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quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O Rafael e o nitrato do Chile

(Foto do Rafael, o catavento do Moinho, enquanto esperava por ser reposto no cimo do telhado: Reboliço. O Reboliço já uma vez tinha dado conta da razão para o Rafael se chamar assim. Recentemente, soube de onde vem a sua figura: a mão de Adolfo López-Durán Lozano desenhou a silhueta de um homem a cavalo para publicitar uma companhia de nitratos; o avô passou-a para papel, deu-lhe barba e um ar mais baixo, a fazê-lo parecer-se consigo mesmo a entrar na velhice, e mandou-o fazer, de cavalo completo, em ferro. O Reboliço olha para o alto, a contemplar o contemplativo, e procura-lhe as diferenças.)

(Foto do anúncio em azulejo, numa parede à entrada de Penamacor: Reboliço. 
O pai assegura que a montada do homem é gado muar.)

sexta-feira, 11 de agosto de 2006

Rafael

No topo do moinho, mesmo mesmo a encimá-lo, há um cata-vento. Tem a forma de um homem a cavalo numa égua (o Reboliço soube hoje, do Mestre Caetano, que é uma égua) e parece-se com um tal Rafael, que passava aqui no moinho. Ver o moinho sem tecto não lhe fez tanta impressão como ver o Rafael e a montada, por assim dizer, apeados...

(Foto: Reboliço)

quinta-feira, 7 de julho de 2011

O Rafael

(Foto, moldura e tudo: Manuel Leitão, 2006. O Reboliço lembra-se bem deste dia. Um rebuliço pelo Moinho, vão quase cinco anos, muita gente a comemorar o telhado novo, o brilho nas paredes, a engrenagem a funcionar em bom, velas abertas. Um dia de céu limpo, vento calmo - mas lá ventou... - e alegria, muita alegria. Olhou lá para cima, mesmo quando o Manel clicava no botanito da máquina, e piscou o olho ao Rafael.)

sábado, 19 de outubro de 2013

Bonjour, monsieur Daudet!

(Hip-foto da capa - um apenas, entre os pormenores de grande gosto e cuidado da edição - de Tartarin de Tarascon, texto de Alphonse Daudet [padrinho destas Cartas], traduzido por Carlito Azevedo e ilustrado por Rafael Sica, dois grandes, e publicado pela Cosac Naify: Reboliço, a ler em voz alta e a concordar, em género e número, com Gustave Flaubert, que da obrazinha terá dito ao seu autor "Belíssimo, belíssimo!")

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Dia Mundial da Rádio

O Reboliço publicamente apregoa a sua preferência pelas emissões radiofónicas. Tem horas inteiras de eleição, mais do que programas, e a estação favorita. Tirem-lhe as horas da madrugada, o José Candeias e os marinheiros, os camionistas, os reformados com insónias, os entregadores de pão, os emigrantes que fazem surpresas aos familiares estremunhados; tirem-lhe o re-ouvir o Rafael Correia, sábados, manhã cedinho, e todo o seguimento daí até depois de almoço, tirem-lhe a Eucaristia dominical, transmitida a partir da Igreja de São João de Brito; tirem-lhe as Crónicas da Idade Mídia, A Vida dos Sons, A Cena do Ódio e o seu dylaniano modelo; tirem-lhe as entrevistas, as descobertas de músicas novas; desliguem-lhe os dislates, até os disparates de muitos locutores; apaguem do seu passado a SuperFM, o Rádio Clube de Loulé, a Antena3; tirem-lhe "os alentejanos" da Rádio Pax, tirem-lhe os relatos da bola; tirem-lhe a voz do Robert Harrison da Internet e as emissões da ópera do Met. Farão dele um cão muito menos feliz.

domingo, 26 de julho de 2009

O Rafael



(Desenho do catavento: Michel Subrenat-Auger.
A parte do redondel que se vê em baixo à esquerda é o topo do telhado
do Moinho.)

