domingo, 30 de março de 2008

(Deixei passar os três anos)

1. "Il faut inventer le coeur des choses, si l'on veut un jour le découvrir." - que é como quem diz que primeiro tem de se tapar o que se quer destapar, que nunca se deixa de brincar ao agora está lá, agora não está.

2. "le meilleur poète est distrait ou fasciné" - que é como quem diz não viste o degrau porque estavas a fazer poesia da boa; foi só pena não a teres escrito.
(1. e 2.: Jean-Paul Sartre, pp. 372 e 373)

quinta-feira, 27 de março de 2008

O Reboliço colecciona calendários (5)

(Foto do pisa-papéis que é uma caixinha que é um calendário.: Reboliço, de molho à conta de uma pata coxa.)

terça-feira, 25 de março de 2008

Aulas más

Foto: Reboliço a olhar para a teimosia das orquídeas
(há mais de um mês que se encerram sem quererem aprender a abrir)
e a recordar a leitura da primeira aula de Português de 1981/82.

"Março, 25

Faz-me tanto mal e tanto bem dar uma aula má! (...) (Aulas más são as que os rapazes não querem ouvir.) Mas então - poderia eu defender-me - que culpa temos nós de os rapazes serem barulhentos, desinquietos e desatentos? É verdade que às vezes a culpa não é nossa: é toda deles, a quem mais apetecia estar na rua que na escola. Mas para isso justamente é que serve o bom professor - e o meu drama resulta de que a mim só me interessa ser bom professor. Ser bom professor consiste em adivinhar a maneira de levar todos os alunos a estarem interessados; a não se lembrarem de que lá fora é melhor."

Sebastião da Gama, Diário escrito durante o seu estágio de Português entre 1948 e 1949; publicado em 3ª edição na Ática, 1967, pp. 121-123.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Assim

When you're lost in the rain in Juarez
When it's Easter time too
An' your gravity fails
An' negativity don't pull you thru
Don't put on any airs
When you're down on Rue Morgue Avenue
They got some hungry women there
An' they really make a mess outta you.

Now if you see saint Annie
Please tell her thanks a lot
I cannot move
My fingers are all in a knot
I don't have the strength
To get up an' take another shot
An' my best friend, my doctor
Won't even say what it is I've got.

Sweet Melinda
The peasants call her the goddess of gloom
She speaks good English
She invites you up into her room
An' you're so kind
An' careful not to go to her too soon
An' she takes your voice
An' leaves you howlin' at the moon.

Up on housin' project hill
It's either fortune or fame
You must pick one or the other
Tho neither of them are to be what they claim
If you're lookin' to get silly
You better go back to from where you came
Because the cops don't need you
An' man they expect the same.

Now all the authorities
They just stand around an' boast
How they blackmailed the sergeant at arms
Into leavin' his post
An' pickin' up Angel who
Just arrived here from the coast
Who looked so fine at first
But left lookin' just like a ghost.

I started out on burgundy
But soon hit the harder stuff
Everybody said they'd stand behind me
When the game got rough
But the joke was on me
There was nobody even there to bluff
I'm goin' back to New York city
I do believe I've had enough.

(Ou melhor, pensa o Reboliço: assim, que é como manda o chefe.)

segunda-feira, 17 de março de 2008

Saltar por cima da lua

Na minha ideia, é Fred Astaire quem melhor o faz. Mas isso só porque foi a vê-lo que consegui imaginar o que seria "saltar por cima da lua" - o que não invalida que outros, mais ou menos inesperados, o façam com garra e graça.
(Belíssimo: "- You're not Rita Hayworth. - No, I'm not, Ginger."
Obrigada, António!)

domingo, 16 de março de 2008

E já foi tarde!


(Fotos: Reboliço, entre uns segundos de calma e o desensofrimento de um canito tipo-esfregona, a saltitar, lambuzar e abanar o gosto de ter as patas na areia.)

sexta-feira, 14 de março de 2008

Como se fosse a caça

De noite, em fazendo pouco frio, o Reboliço safava-se para fora da casa e descia a estrada até onde o alcatrão começa. No sopé do moinho, o Lobito erguia mal um pedacinho as orelhas, só o bastante para reconhecer a esquilinha do cão da casa e descansar outra vez. À passagem pelo cruzamento com o monte do vizinho, a canzoada fazia-se notar: ladravam à indiferença do Reboliço como se aquele fosse o único momento importante do dia. O bicho seguia, pata ante pata, num quase trote das almofadas silenciosas no pó do caminho e a esquila suspensa do cachaço meio tendido. Um pouco antes da curva, vagava o passo. Tentava abafar o tinido e agachava-se na berma, só de orelhas de fora.
...
Havia noites em que esperava mais, outras em que mal chegava via adiante as lebres em corrida atrás umas das outras. Abriam-se-lhe muito os olhos e, assim esbugalhado, tinha de prender muito bem as patas para não desatar atrás das orelhas pontiagudas. Ficava um bocado longo a olhá-las. Quando não se aguentava, o erguer-se fazia soar a esquilinha e, na porção pequenina de um segundo, os tufos brancos das caudas entre as pontas das orelhas zuniam-lhe para fora da vista. Seguia-as uns metros a ladrar, na corrida quase de perder o fôlego dentro da terra lavrada e depois, também num repente, virava para casa. Na volta, nem os latidos dos outros cães lhe chegavam aos ouvidos. Ia do mais satisfeito.
(História dedicada. Com música a condizer.
Foto: Pai)

