quinta-feira, 30 de novembro de 2006

Para a Mana e para o Mano

Deixem a lua crescer mais um quartinho.
Que a cabeça e o colo encontrem outros dois rostos na mesma cama - um, atento, desperto, inquieto; o outro, apaziguado e a sonhar os acordados. Um à altura dos olhos de dizer palavras, enquanto o outro as cose umas às outras, no silêncio.

Que passem, como este dia feliz, maismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil emaismil...

Moinhos na poesia (8)

Fui dar a este poema que, pelos vistos, é a letra de uma canção cantada por Fabrizio de Andrè. Não entendo o que é "um filho infiel", mas é lindo que mãe e moinho nasçam a rir.

Volta la Carta

C’è una donna che semina il grano
volta la carta e si vede il villano
il villano che zappa la terra
volta la carta viene la guerra
per la guerra non c’è più soldati
a piedi scalzi son tutti scappati.
Angiolina cammina cammina sulle sue scarpette blu
carabiniere l’ha innamorata volta la carta e lui non c’è più
carabiniere l’ha innamorata volta la carta e lui non c’è più.
C’è un bambino che sale un cancello
ruba ciliege e piume d’uccello
tira sassate non ha dolori
volta la carta c’è il fante di cuori
il fante di cuori che è un fuoco di paglia
volta la carta e il gallo ti sveglia.
Angiolina alle sei di mattina s’intreccia i capelli con foglie d’ortica
ha una collana di ossi di pesca la gira tre volte intorno alle dita
ha una collana di ossi di pesca la conta tre volte in mezzo alle dita.
Mia madre ha un mulino e un figlio infedele
gli inzucchera il naso di torta di mele
mia madre e il mulino son nati ridendo
volta la carta c’è un pilota biondo
pilota biondo camice di seta
cappello di Volpe sorriso d’atleta.
Angiolina seduta in cucina, che piange che mangia insalata di more
ragazzo straniero ha un disco d’orchestra che gira veloce che parla d’amore
ragazzo straniero ha un disco d’orchestra che gira che gira che parla d’amore.
Madamadorè ha perso sei figlie
tra i bar del porto e le sue meraviglie
Madamadorè sa puzza di gatto
volta la carta e paga il riscatto
paga il riscatto con le borse degli occhi
piene di foto di sogni interrotti.
Angiolina ritaglia giornali si veste da sposa canta vittoria
chiama i ricordi col loro nome volta la carta e finisce in gloria
chiama i ricordi col loro nome volta la carta e finisce in gloria.


angiolina

há uma mulher que semeia grão
vira-se a carta e vê-se o vilão
o vilão remexe a terra
vira-se a carta e vem a guerra
para a guerra não há soldados
todos fugiram, de pés descalços
angiolina caminha caminha nos seus sapatinhos azuis
apaixonou-se pelo polícia
vira-se a carta e ele já não está
há um miúdo que sobe o portão
rouba cerejas e penas de pássaro
atira pedras, a dor não existe
vira-se a carta e sai valete de copas
o valete de copas é fogo na palha
volta-se a carta, o galo acorda-te
angiolina às seis da manhã entrelaça os cabelos com folhas de urtiga
tem um colar de caroços de pêssego
passa-o três voltas em torno dos dedos
tem um colar de caroços de pêssego
conta três voltas em torno dos dedos
a minha mãe tem um moinho e um filho desleal
que lhe adoça o nariz de tarte de maçã
a minha mãe e o moinho nasceram a rir
vira-se a carta e há um piloto loiro
piloto loiro, camisa de seda, chapéu de raposa, sorriso de atleta
angiolina sentada na cozinha chora e come salada de amoras
o rapaz estrangeiro tem um disco de orquestra que gira rápido e fala de amor
o rapaz estrangeiro tem um disco de orquestra que gira gira e fala de amor
Madame Doré perdeu as seis filhas nos bares do porto e nas suas maravilhas
Madame Doré fede a gato
vira-se a carta e paga o resgate
paga o resgate com olhos inchados
cheios de fotografias de sonhos interrompidos
angiolina recorta jornais veste-se de noiva e canta vitória
trata as recordações pelo nome
vira-se a carta e termina em glória
trata as recordações pelo nome
vira-se a carta e termina em glória.

