segunda-feira, 17 de outubro de 2011
Por isso...
terça-feira, 22 de dezembro de 2009
Natal ao lado
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Maladroit
terça-feira, 29 de setembro de 2009
Os poemas de Machado de Assis são "uma gracinha"
As Ventoinhas
A mulher é um catavento,
Vae ao vento,
Vae ao vento que soprar;
Como vae tambem ao vento
Turbulento,
Turbulento e incerto o mar.
Sopra o sul: a ventoinha
Volta azinha,
Volta azinha para o sul:
Vem taful: a cabecinha
Volta azinha,
Volta azinha ao meu taful.
Quem lhe pozer confiança,
De esperança,
De esperança mal está;
Nem desta sorte a esperança
Confiança,
Confiança nos dará.
Valêra o mesmo na arêa
Rija amêa,
Rija amêa construir;
Chega o mar e vae a amêa
Com a arêa,
Com a arêa confundir.
Ouço dizer de umas fadas
Que abraçadas,
Que abraçadas como irmãs,
Caçam almas descuidadas...
Ah que fadas!
Ah que fadas tão villans!
Pois, como essas das balladas,
Umas fadas,
Umas fadas d'entre nós,
Caçam, como nas balladas;
E são fadas,
E são fadas de alma e voz.
É que - como o catavento,
Vão ao vento,
Vão ao vento que lhes der;
Cedem três cousas ao vento:
Catavento, agua e mulher.
domingo, 20 de setembro de 2009
Pusilânime
sábado, 19 de setembro de 2009
Ressurreição
A crítica desconfia sempre da modéstia dos prólogos, e tem razão. Geralmente são arrebiques de dama elegante, que se vê ou se crê bonita, e quer assim realçar as graças naturais. Eu fujo e benzo-me três vezes quando encaro alguns desses prefácios contritos e singelos, que trazem os olhos no pó da sua humildade, e o coração nos píncaros da sua ambição. Quem só lhes vê os olhos, e lhes diz verdade que amargue, arrisca-se a descair no conceito do autor, sem embargo da humildade que ele mesmo confessou, e da justiça que pediu.
Ora pois, eu atrevo-me a dizer à boa e sisuda crítica, que este prólogo não se parece com esses prólogos. Venho apresentar-lhe um ensaio em gênero novo para mim, e desejo saber se alguma qualidade me chama para ele, ou se todas me faltam, - em cujo caso, como em outro campo já tenho trabalhado com alguma aprovação, a ele volverei esforços. O que eu peço à crítica vem a ser - intenção benévola, mas expressão franca e justa. Aplausos, quando os não fundamenta o mérito, afagam certamente o espírito, e dão algum verniz de celebridade: mas quem tem vontade de aprender e quer fazer alguma coisa, prefere a lição que melhora ao ruído que lisonjeia.
Assim.
terça-feira, 18 de novembro de 2008
terça-feira, 11 de novembro de 2008
Esaú e Jacó (II)
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
Esaú e Jacó
sábado, 1 de novembro de 2008
Sobre a morte
....Para entenderes bem o que é a morte e a vida, basta contar-te como morreu minha avó.
....— Como foi?
....— Senta-te.
....Rubião obedeceu, dando ao rosto o maior interesse possível, enquanto Quincas Borba continuava a andar.
....— Foi no Rio de Janeiro, começou ele, defronte da Capela Imperial, que era então Real, em dia de grande festa; minha avó saiu, atravessou o adro, para ir ter à cadeirinha, que a espera no Largo do Paço. Gente como formiga. O povo queria ver entrar as grandes senhoras nas suas ricas traquitanas. No momento em que minha avó saía do adro para ir à cadeirinha, um pouco distante, aconteceu espantar-se uma das bestas de uma sege; a besta disparou, a outra imitou-a, confusão, tumulto, minha avó caiu, e tanto as mulas como a sege passaram-lhe por cima. Foi levada em braços para uma botica da Rua Direita, veio um sangrador, mas era tarde; tinha a cabeça rachada, uma perna e o ombro partidos, era toda sangue; expirou minutos depois.
....— Foi realmente uma desgraça, disse Rubião.
....— Não.
....— Não?
....— Ouve o resto. Aqui está como se tinha passado o caso. O dono da sege estava no adro, e tinha fome, muita fome, porque era tarde, e almoçara cedo e pouco. Dali pôde fazer sinal ao cocheiro; este fustigou as mulas para ir buscar o patrão. A sege no meio do caminho achou um obstáculo e derribou-o; esse obstáculo era minha avó. O primeiro acto dessa série de actos foi um movimento de conservação: Humanitas tinha fome. Se, em vez de minha avó, fosse um rato ou um cão, é certo que minha avó não morreria, mas o facto era o mesmo; Humanitas precisa comer. Se em vez de um rato ou de um cão, fosse um poeta, Byron ou Gonçalves Dias, diferia o caso no sentido de dar matéria a muitos necrológios; mas o fundo subsistia. O universo ainda não parou por lhe faltarem alguns poemas mortos em flor na cabeça de um varão ilustre ou obscuro, mas Humanitas (e isto importa, antes de tudo), Humanitas precisa comer.