quinta-feira, 13 de março de 2008

O Reboliço colecciona calendários (4)

Dentro daquele cilindro metálico há um rolo de madeira forrada com o papel onde estão escritos os números; com uma espécie de parafuso afrouxa-se ou aperta-se o rolo e ajusta-se à janelinha, para fazer coincidir o número do dia com a inicial do dia da semana, em inglês. Parece confuso. Mas não é muito.

(Fotos: Reboliço a lutar com os reflexos do flash no metal do diabo deste objecto.)

O homem que trocou a mulher por um cavalo

quarta-feira, 12 de março de 2008

Ouvir (não ver só)

"Ouvir a vida interior, ouvir o oceano da vida interior e exterior são as novas funções daquela reorientação da consciência que se segue à descoberta da ilusão do homem visual. Esta descoberta é particularmente difícil de realizar porque a cultura dominante é a cultura da sensação visual, a tal ponto que se é condicionado a pensar que se trata de um facto, de um dado da experiência, que tudo começa e acaba com a sensação visual. Na realidade, a sensação visual é apenas uma metáfora para a representação do acto de conhecimento, não é de modo algum a descrição do seu conteúdo."
(M.S. Lourenço, aqui, p. 18.)

"For poetry was all written before time was, and whenever we are so finely organized that we can penetrate into that region where the air is music, we hear those primal warblings, and attempt to write them down, but we lose ever anon a word, or a verse, and substitute something of our own, and thus miswrite the poem."
(R.W.Emerson, aqui.)

quinta-feira, 6 de março de 2008

O Fim dos Outros

Terminou o blogue A Memória Inventada. Para fingir só mais um bocadinho que perdura, o Reboliço põe-se a pensar: "O que é o fim da invenção de uma memória? Será mais a morte da invenção ou a morte da memória? Uma memória quando termina de ser inventada deixa de ser memória? Ou passa a ser uma memória em definitivo? Ou já estaria perfeita por ser completo o seu pretérito? E o que se faz com uma memória depois de estar definitiva, completamente inventada?"

quarta-feira, 5 de março de 2008

O Reboliço colecciona calendários (3)


(Foto do Mata-borrão/calendário/base para escrever cheques, que teria de ter durado um triénio, assim houvesse vida e tempo: Mana. Obrigadão!)

domingo, 2 de março de 2008

"E a palavra arca é muito bonita."
.
.
.
.
.
.
.
.
(António Reis em entrevista a João César Monteiro sobre Jaime.
Publicada na Celulóide nº 29, de 20 de Abril de 1974, e republicada aqui.)

A luz do dia

"Era una giornata straordinariamente bella. Dopo quel passaggio di nuvole 'mitiche' cui ho già accennato, era tornato il sereno, e il sole splendeva liberamente senza che nulla si frapponesse tra la città e la sua luce. Ora, era proprio questa luce, appunto, la cosa straordinaria. E non lo dico per <...> poesia: ma perché - in questo particolare caso - la bellezza della luce è in qualche modo proprio in funzione del mio racconto. Succede spesso, effettivamente, che la luce sia cosí assoluta, quieta, profonda - rendendo il colore del cielo di un azzurro perfetto - anche se appena un po' velato, chiaro, quasi marino - da dare l'impressione di non appartenere al presente, ma a un passato miracolosamente riapparso."

(Era um dia extraordinariamente belo. Depois daquela passagem de nuvens 'míticas' que já assinalei, regressara o sereno, e o sol brilhava livremente sem que nada se interpusesse entre a cidade e a sua luz. Ora, era mesmo esta luz, precisamente, a coisa extraordinária. E não o digo por poesia: mas porque - neste caso particular - a beleza da luz está, de um qualquer modo próprio, em função da minha narrativa. Sucede muitas vezes, de facto, que a luz é assim tão absoluta, quieta, profunda - a deixar a cor do céu de um azul perfeito - mesmo se apenas um pouco velado, claro, quase marinho - a dar a impressão de não pertencer ao presente, mas a um passado miraculosamente reaparecido.)

Pier Paolo Pasolini, "Appunto 3a; Prefazione posticipata" a Petrolio, Torino, Einaudi, 1992, p. 16
Tradução: AIS.