sábado, 29 de outubro de 2005

Faltou escrever...

... que este e o post anterior foram os primeiros a serem dactilografados em directo, verdadeiramente cartas do dito: na casa do moinho, com uma ligacao eficaz, apesar de lentiiiiiiisssssiiiiiiiimaaaaaaaaaaaaaaa.

Conhaque!

(Com teclado italiano, isto é, uma chatice para os acentos...)
O moinho acolheu muitos amigos - os que vieram em corpo e os que aqui estiveram nos pensamentos (e nos sms, grande negocio!), a tal familia de sangue ampliada da outra. No discurso oficial, o Reboliço recordou os mais antigos de que se lembra: Luis, Adelaide, Manuel, Mariana, Custodia e Francisco. E, pelas prendas, ficou a perceber a importancia do Sideways na sua vida.
Obrigada.

sexta-feira, 28 de outubro de 2005

Tragédias

O Reboliço sentou-se numa das filas do meio, na nova sala de espectáculos. Por azar, um homem alto estava mesmo à sua frente; por sorte, havia uma cadeira livre ao lado e o Reboliço alçou o rabinho e sentou-se mais à esquerda. A primeira parte do bailado foi um bocejo: em palco havia uma série de "Ineses" mais o rei, pai de Dom Pedro. Sentado no trono, de manto pesadão, erguia nas mãos a coroa e mal se ouvia dizer umas frases em latim ("mal se ouvia" é eufemismo...). O Reboliço suspirava. Depois, a dança dos amantes. Numa mini-piscina em palco, desajustada num dia de chuva, que o fazia arrepiar-se todo: ou seria a paixão de Inês e Pedro? Dessa dança gostou mais. E da parte dos carrascos, que vieram, uns oito, com os corações das Ineses nas mãos e nos dentes. Mas o final foi de novo entediante, uma réplica da dança, com um Pedro tresloucado a agarrar a Inês morta. Longa, longa, longa... o Reboliço pensava nos convidados estrangeiros, os delegados dos Ministérios da Cultura de outros países, europeus e não só: "Pobrezinhos", pensava, "a seca que não devem estar a apanhar... Tsss-tsss, e vão daqui a pensar que o tuga é só tragédia, só choro e grito de mágoa, que todo o amor já nasce desfeito, que nos alimentamos de cenas macabras, como o beija-mão à rainha desenterrada. Como se Inês não tivesse tido já uma vida triste o bastante."
À saída, meteu-se à estrada e foi cravar à mãe uma perninha de perú com guisado de legumes. De estalar os dedos!

quinta-feira, 27 de outubro de 2005

Amigos ao moinho!

Zabelinha,
Ainda faltas tu, minha querida: já te disse que este ano é de novo no moinho? É no próprio dia D, já sabes, apareçam a seguir ao almoço. (Desculpa, é o que dá erguer-me antes de nascer o sol, esqueço o tlmvl em casa e hoje só lá regresso ao final da tarde. Espero que leias isto a tempo.)
Um beijo.

segunda-feira, 24 de outubro de 2005

Amigo

Um amigo é alguém que nos recebe para almoçar, de surpresa, a um domingo, com uma garrafa de bom vinho e um disco de música de trazer memórias, nossas e boas. Um amigo é aquele cujo cão nos reconhece. Um amigo é aquele que, no final do almoço, nos oferece o disco. Um amigo é quem quer saber se chegámos bem. É bom ter amigos assim.

Requiem pelo Caiado

O Caiado foi um dos grandes taberneiros da aldeia da mãe do Reboliço. A adega tinha um portão grande - no passeio à entrada, desenhado em pedras de calçada mais escuras, havia um garrafão. Por detrás do balcão, entre as prateleiras dos copos de cinco, pregadas a eito, páginas da Gaiola Aberta cujo assunto era quase exclusivamente Mário Soares. Entrávamos na taberna e, de repente, mesmo às horas de dia claro, éramos engolidos pela luminosidade sombria das paredes altas, dos tampos das mesas com homens sentados e do grande balcão a que se encostavam outros. Quase todos eram compadres. O ruído das vozes, lá dentro, também era diferente do que se ouvia na rua.

Quando a taberna fechou, o Caiado foi para casa. A sua casa é pequenina, de portas baixas e corredor estreito. Lá dentro, via-o quase sempre sentado à mesa. Em pé, era na taberna.

Há anos, quando o mano do Reboliço caiu na asneira de uma embriaguez com Moscatel (ai, os vinhos doces...), o Caiado foi peremptório: "Se tivesses mais prática, não teria acontecido." Doutra vez, com a mesma sabedoria e o mesmo à-vontade, mirou o rapaz de alto a baixo, fixou os olhos nos sapatos, acabadinhos de estrear para o casamento do primo, e não se conteve: "Que fiúuuuuuura!..." Agora são os sapatinhos-fiúra.

sexta-feira, 21 de outubro de 2005

Reis

"As rosas amo dos jardins de Adónis
Essas vólucres amo, Lídia, rosas,
Que em o dia em que nascem,
Em esse dia morrem.
A luz para elas é eterna, porque
Nascem nascido já o Sol, e acabam
Antes que Apolo deixe
O seu curso visível.
Assim façamos nossa vida um dia,
Inscientes, Lídia, voluntariamente
Que há noites antes e após
O pouco que duramos."

