Mostrar mensagens com a etiqueta Manoel de Oliveira. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Manoel de Oliveira. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 28 de abril de 2015

Reis sobre Oliveira

Quando, em 1963, se mostrou pela primeira vez Acto da Primavera, viu-se o filme que Manoel de Oliveira foi construindo, a partir do maravilhamento que o contaminou a encenação de uma Paixão de Cristo na aldeia de Curalha (Trás-os-Montes) - no que foi assistido, entre outros, por António Reis, por sua vez maravilhado aprendiz e visionário.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

(Republicação)

[Liberdade exegética]

....."A Agustina Bessa-Luís pôs na boca da personagem Fanny Owen [...], durante um baile, esta afirmação: 'A alma é um vício.' Com este dito, o que teria ela querido expressar? Verdade é que eu, para mim, não atinava. Porém, soava-me bem ao ouvido. E, sem conseguir um significado plausível, a minha curiosidade não se detinha. Apesar de ninguém me explicar esta insólita afirmação, sem eu próprio lhe encontrar razão de ser, ficou-me tal dito latente até hoje. Cheguei mesmo a perguntar à própria Agustina por que razão teria ela posto na boca da Francisca tal afirmação. E que significado poderia ter. Mas a Agustina declarou-me candidamente 'Não sei. Foi coisa que me saiu ao escrever. Que se me soltou.'
.....Continuei desolado, porque o dito me tocava e me despertava uma forte curiosidade. Até que, ultimamente, me ocorreu uma certa ideia que me parecia ajustar-se a esse dizer 'A alma é um vício.' O que é que então me ocorreu? Justamente, o vício. Porque ele mesmo, pela sua característica de ser vício, dum corpo que, uma vez possuído, só com enorme dificuldade esse mesmo corpo se liberta dele. Ora, quando a personagem Francisca diz 'A alma é um vício,' teria a Agustina inconscientemente querido dizer que o corpo enquanto vivo jamais se liberta da sua própria alma. Numa tentativa de compreensão, tombei finalmente nesta ideia: o vício caracteriza-se por ser algo de que o corpo, uma vez possuído por ele, só muito dificilmente dele, vício, se liberta. E assim, de conclusão em conclusão, acabei por chegar a esta ideia peregrina: a de que a alma é a rainha dos vícios. Será assim? Mais: assim sendo, tal como agora me estou a perguntar, e dada a consciência constitutiva do dito vício, não será então que o meu cinema é o vício da minha alma?"
(Manoel de Oliveira, 15 de Janeiro de 2008. Transcrito daqui.)

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Oh!!!

Uma vez, o Mano respondeu a uma brincadeira do Cineclube de Faro, que perguntava sobre as "tiradas de engate" de que mais se gostava no cinema. Escolheu a cena de Aniki-Bóbó em que o Carlitos pergunta à Teresinha se quer ir brincar com ele. É de alegrias destas que o Reboliço se recorda quando, muito grato, recorda Manoel de Oliveira.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

O Gebo e a sombra

Uma das coisas de que mais gostei no filme de Manoel de Oliveira foi o jogo de luzes, em quadros quase sempre escuros. Disso, do aperfeiçoado sotaque francês de Ricardo Trêpa e dos ramos de ervas penduradas pela casa. Não trazem só imagens: trouxeram palavras como louro, orégãos, trigo, ombreira, umbral. Nos filmes de Manoel de Oliveira encontro sempre bem brunidas as palavras; nos filmes e fora deles. Na pequena cerimónia, depois de receber das mãos da Presidente da Assembleia da República a chave do Mosteiro beneditino de São Bento da Saúde, o homem pousou a voz pausada para dizer "Muito grande é esta chave, que julgo não merecer." Medidas, contidas, metrificadas.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Foi bonito.

A voz de Manoel de Oliveira e o texto do Evangelho segundo São Mateus sobrepõem-se às imagens do pão, na tela da sala Luís de Pina: "A que é semelhante o reino dos céus? - O reino dos céus é semelhante ao fermento que uma mulher tomou e escondeu em três medidas de farinha, até ficar tudo levedado."
A parábola fala do fermento que se multiplica em pão, da fé que se espalha entre os homens. Na sala, multiplicados por oito, estão Luís, o moleiro que na tela joeirava o trigo e se escusava à câmara, e Adelaide, a antiga mulher vestida de negro: quatro netos, três bisnetos, um trineto.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

