terça-feira, 31 de julho de 2007

Tratado de arquitectura (na morte de M. Antonioni)

Há uns anos, fui chamada a dar uma aula sobre arquitectura no cinema. Pediram-me que escolhesse um filme para ilustrar o tema. Ao telefone, e de impulso, atirei - Zabriskie Point! Depois de desligar, joguei as mãos à cabeça e tentei perceber por que cargas de água me teria lembrado daquele filme. Vira-o uns dez anos antes, não me lembrava de quase nada, a não ser das imagens do deserto e dos pares de amantes a rolar dunas abaixo, de qualquer coisa como o mais próximo que tinha experimentado de uma alucinação. De resto, népias: não me vinha à memória nada que no filme tivesse a ver com arquitectura. And yet...
Tratei de o rever e de refazer em mim a associação que explicasse a minha teimosia. Que era um filme sobre o espaço, disso não tinha dúvidas. Sem haver dele edição digital (tanto quanto sei, ainda não existe), vi o VHS em formato americano. Nada de grave. (Na mesma altura comprei a banda sonora, que tenho ouvido à exaustão. Nem que fosse só pela história do muito que Antonioni procurou a sonoridade precisa para as imagens que já tinha na ideia, os sons country à mistura com a guitarra de Jerry Garcia ou os insistentes desvarios de Pink Floyd fazem deste um disco histórico, no meu fraquinho entender.) Pois bem. Um dos assuntos-fio da intriga é a construção de um condomínio de luxo no deserto de Death Valley, na Califórnia. O filme era sobre o espaço, sim, mas sobretudo o espaço não urbano, a maneira de encher de gente um espaço - o deserto - que, além de inumano (inurbano?), é inóspito.
A caminho da dita aula, a chegar ao fim do km 200 dos poucos mais que dista a Universidade de Évora de onde parti, pensei se haveria ali um leitor de VHS do formato em que levava o filme. Damn! Por sorte, lembrara-me de levar comigo também os dois CDs com a banda sonora. Enquanto se procurava o bendito leitor, comecei a aula a falar de como a música de Garcia, ali, habitava o espaço do silêncio. Resolvido o busílis videográfico, ficou a turma e mais eu em silêncio, numa salinha de tecto baixo abobadado, reverencial, monástico. Víamos o deserto, víamos os manifestantes ainda de anos sessentas, a prisão, ouvíamos a aflição da guitarra, a sua conformação, os gritos de Roger Waters, o céu na noite, o céu no dia, o Vale da Morte e a explosão final, repetida repetida repetida.
Sobre arquitectura? Sim. Como escreve Robert Harrison, "na sua capacidade de formar mundos, a arquitectura transforma o tempo geológico em tempo humano, o que é outro modo de dizer que transforma a matéria em sentido" (p. 3). Foi isso, precisamente, que o filme de Antonioni fez.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

No cais do Ginjal


(Foto: Mano, de telemóvel)

De passeio, o Reboliço cruzou-se com esta beleza. "Olá," disse-lhe. "Está um dia lindo, não está?". "Hum...", meio-rosnou ela. Mas ainda lhe pediu: "Quando chegares ao outro lado do cais, ladra duas vezes se estiver mais fresco. Aqui quase não se aguenta."

Deuses e heróis

"... os deuses não são fundadores originais dos lugares - só os mortais o são. Um deus imortal pode abençoar um lugar já fundado, mas não pode introduzir nele a marca do tempo finito, que é necessária à sua fundação." (p. 23).
Leio esta passagem no dia da morte de Ingmar Bergman. Mais do que um deus, um herói.

domingo, 29 de julho de 2007

A promessa

"Se entendermos a promessa divina como um contrato não entre Deus e o homem mas entre o homem e a terra - é este último, creio, que subjaz ao primeiro -, poderemos falar de qualquer coisa como as obrigações da humanidade para com a terra, da mesma maneira que da sua incapacidade de cumprir tais obrigações. Refiro-me aqui não tanto ao planeta na sua determinação material, mas mais à terra húmica, que perdurará como correlativo elementar da história humana apenas enquanto durar a própria história. Quando a história se volta contra o seu próprio impulso de memorialização e de auto-conservação, quando é entendida como uma força de apagamento mais do que de inscrição, de ataque à terra mais do que de humanização da terra, surgem na imaginação humana, inevitáveis, as imagens de um mar apocalíptico. Tais imagens recordam-nos que a história existe numa promessa que tem uma história própria, uma história que é finita; e recordam-nos ainda que só uma consciência, sempre vigilante, da finitude de tal promessa pode assegurar a sua perenidade."

