quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Seis dias

O Reboliço pensa: "Que raios, há seis dias já que não escrevo nada...". A prima diz-lhe assim: "Oh, oh!... Há coisas muito piores do que passar seis dias sem escrever. Sabes a cantiguinha, não sabes? 'Há três dias que nã janto, há quatro que nã almoço'... Há pior, há pior."

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Conde Arnaldos

¡Quién hubiese tal ventura
sobre las aguas del mar
como hubo el conde Arnaldos
la mañana de San Juan!
Con un falcón en la mano
la caza iba cazar,
vio venir una galera
que a tierra quiere llegar.
Las velas traía de seda,
la ejercia de un cendal,
marinero que la manda
diciendo viene un cantar
que la mar facía en calma,
los vientos hace amainar,
los peces que andan n'el hondo,
arriba los hace andar,
las aves que andan volando
n'el mastel las faz posar.
Allí fabló el conde Arnaldos,
bien oiréis lo que dirá:
--Por Dios te ruego, marinero,
dígasme ora ese cantar.--
Respondióle el marinero,
tal respuesta le fue a dar:
--Yo no digo esta canción
sino a quien conmigo va.

(Daqui, onde se podem ler outras versões, entre as quais uma em que o conde Arnaldos anda a matar lagartos e outra, marroquina, recolhida em Buenos Aires em 1944, em que se fica a saber ser o conde filho dos reis de França e neto do de Portugal. Isto porque ontem na praia quase se matou um camaleão, porque escrevi um poema com um lagarto e porque um amigo querido, poeta a sério, me deu a conhecer o Conde.)

terça-feira, 21 de agosto de 2007

O lado B (de "bom")

Já foi na sexta passada, mas o Semanário Económico ainda está nas bancas com a reportagem de capa da "Casual", quatro GRANDES páginas sobre a B-Side. Online só se vê um bocadinho... (Com fotos do Cunhadão, claro!)

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Pianices

Li há tempos The Piano Tuner, que saiu em português na Asa, com o título traduzido à letra, O Afinador de Pianos. Hoje dou com a crítica de Eduardo Pitta a um romance (ou melhor, à edição revista de um romance) chamado O Afinador de Pianos. No fim da Primavera deste ano, li o Cemitério de Pianos, do José Luís Peixoto. (E, vá-se lá saber porquê, lembrei-me a propósito destas associações, do último Bernardo Atxaga que li, El Hijo de Acordeonista.) Hum... e não toco nenhum instrumento.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Mesquita de Córdoba

Haviam sido os fustes de pequenos bosques
a recortarem-se no azul do céu,
ao cimo das colinas, ou à beira de água
espelhando-se nelas como a cristalina
de ninfas ondulância. O dardejar do tempo
e da cristandade os fulminou. Jaziam
tombados entre as ervas, como sexos
dormindo na revôlta grenha; ou, 'inda agudamente,
inúteis penetrando sem desejo
a macieza húmida das nuvens.
-------------------------------Róseos,
brancos, irisados, foram convocados
para a glória de Alá. De toda a parte vieram,
a rastros, dorso, em carros, convergindo
para a cidade branca, atravessando os rios,
as serranias áridas, as planícies pálidas;
e as chuvas lavavam-nos da poeira do tempo
e dos caminhos.
----------------Um a um erguidos,
já de um a outro os arcos se dobravam,
tão curvamente ultrapassados, duplos,
na intensidade tensa de reuni-los
em floresta imensa, erguidos e coroados.
E de bosquetes para, aladas frondes,
serem dos deuses o repouso, ou de
nítidas cercas em triclínios calmos,
vieram concentrar-se na penumbra
em que o mihrab a um lado é uma estridência de ouro.
De novo um tecto é o que sustentam na viril
segurança para que são fustes. mas um tecto só:
de toda a parte vieram, ruínas fulminadas,
suportes dispersos dos deuses e dos homens,
para alinhar-se múltiplos na escrita
marmórea e colunar da inefável glória
do nome que é um tecto horizontal
sobre o deserto humano, frio como as lages,
macio como a aragem que se enrosca neles,
cruel como a faísca que os derrubaria,
e ardente como o sol que amadurece
os laranjais do páteo.
---------------------Vieram e ficaram
floresta exacta.
----------------Alá partiu, deixando a branca
cidade às moscas, à poeira, às torres de onde
dura de sinos se tornou a voz
do muezzin cantando à tarde.
------------------------------Mas
alguém pode partir de uma tão rígida
viril floresta: deuses traduzidos
e congregados para Sua glória?


(Jorge de Sena, in Metamorfoses, escrito em Araraquara, 7-8/1/1963)

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Metamorfose ambulante

Lembro as letras de algumas canções de Raul Seixas e penso como é difícil e tão corajoso escrever na primeira pessoa. Rabisquei, rasguei, rabisquei, rasguei, voltei a rabiscar, amachuquei outra vez o papel e atirei-o para longe. Não consigo segurar-me quieta mais do que dois segundos, sai sempre o retrato desfocado. Volto aos meus cães, que me salvam, e aos cavalos.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

"Pensou, pensou... E encontrou a solução!"

"Bal-Balthazar, Bal-Balthazar, Bal-Balthazar, Balthazar!"
(Através d'A Memória [Não] Inventada.)

À compita ;-)

Ali está ela, a posar para um telemóvel. A mim, nem quero que me liguem nenhuma. Deixo-me ficar atrás da porta velha, ao fresco da pedra carcomida da cantaria. Se me apetecesse, daria os cinco ou seis passos daqui até ao rio e nadaria, como fazem aqueles dois, tolos, atrás de um pedaço de pau, a chapinhar e a assustar os cardumes que se refugiam nas zonas de sombra. Não, não vou. Fico aqui à fresquinha. Sim, aquilo parece divertido. Enfim... Não posso ter tudo. Até entendo que não me fotografem a mim - talvez nem me vejam, fundido nesta madeira e nesta pedra.

(Foto: Isa)