quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

A Mana (e outra gente do peito) no Teatro (o T.A.L.)

A nova produção baseada na Mensagem de Fernando Pessoa pode ser vista:

a 3 de Março no Cine-Teatro Louletano

a 18 de Março na Nave do Barão

a 30 de Março no Monte Seco

(acho que a Nave do Barão deve ser o sítio mais cool para se ver a Mensagem.)

Agora, o que interessa mesmo mesmo, por ser completamente inédito e inspirador, são as

"Histórias de Terror para Crianças" (uuuuhhhhhuuuuu!..........), inspiradas no conto "O Elfo da Rosa", de Hans Christian Andersen. Vão lá ver, foi a Mana que encenou:

a 25 de Março no Barranco do Velho

a 1 de Abril em Benafim

a 15 de Abril na Tôr

(mais info aqui)

Tempestade de granizo

- Tiaga, anda cá depressa!
- O que foi?
- Assoma-te aqui à janela!
- Dah!... Tu estás no outro lado da América, cão despistado...
- Mas está a cair uma granizada monumental! Até parece aqueles dias no moinho...
- Vai dormir, vai...

Tanto, imenso (7)

Que hei-de eu fazer
Eu tão nova e desamparada
Quando o amor
Me entra de repente
P´la porta da frente
E fica a porta escancarada

Vou-te dizer
A luz começou em frestas
Se fores a ver
Enquanto assim durares
Se fores amada e amares
Dirás sempre palavras destas

P´ra te ter
P´ra que de mim não te zangues
Eu vou-te dar
A pele, o meu cetim
Coração carmesim
As carnes e com elas sangues

Às vezes o amor
No calendário, noutro mês, é dor,
é cego e surdo e mudo

E o dia tão diário disso tudo

E se um dia a razão
Fria e negra do destino
Deitar mão
À porta, à luz aberta
Que te deixe liberta
E do pássaro se ouça o trino

Por te querer
Vou abrir em mim dois espaços
P´ra te dar
Enredo ao folhetim
A flor ao teu jardim
As pernas e com elas braços

Às vezes o amor
No calendário, noutro mês, é dor,
É cego e surdo e mudo

E o dia tão diário disso tudo

Mas se tudo tem fim
Porquê dar a um amor guarida
Mesmo assim
Dá princípio ao começo
Se morreres só te peço
Da morte volta sempre em vida

Às vezes o amor
No calendário, noutro mês é dor,
É cego e surdo e mudo

E o dia tão diário disso tudo
Da morte volta sempre em vida

(Sérgio Godinho, por lembrança muito oportuna do Mano)

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Filosofias de vida

Filosofia rebolicina:
- Tal 'tá este tempo, hã?

Filosofia tiaguina:
- Ladraste?

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Tanto, imenso (6)

Que amor nao me engana
Com a sua brandura
Se da antiga chama
Mal vive a amargura
Duma mancha negra
Duma pedra fria
Que amor nao se entrega
Na noite vazia?
E as vozes embarcam
Num silêncio aflito
Quanto mais se apartam
Mais se ouve o seu grito
Muito à flor das àguas
Noite marinheira

Vem devagarinho
Para a minha beira
Em novas coutadas
Junta de uma hera
Nascem flores vermelhas
Pela Primavera
Assim tu souberas
Irma cotovia
Dizer-me se esperas
Pelo nascer do dia


(Zeca Afonso [02/08/1929-23/02/1987])

Muito tem andado este canito...


E ainda lhe falta pintar mais de 90% do mundo.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

A moda do chocolate

Pôs-se de moda, o chocolate. Ora, para quem sempre sofreu (pouco, pouco...) de "chocolatomania" (alô, cunhadão!), calha que nem ginjas (ai, ginjas embrulhadinhas...). Sopa no mel (sim, sopa - deixem que se ponha de moda, logo entendem). Vai daí, trau! Os mais recentes a tocar esta tabelinha: Chocovic (variedades Guaranda e Ocumare), Villars (72%), o de framboesa da Cocoa Designs (no comments) e o 100% da Ghirardelli (os dois últimos de produção san franciscana. Californianos dum raio!).