....Rubião escutava, com a alma nos olhos, sinceramente desejoso de entender; mas não dava pela necessidade a que o amigo atribuía a morte da avó. Seguramente o dono da sege, por muito tarde que chegasse a casa, não morria de fome, ao passo que a boa senhora morreu de verdade, e para sempre. Explicou-lhe, como pôde, essas dúvidas, e acabou perguntando-lhe:
....— E que Humanitas é esse?
....— Humanitas é o princípio. Mas não, não digo nada, tu não és capaz de entender isto, meu caro Rubião; falemos de outra coisa.
....— Diga sempre.
....Quincas Borba, que não deixara de andar, parou alguns instantes.
....— Queres ser meu discípulo?
....— Quero.
....— Bem, irás entendendo aos poucos a minha filosofia; no dia em que a houveres penetrado inteiramente, ah! nesse dia terás o maior prazer da vida, porque não há vinho que embriague como a verdade. Crê-me, o Humanitismo é o remate das cousas; e eu, que o formulei, sou o maior homem do mundo. Olha, vês como o meu bom Quincas Borba está olhando para mim? Não ele, é Humanitas...
....— Mas que Humanitas é esse?
....— Humanitas é o princípio. Há nas coisas todas certa substância recôndita e idêntica, um princípio único, universal, eterno, comum, indivisível e indestrutível, — ou, para usar a linguagem do grande Camões:
Uma verdade que nas coisas anda
Que mora no visíbil e invisíbil.
....Pois essa substância ou verdade, esse princípio indestrutível é que é Humanitas. Assim lhe chamo, porque resume o universo, e o universo é o homem. Vais entendendo?
....— Pouco, mas, ainda assim, como é que a morte de sua avó...
....— Não há morte. O encontro de duas expansões, ou a expansão de duas formas, pode determinar a supressão de uma delas; mas, rigorosamente, não há morte, há vida, porque a supressão de uma é princípio universal e comum. Daí o carácter conservador e benéfico da guerra. Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das acções bélicas. Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma acção que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.
....— Mas a opinião do exterminado?
....— Não há exterminado. Desaparece o fenómeno; a substância é a mesma. Nunca viste ferver água? Hás-de lembrar-te que as bolhas fazem-se e desfazem-se de contínuo, e tudo fica na mesma água. Os indivíduos são essas bolhas transitórias.
....— Bem; a opinião da bolha...
....— Bolha não tem opinião. Aparentemente, há nada mais contristador que uma dessas terríveis pestes que devastam um ponto do globo? E, todavia, esse suposto mal é um benefício, não só porque elimina os organismos fracos, incapazes de resistência, como porque dá lugar à observação, à descoberta da droga curativa. A higiene é filha de podridões seculares; devemo-la a milhões de corrompidos e infectos. Nada se perde, tudo é ganho. Repito, as bolhas ficam na água. Vês este livro? É Dom Quixote. Se eu destruir o meu exemplar, não elimino a obra que continua eterna nos exemplares subsistentes e nas edições posteriores. Eterna e bela, belamente eterna, como este mundo divino e supradivino.
(Machado de Assis, Quincas Borba, 1891; Lello & Irmão Editores, Porto, 1984, pp.11-15)
terça-feira, 21 de outubro de 2008
Machado de Assis sobre a paisagem, o cão e Bernardo Soares
segunda-feira, 29 de setembro de 2008
Machado e um cão, outra vez
quinta-feira, 8 de março de 2007
Filosofia canina
"Vim pela Rua da Princesa [...] sem me dar de um cão que, ouvindo os meus passos na rua, latia de dentro de uma chácara. Não faltam cães atrás da gente, uns feios, outros bonitos, e todos impertinentes. Perto da Rua do Catete, o latido ia diminuindo, e então pareceu-me que me mandava este recado: 'Meu amigo, não lhe importe saber o motivo que me inspira este discurso; late-se como se morre, tudo é ofício de cães, e o cão do casal Aguiar latia também outrora; agora esquece, que é ofício de defunto.'"
(No belíssimo Memorial de Aires, entrada do dia 18 de Setembro [de 1888])
quarta-feira, 16 de agosto de 2006
Ler nas férias
1. Por preguiça, peguei num que tinha à mão: de Machado de Assis, Memorial de Aires. Li-o de uma assentada, com a vergonha a ampliar-se-me, página a página, de não ter lido, até agora, nada deste escritor. Li-o em papel, mas está também disponível por aqui.
2. Retive algum tempo a vontade de ler El mal francès, só para actualizar a leitura de um dos meus autores favoritos (que sorte imensa, não me canso de o reconhecer!) e ler o seu romance anterior, Isaac y las dudas. Li-o na versão castelhana (o original é catalão) que, além da excelência da história, do discurso, das personagens, do muito que ri com algumas das cenas, ainda tem o bónus - também hilariante - do prólogo, escrito pelo tradutor, Luís Algorri.
3. Li, enfim, El mal francès. No original catalão. Precisarei de esclarecer umas dúvidas vocabulares, mas o desafio da língua não foi obstáculo que me impedisse de ver como Lluis Maria Todó está na sua melhor forma.
Uma alegria, ler assim tantas coisas boas. Avanço agora, com grandes expectativas, para Lavoura Arcaica. Será por aqui que começarei a conhecer a obra de Raduan Nassar.