If we understand the covenant not so much as a contract between God and man as between man and earth - for it is the latter contract, I believe, that lies at the basis of the former - then we can speak of something like humankinds's obligations toward the earth, as well as its failures to meet those obligations. I speak here not so much of the planet in its material determination as of the humic earth, which will endure as the elemental correlative of human history only as long as history itself endures. When history turns against its own memorializing and self-conserving drive, when it is perceived to have become a force of erasure rather than of inscription, of assault on the earth rather than humanization of the earth, then images of an apocalyptic sea inevitably surge up in the human imagination. Such images remind us that history exists in a covenant that has a history of its own, and a finite one at that; and remind us furthermore that only an evervigilant awareness of the covenant's finitude assures its perpetuity.

(Robert Pogue Harrison, The Dominion of the Dead, p.16)

sexta-feira, 27 de julho de 2007

O mar - balanço do azul

(Ok, esta é uma das primeiras vezes em que gostaria de ter aqui aquelas ceninhas de ouvir música através do blogue. Paciência: quem quiser ouvir, procure. A Mulher, a quem dedico este post, conhece a cantiga; os três marinheiros, a quem também o dedico, nem acredito que o leiam.)

Iça, iça a vela do barco
Mar do Atlântico Sul
Marinheiro João do Arco
Anjo do céu azul
Iça iça ancora a vela
Três milhas do atol
Sol na nuca e o corpo dela
Ofusca a luz do sol
(Quem avista a ilha do amor no mar só se dá bem.)

Um peixe que eu pesquei me fisgou
Fui seu peixe também
Me dá um beijo, que o beijo é uma reza pro marujo que se preza
Oa Oa balanço do mar
Oa oa amor vida boa
Oa oa vento da vela
Oa oa Me leva pra ela

Roupa lavada no mar alto
Cega minha aflição
Moça do batalhão Naval
Pega na minha mão
Me dá um beijo, que o beijo é uma reza pro marujo que se preza
Oa oa balanço do mar
Oa oa amor vida boa
Oa oa vento da vela
Oa oa Me leva pra ela

Tempestade vai e vem
Vai firme no leme marinheiro
Ela me quer e eu já não choro mais
Vou correr o mundo inteiro
Me dá um beijo , que o beijo é uma reza pro marujo que se preza
Oa oa balanço do mar
Oa oa amor vida boa
Oa oa vento da vela
Oa oa Me leva pra ela

(Skank, "O beijo e a reza", Calango, 1994)

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Bafo criminoso

Esta sexta-feira o palácio do Major será invadido por cinco macacos da avenida - e não se pode fazer nada! Os meliantes ainda não foram capturados, mas as autoridades já disponibilizaram os retratos-robôs. Tenham medo - tenham muuuuito meeeeedo...

terça-feira, 24 de julho de 2007

A tarde do Oscar

(Foto: Reboliço, a salivar por se espreguiçar sobre as riscas azuis e brancas da outra cadeira.)

Leituras em atraso (o vício)

A Vice nr 4 do volume 14 traz um anúncio (tem de os trazer às carradas, pois é gratuita - e atenção, pode ferir susceptibilidades) a uma marca de roupa, a 55dsl. Como tantos anúncios nas revistas destes tempos, convida ao usufruto dos prazeres mais imediatos e velozes: "vive pelo menos 55 segundos por dia". Não confere: a média do Reboliço anda para cima dos oitenta e cinco mil segundos diários.

Mais dois anúncios: um da marca Three as Four, outro da triple five soul. Coisas lindas - mas qual é a paranóia com os números?

sábado, 21 de julho de 2007

... e agora a Internet crashava!

Hiiiiihihihhhiii!... Que fiiiixe!

sexta-feira, 20 de julho de 2007

- Então, sempre vais?