Na Vogue deste mês (que um gajo tem que aliviar a tensão kleistiana, então!...), tinha que ser (leiam a primeira frase, ali em cima), o artiguinho da praxe sobre o dito cujo. "Dark Victory". Chamam-lhe tudo. A parte mais interessante é quando Jeffrey Steingarten conta como Robert Steinberg (atenção aos apelidos), da Scharffen Berger Chocolate Maker, aqui da zona também (e do melhorio), lhe ensina a apreciar chocolate:
"He bites off a piece [morde um bocadinho], lets it melt in his tongue [deixa o bocadinho derreter-se-lhe na língua], and spreads it all over the inside of his mouth [e espalha o bocadinho derretido por todo o interior da sua boca - se isto é decente, vou ali e já venho...]. He may close his eyes [não interessa]; he may try to pretend it's not chocolate but an unknown substance [até pode tentar fingir que a coisa não é chocolate, mas uma substância desconhecida. O tanas!...] He follows the flavors as they change over the next few minutes [adoro esta: vai atrás dos sabores, enquanto se vão transformando, nos minutos seguintes]. The first sensation will probably be sweetness [a sensação inicial provavelmente será o doce - hum...], then a fruity flavor [depois, um sabor a fruta], sometimes spices such as cloves and cinnamon [especiarias, por vezes, como cravinho e canela - alô, Mana!], earthy tones [tons de terra - é, assim como o pastel para a pintura e para Belém]. The most complex chocolate will have a balance of all of these [que os chocolates mais complexos misturam isto tudo]. At the end, the mouth should feel clean [no fim, a boca deve saber a limpa], and not chalky or tasting of cocoa powder [e não a giz, nem a cacau em pó]."

(Um bocado de prosa boa para descobrir onde se refugia o discurso prescritivo das revistas dos nossos dias.)

A minha loja favorita

Tem um defeito: não aceita encomendas...

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Venha pois o que vier!

When I was just a little girl
I asked my mother, what will I be
Will I be pretty, will I be rich
Here's what she said to me.

Que Sera, Sera,
Whatever will be, will be
The future's not ours, to see
Que Sera, Sera
What will be, will be.

When I was young, I fell in love
I asked my sweetheart what lies ahead
Will we have rainbows, day after day
Here's what my sweetheart said.

Que Sera, Sera,
Whatever will be, will be
The future's not ours, to see
Que Sera, Sera
What will be, will be.

Now I have children of my own
They ask their mother, what will I be
Will I be handsome, will I be rich
I tell them tenderly.

Que Sera, Sera,
Whatever will be, will be
The future's not ours, to see
Que Sera, Sera
What will be, will be.

(A voz de Doris Day a cantar Ray Evans [1915-2007])

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

Duas princesas

"Tiaga, apresento-te a Maia, do lado do Atlântico (em cima). Do lado do Pacífico (em baixo), eis a Wicker. Portugal e a Califórnia. O que dizes?" "Que olhes bem para mim e te deixes dessas frescuras caninas e desinteressantes. Princesa de verdade, só eu!" O Reboliço fecha os olhos e abana o focinho. Raio de gata, pensa. Onde terei eu arranjado isto?...

domingo, 18 de fevereiro de 2007

E vejo isto todos os dias...

Adivinharam... Consegui descarregar as fotos :-) Ora tomem lá mais uma, de pormenor magnífico! Conseguem ler o que diz o "bumpersticker"? Eu ajudo: "A man and his truck / It's a beautiful thing" - Um mimo...


Now, this is more like my deal...

A Garbo. E suspirei, como qualquer rapariga o deve ter feito em 1936, ao ver aparecer na tela o Robert Taylor...

sábado, 17 de fevereiro de 2007

A Night at the...