"Abrir os cofres", abrir as arcas

Hoje ao fim da tarde (19h30), na sala Luís de Pina da Cinemateca Portuguesa, serão exibidos os documentários O Pão, de Manoel de Oliveira (versão de 1964), As Palavras e os Fios, de Fernando Lopes (1962), Nocturno, de Jacinto Ramos (1962) e O Fogo e o Aço, de António Ruano (1966). O filme de Oliveira mostra imagens, captadas ainda na década de 50, de um moinho em Beja onde, durante pouco tempo, laborou o bisavô Luís. Lá aparece, a joeirar o trigo e a carregar uma saca, sob o olhar de uma gata pequenina. A bisavó Adelaide também se vê, ao lado do moinho, num exterior de postal ilustrado. Entre outras moendas, novas na altura, e já antigas. Os três outros filmes serão iguais mimos e a sessão será apresentada pelo Professor Paulo Miguel Martins.

domingo, 20 de junho de 2010

Moinho da Forca

(Fotograma de O Pão, de Manoel de Oliveira, a 6'21, publicado em António Preto, “A Construção da Imagem”, in António Preto [ed.], Manoel de Oliveira: O Cinema Inventado à Letra, Fundação de Serralves / Jornal Público, 2008, p. 27. Este filme teve uma primeira versão em 1959 - as imagens do Moinho da Forca, perto da praça de touros da cidade de Beja, podem ter sido feitas nesse ano ou no ano antes. A silhueta ao lado do moinho é da bisavó Adelaide. Não era o moinho da família. Dizia o avô Chico que o seu pai depois de velho é que quis trabalhar - e foi fazê-lo para aquele moinho, emprestado pelo irmão de um moleiro que ou se enforcara ou de outra maneira pusera fim aos seus dias de vento. Giram as velas cá fora. Antes, dentro do moinho o filme mostrara o bisavô Luís a bandejar o trigo e a fazer subir uma saca para o piso intermédio. Muito bem vigiado por uma gata branca e preta encostada à curva da parede. O pai diz que o moinho estava a moer do lado da maré e que devia ser por esta altura, fins de Junho. Ao canto, à direita, vê-se o segundo moinho do conjunto, que o pai sempre se lembra de ver em ruína.)

sábado, 15 de maio de 2010

Manoel, Manoel,...

não tens abelhas e continuas a dar mel...

domingo, 13 de dezembro de 2009

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

"Não será então que o meu cinema é o vício da minha alma?" (*)

O Cineclube de Faro está vivo e continua altamente recomendável. A sala onde retoma as sessões (do ciclo a que chamou “Eles vivem! (e nós também!)”) a partir de depois de amanhã foi re-equipada, tem som e imagem muito melhores do que antes. O programa começa em grande: são três dias seguidos de cinema português.
 (*) Manoel de Oliveira, há quase dois anos.

domingo, 3 de maio de 2009

Singularidades de Uma Rapariga Loura

Uma das coisas de que mais gosto em Singularidades de Uma Rapariga Loura é o Algarve ser destino do jovem Macário mas estar desde sempre na voz de Júlia Buisel, a Sra Vilaça. Isso e as ballerinas de plástico (ver a 52'' do trailer) de Luísa.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Aniki-Bobó

O blogue Arrastão publicou, em vários videos separados, a totalidade do filme de Manoel de Oliveira.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Terna luz de lua

"A certa altura, adaptei um conto de Maupassant, 'Noite de Luar,' que era muito bonito."

[..."Pourquoi Dieu avait-il fait cela? Puisque la nuit est destinée au sommeil, à l’inconscience, au repos, à l’oubli de tout, pourquoi la rendre plus charmante que le jour, plus douce que les aurores et que les soirs, et pourquoi cet astre lent et séduisant, plus poétique que le soleil et qui semblait destiné, tant il est discret, à éclairer des choses trop délicates et mystérieuses pour la grande lumière, s’en venait-il faire si transparentes les ténèbres?
.....Pourquoi le plus habile des oiseaux chanteurs ne se reposait-il pas comme les autres et se mettait-il à vocaliser dans l’ombre troublante?
.....Pourquoi ce demi-voile jeté sur le monde? Pourquoi ces frissons de cœur, cette émotion de l’âme, cet alanguissement de la chair?
.....Pourquoi ce déploiement de séductions que les hommes ne voyaient point, puisqu’ils étaient couchés en leurs lits? À qui étaient destinés ce spectacle sublime, cette abondance de poésie jetée du ciel sur la terre?" ]

(Guy de Maupassant, "Claire de Lune," 1882)


"[...] isto dava umas imagens engraçadas, apesar de tudo."

