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quinta-feira, 22 de maio de 2014

Décimas (um verso por cada dia de silêncio)

Sôbolo chão da rua que vai
pela cidade, me achei,
onde sentado chorei
as lembranças do meu mar,
de quanto nele me alegra.
O seco rio de meus olhos
correndo silente, vago,
deu tudo bem comparado:
o meu mar ao mal presente,
Lisboa ao tempo passado.


(Post editado, com versos do Cão do Vizinho António:

"Anda bem o Reboliço,
Nas décimas que aqui compõe;
   Que nisto de estar enfermiço,
Em Lisboa o mal o põe,
Lá agora o é achado;
E em mar, no tempo passado...")

domingo, 18 de agosto de 2013


(Minha avó, olha… Tantas vezes me lembro de ti, mas hoje, sabes, passei por aquele arco do castelo que leva para fora da cidade, das Portas de Moura, onde fazia com o carro uma curva apertada, quando vinha de te trazer do lar e te levava às horas no moinho, a veres as ruas e as pessoas. Passei por ali e foi a tua voz que me lembrou, quando dizias, sempre, "Cuátela, filha", assim mesmo, baixinho, com um muito doce "u" anteposto, a tua voz que tremia um bocadinho só, de beleza e coisa frágil, e pensei. Pensei que às vezes me surpreende por mais me cativarem vozes de cantoras que de homens cantantes, e fica assim percebido: que foi da doçura da tua, de outras como a tua voz, que me ninaram, que me alertaram, que me ralharam, que cantavam, davam instruções, vozes baixas de discretas e discretas, de canseiras e cuidados de cuidar. É isto, avó, que a tua voz não está aqui já e está aqui ainda.)

sábado, 29 de dezembro de 2012

O Instituto de Meteorologia (e Geofísica)

O Reboliço revolta-se, baixinho, se lhe alteram as rotinas. Se de manhã, no rádio, se compraz em ouvir a previsão meteorológica, manhã cedo, manhã cedo, e a testá-la o dia fora, o que não se lhe ergueram as orelhas quando ouviu o locutor com "O Instituto Português do Mar e da Atmosfera prevê para hoje..." São os nomes das coisas, é certo - a atmosfera do ar e do mar e das colinas e das serras; da física da geografia. Agora pensa, "Onde foi que terminaste, meteoro, metediço, coisa de ouro? Onde foi que terminaste de ser dito? Quem pensará agora, cada manhã, nos meteoritos que trazias, meteoro, meteoro, metediço?" Quem o sabe, Reboliço? Quem o sabe?

domingo, 16 de setembro de 2012

Farejar

O Reboliço caminha pela cidade grande, patinha atrás de patinha sobre as pedras de uma calçada inconstante e cínica. Quer olhar para cima e ver o céu, quer olhar para baixo e ver os desenhos que fazem as mais escuras sobre as pedras mais claras - mas prende-o menos o que vê do que aquilo que fareja. Nas manhãs dos dias inúteis quase ninguém anda pelas ruas, os cheiros são muitos e ficam nítidos. Antes do peixe na brasa, há o chão acabado de encerar, forte, alaranjado e luzidio, incensos e fruta ao sol.

sábado, 18 de agosto de 2012

- É um filme, Reboliço? - É, Luca, é um filme.









(Sequência de hipsta-fotos de ondas maravihosas ondas da praia de Faro: Reboliço, cedo.)

terça-feira, 10 de julho de 2012

F.

"Bom dia," pensou o Reboliço. "Bom dia, amiga que não via há tanto tempo e apesar disso é sempre como se não passasse dia nenhum sem te ver, amiga que vieste de um paladiano palácio oxoniano e me dizes que medite que medite, a mim, que passo a vida a deitar-me e a ditar-me aditar-me, bom dia, minha amiga querida. Volta sempre."

terça-feira, 29 de novembro de 2011

"unexpectedly strong ray of sunshine"

Não há fotografias: da janela da sala vê-se a rua, barulho e silêncio, duas pessoas a ler.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

(Post dedicado)