Ontem fui pela primeira vez à Ópera. Lembro-me de já ter visto óperas contemporâneas, mas ópera-ópera foi ontem a minha estreia. E logo na Califórnia! Está em cartaz (diz-se assim?) La Traviata, na San Jose Opera House (o site tem fotos da produção que a fazem igualzinha a uma novela das 5 da tarde, heheh). A senhora que cantava a Violetta tinha uma voz boa, sim. Não desafinava. O senhor que fazia o Alfredo também não estava mal. A melhor voz, secondo me, era a do pai de Alfredo. Forte, segura (diz-se assim?). Mas divertido, divertido a sério, foi ver os espectadores (masculinos, entenda-se) a sacarem os binóculos às companheiras assim que entraram no palco quatro bailarinas, na cena da festa de Mardi-Gras em casa de Flora. As meninas não cantavam, só dançavam. Traziam umas saias compridas muito, muito transparentes, os tapa-seios reduzidíssimos, quase nada, e as costas descobertas. Então é que me ri, enquanto temia pela saúde dos respeitados e muito bem vestidos senhores.

O moinho num telemóvel

(Foto: Ana Cabral. Obrigada!)

Para a Perla, uma papoila de olhos azuis


"De Tarde"

Naquele piquenique de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela;
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

(Cesário Verde)

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

Anjo lanudo

Ontem caiu uma lagartinha do céu. Lanuda, muito reconfortante.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Vinicius e o amor

(Para nos fazer sorrir, Mulher.)

Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... — não tem nenhum valor.

Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção com o "velho amigo", que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.

Para viver um amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fidelidade — para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.

Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.

É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista — muito mais, muito mais que na modista! — para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...

Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs — comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?

Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto — pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia — para viver um grande amor.

É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que — que não quer nada com o amor.

Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada não se souber achar a bem-amada — para viver um grande amor.

(Vinicius de Moraes, Para Viver Um Grande Amor, José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1984, p. 130.)

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

Caprichos

Ando às voltas com Caprichos. Os de Goya e os dos traços gravados pela caprichosa Paula Rego. Tudo por mor do "Second Order Observer"*.

*Explicado assim no sumário da disciplina: "Self-Reflexivity Historicized, or the Emergence of the Second-Order Observer—(Same as COMPLIT 259.) The origin of self-reflexivity as a habit and institution typical of intellectuals. Focus is on historical case studies from Western literatures and cultures since the Renaissance, based on a conceptual apparatus concerning the second-order observer, mainly derived from the work of Niklas Luhmann. Readings in original and translation include Descartes, Rousseau, Schlegel, Hegel, Gracián, and de Goya. 3-5 units, Win (Gumbrecht, H)" Até me passo...

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

E agorinha a seguir...

...ouvirei a voz da Alma Mater.

Latest

Fiz a "double-bill" na sexta-feira e vi Cat People (nunca o vira em écran grande) e Crossfire (grande filme, nunca o tinha visto). Sábado foi um dia divertido: a tentativa de ir até Napa Valley revelou-se um almoço de nevoeiro cerrado em Stitson Beach, no mesmo restaurante onde já estivera com o Eelco. A praia fica a 300 metros e nem a areia se via. Comensais, além da portuguesa, um uruguaio e três mexicanos. Rir a bandeiras despregadas, claro - latinada...
À noite pus-me de novo séria, fechei os olhos e escutei quase três horas magníficas de Beethoven, os quartetos Razumovsky pelo Emerson String Quartet (Gilberto, mano, Anabela: haveriam de ter adorado...). Na volta, a correr para o comboio, cruzei-me com um guaxinim de verdade. Gordo, mais parecia um texugo! Se a Tiaga aqui estivesse, teria havido mais correria e teria perdido o comboio!
Ontem, dia chuvoso, desinteressante, intervalei a modorra com Shanghai Express e entendi melhor o fascínio das sombras no rosto de Marlene.

sábado, 10 de fevereiro de 2007

SOBRE O PRODUZIR PENSAMENTO À MEDIDA QUE SE FALA (II)