domingo, 14 de junho de 2009

Cães velhos

.....À volta do moinho há agora uma parte de terra lavrada, onde nasce ou trigo ou girassóis, conforme o ano e a sementeira, e uma parte, gradeada, de exposição de tractores e outras máquinas de lavoura: brilhantes, coloridas, mas feias no meio daquilo que era um vazio de torrões intercalado no ano com a cor seca do cereal ou o vivo amarelo das flores do girassol. Houve, hoje já não está lá, um alto de terra no meio da terra, um lugar de poço disfarçado, ou furo de água, para onde não nos deixavam ir em pequenos, que era perigoso. Um poço sem vedação, sem muro, nada.
.....Quando morreu o Lobito, o cão de guarda do moinho, grande, da cor do fogo já a esbranquiçar, estava o Reboliço a entrar na meia idade. O avô foi enterrar o cão grande lá para as bandas dessa zona proibida, distante da casa e do moinho. O Reboliço não andava nunca para aqueles lados, nem conhecia a terra que rodeava o moinho. O mundo que não fosse o do seu pensamento e o das pedras da calçada que o avô fizera para amansar o passo entre a casa e o moinho, o mundo que saísse da zona da figueira grande e do socalco até à casa do motor, o chão que ficava por baixo das nuvens que contemplava dia e muitas noites aluado, não era mundo que atiçasse a curiosidade do canito da casa.
.....Dava-se com o Lobito o mínimo. Mal se falavam: fosse pelas diferenças de tamanho, extensão de pêlo ou barbas no focinho, os dois eram quase desconhecidos. Não cismava o Lobito em que o outro vivesse debaixo de telha e ele quase não - o seu orgulho era guardar o moinho, a parede redonda que a barra azul sustentava até ao topo de onde vigiava o Rafael. Não cismava o Reboliço em que o outro tivesse a parte de lobo nas refeições, os ossos maiores ou a malga de água mais cheia. Para si eram as bolachas maria pela fresca, o olhinho de sol despreocupado, o canto quente do borralho que gato nenhum habitava, as graças do dono.
.....Quando o Lobito morreu, portanto, o avô meteu-o numa das sacas velhas que já não davam para segurar a farinha e foi, sozinho, enterrar o bicho nos confins daquela terra desconhecida. Para o Reboliço, o cão grande desapareceu de vista, deixou de estar de sentinela no cimo do socalco à calma e ao frio. Na manhã seguinte à do enterro, o avô esperou pelos bons dias da esquilinha à porta do quarto. Quando se cansou de esperar, aviou-se para o dia: lavou-se na água de alecrim, tomou café com o bolo da massa de pão, ouviu as notícias no rádio, atrás do barulho da bateria que o alimentava, e perguntava-se, "Onde andará o diacho do cão?" Lidou o dia todo: aviou fregueses, amanhou bocados da horta, arrumou e desarrumou sacas, falou com o vizinho, falou com a mulher, fez contas às facturas. Quando o sol desceu, meteu-se em casa. Viu a telenovela da noite, de cabeça deitada sobre a mesa, como se estivesse a ouvir o folhetim do rádio porque não lhe diziam grande coisa as imagens e faziam-no franzir demais os olhos, só alumiados pela luz fraca do candeeiro a petróleo. Veio o sono e foi dormir. Na manhã a seguir, nada de Reboliço. Começou a apoquentar-se: "Ora esta..." Abalou para a lida, depois de lavado e comido, e andou naquilo, como sempre, sem dar pelas horas e fazendo delas só o marca-passo das refeições. Anoiteceu e o Reboliço voltou a não dormir em casa. Quando o avô comentou o caso com a avó, disse-lhe ela que andaria "por ali," que era o costume dos animais. A avó dava de comer aos bichos, galinhas, gatos bravos e cães, indistintamente.
.....Como não lhe aparecesse para reclamar a bolacha maria da manhã seguinte, a terceira falta, o avô decidiu ir procurá-lo. Agarrou no boné cinzento e no cajado e abalou pela estrada de terra. Foi pelo lado sul, o mesmo caminho que tinha feito uns dias antes para deixar o corpo do Lobito. À medida que se aproximava, viu um vulto miúdo - que foi ganhando corpo e apareceu, quando o cajado parou, como o cão da casa em pose de guarda, as patas da frente dobradas sob o peito, todo o corpo deitado e só a cabeça em sentido, sobre o montículo recém mexido da terra.

(Esta história andava já para ser escrita há muito tempo. Veio agora, a propósito disto - obrigada, Carla - e vai dedicada à Sem-Se-Ver e à Cris.)

