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segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Por isso...

Os adjectivos mais usados por Machado de Assis nas suas obras são bom, grande e melhor. Eis a razão, Reboliço, eis a razão do amor que lhe tens.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Natal ao lado

(Foto da placa a assinalar o lugar onde o grande Machado de Assis viveu parte da pequena vida: Reboliço. O Reboliço deita um rabinho do olho ao lado de lá do mar e revê, num presépio, o Catete, o Cosme Velho, as Laranjeiras e até uma mendiga encostada a um muro onde se vendiam livros em quadragésima terceira mão e revistas muito estragadas de passarem na rua mais de trinta anos.)

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Maladroit

L'homme d'esprit est le plus maladroit des hommes pour écrire à une femme.
(Victor Hènaux, De l'amour des femmes pour les sots, 1858)

O homem de espírito é o menos hábil para escrever a uma mulher.
(Victor Hènaux, Queda que as Mulheres Têm Para os Tolos
tradução de Machado de Assis, 1861. 
Edição bilingüe e estabelecimento do texto: 
Ana Cláudia Suriani da Silva, Editora Unicamp, Campinas, 2008, p. 71.)

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Os poemas de Machado de Assis são "uma gracinha"

                      
                     As Ventoinhas
                                              (1863)
Com seus olhos vaganáus,
Bons de dar, bons de tolher.
Sá de Miranda

                              A mulher é um catavento,
                                      Vae ao vento,
                              Vae ao vento que soprar;
                              Como vae tambem ao vento
                                      Turbulento,
                              Turbulento e incerto o mar.

                              Sopra o sul: a ventoinha
                                      Volta azinha,
                              Volta azinha para o sul:
                              Vem taful: a cabecinha
                                      Volta azinha,
                              Volta azinha ao meu taful.

                              Quem lhe pozer confiança,
                                      De esperança,
                              De esperança mal está;
                              Nem desta sorte a esperança
                                      Confiança,
                              Confiança nos dará.

                              Valêra o mesmo na arêa
                                      Rija amêa,
                              Rija amêa construir;
                              Chega o mar e vae a amêa
                                      Com a arêa,
                              Com a arêa confundir.

                              Ouço dizer de umas fadas
                                      Que abraçadas,
                              Que abraçadas como irmãs,
                              Caçam almas descuidadas...
                                      Ah que fadas!
                              Ah que fadas tão villans!

                              Pois, como essas das balladas,
                                      Umas fadas,
                              Umas fadas d'entre nós,
                              Caçam, como nas balladas;
                                      E são fadas,
                              E são fadas de alma e voz.

                              É que - como o catavento,
                                      Vão ao vento,
                              Vão ao vento que lhes der;
                              Cedem três cousas ao vento:
                                      Catavento, agua e mulher.

 (Joaquim Maria Machado de Assis, Crysalidas, Crisálida, Belo Horizonte, 2000, pp. 85-86. 
Sumiu-se faz hoje cento e um anos. Só para não ter de escrever mais, o sacana...)

domingo, 20 de setembro de 2009

Pusilânime

Como pode uma alma gigantesca como a deste enorme autor levantar-se sobre um uso tão frequente da palavra "pusilânime"?

sábado, 19 de setembro de 2009

Ressurreição

Ler um romance de Machado de Assis, mesmo que o seu primeiro e tosco, é um prazer largo. Encontrei uma edição escolar, de capa feiíssima, mas com o texto completo (notas a mais, claro) e as duas advertências do autor, uma à primeira edição, de 1872, e a segunda de 1905, já Machado escrevia que Ressurreição fazia parte da "primeira fase da minha vida literária". O bom do livro não é só a história - que prende, mesmo com os engulhos estilísticos e os engasgos românticos do início. Não é também só a primeira advertência, humílima e reveladora. O melhor de tudo é ver, como se fosse na carne do livro, os primeiros passos de um escritor maior: a sua coragem nas hesitações de estilo, a maneira como atira para a frase todas as dúvidas do trabalho, desde que seja para moldar uma personagem e fazer andar a intriga. O melhor de tudo é rir - rir do tosco da matéria, rir da ironia ainda descarada (no infeliz Félix) e rir da invenção.

