quarta-feira, 30 de maio de 2007

Ok, já entendi.

Pelos vistos, a expressão "bullying" é comum no campo da sociologia e provavelmente não só. Continua a fazer-me alguma espécie aparecer assim num jornal, mas isso será a minha minhoquice.

terça-feira, 29 de maio de 2007

Que bom, poder continuar a ouvir...

... Robert Harrison. Cada semana com um tema e um convidado novo, relacionado com literatura. Esta semana, psicanálise. Com uma piscadela de olho à Catarina ;-)

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Estatuária... hum... xunga, não?

Yosemite Riverside Inn (Foto: Reboliço, a lutar contra a mosquitagem)

Estes serzinhos de pedra assistiam à cerimónia matinal: o dono da estalagem a atirar amendoins ao chão, sorridente enquanto desafia para mais perto de si o Steller's Jay.

"Morangos silvestres"

Faz-se com dois cestinhos de morangos ("Seascape berries"), suavemente lavados em água fria e escorridos do excesso de água com uma toalha de papel. Retirados os pés e dispostos os vermelhinhos num tabuleiro de ir ao forno (com os lados suficientemente altos para não escorrer o suco), polvilham-se com 150g de açúcar. Levam-se ao forno a 275° umas seis ou sete horas, conforme o tamanho dos morangos, até ficarem do tamanho da ponta de um dedo mindinho. De vez em quando, enquanto assam, os pobres, agita-se o tabuleiro sem os mexer muito (para evitar esmagá-los). Depois de frios, podem ser guardados no frigorífico, em xarope simples (mistura de açúcar e água, que se prepara com duas porções de açúcar para uma de água, dissolvendo nela, a ferver, o açúcar e deixando depois arrefecer), até seis meses. Esta coisa maluca dos morangos encolhidos pode servir para decorar (e adocicar) gelado de baunilha ou biscoitos. Inventam tudo...
(Encontrei esta sugestão no número de Junho da San Francisco Magazine.)

sábado, 26 de maio de 2007

- Tiaga, olha para mim: vou dar um salto e atravesso esta pontezinha manhosa sem me molhar. Quanto apostas?
Yosemite, Wapama's Falls, barragem de Hetch Hetchy - ou "Itchy and Scratchy", como lhe foi chamando.
(Foto: Rebolico, antes de ficar todo encharcado)

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Ei-lo, para que se compare com esta versão

VI

La luna vòlta agli anni in cui da un cuore
nuovo traeva più bagliori che dai vetri,
nella violenza del silenzio, quasi
silente per dolore di vedermi
arreso, guadagna con cieca lentezza
la vecchie strade. E, ancora, qualque vetro
quaggiù ne brucia, e qualche pista
sfregata dal vento, di terra nuda.
Ma è nel cielo che si ammassa, come
– perché io sono stanco – fosse stanca
e delusa tutta la terra, la gran luce;
e solo il cosmo n’è investito, non più
queste nostre contrade; se un riverbero
un misero riflesso ancora ha vita
è per significare che la luna
è vòlta verso dove non c’è vita.

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Bullying?

Por que cargas de água é que leio numa notícia do Público uma frase como "As aulas poderão em breve voltar a preencher os dias de Miguel, uma criança com doença oncológica que deixou de ir à escola para escapar ao bullying." Bullying? Sem itálicos, sem aspas, nem nada... É só um gajo sair do burgo e, quando dá por ele, desapareceram as palavras portuguesas? Desde quando é que se fala em bullying no meio de discurso em português? Não é uma pergunta retórica, quero mesmo saber, para não ter mais surpresas destas em voltando. Qualquer dia, em vez do (lindíssimo) "rufião", ainda ouço dizer que "fulaninho é um bully". Não me soa bem.
Poderia ter sido "para escapar aos abusos dos colegas". Ou não? A sério, pergunto.

quarta-feira, 23 de maio de 2007

O Deserto dos Tártaros (ou, Ainda não me cansei)

VI

A lua voltada para o tempo em que, de um coração
novo, arrancava mais lampejos do que vidros,
na violência do silêncio, quase
silente pela dor de ver-me
tomado, ganha com cega demora
a estrada velha. E, outra vez, algum vidro
aqui em baixo arde, e alguns trilhos
varridos pelo vento, de terra nua.
Mas é no céu que se amontoa, como
- porque estou cansado - se estivesse cansada
e desiludida toda a terra, a grande luz;
só o cosmos dela é invadido, já não
estes nossos bairros; se uma reverberação
um mísero reflexo tem vida ainda
é para significar que a lua
está voltada para onde não há vida.

(Pasolini, Poemes de Jeunesse [dos poemas póstumos escritos entre 1950 e 51]; p.114; o post chama-se assim porque me lembrei deste poema a propósito do livro de Buzzati. Logo venho deixar a versão original, para o Mano, se quiser, dizer de sua justiça.)

terça-feira, 22 de maio de 2007

Um bicho papão...