"Penso no 'trovão' com que Mirabeau dispensou o Mestre de Cerimónias que, a seguir ao último Conselho monárquico de 23 de Junho, em que o Rei ordenara a dispersão dos Estados, regressou à sala onde ainda estavam reunidos e lhes perguntou se tinham ouvido a ordem do Rei. 'Sim', respondeu-lhe Mirabeau, 'ouvimos a ordem do Rei.' Tenho a certeza que, ao começar assim de modo tão cordial, não pensara ainda nas baionetas com que haveria de terminar. 'Sim, meu senhor', tornou, 'ouvimos as ordens' - vê-se que ainda não está muito certo do que pretende. 'Mas com que direito', continuou, e subitamente abre-se-lhe uma torrente de ideias monstruosas, 'nos vem o senhor dar as ordens? Nós representamos a Nação.' Era disso que precisava! 'A Nação dá ordens, não as recebe' - o que o impele, ali e naquele momento, ao máximo da ousadia. 'E para me fazer completamente claro' - e só então encontra palavras para expressar toda a força da sua alma e a sua capacidade de resistência: 'Ora diga ao seu Rei que daqui não iremos a lugar nenhum senão a toque de baionetas.' - Após o que, satisfeito consigo mesmo, se sentou. - Quanto ao Mestre de Cerimónias, teremos que o imaginar em completa bancarrota espiritual por este encontro de ideias. Existe uma lei que se aplica, muito semelhante àquela segundo a qual, se um corpo sem electricidade própria entra no ambiente de um corpo electrificado, de imediato a electricidade do último carrega o primeiro. E tal como, no corpo electrificado, por efeito recíproco ocorre um reforço da electricidade inata, assim a confiança do nosso orador, ao aniquilar o seu oponente, se converteu numa ousadia inspirada e extraordinária. Visto desta maneira, talvez tenha sido um franzir de lábios ou um ambíguo ajeitar dos punhos de uma camisa que conduziu à alteração do estado de coisas em França. Sabe-se que, mal o Mestre de Cerimónias se retirou, Mirabeau se ergueu e propôs: 1) que logo ali se constituísse uma Assembleia Nacional e 2) que fosse declarada inviolável. Depois de, como uma garrafa de Leyden, se ter descarregado, Mirabeau ficou de novo neutro e, regressado da ousadia, cedeu o passo à precaução e ao medo de Châtelet. - Eis uma correspondência notável entre os fenómenos do mundo físico e os do mundo moral, que, levada aos extremos, se manteria mesmo nas circunstâncias mais insignificantes. Mas deixo agora a minha comparação e regresso ao ponto em causa. Também La Fontaine, na sua fábula 'Les animaux malades de la peste', em que a raposa é obrigada a justificar-se ao leão e não sabe a que há-de recorrer, nos dá um exemplo importante da produção gradual do pensamento a partir de um impulso provocado pela pressão. A fábula é conhecida. Grassa a peste entre os animais, o leão convoca os maiores do reino e informa-os de que, para aplacar os céus, deverá oferecer-se um sacrifício. Sendo muitos os pecadores entre eles, os maiores deverão salvar os restantes da destruição. Para tal, pede-lhes que confessem o mais sinceramente que possam os seus pecados. Pela sua parte, admite que, por força da fome, já reduziu vidas de muitas ovelhas; de cães também, quando lhe chegam demasiado perto; até, em momentos deliciosos, chegou a comer o pastor. Se ninguém acusa fraquezas piores do que aquelas, então ele, o leão, de bom grado morrerá. 'Senhor', diz a raposa, ansiosa por afastar de si mesma a tempestade, 'foste longe demais no vosso zelo e generosidade. Que mal há em teres morto uma ou duas ovelhas? Ou um cão, essa vil criatura? E: quant au berger', continua, pois é esse o seu trunfo, 'on peut dire', ainda que não saiba o quê, 'qu'il méritoit tout mal', confiante na sorte e com isso já se enredando, 'étant', palavra pobre, mas que a faz ganhar tempo, 'de ces gents là', e só então chega à ideia que a livra de apuros, 'qui sur les animaux se font un chimérique empire.' - E prossegue, até provar que o burro, o asno sequioso por sangue (devorador de ervas e outras plantas) é o mais adequado ao sacrifício. Posto o que, todos se atiram ao animal e o despedaçam. - Tal discurso não é mais do que pensamento em voz alta. A sucessão de ideias e os signos delas prosseguem lado a lado e convergem os actos mentais implicados por umas e por outros. Então, o discurso não é de maneira nenhuma impedimento; não é, como se poderia dizer, um travão da mente, mas antes uma segunda roda a girar paralela sobre o mesmo eixo.