A história está aqui, mas sem o que Machado escreveu a prefaciá-la. A meio da "Advertência da Primeira Edição", lê-se:
    
    A crítica desconfia sempre da modéstia dos prólogos, e tem razão. Geralmente são arrebiques de dama elegante, que se vê ou se crê bonita, e quer assim realçar as graças naturais. Eu fujo e benzo-me três vezes quando encaro alguns desses prefácios contritos e singelos, que trazem os olhos no pó da sua humildade, e o coração nos píncaros da sua ambição. Quem só lhes vê os olhos, e lhes diz verdade que amargue, arrisca-se a descair no conceito do autor, sem embargo da humildade que ele mesmo confessou, e da justiça que pediu.
    Ora pois, eu atrevo-me a dizer à boa e sisuda crítica, que este prólogo não se parece com esses prólogos. Venho apresentar-lhe um ensaio em gênero novo para mim, e desejo saber se alguma qualidade me chama para ele, ou se todas me faltam, - em cujo caso, como em outro campo já tenho trabalhado com alguma aprovação, a ele volverei esforços. O que eu peço à crítica vem a ser - intenção benévola, mas expressão franca e justa. Aplausos, quando os não fundamenta o mérito, afagam certamente o espírito, e dão algum verniz de celebridade: mas quem tem vontade de aprender e quer fazer alguma coisa, prefere a lição que melhora ao ruído que lisonjeia.

Assim.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

"O olho do homem serve de fotografia ao invisível, como o ouvido serve de eco ao silêncio."
(Esaú e Jacó, p. 95.)

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Esaú e Jacó (II)


(Foto: Reboliço, da edição Garnier, feita no Rio de Janeiro em 1988, oitenta e quatro anos depois da primeira.) 
Eu cá, se pudesse, faria ressuscitar Machado de Assis e obrigá-lo-ia a escrever mais histórias. Não até ele morrer outra vez, mas pelo menos até que morresse eu. É assim egoísta a espécie humana, que ele vê tão finamente e em que eu, leitora querida, sem dúvida alguma me incluo.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Esaú e Jacó

Estou a um terço de terminar mais um Machado e outra vez sinto a frustração antecipada do fim da leitura. O que me consola, agora, é saber que daqui vou direitinha e de novo para as páginas do Memorial de Aires. Este Conselheiro é um prodígio!

sábado, 1 de novembro de 2008

Sobre a morte

O Reboliço acordou cheio de vigor e, no espírito do Dia dos Mortos (o de louvar os que se foram e honrar a sua memória), releu em voz alta as páginas derradeiras do magnífico romance que é Quincas Borba - maldisse entretanto a crueldade do autor com D. Tonica, a solteirona a quem fez morrer o noivo três dias antes da boda - e, relendo-as, isso o obrigou a voltar ao início, ao ponto em que o primeiro Quincas Borba, o filósofo de Barbacena, explica a Rubião, protagonista em quantidade que não em qualidade, o princípio da Humanitas e a sua importância acima do acidental:

....Para entenderes bem o que é a morte e a vida, basta contar-te como morreu minha avó.
....— Como foi?
....— Senta-te.
....Rubião obedeceu, dando ao rosto o maior interesse possível, enquanto Quincas Borba continuava a andar.
....— Foi no Rio de Janeiro, começou ele, defronte da Capela Imperial, que era então Real, em dia de grande festa; minha avó saiu, atravessou o adro, para ir ter à cadeirinha, que a espera no Largo do Paço. Gente como formiga. O povo queria ver entrar as grandes senhoras nas suas ricas traquitanas. No momento em que minha avó saía do adro para ir à cadeirinha, um pouco distante, aconteceu espantar-se uma das bestas de uma sege; a besta disparou, a outra imitou-a, confusão, tumulto, minha avó caiu, e tanto as mulas como a sege passaram-lhe por cima. Foi levada em braços para uma botica da Rua Direita, veio um sangrador, mas era tarde; tinha a cabeça rachada, uma perna e o ombro partidos, era toda sangue; expirou minutos depois.
....— Foi realmente uma desgraça, disse Rubião.
....— Não.
....— Não?
....— Ouve o resto. Aqui está como se tinha passado o caso. O dono da sege estava no adro, e tinha fome, muita fome, porque era tarde, e almoçara cedo e pouco. Dali pôde fazer sinal ao cocheiro; este fustigou as mulas para ir buscar o patrão. A sege no meio do caminho achou um obstáculo e derribou-o; esse obstáculo era minha avó. O primeiro acto dessa série de actos foi um movimento de conservação: Humanitas tinha fome. Se, em vez de minha avó, fosse um rato ou um cão, é certo que minha avó não morreria, mas o facto era o mesmo; Humanitas precisa comer. Se em vez de um rato ou de um cão, fosse um poeta, Byron ou Gonçalves Dias, diferia o caso no sentido de dar matéria a muitos necrológios; mas o fundo subsistia. O universo ainda não parou por lhe faltarem alguns poemas mortos em flor na cabeça de um varão ilustre ou obscuro, mas Humanitas (e isto importa, antes de tudo), Humanitas precisa comer.
....Rubião escutava, com a alma nos olhos, sinceramente desejoso de entender; mas não dava pela necessidade a que o amigo atribuía a morte da avó. Seguramente o dono da sege, por muito tarde que chegasse a casa, não morria de fome, ao passo que a boa senhora morreu de verdade, e para sempre. Explicou-lhe, como pôde, essas dúvidas, e acabou perguntando-lhe:
....— E que Humanitas é esse?
....— Humanitas é o princípio. Mas não, não digo nada, tu não és capaz de entender isto, meu caro Rubião; falemos de outra coisa.
....— Diga sempre.
....Quincas Borba, que não deixara de andar, parou alguns instantes.
....— Queres ser meu discípulo?
....— Quero.
....— Bem, irás entendendo aos poucos a minha filosofia; no dia em que a houveres penetrado inteiramente, ah! nesse dia terás o maior prazer da vida, porque não há vinho que embriague como a verdade. Crê-me, o Humanitismo é o remate das cousas; e eu, que o formulei, sou o maior homem do mundo. Olha, vês como o meu bom Quincas Borba está olhando para mim? Não ele, é Humanitas...
....— Mas que Humanitas é esse?
....— Humanitas é o princípio. Há nas coisas todas certa substância recôndita e idêntica, um princípio único, universal, eterno, comum, indivisível e indestrutível, — ou, para usar a linguagem do grande Camões:

Uma verdade que nas coisas anda
Que mora no visíbil e invisíbil.

....Pois essa substância ou verdade, esse princípio indestrutível é que é Humanitas. Assim lhe chamo, porque resume o universo, e o universo é o homem. Vais entendendo?
....— Pouco, mas, ainda assim, como é que a morte de sua avó...
....— Não há morte. O encontro de duas expansões, ou a expansão de duas formas, pode determinar a supressão de uma delas; mas, rigorosamente, não há morte, há vida, porque a supressão de uma é princípio universal e comum. Daí o carácter conservador e benéfico da guerra. Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das acções bélicas. Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma acção que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.
....— Mas a opinião do exterminado?
....— Não há exterminado. Desaparece o fenómeno; a substância é a mesma. Nunca viste ferver água? Hás-de lembrar-te que as bolhas fazem-se e desfazem-se de contínuo, e tudo fica na mesma água. Os indivíduos são essas bolhas transitórias.
....— Bem; a opinião da bolha...
....— Bolha não tem opinião. Aparentemente, há nada mais contristador que uma dessas terríveis pestes que devastam um ponto do globo? E, todavia, esse suposto mal é um benefício, não só porque elimina os organismos fracos, incapazes de resistência, como porque dá lugar à observação, à descoberta da droga curativa. A higiene é filha de podridões seculares; devemo-la a milhões de corrompidos e infectos. Nada se perde, tudo é ganho. Repito, as bolhas ficam na água. Vês este livro? É Dom Quixote. Se eu destruir o meu exemplar, não elimino a obra que continua eterna nos exemplares subsistentes e nas edições posteriores. Eterna e bela, belamente eterna, como este mundo divino e supradivino.