- É verdade, vou. Ficarás bem, Reboliço?
- Ah, sim. Volta e meia, visito-te, descansa.
- Escusas, deixa lá. Desde que não me esqueças.
- Não me esqueço, Tiaga. Hás-de divertir-te. Olha, este fim-de-semana podes começar por ir ouvir a Stacey Kent. Loulé é grande terra...

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Quando um ouriço-cacheiro se irrita...

... dá nisto:(Cartoon de Milla Paloniemi; as tirinhas são sempre com o bicho a praguejar, por tudo e por nada. À letra, "Perkele" quer dizer "diabo", "demónio". É uma das palavras mais ofensivas em finlandês. Uma das tiras que prefiro - não a encontro online - tem três momentos. Chama-se "Como é que um ouriço-cacheiro coça as costas". No primeiro quadradinho, está o bicho de focinho para a frente e olhar de esguelha para trás; no segundo, vira o focinho para trás, naquilo que imagino ser uma tentativa de coçar as ditas; no terceiro, de volta à posição inicial, fecha os olhos, de raiva, e solta dois coriscos e, de pêlos do focinho eriçados como os espinhos, o mal-afamado "AII PERKELE!!")

Bocejando

Diz a Tiaga:
- Estás em estado de letargia quase completa, já reparaste?
Responde o Reboliço:
- Olha que tu...

terça-feira, 10 de julho de 2007

Um Ribeiro frente ao Hudson

O Artur foi de passeio-trabalho até NYCity. Manda recados em vídeo, através da TV das Produções Fictícias. Aqui o dia 0 e aqui o dia 1.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Founding Fathers - ou, No Princípio Era o Acto (ou, Este post daria antes uns três ou quatro diferentes)

(Acabo de ver Flags of Our Fathers, uma história das narrativas da História a partir de mitificações, de ficções.)
Há um mês atrás, mais coisa menos coisa, numa comunicação cujo título se inspira no poema de Rupert Brooke, Eelco Runia descreveu a sua teoria da vertigem narrativa. Segundo ele, na História tendem a dar-se acontecimentos imprevisíveis, brutais, traumáticos - para os quais apenas a posteriori se constroem narrativas justificativas. Runia chama a isso a "gravidade narrativa" - os eventos tendem para as narrativas, assim como os objectos para a queda.
No dia a seguir, ouvi Kathleen Sullivan perorar sobre "The imagination(s) of the Founding Fathers" e questionar-se sobre os antecedentes da Constituição Americana, o momento da sua composição e realidades (como o direito de voto das mulheres, dos negros e dos pobres, por exemplo) que, não tendo sido imaginadas pelos fundadores, se vieram a impor ao longo dos séculos e continuam a ser reguladas pela letra do texto de 1787.
Pensei, juntando as duas palestras: a Constituição, ao mesmo tempo verbo e acto, será evento brutal (vista como trauma da separação de Inglaterra) ou posterior narrativa de justificação? É um avançar para o desconhecido abismo da História, ou um retrocesso reflexivo, uma narrativa de quem olha para trás?

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Notícias fresquinhas do JCF

"Tal como no ano passado, vai decorrer na Biblioteca Municipal de Loulé uma oficina de desenho e BD. A primeira sessão é na próxima quinta-feira, 5 de Julho. Serão 16 sessões, às segundas e quintas-feiras, das 15h às 17h. Por José Carlos Fernandes.

1. Noções básicas de desenho, tendo por objectivo a aplicação à BD: a figura humana, anatomia, movimento, perspectiva
2. Breve história da BD
3. Como fazer uma BD
4. A linguagem da BD
Inscrição: Biblioteca Municipal de Loulé
Destinatários: Quem pretenda aperfeiçoar o desenho e fazer BD, tiras, cartoon ou ilustração de textos.
Idade: a partir dos 13 anos
Objectivos: Trata-se de um curso prático, pelo que é suposto que os alunos desenhem; idealmente, mas dependendo do estado de desenvolvimento e dos progressos registados no curso, espera-se que a oficina leve à produção de BDs, quer as partir de argumentos próprios ou adaptados, quer de argumentos sugeridos durante o curso.
Convém que tragam o vosso próprio material de desenho para as sessões."
(Texto enviado por e-mail. Acrescentei os links e a ilustração, do JCF.)

"Pugraminha"

Este fim de semana: Jazz em Loulé e teatro em Tavira. Não há sossego...