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quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Três vivas para o Senhor Dylan!

(O Reboliço republica a sua versão de "Long and Wasted Years," belíssimas, tempestuosas palavras do mais recente prémio Nobel da Literatura)

Passou tão longo tempo
Desde que nos tivemos amor e almas verdadeiras
Houve um dia, um dia breve, em que fui o teu homem

Ontem à noite ouvi-te falar enquanto dormias
A dizer coisas, minha querida, que não deverias
És capaz de ter de ir presa, um destes dias

Haverá um lugar aonde possamos ir?
Alguém que possamos visitar?
Talvez seja contigo igual ao que é comigo

Não vejo a família há vinte anos
Coisa difícil de entender, às tantas já estão mortos
Perdi-lhes o rasto desde que perderam a terra

Agora ginga, querida, berra e dança
Já sabes do que se trata
Seja como for, o que fazes aqui ao sol?
Não sabes que pode dar-te cabo da moleirinha?

O meu inimigo afocinhou no pó
Caiu morto na estrada e perdeu o brilho
Foi brutalmente atropelado, ficou espatifado
Morreu em desgraça, tinha um coração de ferro

Uso óculos escuros a tapar-me os olhos
Há ali segredos que não consigo ocultar
Anda cá, minha querida,
Olha, e desculpa lá se te ofendi, sim?

Dois comboios vão lado a lado, quarenta milhas de distância
Descem a linha do Oriente
Não tens de te ir embora
Só vim ter contigo porque és minha amiga

Acho que enquanto estava de costas
Atrás de mim todo o mundo ardia
Já passou algum tempo
Desde que atravessámos aquele tão longo corredor

Chorámos era uma manhã gelada e fria
Chorámos porque se nos despedaçava a alma
Lá se vão as lágrimas
Lá se vão estes longos, anos perdidos

(Tempest, 2013)

sábado, 5 de setembro de 2015

Para a Inês, no dia do seu aniversário


(Foto: Reboliço em Vale de Rocins, a pensar que ainda ali não esteve com a Inês. Na noite em que a conheceu, havia fumo e escuro numa cave na cidade. Mas nela sentiu o vento são, nuvens boas e o chão de andar caminho longo a passear. Desde essa noite dia, já ela o levou a cometer os mais belos desvios de que se lembra. Que muito mais tempo se mantenha, muitos céus e muitos versos.)

sábado, 25 de maio de 2013

Fez um ano a Paralelo W. É uma livraria de livros.


SHIRLEY ANN EALES

Na vitrina lê-se Livros Raros
e Usados sob o azul inclinado
de um toldo - mesmo em frente
à glacial cafetaria de franchise
onde o dia destrata o desejo
e não se pode fumar. Subo
aos pequenos gabinetes
mergulhados no doce bafio
da literatura e percorro de A
a Z as espinhas estreitas

e rachadas da poesia. É o sítio
mais vazio de Novembro
e o que mais me reconforta;
o livro que escolho, por metade
de uma libra, traz no frontispício
um nome e uma morada: Shirley Ann
Eales, de Scottsville - um sumido
autógrafo de maiúsculas magras
e triangulares onde a imaginação
encontra por enquanto pretexto

e oxigénio suficientes para arder.
O livro teve outra existência,
pertenceu a outra casa, a outra mesa
de cabeceira - e o pensamento,
de tão óbvio, conjura de repente
uma vertigem, é um corredor
abrupto para a imensidão do mundo
onde trafica o acaso. Ah, sabemos
que a vida é improvável se damos
por nós a cismar, a meio de uma tarde

insípida, numa mulher desconhecida
que lia poemas em Scottsville, nos anos
70. Mas haverá aqui alguma espécie
de sentido, algum sinal guardado
para alguém mais sábio ou inocente
do que eu? Não sei quem és
nem onde estás agora, Shirley Ann,
mas como seria belo se pudesses
um dia encontrar, por obra da mesma
sorte, o teu nome nestes versos.

(Rui Pires Cabral, in Vários, PW - Rua dos Correeiros nº 60, 1º esquerdo, 22 de Maio de 2013.)

sábado, 18 de maio de 2013

O Reboliço colecciona calendários (28)

(Foto, fraquinha, fraquinha, e disfarçada a fraqueza com moldura e efeitos de luz e sombra e pinhole e tudo: Reboliço, a comemorar dois anos da Livraria Miguel de Carvalho, no Adro de Baixo da Lusa Atenas, lugar onde bem vivem muitos e belos livros e belos quadros e mais ainda aquele calendário que cobiça.)

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Meus manos

- Eu cá, Reboliço, gosto de andar de um lado para o outro.
- Pois é, Luca - haja quem. Já eu, quieto aqui no canto quente da casa, prefiro imaginar como seria o mundo sem distâncias: sem quilómetros, sem oceanos, sem estradas entre aqueles a quem quero ter à frente todos os dias. Para poder abraçá-los num mesmo gesto, como fiz aos meus irmãos no dia em que nasceram, há mais de sete lustros. Agora, estão eles como tu: cada um na sua esquina do mundo, saltitões, imparáveis.
- Ah, mas podias fazer de outra maneira para abraçares os teus manos, Reboliço. Arranjavas umas patas elásticas, estendias, estendias, estendias cada uma delas, e caçavas os bichinhos no abraço!

domingo, 12 de junho de 2011

O Reboliço é um nefelibata (46)