(A tradução é "livre", da autoria da s.a.r.a.l.e.a.o, através de quem conheci o poema.)

quarta-feira, 29 de novembro de 2006

O arquivo e o incêndio

"Somos tentados a sugerir que, se não tivesse havido um incêndio que consumisse a Biblioteca, algum teria de ser inventado: Que outro destino, afinal, poderia aguardar um arquivo universal, senão o ser destruído?"
(Heller-Roazen não está a falar de Alexandria, mas das memórias das emoções.)

terça-feira, 28 de novembro de 2006

O do tigre

- Tiaga, chove a gente: gatinhas e canitos, já viste?
- Ainda tu estavas enroscado no teu sono e já eu estava à janela, a ver as gotas em carrinhos de choque pela janela abaixo. Sabes quem faria hoje anos, se estivesse vivo?
- Quem?
- O William Blake.
- Não me digas! O do tigre?
- Esse mesmo. 249.
- Hum... Já se está mesmo a ver o que para aí vem. Parabéns, então.

segunda-feira, 27 de novembro de 2006

Histórias

Ainda bem que há filmes. O Luís Miguel Oliveira e o Paulo Varela Gomes (através do Ivan Nunes) andam num debate acerca da História e da história no cinema, que começou a propósito do Marie Antoinette. Tenho estado a segui-lo com atenção e aquilo já dá matéria para um bom colóquio sobre o tema. Eis o mais recente post; a partir dele conseguem reconstituir o fio. Da história.

Arte Postal

De amanhã a uma semana inaugura no Complexo Pedagógico do campus de Penha, Espaço das Artes Visuais, uma exposição de Arte Postal. Em Faro, na Universidade do Algarve. Foi amada e longamente preparada pela Mulher do Lado. É coisa para maravilhar o mais desatento dos carteiros.

O poder dos bonecos

A certa altura de uma mesa-redonda sobre traduções e adaptações da obra de Beckett em Portugal, falou o director artístico do Teatro de Marionetas do Porto, João Paulo Seara Cardoso. Leu numa série de folhas um texto claro e muito esclarecedor de como a figura da marioneta serve, por exemplo, a incorporealidade da personagem beckettiana; de como é difícil ou quase impossível obter para representações em palco - e mais difícil ainda quando se quer escapar às minuciosas indicações de cena do autor - os direitos das peças de Beckett; de como quase tudo se passou na criação de Nada ou o Silêncio de Beckett (2005). Já ia longa a leitura, sem nada de entediante, quando anunciou: "Falarei agora de outras coisas: de bicicletas." E terminou com a marioneta de Beckett sobre a mesa de conferências, a pedalar uma linda bicicleta e a mirar, para um lado e para o outro, a plateia. O manipulador desapareceu; os outros conferencistas sumiram; o moderador deixou de estar ali; a mesa transformou-se em estrada no meio de algum lugar; na sala toda só ficaram a bicicleta e o homem esguio, de pescoço alto a revirar a cabeça para um lado e para o outro.

domingo, 26 de novembro de 2006

Uma "bejeca" à saúde do poeta!

Se for Saison, ainda melhor. Cesariny reencontrou Rimbaud e ergueu um brinde à tolice que vai pelo mundo.

quinta-feira, 23 de novembro de 2006

A biblioteca de Juan Rulfo

Quando Victor Jiménez, o arquitecto que lhe desenharia uma casa, lhe elogiou a sua biblioteca de mais de dez mil volumes, Rulfo terá dito que não, não era tão rica como desejaria: "una buena biblioteca es una biblioteca de historia; yo sólo tengo literatura".

(Ontem à noite, na Biblioteca de Loulé, falou-se de Rulfo e de Páramo, o homem que "se fue desmoronando como si fuera un montón de piedras".)

quarta-feira, 22 de novembro de 2006

Pedro Páramo

- Sinto como se alguém caminhasse sobre nós.
- Vamos, deixa-te de medos. Já ninguém te pode assustar. Tenta pensar em coisas agradáveis porque vamos estar muito tempo enterrados.
(p.58)

terça-feira, 21 de novembro de 2006

Nada de compras!

"Quem não tem o dito não tem vícios"; ou, "A Festa da Música acabou porque não há dinheiro" (notícia do Público hoje, sem link...); ou "Anuncio isto todos os anos e não há meio, pois é desta, que não há meio MESMO!"

