Posso ao menos sentir-me triste, e ter a consciência de que, com esta minha tristeza, se cruzou agora - visto com ouvido - o som súbito do eléctrico que passa, a voz casual dos conversadores jovens, o sussurro esquecido da cidade vida.
.....Há muito tempo que não sou eu."

(Livro do Desassossego de Bernardo Soares, Apresentação crítica, selecção e sugestões de leitura de Maria Alzira Seixo, Apêndice bibliográfico de José Blanco, Lisboa, Editorial Comunicação, 1986, pp. 135-136.)

domingo, 6 de janeiro de 2008

Magia

"I need all the concentration I can have for the preparation of what may be called, figuratively, as an act of intellectual magic - that is to say, for the preparation of a literary creation in a, so to speak, fourth dimension of the mind."
(Fernando Pessoa [1929], "De uma carta a Aleister Crowley." Daqui, p. 292.)

sábado, 5 de janeiro de 2008

«THE TIMES»

Sentou-se bêbado à mesa e escreveu um fundo
Do «Times», claro, inclassificável, lido...,
Supondo (coitado!) que ia ter influência no mundo...
...........................................................................................
Santo Deus!... E talvez a tenha tido!

(Álvaro de Campos. 16/8/1928. Daqui, p.352.)

quarta-feira, 11 de maio de 2005

A época dos descobrimentos

Estou a arrumar os livros e encontro duas coisas: um pequenino desenho do João (uma das suas lagartinhas fatigadas a passear sobre a linha de tinta da China) e as Cartas do Daudet, traduzidas por Ricardo Alberty. Tenho também o original francês, mas há-de ser cedo... O livro começa com uma escritura notarial: um senhor Mitifio vende ao senhor Alphonse Daudet um "moinho de vento e de farinha". Declara o senhor Daudet que, "não obstante ... a mó partida e a plataforma onde a erva cresce entre os tijolos", acha o "dito moinho em condições e podendo servir para os seus trabalhos de poesia". O triste é não se poder fazer pão onde se faz poesia.

Outra descoberta, faço-a no número de Out/Nov/Dez do Jornal dos Arquitectos: um artigo de Eduardo Lourenço sobre o Livro do Desassossego. Já não durmo sossegada.