quinta-feira, 20 de outubro de 2005

A passagem das formas, ou Mistério resolvido

Nos séculos XVII e XVIII, as caravelas portuguesas vinham do Brasil carregadinhas de café, de açúcar e outros bens. Carregadinhas passavam o Atlântico. Para fazerem o caminho de regresso, como eram de fundo rombo, tinham que levar nelas lastro, peso que as impedisse de tombarem no alto mar. Levavam pedras em si, frontões de igrejas, cercaduras de janelas, portais de palacetes, ornamentos em liós, às vezes edifícios inteiros, construídos e desmontados primeiro em Portugal, e reconstituídos depois já no lado de Vera Cruz. Assim passaram as formas do barroco europeu, vindas de França, de Itália, do que hoje é a Alemanha ou da actual República Checa, que influenciavam os nossos arquitectos e artífices, para as construções, civis e religiosas, do Rio, de Pernambuco e da Baía. Iam daqui com um cheirinho a Mafra, parece. As formas estéticas viajam mais pesadas, mais lentas, mas mais belas do que os vírus.

terça-feira, 18 de outubro de 2005

O azul do céu

Seguiam os dois no carro pela auto-estrada. Tinha acabado de chover e, uns quilómetros adiante, o vento irrequieto deixava mostrar a impaciência do céu. Disse ela: "A este azul assim tão limpo chamo 'azul... Simpson'." Ele estremeceu no banco por um segundo, virou-se para ela, admirado: "Esperava que me dissesses 'um azul Ticiano', ou 'um azul Miró'." Pois não, era mesmo azul-Simpson. Nuvens e tudo.

segunda-feira, 17 de outubro de 2005

Inverno

"Winter has kept us warm, covering
Earth in forgetful snow"

O céu já sentia falta da cobertura, não de neve, mas destas nuvens cinzentas, benvindas e, por enquanto, muito respeitosas do ritmo das regas: chover de noitinha e cobrir apenas, durante o dia, para que o sol não leve da terra a água que ali adormeceu.

quarta-feira, 12 de outubro de 2005

Autárquicas de paróquia

Ao fim de mais de 30 anos, a Junta de freguesia da mãe do Reboliço mudou de cor política. Na noite de domingo, os moradores da aldeia juntavam-se, uns para festejar, outros para mostrar a quem passasse quais as obras, mal feitas ou por fazer, que tinham levado ao descalabro. À porta de um café, a Maria Porfíria dizia do deposto presidente: "O Zé Burileiro esta noite não dorme, de caganeira: quarenta cafés já o vi eu beber!". Respondia outra: "A esta hora, anda ele a remexer tudo o que é gavetinha lá na Junta..."

terça-feira, 11 de outubro de 2005

CHUVA!!!

(Faço ideia quantos blogues portugueses, por estes dias, não terão a chuva como tema... Quero lá saber!)
Acabou de cair uma carga daquelas valentes, de chuva quase tropical, quente-quente, ventada e alegre. De benzer a terra toda. Anda, chuva, cai assim mais tempo, que o Reboliço aqui fica, deitado, de focinho sobre as patas da frente, dobradas - não enroscado, mas de cabeça levantada, faro e ouvido alertas, a captar o cheiro e o som distinto de cada gota no chão de pó que agora se rende.

sexta-feira, 7 de outubro de 2005

Adivinhando xaroco...

Na maior parte das vezes, as saudades dão-se na ideia: não é bem sentir saudades, é mais pensar saudades. Mas o avô do Reboliço dizia que lhe "entrava uma paixão pelo organismo". E, desde que ouviu isso, o Reboliço às vezes sente saudades. Sente na barriga, sente na pele, nos olhos, as saudades. Rai's partam o vento sueste!

quarta-feira, 5 de outubro de 2005

Dedicated to me

Chegaram ontem os dois caixotes de livros que enviara a mim mesma no início de Agosto, de NY. Dentro deles há um livro que me é dedicado: "to those who esteem the work of Malcolm Lowry". As paixões mais antigas custam a esmorecer. Encontrei motivo para a escrita de sexta-feira.

terça-feira, 4 de outubro de 2005

Dois dias

Tenho dois dias para escrever qualquer coisa nova, que possa ler na noite de sexta-feira, no Salão Nobilíssimo dos Artistas. A semana passada fiz em dois dias a praia que este Verão não fizera ainda. Há dois dias que não chego a casa com luz do sol. Há dois dias que a Luisinha arranjou emprego. Daqui a dois dias ainda não descanso. Mas daqui a quatro dias vou ver sulcar a terra.

segunda-feira, 3 de outubro de 2005

Novelos de marinheiros

Fala Conrad do sentido que as histórias dos marinheiros (chama-lhes "novelos") têm para Marlow, a personagem que narra a maior parte da história de Heart of Darkness: "to him the meaning of an episode was not inside like a kernel but outside, enveloping the tale which brought it out only as a glow brings out a haze, in the likeness of one of these misty halos that sometimes are made visible by the spectral illumination of moonshine." Para mim, este é um dos excertos mais vertiginosos de interpretar e, imagino, de traduzir.
(Aníbal Fernandes traduziu-o assim: "para ele, o significado de um episódio não estava no seu interior como um caroço mas fora, a envolver a história e a dar-lhe realce, como o calor que provoca a névoa, como esses halos de vapor que o fantomático luar por vezes faz visíveis." Isto foi em 1983. O ano passado, Teresa Amaro pensou de maneira um pouco diferente: "para ele, o significado de um episódio não estava no interior, como um caroço, mas no exterior, envolvendo a história, como a luminiscência que faz sobressair a neblina, tal como esses halos indistintos que por vezes se tornam visíveis sob a luz espectral do luar." E passa-se isto tudo na segunda página da novela.)