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Um dardo sem dor

A Dona Xantipa abeirou-se do Reboliço, que dormitava, e segredou-lhe: "Tens aqui um presente. Vê se gostas." O bicho, ainda zonzo, abriu os olhos, as mandíbulas pequenas a deixar ver a goela no bocejo quieto, e esticou as patas da frente. "Um presente? É o quê?" Era um prémio, o selo aqui à esquerda, para enfeitar o blogue e dizer que há quem o leia mais do que o círculo pequenino dos bichos do Moinho. "Obrigado," ladrou o Reboliço a ver descer a estrada a Senhora Sócrates. Depois, voltou para o lado de dentro da ombreira da porta encarnada, enroscou-se e ficou a matutar a quem passaria o lencinho da botica. À Mulher do Lado, por isso mesmo e para ver se ela diz alguma coisa. Aos Queridos Gatos, senão a Tiaga ainda se zanga. Ao Isa, pois claro - e ainda fica tudo entre gatos, que é como deve ser. Ia pensando nestas gentes, uns que conhece outros que não, e adormecendo. "Reboliço!", vinha a voz de cima. Eram os pardais, a chilrear empoleirados nas varas e no telhado, de gozo com o Rafael. Estavam impacientes, achavam graça ao balão de pensamento que subia desde a porta até ao topo do chapéu do homem do cata-vento, de cada vez que o canito pensava. "De maneiras que terei de continuar..." E pensou na gente do Tame the Kant, porque o lembrava gatos amestrados e ainda se sentia felino. "Estou bem arranjado... Será que acordo com a cauda feita em trança, se não der a lista completa?" A Dona Xantipa, a dobrar o fim da estrada, viu de longe o balão e gritou: ...

sexta-feira, 1 de setembro de 2006

Trabalhos no moinho - actualização

(Foto do senhor Zito, temerário, no topo do telhado: Luísa Apolónia. O senhor Zito substitui o carpinteiro Joaquim enquanto este convalesce de um pé em má hora partido. Só lhe falta a égua, para ser o Rafael.)

quinta-feira, 3 de novembro de 2005

Contra a escassez das imagens





Primeiro, o topo do moinho visto de debaixo da videira em frente à casa. A seguir, quase em contra-luz, a indiferença do Sorna perante a insistência impertinente da Luca, observados pelo pai e pela mana do Reboliço. O senhor a cavalo, na silhueta do cata-vento, chama-se Rafael.

quinta-feira, 31 de março de 2005

Sábado de Aleluia

De cá de baixo, em frente à casa, olho para cima e vejo o cão. A corda que o prende agarra-se a uma argola de ferro que antes servia para prender as velas. Assim, deitado sobre o monte de areia, de silhueta recortada contra a mó ao lado da porta do moinho, fica com o que se chama “um ar nobre”. Subo as escadas. Não consegui manter o bicho sossegado lá em baixo, por causa de uma cadela do monte vizinho, que vem deitar-se à sombra grande do moinho e se põe a favor do vento, para que o seu cheiro o chame. O cão gania e levei-o para cima. A cadela foi-se embora.

Hoje faz mais vento que ontem, que já foi muito. O que choveu durante a noite inteira secou já com a ventania e os topos das árvores e as canas balançam, empurrados com a força. As nuvens não chegam a parar e o sol cai, queimando as folhas sem se lembrar que não é tempo ainda. Mas as coisas não são nada como eram dantes: os moinhos não moem, não se ouve o fio cantado do vento nas velhas garrafas de Sagres Mini que já substituíam os cantarinhos de barro nas cordas, as argolas não prendem as velas, as peneiras estão penduradas ao alto nas paredes e servem de casa às aranhas. Porque haveria o sol de queimar no tempo certo, se deixou de haver isso?

Já dentro do moinho, subo outra vez as escadas, oito, nove, e depois até ao último piso, o do telhado. Aqui, o soalho está mais carcomido, pela chuva que ainda lhe entrou antes de ser arranjada a cobertura. Debaixo do tecto ficam as peças mais imponentes: a viga do mastro, um longo e grosso pau com um metro de largo em cada uma das quatro faces, que atravessa em diâmetro a circunferência do moinho. Num dos extremos, apoia-se numa outra estrutura forte de madeira, e sai para fora da parede no lado oposto, a segurar as varas do velame. É de pau-ferro, grande, castanho claro ou esbatido do escuro que se calhar foi. Quase a meio, sustenta uma grande roda dentada, que dá às máquinas o movimento que os ventos transmitiram através das velas.

O tecto é forrado com paus rectangulares e assenta num aro também de madeira grossa, por baixo do qual se encaixam pesados rodízios de ferro. São dezoito e rolam dentro de um carril de ferro entalhado na pedra que remata o topo do cilindro de alvenaria que é o edifício do moinho. Nesta pedra, do lado de dentro, há também dezoito argolas pequenas, tamanho de um punho fechado, onde se prende o gancho de um torniquete. É o que mais se conhece hoje, estes remates de cantaria – a maioria dos moinhos, abandonados, perderam o telhado de madeira e ferro e deixaram-se ficar, descabeçados, mas a ostentar com orgulho aquele anel cor da pedra por cima das paredes já descarnadas.