(Tradução: AIS. A terceira e última parte está aqui. A sintaxe, por vezes estranha, é marca de Kleist.)

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

Ursprung, ou seja, "começo"

Ontem foi dia de palestra. Philip Ursprung sobre "land-art". Havia tempo que não pensava em Robert Smithson nem via imagens da Spiral Jetty. Enquanto seguia a voz de Ursprung e olhava para a espiral, fotografada de helicóptero, fugiu-me o pensamento para uma cena descrita no diário de David Wojnarowicz. Era sobre a urgência que sentia de fugir da cidade, de deixar Manhattan e de se meter numa paisagem industrial qualquer, afundado num lago até ao pescoço. Até a pele começar a engelhar e ele ter de regressar. Assim como quem se lembra, de repente, que está vivo.

A fundação da postura

O mano (que pediu anonimato, heheheh) quer um par de palmilhas novas. Diz que nesta terra há de tudo. A mim fazem-me falta coisas que não encontro aqui.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

Amantes pré-históricos

"Parece que estão abraçados há uns seis mil anos, Tiaga."
"Ah, sim? E não têm feito mais nada, este tempo todo?"
"Pois... Dir-se-ia que não."
"E chateias-me tu a meloa pela bela vidinha que levo ainda nem três anos há!"

Flowers in the rain

Hoje decidi vestir as calças às flores. Só para contrariar o diabo da chuva!

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

SOBRE O PRODUZIR PENSAMENTO À MEDIDA QUE SE FALA (I)

(Isto ainda há-de ser para corrigir. E há-de ir em três partes. O título do post é o título que Kleist deu ao ensaio.)

"Sempre que haja alguma coisa que queiras saber e pelo meditar não o consigas, o conselho que te dou, engenhoso e velho amigo, é que converses sobre o tema com o primeiro conhecido que encontres. Não terá de ser particularmente perspicaz, nem te digo que lhe peças a opinião, nada disso. Pelo contrário, deverás tu dizer-lhe de imediato o que é que queres saber. Vejo espanto no teu rosto. Ouço-te replicar que, em pequeno, te ensinaram a falar apenas daquilo que já entendesses. Nessa altura, porém, sem dúvida que te referias à educação dos outros - mas o meu desejo é que fales na sensata intenção de te educares a ti mesmo; assim, como se aplicam regras diferentes em circunstâncias diferentes, talvez se permita que sejam válidas as duas. Dizem os franceses que 'l'appétit vient en mangeant' e a máxima é igualmente verdadeira se a transformarmos em 'l'idée vient en parlant'. Quantas vezes já me sentei à secretária, perante documentos de algum caso difícil, e busquei o ponto de vista a partir do qual o tentasse agarrar. O meu hábito na altura, nesta ânsia do meu mais profundo ser pelo esclarecimento, é olhar para o candeeiro, como se olhasse para o ponto mais brilhante. Ou, se me ocorre um problema de álgebra e preciso de encontrar um ponto de partida, tenho de possuir a equação que exprima as relações determinadas e a partir das quais, por cálculo simples, possa encontrar a solução. Agora, pasma! Se disto falar com a minha irmã, sentada na mesma sala com o seu trabalho, aprenderei mais do que aquilo que talvez obtivesse depois de matutar horas a fio. Não significa que ela mo diga, de facto, pois não conhece o Código Penal, não estudou Euler nem Kästner. Nem sequer é por fazer perguntas inteligentes que me conduz ao centro da questão, embora muitas vezes, atrevo-me a dizer, isso deva ser feito. Mas porque possuo uma ideia vaga logo à partida, relacionada de longe com aquilo que ando a procurar, se me atrever a começar com ela, o meu pensamento, à medida que prossegue o meu discurso e pela necessidade de encontrar um fim para tal começo, dará forma à minha ideia inicialmente confusa e torna-la-á completamente clara; de tal maneira que, para meu espanto, atingirei a compreensão assim que chegar ao final da frase. Acrescento alguns sons desarticulados, demoro-me nas conjunções, talvez faça uso de aposições sempre que seja necessário, e posso recorrer a outros truques que agilizarão o discurso, tudo para ganhar o tempo de fabricar a minha ideia na oficina do pensamento. E, neste processo, nada me ajuda mais do que se a minha irmã fizer um movimento como se se preparasse para me interromper: tal tentativa, vinda do exterior, de arrebatar o pensamento àquilo a que se agarra excita ainda mais a minha ideia já de si muito trabalhada e, como um general em circunstâncias extremas, o seu poder eleva-se a um grau ainda maior. Para isto é que, no meu entender, Molière usava a sua criada; permitir que ela corrigisse com o seu o pensamento dele implicaria uma humildade de que desconfio ele não ter sido possuidor. Ė uma coisa estranhamente inspiradora ter à nossa frente um rosto humano enquanto falamos; muitas vezes, o olhar que anuncia que um pensamento meio exprimido já foi entendido dá-nos a expressão da metade que falta. Acredito que muitos grandes pensadores desconheciam, no momento de abrir a boca, o que iriam dizer. Mas a convicção de que seriam capazes de extrair todas as ideias necessárias das próprias circunstâncias e da excitação mental que gerariam deu-lhes a coragem para confiar na sorte e começar."