... sem papas na língua.
(por aqui)

Fellini avant-la-lettre

MR. SOLNESS. Answer me, Hilda. What do you want of me?
HILDA. I want my kingdom.
(Henrik Ibsen, The Master Builder)

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Do Mano, com licença dele, a propósito disto

epá, olha, é só para dizer que fui ao teu blogue e vi lá a poesia com temperatura e som do pasolini - claro que ele tinha que ir fazer filmes a certa altura - mas também com poucas palavras faz mais do que um filme... (o villanova artigas - um arquitecto brasileiro magnífico que já foi à vida (à morte) dizia que admirava imenso os poetas por conseguirem com poucas palavras dizer o que aos arquitectos leva muitos tijolos a contar)
e então, como estou a preparar uma aula, voltei às minhas escritas directas em italiano, e não consegui reistir à foleira correcção de revisor de textos com chapeuzinho e tudo.
pois a "afa" é difícil de traduzir, mas acho que puseste bem, a afa é o abafado das manhãs de verão insuportável quando se sua imenso só de pensar.
depois o stupore é espantoso! é assim uma exclamação, nunca tinha pensado em paralisia mas também poderia dar porque ficava ainda mais forte: a força paralisada da intensidade de um espanto!
tu trocaste intacta ainda e alegria virgem e lá terás as tuas razões fonéticosincráticas...
mas é realmente bom!
acho que a poesia é incrível, e acho mesmo que nunca a vou querer conhecer toda porque tenho medo de a perder.

Desmaiar

Levava na mão uma garrafa de vidro cheia de água. Era a meio da madrugada e levantara-se com o barulho na casa. Entre o seu quarto e a sala, de onde o ouvia, era preciso atravessar todo o largo e depois longo corredor com chão de tacos pequenos, madeira escura e cheia de veios. O olhar escapou-se, num segundo que não sentiu, para um patamar abaixo do nível dos olhos. Via os joelhos magros, debaixo do tecido fino da camisa com que dormia, mexerem-se como se não fossem já seus, duas esferas estranhas e retalhadas entre o tecido branco e a cor da pele - trocavam de lugar, um agora depois o outro, e encantou-se naquele movimento baloiçado. Desceu ainda mais, o olhar, e viu os pés em rastejo descalço e lânguido, mais ainda pela extensão das canelas, que pareciam elevar-se e afastar-se gradualmente do lugar dos olhos. Num segundo. A queda não a percebeu, não era o seu corpo que caía. Via-se agora, sabia-se em si, mas o olhar focava a partir do vidro verde a rolar vazio e da mancha que se espalhava humedecida sobre os tacos de madeira. Via como se fossem o vidro os seus olhos e o que via era um corpo estendido, para lá do cabelo castanho escuro, como os veios, em brancura de pele desencoberta a partir de meio pelo tecido amortalhado.

"I disappear,
I lost control,
My body's moving,
On it's own.
I watch myself,
Walk away,
A poor spirit,
took my place."
(The Faint
)

domingo, 20 de maio de 2007

Do misterioso alentejano

Faz uma semana hoje, voz amiga (que quer continuar anónima) fez chegar ao Reboliço estas achegas ao entendimento do mais profundo da alma alentejana:

"A fálica torre de menagem [de Beja] funciona bem em relação ao resto do país, pois, como notou um amigo meu, este não possui, à semelhança de Nova Iorque (Estátua da Liberdade), França (Torre Eiffel) e Inglaterra (Big Ben) um símbolo que o identifique de imediato. Mas há um senão: o pacence não pode afastar-se muito e deixar de ver a torre, que logo o invade uma grande saudade, o desejo intenso de voltar; isso está bem patente nas modas, em que, só por passar o Tejo, já cantam 'chora por mim que eu choro por ti, já deixei o Alentejo' e outras coisas do género. O Eduardo Lourenço deveria escrever outro Labirinto da Saudade somente para esclarecer isto."

Um dia depois, em catadupa de questionação filosófica, acrescentou que "os alentejanos procuram nos outros a figura do pai e fazem-no de uma maneira incoscientemente maternal, que consiste em encostarem-se uns aos outros, balancearem-se em conjunto, cantando umas canções arrastadas, que são as canções de embalar que lhes faltaram na infância. Depois, porque, desconhecendo eu por onde esteve Descartes, mas supondo que, se esteve em Espanha foi o
mais próximo daqui, então como explicar este outro atavismo que é o constante anti-cartesianismo [dos alentejanos], no constante dizer, mesmo quando estão em maus lençois, 'Não tem dúvida'? [...] Quanto à questão da linguagem, os sucessores de Lacan teriam muito material com o estudo das mulheres que falavam com as galinhas, e aqui temos mais questões: não só está provado que elas falam mais e eles menos [...], mas porquê as galinhas? Haverá alguma identificação com o outro feminino?Porque me parece que o galo é tratado de maneira diferente, para pior... E a forma do pão?Não criarão, subconscientemente, a forma arredondada como substituto/projecção do seio? E o que dizer da popia?"

O resto do dia - qual!, o resto da vida! - o Reboliço andou intrigado com a questão derradeira. O que dizer da popia?...

sexta-feira, 18 de maio de 2007

It's ON!