Tudo no moinho me faz pensar na sua construção – da mesma maneira que penso quando entro numa catedral e me admiro com o que ali está e como terá sido feito. Estes aros de madeira grossa, estas rodas de ferro, pesadíssimas, a pedra, as cantarias, cada encaixe que teve de ser acertado ao milímetro quando as mãos rudes dos seus construtores, pensamos hoje, não permitiam medição tão rigorosa. Para as catedrais, para as igrejas, foram contratados engenheiros, estudiosos equipados e bem pagos. Aqui, veio um mestre. Foi ele quem mediu? Foi ele quem assentou? Lembro-me mal das máquinas a trabalhar: só do rodar das velas e do barulho do engenho do piso de baixo, que preparava o trigo para moer, limpando-o de palha, pedras e outras intromissões. Espantava-me, apenas. Hoje, não só me espanto mas penso na surpresa que é tudo aquilo se ter movido com acerto, sem uma falha, anos a fio.

Neste piso de cima só há três janelas, desencontradas das de baixo. Na parede nua estão fixadas três argolas grandes de ferro, agarradas a três círculos de pedra. É nelas que se trava o telhado, por meio de um forte gancho, também de ferro, onde está atada a corda grossa de cânhamo. Do centro do piso, quando olho para fora só vejo o céu. Se me assomo às janelas, já abarco tudo: os cães, as casas, o poço, as árvores, a cidade e a sombra, agora curta, do próprio cilindro. Só neste andar de topo é que, por baixo das janelas, há um estrado levantado meio metro desde o chão, que impede um adulto de estar em pé junto à janela e o obriga a pender a cabeça contra o cimo de pedra.

Ao longo da parede toda corre um banco de madeira, à mesma altura dos três estrados das janelas. Servia para os homens poderem alçar pouco os braços para fazerem girar o telhado e prendê-lo, com as cordas de cânhamo, às argolas da parede. Falta de coordenação ou de força de braços, de cordas ou da pedra que segura as argolas, e este telhado gigante seria levado, como um lenço de assoar, pelos céus. Mas as cordas são grossas e fortes, como os braços dos homens, e as argolas estão bem fixas.

Encosto o caderno a uma das cordas, pendurada em U com ar inútil. Daqui, olho para as ripas do tecto: lançam-se da base do anel de madeira, separadas de só um palmo ou menos, e convergem num outro aro de pau, pequeno e travado a meio por uma tabuinha onde se agarra, já lá fora, o cata-vento. É a silhueta de um homem a cavalo. Chamam-lhe Rafael, porque se parecia com um Rafael que aqui vinha. Este, o de metal negro, está ligado a um pau com uns 30 centímetros e, pendurada deste, uma sineta pequena – a campainha que avisa sempre que muda o vento. Hoje mexe-se muito, para trás e para diante, mas, como está demasiado baixa, fica presa numa outra tábua que atravessa o tecto. Às vezes, soa. Desço. Entre as tábuas do sobrado, algumas ripas são folha de metal. (É também maior o espaço entre os degraus desta escada de cima, ou ela está mais inclinada que a outra.)

No piso térreo é onde se encontram ainda mais vestígios do meu avô: a espaços, a parede segura pregos, uns mais compridos do que outros, mas em todos se enrolam pedaços de arame, baracinhos, fitas, tudo o que lhe pudesse servir para ligar peças que precisassem de estar unidas. Na casa do motor também há estes fiozinhos. Mas não encontro nenhuma caixa de primeiros socorros. Quando o moinho foi pintado por dentro, deixaram de se ver as contas a lápis que ele fazia na ombreira da porta principal: muitos números, quilos e moedas, no carvão cinzento riscado na cal. Espalhadas por todo o lado há peças que não sei de onde serão, nem para o que servem – rodas de madeira de todos os tamanhos, pesos de balanças que já não estão aqui, espátulas, pregos grandes, enferrujados, cunhas de metal e de madeira, pedaços de correias, de couro ou de cotão, e os arames. Nem as ratoeiras já têm servidão. (A sineta agora insiste, impelida por lufadas mais violentas. Lá em baixo, ao passar, assustei outra vez a cadela que dormia ao lado do cão, sobre o monte de areia e cascalho. O cão mal ergueu a cabeça, viu-a abalar e voltou ao descanso.)