(Machado de Assis, Quincas Borba, 1891; Lello & Irmão Editores, Porto, 1984, pp.11-15)

O Reboliço entende estas palavras como o segundo Quincas Borba, de quem o primeiro diz "Não ele, é Humanitas..." Partilham a raça. Este é "um cão, um bonito cão, meio tamanho, pêlo cor de chumbo, malhado de preto."

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Machado de Assis sobre a paisagem, o cão e Bernardo Soares

"Diz-se de uma paisagem que é melancólica, mas não se diz igual coisa de um cão. A razão não pode ser outra senão que a melancolia da paisagem está em nós mesmos, enquanto que atribuí-la ao cão é deixá-la fora de nós."
Machado de Assis, Quincas Borba, nº 53 da Biblioteca Iniciação Literária, Porto, Lello & Irmão, Eds., 1984 [1891], p. 40.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Machado e um cão, outra vez

"Queria dizer aqui o fim do Quincas Borba, que adoeceu também, ganiu infinitamente, fugiu desvairado em busca do dono, e amanheceu morto na rua, três dias depois. Mas, vendo a morte do cão narrada em capítulo especial, é provável que me perguntes se ele, se o seu defunto homónimo é que dá o título ao livro, e porquê antes um que outro - questão prenhe de questões, que nos levariam longe... Eia! chora os dois recentes mortos, se tens lágrimas. Se só tens riso, ri-te! É a mesma coisa. O Cruzeiro, que a linda Sofia não quis fitar, como lhe pedia Rubião, está assaz alto para não discernir os risos e as lágrimas dos homens."
*
(São as partes piores dos livros de Machado, os finais. Dão raiva que se termine um encantamento, páram ali como a beirinha de um precipício cujo fundo esteja enevoado e nunca, por nunca, venha a clarear jamais. Faz hoje cem anos que foi para jamais de vez.)

quinta-feira, 8 de março de 2007

Filosofia canina

Comovido, o Reboliço recorda que um dos seus escritores favoritos o entenderia, se pudessem ter um tête-a-tête. Claro que faria mudar nele a opinião sobre a impertinência dos cães. Não os conhece a todos, é o que é. Mas um engano destes, tão comum em qualquer homem, não faz dele menor escritor.

"Vim pela Rua da Princesa [...] sem me dar de um cão que, ouvindo os meus passos na rua, latia de dentro de uma chácara. Não faltam cães atrás da gente, uns feios, outros bonitos, e todos impertinentes. Perto da Rua do Catete, o latido ia diminuindo, e então pareceu-me que me mandava este recado: 'Meu amigo, não lhe importe saber o motivo que me inspira este discurso; late-se como se morre, tudo é ofício de cães, e o cão do casal Aguiar latia também outrora; agora esquece, que é ofício de defunto.'"

(No belíssimo Memorial de Aires, entrada do dia 18 de Setembro [de 1888])

quarta-feira, 16 de agosto de 2006

Ler nas férias

E vão três. Livros, quero dizer. Não são muitos, mas todos muito bons.
1. Por preguiça, peguei num que tinha à mão: de Machado de Assis, Memorial de Aires. Li-o de uma assentada, com a vergonha a ampliar-se-me, página a página, de não ter lido, até agora, nada deste escritor. Li-o em papel, mas está também disponível por aqui.
2. Retive algum tempo a vontade de ler El mal francès, só para actualizar a leitura de um dos meus autores favoritos (que sorte imensa, não me canso de o reconhecer!) e ler o seu romance anterior, Isaac y las dudas. Li-o na versão castelhana (o original é catalão) que, além da excelência da história, do discurso, das personagens, do muito que ri com algumas das cenas, ainda tem o bónus - também hilariante - do prólogo, escrito pelo tradutor, Luís Algorri.
3. Li, enfim, El mal francès. No original catalão. Precisarei de esclarecer umas dúvidas vocabulares, mas o desafio da língua não foi obstáculo que me impedisse de ver como Lluis Maria Todó está na sua melhor forma.
Uma alegria, ler assim tantas coisas boas. Avanço agora, com grandes expectativas, para Lavoura Arcaica. Será por aqui que começarei a conhecer a obra de Raduan Nassar.