(Manoel de Oliveira, entrevista a João Bénard da Costa, Manoel de Oliveira - Cem Anos, Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema, 2008, p. 33.)

domingo, 2 de novembro de 2008

Cá para mim, uma das melhores coisas que aconteceram à conta da campanha para as eleições americanas foi a RTP2 ter passado ontem, mesmo a más horas, o filme Mr. Smith Goes to Washington (que em Portugal se chamou Peço a Palavra e pode ser visto aqui na íntegra). Sim, o DVD, e tal, podia revê-lo quando quisesse, sem ter que perder o sono, mas... não resisti. E desconfio que não foi por acaso que passou depois do Non... de Manoel de Oliveira. Fiquei a pensar nas diferenças e nas semelhanças entre os dois, que rodam ambos sobre o que um país acha que é e o que são as pessoas que nele - e por ele - vivem. Resultado imediato: o buzz, nervoso, comichoso, seja o que for, que me levará a rever o filme de Oliveira e a trabalhar muito sobre ele.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Visão diferenciada

Abro a Film Comment deste bimestre (Jul/Ago: recebo-a sempre com atraso e ainda bem) e dou de caras com o que não aparece na versão online do artigo sobre Manoel de Oliveira (que referira aqui). O que lá não aparece é o rosto do realizador como nunca pensei vê-lo impresso nas páginas de lugar nenhum, mas como, na verdade, muitas vezes já o vi. Foi simples seguir o nome do fotógrafo que teve a magnífica ousadia, Olivier Roller, e encontrar as ditas fotos.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

"Manoel, Manoel, não tens abelhas e vendes mel."

A Film Comment deste bimestre tem um destaque sobre o Manoel de Oliveira. Coisa a propósito da iniciativa de há uns meses, uma retrospectiva da sua obra na Filmoteca da Brooklyn Academy of Arts. Ler aqui.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Liberdade exegética

....."A Agustina Bessa-Luís pôs na boca da personagem Fanny Owen [...], durante um baile, esta afirmação: 'A alma é um vício.' Com este dito, o que teria ela querido expressar? Verdade é que eu, para mim, não atinava. Porém, soava-me bem ao ouvido. E, sem conseguir um significado plausível, a minha curiosidade não se detinha. Apesar de ninguém me explicar esta insólita afirmação, sem eu próprio lhe encontrar razão de ser, ficou-me tal dito latente até hoje. Cheguei mesmo a perguntar à própria Agustina por que razão teria ela posto na boca da Francisca tal afirmação. E que significado poderia ter. Mas a Agustina declarou-me candidamente 'Não sei. Foi coisa que me saiu ao escrever. Que se me soltou.'
.....Continuei desolado, porque o dito me tocava e me despertava uma forte curiosidade. Até que, ultimamente, me ocorreu uma certa ideia que me parecia ajustar-se a esse dizer 'A alma é um vício.' O que é que então me ocorreu? Justamente, o vício. Porque ele mesmo, pela sua característica de ser vício, dum corpo que, uma vez possuído, só com enorme dificuldade esse mesmo corpo se liberta dele. Ora, quando a personagem Francisca diz 'A alma é um vício,' teria a Agustina inconscientemente querido dizer que o corpo enquanto vivo jamais se liberta da sua própria alma. Numa tentativa de compreensão, tombei finalmente nesta ideia: o vício caracteriza-se por ser algo de que o corpo, uma vez possuído por ele, só muito dificilmente dele, vício, se liberta. E assim, de conclusão em conclusão, acabei por chegar a esta ideia peregrina: a de que a alma é a rainha dos vícios. Será assim? Mais: assim sendo, tal como agora me estou a perguntar, e dada a consciência constitutiva do dito vício, não será então que o meu cinema é o vício da minha alma?"
(Manoel de Oliveira, 15 de Janeiro de 2008. Relembrado ontem e transcrito daqui, a propósito cá de coisas.)

terça-feira, 26 de abril de 2005

Quatro dias

Quatro, quatro dias sem escrever uma única linha! Ao contrário do Variações, diria que, neste caso, a culpa É do sol, É da praia, É do mar. Bem, salvou-se o cinema - tive a grande sorte de ver A Costa dos Murmúrios e de ter com a Margarida Cardoso uma conversa inteligente sobre a sua sensibilidade ao livro e à história de Lídia Jorge. Além disso, outro bónus: por causa da Beatriz Batarda, mal cheguei a casa, corri a rever A Caixa.

No domingo, passei uns momentos no moinho. Poucos, mas o suficiente para o Sorna me deixar as calças cheias da sua baba de boas-vindas, misturada com a areia onde se deita, ao fresco, a guardar a porta do moinho. Só coisas boas...