O Outono chegou, pensa o Reboliço. Passa na rua um casal que se beija em dois sorrisos largos, mais adiante um pai despede-se do filho, para o dia, vai cada um para o seu lado da esquina - o moço segue, argolinha de prata na orelha, calças descaídas até cada uma das meias coxas de pré-adulto. O sol aparece entre a timidez das nuvens e o final do dia fica tisnado de muitas cores-de-rosa. O Reboliço escapa-se às sombras, faz ao contrário do que lhe é hábito nos dias de calma: vai pelo lado da luz e sabe que as folhas das árvores se atiram ao chão para descansar.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

O Reboliço é um nefelibata (54)


(Fotos do final da tarde de ontem, para poente - onde o sol se põe - e para nascente - onde nasce nos vidros dos prédios -, desde a janela da cozinha: Reboliço, em rebuliço. O Reboliço sai, vai para fora de casa, mas leva nas narinas o cheiro da resina dos pinheiros no final da tarde, o silêncio que os pardais e os andorinhões interrompem a acoitar-se, as pilhas de livros à sua frente, com espaço para estarem cada uma no seu canto da sala, o vento que varre a casa, o chão de madeira e a lonjura que vê da janela - coisas que se agarram à pele como a resina, de persistência perfumada.)

segunda-feira, 25 de julho de 2011

A noite

O Reboliço não se recorda de ter ouvido com tanta claridade - será o ar mais húmido? - o grito dos pavões, vindo do jardim da Alameda. Ou a humidade ou o desafio que aos pavões fazem as cigarras, a noite toda a crrrrricrrrricrrrrinar. O Reboliço senta-se na varanda, o focinho para lá do fresco parapeito de mármore, e dormita. Sente passar as horas como se levasse à boca mel a escorrer de uma colher com a parte côncava para baixo.

terça-feira, 19 de abril de 2011

...

São sete e meia de uma tarde cinzenta a Norte e azul sobre o mar. O Reboliço acaba de descobrir, por um acaso de patinhas sobre as teclas, um atalho lindíssimo e absolutamente inútil: ALT + . para fazer reticências. Está encantado!

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Em se pondo a cismar numa coisa,...

... o Reboliço não a larga. O que não faz aos ossos que lhe atiram e despreza faz às ideias em se pondo a cismar. Cismou que o melhor modo de evitar o gerúndio é amá-lo, tratá-lo com justiça e usá-lo como se fosse rara jóia. Abominado, odiado, vilipendiado, o gerúndio é uma pedra não talhável: só acha lugar muito de quando em quando, se aparece um vazio particular, que a frase não consegue sofrer.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Nesga de luz

Num corredor de hotel, portas de um lado e de outro, há uma que se destaca pelo rectângulo de luz - o sol saltou a serra, entra pela janela, deita-se no chão e no ar, quer sair corredor fora. Ilumina tudo.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

(Foto: Reboliço na Covilhã, segundos antes de o sol subir para a manhã de ontem.)

domingo, 16 de novembro de 2008

Sonho meu

Esta noite sonhei em verso. Uma epopeia completa, dramatizada, com metro a lembrar o quinhentista mas vocabulário moderno. É claro que não recordo mais do que uma ou outra palavra vaga. Para me vingar da falta de memória, agora vou calçar o que resta dos meus sapatos de erva e caminhar sobre a areia da praia.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