Pasolini (outra vez)

V

Ogni giorno è l'ultimo
nello stupore dell'afa mattutina,
delle fresche voci: e a cosa importa
essere chiari, dentro, per soffrirla
nella intera estensione del suo tempo
se l'ora della vita è sempre l'ultima?
L'averla troppo sofferta, e quindi
consumata: ecco perché vivo nel miracolo
di vederla ancora intatta. Nessuno
sa più di me goderla con tanto infantile
e femminile abbandono, ma nessuno
sente più di me quella vergine gioia
come un sacrilegio.


V

Cada dia é o último
na paralisia da manhã quente,
das vozes frescas: e que importará
ser lúcido, por dentro, para sofrê-la
na inteira extensão do seu tempo,
se a hora da vida é sempre a última?
Tê-la por demais sofrido, e assim
consumido: eis porque vivo no milagre
de vê-la
ainda intacta. Ninguém
mais do que eu sabe gozá-la com tão infantil
e feminino abandono, mas ninguém
sente, mais do que sinto, essa alegria virgem
como um sacrilégio.

(Atrevi-me a traduzir um dos poemas póstumos
, que transcrevi daqui.)

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Mais um desembarque

da Dafne Editora. Sempre bons.

Estou aqui em pulgas...

... (salvo seja!) para juntar mais um a este link.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Ainda sobre The Man Without Qualities

Intercalo Musil com a leitura deste ensaio e reparo que anda tudo ligado. Será por ser grande literatura (o Musil, claro) e parecer que se liga a tudo e que liga todas as coisas entre si? A segunda secção do livro chama-se "Pseudoreality Prevails". Não sei se hoje Musil lhe chamaria "pseudo", de todo.
(A certa altura, leio que "If Ulrich had been asked to say what he was really like he would have been at a loss, for like so many people he had never tested himself other than by a task and his relation to it", p.157. Acompanho a leitura com flores de hibiscus, secas e adocicadas.)

Alarme...

Decido passear pelos blogues, para desanuviar. Abro o Dias Felizes e encontro um post em tom alarmado (ou ter-me-á escapado a ironia?): "Campanha salvem os críticos literários!" (com ponto exclamativo e tudo). Vem a seguir um outro, que chama a atenção para o humor de Musil. Sorrio. Acabara de pousar sobre o tampo branco da mesa, aberto na página de entrada do capítulo 28, The Man Without Qualities (leio-o em inglês, sim, era o que tinha mais à mão e estará tão bem traduzido como a versão portuguesa, imagino). Chama-se "A chapter that may be skipped by anyone not particularly impressed by thinking as an occupation." Sorrio mais.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Moinho de água

Andar com a atenção desviada dos blogues dá nisto. O Reboliço não tinha reparado, mas há no Douro um moinho com gente linda lá dentro.

sábado, 12 de maio de 2007

Vede, canitos!

sexta-feira, 11 de maio de 2007

"Ah, that's the old redhead. No bitterness, no recrimination, just a good swift left to the jaw."

Faz este sábado cem anos que nasceu Katherine Hepburn. Para comemorar, revejo pela enésima vez (mas pela primeira no Stanford Theatre...) The Philadelphia Story. Além da ruiva, foi neste filme que aprendi a palavra "yare". O que não implica que tenha interiorizado as propriedades do conceito.

Barnett Newman

Em 1988, Yve-Alain Bois escreve um ensaio luminoso como uma tira de luz num quadro de Newman*. Diz sobre Onement I que esse quadro, tal como todos os que Newman pintara anteriormente, "trata do mito da origem, mas pela primeira vez conta o mito no tempo presente. E este tempo presente não é o da narrativa histórica, mas sim uma tentativa de se dirigir directamente ao espectador, imediatamente, como um "Eu" a um "Tu", e sem a distância da terceira pessoa, que caracteriza a ficção. Dessa maneira é que Onement I cumpre aquele que Newman ditou como propósito da sua obra, o de conferir ao observador um 'sentido do lugar'."

Barnett Newman dissera-o assim, numa entrevista à rádio, em Agosto de 1972: "Uma coisa em que me vejo envolvido nisto da pintura é que o quadro deve dar ao homem um sentido do lugar: que ele saiba que está ali, que se aperceba de si. [...] frente ao meu quadro, o observador sabe que está ali."

*"as a glow brings out a haze, in the likeness of one of these misty halos that sometimes are made visible by the spectral illumination of moonshine", escreveu Conrad.

sábado, 5 de maio de 2007

For the record

Ontem assisti a um coloquio bastamente interessante - o clima na literatura. As coisas que se inventam...

quarta-feira, 2 de maio de 2007

De noite

I Do My Best Alone at Night

I do my best alone at night
alone with the secrets my lamp has
set free from the day that asks too much
bent over a labor never finished
the combinations of solitaire. What then
if the solitaire always defeats me
I have the whole night. Somewhere
chance is sleeping in the cards. Somewhere
a truth has been said once already
then why worry? Can it ever
be said again? In my absentmindedness
I will listen to the wind at night
to the flutes of the Corybants
and to the speech of the men who wander forever

(Gunnar Ekelöf, traduzido por Robert Bly)