Heinrich von Kleist, escrito provavelmente entre 1805 e 1806. Publicado pela primeira vez em 1878. A versão inglesa que usei está neste livro; a castelhana, neste. Tradução: AIS.

(A meio da tradução, passeio pela blogosfera e encontro isto. Tinha de comentar...)

A ver se a gente se entende...

Já por algumas vezes o Reboliço tem reparado numa confusão que o arrelia. Hoje, em pesquisa pelo Google, voltou a encontrar o seu nome associado a "rebuliço", "bulício". Bem sabe que é diferença de uma vogal pequenina, mas aborrece-se... Se há coisa que o faz sair de onde estiver e ir procurar um cantinho sossegado é haver barulho, vozes altas balburdiantes, muito ruído e mexida. Mesmo quando é por festas, música e alegria, prefere olhar de longe e enroscar-se na sua barriguinha "reboluda". Bole pouco, o Reboliço.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

Tanto, imenso (5)

A todo mundo eu dou psiu
Perguntando por meu bem
Tendo o coração vazio
Vivo assim a dar psiu
Sabiá vem cá também

Tu que anda pelo mundo
Tu que tanto já voou
Tu que fala aos passarinhos
Alivia a minha dor

Tem pena d'eu
Tens, por favor
Tu que tanto anda no mundo
Onde anda o meu amor
Sabiá . . . á

(Luiz Gonzaga)

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

Tanto, imenso (4)

Amarilli mia bella,
No[n] credi, o del mio cor dolce desio,
D'esser tu l'amor mio?

Credilo pur e se timor t'assale,
Prendi questo mio strale,
Aprimi il petto e vedrai scritto il core:
Amarilli é il mio amore!

(Giulio Caccini ouvido anteontem na Stanford Memorial Church)

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

Sábado passado (Palo Alto)

(Comecei a usar o "Docs and Spreadsheets" do Google, que tem caracteres com acentos. Ainda nao descobri foi as cedilhas. "Nobody's perfect...")

Ora, o Sábado... Comecou antes, quando a Margaret (a eficientíssima secretária do Sepp), me disse que o marido tinha como hobby fazer as projeccões no cinema mais antigo de Stanford. Combinámos que ela me levaria à dita sala de cinema, que pediria ao Ernie (sim, o marido) que me mostrasse a cabina, a máquina, as bobines, essas coisas que adoro. Calhou ser no fim-de-semana em que passavam o Singing in the Rain (na versão portuguesa ficou Serenata à Chuva) mais o An American in Paris (ficou assim quase tal qual, em português). Já muitas vezes me disseram que nasci com o ditozinho virado para a lua, mas esta tarde foi especial. Nem sei por onde comece.

A sala abriu em 1925 - estão a ver a Califórnia em 1925? Imaginam uma cidade a seis horas de Hollywood em 1925? Pois eu também só tenho um niquinho da ideia do que teria sido. Traduzo alguns dados da página do Stanford Theatre, pois foram informacões que me deu o Ernie quando me fez uma visita guiada àqueles átrios, à cabina, à plateia. Em 1987, a fundacão do David Packard (o mesmo da HP, que isto é zona de riquezas da informática) comprou o edifício, procurou e encontrou fotos dos anos 20 e 30 do século passado, contratou especialistas em restauracão decorativa e fez o que se vê (numa amostrinha da plateia) aqui.