A calma

Nos dias de Verão como tem estado, na aldeia do Reboliço era costume fechar-se a mercearia a meio da manhã. Não se cumpria nenhum horário antes estabelecido; fechava-se porque toda a actividade humana e animal se suspendia. Por conta do calor. Começava a ouvir-se com mais nitidez os passos de quem quer que fosse na rua, era possível contar as moscas só pelo zumbido que faziam e, se assomássemos ao postigo, viam-se as ondas do ar pesado a distorcer a imagem das fachadas das casas em frente, do outro lado do largo. Fechada a porta, que desde umas horas antes já era só uma nesguinha mal aberta a projectar nos ladrilhos cor de vinho a tira cegante a luz, ia-se ao quintal encher o balde de água - às vezes o metal da torneira queimava - e espalhava-se com a esfregona pelo corredor, refrescando todos os quartos, a despensa e as cozinhas à passagem. Era a calma. Não se podia estar.
***
Quando comecei a aprender matemática, lembro-me de o meu pai, em casa, ler comigo os exercícios que a D. Antónia tinha mandado fazer. Quase sempre os dois em pé, no meio da cozinha. Depois desses, em que eu por norma já estava versada e a que respondia com acerto, colocava-me perante outros, semelhantes mas novos, a testar-me. As primeiras respostas, com o entusiasmo de responder e a confiança de ter acertado nos problemas "oficiais", dava-as apressada e afoitamente; queria despachar o assunto e ir brincar, ou o que fosse. Mas, nas mais das vezes, errava a resposta. Ao fim de duas ou três tentativas goradas, o meu pai punha-me a mão em cima do ombro, de frente para mim, e apertava um bocadinho, mal uma pressão. Dizia-me: "Não podes responder à pressa, tens de ter calma e pensar." Sempre associei o ter calma à segurança daquela mão sobre o meu ombro. E ainda hoje, quando me precipito nalguma resposta, lhe sinto a falta. (Segreda-me o Reboliço que é assim aprender: criar a partir de nós a força de uma mão que não aperta desde fora.)

quinta-feira, 17 de abril de 2008

"Vou dormir um bocadinho"

Dito assim isto, a meio do dia, por alguém a quem se quer, faz sair um sorriso de alívio - uma sensação morna de descanso. É como se nós mesmos, por contaminação, por contágio amoroso de pensamentos, repousássemos.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

(Para o Isaías)

.....Chegou à plataforma. O ar arrefecera e apertava o casaco mais contra a lã da blusa única que vestira. Valia-lhe que não bulia vento. Estariam umas quatro pessoas, além de si mesma, à espera. Sentada num dos bancos, uma mulher jovem tentava ler o jornal à luz fraca que vinha do interior da sala das bilheteiras, um edifício que, por estranho que parecesse e por mais que frequentasse a estação em horas diferentes, jamais vira de portas abertas. Dentro, nos anúncios luminosos corriam as letras de manhã à noite. Os candeeiros nunca se apagavam. Os relógios funcionavam e estavam certos. Apesar disso, a sala de espera, assim como o espaço por trás dos guichets das bilheteiras, não tinham ninguém. Um vazio iluminado, aquele lugar. A plataforma, pelo contrário, o lugar habitado, quase não tinha luz. Duas lâmpadas davam a pouca claridade ao chão cinzento e às costas escurecidas dos bancos de madeira corridos. A mulher lia o jornal, sentada ao lado de uma bicicleta, enquanto o filho dava gargalhadas estridentes ao colo do pai, que lhe fazia cócegas e vozes divertidas. Nem por uma vez, das muitas em que o homem se chegou demasiado à faixa amarela de segurança, a um pé do fosso da linha, a mulher fez um gesto sequer de verificar que o filho não corria perigo. Chegou a pensar que não seria a mãe, mas as fisionomias eram claras; a mulher confiava.
.....Afastou-se um pouco de onde estava para deixar passar um rapaz com outra bicicleta, cujo cadeado acabara de libertar. No momento em que descia o túnel, a pé ao lado da bicicleta, subia pelo mesmo caminho um casal: ambos vestidos de negro, fato e vestido elegantes. Entraram na plataforma a dançar e, por um momento, imaginou que se ouvia alguma música a que não prestara atenção. Mas não havia música naquela plataforma, apenas a dança das duas figuras, encantadas no final de um jantar enamorado, que se entregavam ao silencioso arrefecimento dos minutos. Olhava para as silhuetas quase imóveis quando deu pelo homem, o mendigo veterano que costumava ver todas as manhãs e que agora lhe estendia a tampa de uma garrafa cheia de um whiskey qualquer. - Brindamos? - "Brindamos," concordou em pensamento. Afinal, era a noite de catorze de Fevereiro. E quase, quase Carnaval.

(Foto: Reboliço, a medir pela antena a esquadria da estátua com a ponte.)