- Ó Tiaga, então este ano não tenho prenda?
- Está descansado, desensofrido... Não será coisa comprada, isso não.

segunda-feira, 20 de novembro de 2006

sexta-feira, 17 de novembro de 2006

Filha ao pai

PROSPERO: ........... Alack, what trouble
Was I then to you!

MIRANDA: ............. O, a cherubin
Thou wast that did preserve me. Thou didst smile,
Infused with a fortitude from heaven,
When I have deck'd the sea with drops full salt,
Under my burthen groan'd; which rais'd in me
An undergoing stomach, to bear up
Against what should ensue.

Diz o pai - Céus, que empecilho terei sido para ti!
Responde a filha - Diz antes um anjo, que me preservaste. Sorriste, cheio de uma força celestial, quando eu de lágrimas salgadas enchia aquele mar e por minha desgraça rugia; e assim me deste estômago para aguentar tudo o que veio a suceder.

(The Tempest, I, ii, 151-158; a troca das personagens é da minha inteira vontade, da minha total responsabilidade.)

terça-feira, 14 de novembro de 2006

Calasso (2)

(Escrevo (2) por causa disto, que já foi há algum tempo.)

"Contrariamente à ilusão moderna, as forças psíquicas são fragmentos dos deuses, não são os deuses fragmentos das forças psíquicas."

(p. 145. Calasso traduzido por Clara Rowland. Tenho algumas dúvidas sobre a tradução de certos modos verbais, nalguns momentos do texto; nesta frase, porém, tudo me parece claro.)

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

Hoje

ganhei uma violeta. Violeta.

Manias

Cinco das minhas manias:
- Levantar-me de manhã sentando-me primeiro no bordo do colchão e só depois, devagarinho, pôr-me de pé (por causa das quebras de tensão, hehehe)
- Comer noodles sempre com pauzinhos (e exigi-lo dos outros comensais)
- Recusar-me a dar fim à minha colecção de calendários de bolso (só por mania, realmente...)
- Começar as aulas com "Ora bem" (detesto esta!)
- Guardar os bilhetes de espectáculos a que assista (cinema, teatro, seja o que for)

Cinco manias da Tiaga:
- Dar o primeiro miado do dia como um uivo de lamento profundo (= "Anda jááááá abrir-me a portaaaaaaa, quero ver se te distraíste e deixaste a varanda abertaaaaa!")
- Saltar para a banheira assim que ouve a água a escorrer ("Ui, que caio! Aqui dentro está tudo alagado, mas eu queria tanto agarrar aquelas bolhinhas que escorrem pela cortina transparente...")
- Pousar, qual águia (às vezes, lembra mais um abutre!), nos lugares mais altos da casa
- Saltar para o colo de quem se sente no sofá
- Saltar para fora do colo de quem se sente no sofá e tente fazer-lhe uma festinha

Cinco manias do Reboliço:
Olá! O Reboliço não tem manias...

;)

domingo, 12 de novembro de 2006

As cidades

Vi no CAPa, na sexta passada, acompanhado por uma performance com quatro músicos e duas guitarras preparadas e manipulação de imagens pelo próprio Edgar Pêra, o seu Tributo a Carlos Paredes. Nele, a certa altura o guitarrista diz, acerca das grandes cidades que teve oportunidade de conhecer (mais palavra, menos palavra, cito de cor): "Vi nelas aquilo de que gosto sempre: o amor pelas crianças, o trabalho e o amanhecer." (A ordem era esta, disso lembro-me bem.) Paredes não estava a escrever um poema, estava a dar uma entrevista. Dizia isto com a sua voz tão segura.

quinta-feira, 9 de novembro de 2006

Red Lollipop

As an unperfect actor on the stage
Who with his fear is put besides his part,
Or some fierce thing replete with too much rage,
Whose strength's abundance weakens his own heart.
So I, for fear of trust, forget to say
The perfect ceremony of love's rite,
And in mine own love's strength seem to decay,
O'ercharged with burden of mine own love's might.
O, let my books be then the eloquence
And dumb presagers of my speaking breast,
Who plead for love and look for recompense
More than that tongue that more hath more express'd.
O, learn to read what silent love hath writ:
To hear with eyes belongs to love's fine wit.
(W.S.)