(Foto-boomerang: Diana Pimentel, no "lado mais fixe da ilha" da Madeira. Céu encapotado.)
(Hip-muito-hip-foto do pedacinho da praia de Faro que esta manhã coube na nova lente Tejas, com a novazinha película DreamCanvas: Reboliço, le peintre.
Nada de nuvens, Dona Diana. Céu sem um farrapinho.)

terça-feira, 24 de maio de 2011

Happy birthday, Bob -

- thought you might like to see yourself in a new darkness.
(Como? Não eras tu? Ah, fiz confusão. Desculpa-me. Vê lá agora.)

sábado, 7 de maio de 2011

50 anos (post dedicado)

(Foto da inscrição na mó: Reboliço. Faz meio século que no moinho se juntaram outros moleiros ao avô, os filhos e amigos, e se mudou mais uma mó. A pedrinha nova, coisa para, em sendo calcário, pesar uma tonelada bem medida, implica a desmontagem das escadas para os dois andares e o atravessamento sobre o pau do mastro principal, junto ao tecto, de um baraço da grossura de um braço de homem forte. O baraço há-de passar pelo buraco da mó e, com os braços de fortes homens a empurrar as varas, do lado da rua, ajudar a içar a pedra para o piso intermédio. A colocação da pedra na horizontal, aprumada a fio e olho, são outros tantos quinhentos de rigor e testa franzida. Como em  todos os trabalhos que exigem atenção e muita gente concentrada, fecha-se com festa e algazarra. Ou espumante e pizza.)

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Três Primaveras, três!

(Hip-foto do pequeno Matias, pouco antes de completar três anos: Vasco Célio.
Parabéns, meu sobrinho!)

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Para a Z., que hoje faz anos


Pago-te um café e contas-me a minha vida.

(Foto de "Murmúrios do Mar", de José Tolentino Mendonça in A Que Distância Deixaste o Coração, Lisboa, Assírio e Alvim, 1998: Reboliço, de roda do zingarelho que ganhou.)

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Loong Boonmee raleuk chat

Uma das coisas de que mais gosto em O Tio Boonmee recorda-se das suas Vidas Passadas é a transparência da água, igual à dos corpos das várias personagens que fizeram parte da vida do tio Boonmee, homem com a vida pelo fio de um fígado ruim e igual à do espanto com que aquelas que ainda convivem com ele se apercebem de que estão entre as memórias do parente. Isso e uma cena de sexo quase explícito entre uma princesa antiga e um peixe-gato, animal siluriforme que, como o nome tem que indicar, se consegue esgueirar na água pelos recantos mais íntimos e fazer gerar  seres da família do Abominável Homem das Neves, mas em escuro e com dois olhos muito brilhantes.

terça-feira, 5 de maio de 2009

sábado, 25 de abril de 2009

Para o Rufia

- Rafa, podes fazer-me um favor?
- Diz, Reboliço.
- Queria que entregasses este cavalinho ao Rufia. Faz anos hoje e eu tenho este presente há que tempos para lhe dar. Pediu-mo quando uma vez fui para longe e lhe perguntei o que queria que lhe trouxesse. Respondeu-me: "Traz uma coisa que encontres à beira da estrada." É isto.
- Dá-mo cá, que lho levo.
- Toma. Vê se descansam no caminho, que ele ainda é potro.

(Foto: Reboliço)

domingo, 22 de março de 2009

Ô goitacá-fêmea!

O Reboliço acordou a ouvir a voz do João Gilberto a doce-zangar-se com a "Madame" que queria acabar com o samba. Quando deu por si, sambava ele como a espreguiçar-se. Porque se teria lembrado daquilo? Então, pensou: pois claro! É dia de parabenizar a goitacá-mulher, e foi dela que ouviu a canção. Pô, se estivessem juntos, seria uma festança... Mil cheirinhos, linda!

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

O cunhadão é único!

(Foto: Gabriela Soares. Parabéns, homem! A paternidade rejuvenesce-te.)

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

domingo, 30 de novembro de 2008

Hoje e há 500 anos

Meus manos, fostes nascer no mesmo dia do Andrea Palladio.
("Coisa bonita," pensa o Reboliço, "Ainda por cima quando no YouTube se mostram as obras dele ao som da opereta de Antonio Caldara.")

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

"Signo de Escorpião"

Para ti, saberás, não há descanso,
A paz não é contigo nem fortuna:
O signo assim ordena.
Pagam-te os astros bem por essa guerra:
Por mais curta que a vida for contada,
Não a terás pequena.


(Já não é pequena, rai's parta! Mas o signo que me calhou é tal e qual o de toda a gente, o que me reconforta. Poema: José Saramago, Os Poemas Possíveis, Lisboa, Editorial Caminho, 2ª edição, revista e emendada, 1982, p.28. Foto: Reboliço)

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

4 meses, moço lindo!

(Matias e Francisco, neto e avô. Foto: Reboliço, depois de ter revisto o filme Pai e Filho, que o fez dormir, e recordado Mãe e Filho, que agora receia rever, de Aleksandr Sokurov. As imagens assim desfocadas e a sépia fazem filmes muito bonitos e nostálgicos. Mas onde quer que entre o Matias não cabe nostalgia nenhuma, porque aquele sorriso dá cabo de qualquer névoa, de qualquer sensação menos boa. É grande rapaz!)