A sala é pura e simplesmente magnífica. (Só não vem em primeiro lugar na minha escala, porque ainda não recuperei do assombro de ver o Apocalypse Now! no Grand Rex em Paris, enfim...) Tem um átrio assim para o discreto, mas com frescos lindos, e uma sala contígua, de exposicões, onde se mostram cartazes de filmes dos tais anos 20, 30, 40, 50, a colheita vintage desta região.

Agora a cabine. Ai, a cabine... Anabela, eu pensava que te fazia inveja quando te disse do L'Atlantide (a propósito, has-de checkar a caixa que saiu, com três do Jacques Feyder). Qual nada! Queria era que viesses ver esta cabine, estas máquinas! Talvez algum crente fervoroso sinta arrepios assim numa catedral de Santa Sofia, ou num qualquer santuário devoto. Não foi tanto a monumentalidade (a cabine não é muito grande), mas a presenca do tempo, do outro tempo, em que primeiro se mostraram ali os filmes, em que o projeccionista ouviu dali, a espreitar pela janelinha pequenina, como deve ser, a plateia a rir, chorar, a suspirar. Foi o tempo, não tanto o tamanho dos artefactos. Tirei fotos, sim, mas não as consigo agora deixar aqui, nem mostram o que vi (diria o Reis, "todas mentem").

São duas as máquinas de projectar (mais altas que o tamanho de um homem), para não haver pausa entre bobines. As bobines são mais pequenas do que as que usamos na Europa - têm cerca de um terco do tamanho, levam no máximo meia hora de filme. Por cada filme, usam-se mais ou menos umas quatro bobines. A fonte de luz - tcharam! - é uma lâmpada de arco de carbono (traduzo à letra do inglês, mas podem ver uma imagem aqui). Se calhar é coisa já vista por muita gente, mas esta que vos escreve nunca se tinha imaginado perante tal fenómeno. O bom do Ernie dizia-me, numa voz pausada, calmo, "Esta lâmpada é mais forte do que as que agora se usam, por isso faz com que a imagem projectada seja mais nítida, mais luminosa, mais transparente." Pobres palavras inocentes... Quem conhece o filme sabe (Gilberto, Isa, LM, Anabela, Mirian, Gracinha, Cris, e só digo os fãs-fãs!) como é luminosa a sua cor, transparente a vida nele, nítidos os contrastes, os encarnados, os amarelos, os violetas (Deus!, os violetas!...). Eu conhecia o filme, sim. Vira-o uma vez na Cinemateca em Lisboa e, depois disso, vezes sem conta em DVD. Mas hoje sei que nunca os meus olhos tinham visto o Singing in the Rain. Ok, ok, deixem lá que exagere - não é para menos, a experiência foi inesquecível.

Os lápis do dito carbono que alimentam agora as máquinas do Stanford Film Theatre são os últimos fabricados nos EUA. O Ernie já lá tem abastecimento novo, vindo da ĺndia, onde ainda muitas salas usam estas lâmpadas (e compreende-se, também por isto, a magia das cores no cinema indiano). Em suma, vi a luz...

(Já agora, roam-se com o que poderei ver nos próximos fins-de-semana. E, claro, espreitem também o programa de Fevereiro do CCF ;-) )

Obrigada, Aninhas! ;-)

"Hoje vai ser finalmente inaugurado o mercado de Loulé! vai haver música e foguetes e tudo!"
("Bolas!...", pensa o Rebolico, "Agora que estou longe e' que se lembram de fazer a festa. Seja pelo melhor, apesar das alteracoes ao aspecto do mercado. Aqueles minaretes nao me convencem." O Rebolico pensa sempre em Loule como terra de festa: das janelas da casa via a banda a passar, as majoretes, o andor da Mae Soberana, o corso do Carnaval, os ciclistas... Ai que saudades, que saudades...)