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

Uahahhhhhhhhhh!

Grande espreguiçadela e bocejo ao mesmo tempo, patas da frente esticadas, esticadas, lombo distendido até um comprimento quase impossível, olhos cerradinhos pela força dos maxilares escancarados. A Tiaga passa o dia a fazer yoga. O Reboliço, que à vista dela parece uma prancha de metal rijo, consegue a maior agilidade no abanar da cauda. Esta manhã, assim que percebeu o sol antes da janela aberta, mais um pouco e desenroscava a dita, de tanta alegria. Que amanhecer...

terça-feira, 7 de novembro de 2006

Produzir presença

Um - "if we approach a poet without this prejudice [to dwell with satisfaction upon the poet's difference from his predecessors] we shall often find that not only the best, but the most individual parts of his work may be those in which the dead poets, his ancestors, assert their immortality most vigorously."

(Se abordarmos um poeta sem esta ideia-feita de nos aprazer a sua diferença em relação aos poetas que o antecederam, poderemos descobrir que não só as melhores mas também as mais características partes da sua obra podem ser aquelas em que os poetas mortos, os seus antecessores, mais energicamente afirmam a sua imortalidade.)

Dois - "if the only form of tradition, of handing down, consisted in following the ways of the immediate generation before us in a blind or timid adherence to its successes, 'tradition' should positively be discouraged."

(Se a única forma da tradição, de passagem do testemunho, consistisse em seguir os trilhos da geração imediatamente anterior numa adesão cega ou tímida às suas proezas, deveria desencorajar-se definitivamente a "tradição".)

Três - "Tradition [...] involves, in the first place, the historical sense [...]; and the historical sense involves a perception, not only of the pastness of the past, but of its presence."

(Em primeiro lugar, a tradição implica o sentido histórico; e o sentido histórico implica uma percepção não apenas da qualidade passada do passado, mas da sua presença.)

T. S. Eliot sobre a tradição e o talento individual. Ou Gumbrecht avant-la-lettre.

segunda-feira, 6 de novembro de 2006

WB por JB

Não podia deixar de ser. Fica linkado.

Blue jeans

O que mais gostei de ver, entre o muito que se tem publicado e mostrado nos últimos dias a propósito de mais uma obra de António Lobo Antunes, foram as calças de ganga que ele exibe numa foto do DN (ou será do Público?). Têm as algibeiras de trás à frente. Hão-de ver, que não encontro a foto online. Do melhorio!

ADENDA: Foi no "Mil Folhas" do Público (de sexta, dia 3/11) que saiu a dita foto, de Enric Vives-Rubio, a ilustrar o artigo de Alexandra Lucas Coelho, "Lobo Antunes contra Lobo Antunes".

sexta-feira, 3 de novembro de 2006

Citação

Ode marítima


Ah, [...]


Ah, [...]

Ah [...]


Ah, [...]


Ó [...]


Ah, [...]


Ah, [...]

Ah, [...]

Ah, [...]

Ah,[...]

Ah, [...]

Ah, [...]

Ahò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-yyyy... [...]
[...] ahò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò - yyyy...) [...]

Ah [...]

Eh [...]

Eh [...]

Eh [...]
Eh [...]

Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! [...]

Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! [...]

Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! [...]

Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! [...]

Eh-eh-eh-eh-eh! [...]

Eh-eh-eh-eh eh! Eh eh-eh-eh eh! Eh-eh-eh-eh-eh-eh eh!
Eh lahô-lahô laHO-lahá-á-á-à-à! [...]

- ah! [...]

[...] -aw-aw-aw-aw!
[...] -aw-aw-aw-aw!
[...] a-a-aft [...] ru-u-u-u-u-u-u-u-u-um [...].

Eia, [...], eia!
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!
Eh-lahô-lahô-laHO-lahá-á-á-à-à!
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!
[...]
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! [...]

Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! [...]

Ahó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-yyyy...
[...] ahó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó- yyyy...

Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! [...]

Ah [...]

Ah, [...]

(Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).
1ª publ. in Orpheu, nº2. Lisboa: Abr.-Jun. 1915.)

A propósito do mês de Álvaro de Campos, no Leitura Partilhada.