terça-feira, 29 de agosto de 2006

Flash Flash, Ruffato e Martín-Santos

Depois de umas belas tortillas à séria no Flash Flash, afundo-me nas páginas derradeiras de Luiz Ruffato. Uma espécie de tempestade narrativa. Desconfiei, ao início, daqueles maneirismos todos, das vozes múltiplas, das frases interminadas e até do arrumo gráfico. Venceu-me. É muito bom.
Reinicio Tiempo de Silencio. Pela terceira vez. (A propósito, fui ter a um blogue sobre leituras, que deixo lincado.)

domingo, 27 de agosto de 2006

Entretanto, no espaço virtual...

...surge, definitivo, o número 1 da revista Minguante.

Indiferença felina

O Reboliço regressou à casa, aos saltinhos e de orelhas espetadas. As gatas, nem nada. Contou-lhes onde tinha ido, com quem tinha estado, o que tinha visto. Contou-lhes da "tramontana", do vento que desce rápido Pirinéus abaixo, da cor do Mediterrâneo, do pôr-do-sol no lado contrário do mar. Nada. Nem se moveram, quando lhes falou das avelaneiras. Gatas urbanas, é o que é.

sexta-feira, 25 de agosto de 2006

Parabenizar um limanito

Mesmo de longe, o Reboliço lembra-se do teu aniversário ;)

quinta-feira, 24 de agosto de 2006

"É uma injustiça..."

Como se fosse o pequeno Calimero, ouve-se agora, desde uma distância mais longínqua ainda, a vozinha apagada de Plutão. Não, não é nada justo.

Sopa de beldroegas

Nada como nos apaixonarmos por uma bela sopa de beldroegas num sítio distante e, volvidos a casa, onde nunca antes tínhamos dado por elas, encontrarmos dois vasos cobertos destas ervas boas.

quarta-feira, 23 de agosto de 2006

Gatas (actualizado)

Misha e Pelota passeiam pela casa, atravessam o corredor para lá e para cá. O Reboliço tem dificuldade em distingui-las. Tem o olhar toldado pela elegância da Tiaga - tudo o que seja mais anafado o confunde. As duas gatas gorditas também o estranham. Quando reparam nele, sentado a escrever, param à porta, deixam de se lamber e abrem muito os olhos. Como quem diz: "De onde foi que saiu este?"

(Foto: Isa)

terça-feira, 22 de agosto de 2006

Nassar magistral

“como vítimas da ordem, insisto em que não temos outra escolha, se quisermos escapar ao fogo deste conflito: forjarmos tranqüilamente nossas máscaras, desenhando uma ponta de escárnio na borra rubra que faz a boca; e, como resposta à divisão em anverso e reverso, apelemos inclusive para o deboche, passando o dedo untado na brecha do universo; se as flores vicejam nos charcos, dispensemos nós também o assentimento dos que não alcançam a geometria barroca do destino.”
(pp.133-134)

segunda-feira, 21 de agosto de 2006

Obras no moinho

A andar. A chuva que caiu a semana passada ainda chegou a entrar nos barrotes do telhado, mas o calor que veio depois ajudou a secar. Enfim, as madeiras aguentam. A água não chegou a entrar nas vigas grandes do piso intermédio. Menos mal. Segue-se mais uma semana de obras. O humor dos homens não esmorece, é surpreendente.

quarta-feira, 16 de agosto de 2006

Onde assentam as vigas

Sábado passado, o Reboliço foi a Monchique. Ver as duas vigas novas que irão suportar o sobrado do piso intermédio. Cada uma mede mais de cinco metros e pesa para cima de uma tonelada. Jeitosinhas...
A serra deixou-o meio mole, do calor e da humidade. Passou o fim-de-semana todo na ronha.
Segunda de manhã, pela fresca, ainda antes de chegarem os homens, girou na fechadura da porta vermelha a grande chave de ferro e subiu o primeiro lanço de escadas. Queria ver, uma vez mais antes de desaparecerem sob os extremos das vigas, a argamassa e outras pedras mais pequenas, os quartos de mós onde assentarão os dois barrotes gigantes de eucalipto. Descobrira aquilo logo na sexta-feira, quando foi dar a volta a ver como paravam as obras. Por baixo de duas das quatro janelas do piso intermédio, uma em frente da outra, descarnara-se a alvenaria para extrair a madeira já muito apodrecida de duas das vigas (as outras duas, mais curtas e distantes do centro do piso, são antigos mastros de outros moinhos, de pau-ferro; ou seja, há-de ser cedo que apodreçam...). Sem madeira, pedras nem os restos de argamassa, pôde ver a lisura de quatro quartos de mós, dois por cada janela ou extremo das vigas, um a sustentar cada extremo das vigas. Há-de vir foto, para esclarecer.
Os trabalhos no moinho prosseguem, as vigas novas foram assentadas hoje, mas o relato virá mais tarde.

Ouriço-cacheiro

Há dois anos, em Helsínquia, descrevi um episódio curioso que se passou na rua onde morava, com um ouriço-cacheiro. Anteontem provei ouriço. Guisadinho. Heh... fez-me pensar em orelha de porco, assim para o cartilaginoso, mas com mais chicha. Acho que não tenho grande sensibilidade para apreciar a carne do bicharoco. Ficou-me pela experiência. Levaram-no os homens que estão a trabalhar no moinho. Isso, mais cabeça de porco, igualmente guisada. Fiz-lhes uma bela salada montanheira, mesmo à moda algarvia, com batata cozida (também foi novidade para eles).
Um almoço e pêras, diria o Reboliço, não se tivesse dado o caso de a fruta ter sido melão.

Ler nas férias

E vão três. Livros, quero dizer. Não são muitos, mas todos muito bons.
1. Por preguiça, peguei num que tinha à mão: de Machado de Assis, Memorial de Aires. Li-o de uma assentada, com a vergonha a ampliar-se-me, página a página, de não ter lido, até agora, nada deste escritor. Li-o em papel, mas está também disponível por aqui.
2. Retive algum tempo a vontade de ler El mal francès, só para actualizar a leitura de um dos meus autores favoritos (que sorte imensa, não me canso de o reconhecer!) e ler o seu romance anterior, Isaac y las dudas. Li-o na versão castelhana (o original é catalão) que, além da excelência da história, do discurso, das personagens, do muito que ri com algumas das cenas, ainda tem o bónus - também hilariante - do prólogo, escrito pelo tradutor, Luís Algorri.
3. Li, enfim, El mal francès. No original catalão. Precisarei de esclarecer umas dúvidas vocabulares, mas o desafio da língua não foi obstáculo que me impedisse de ver como Lluis Maria Todó está na sua melhor forma.
Uma alegria, ler assim tantas coisas boas. Avanço agora, com grandes expectativas, para Lavoura Arcaica. Será por aqui que começarei a conhecer a obra de Raduan Nassar.

Djurumani

Já há tempos que não me lembrava deste disco. Hoje falei com um amigo sobre música de Cabo Verde. Que saudades, Djurumani...

sexta-feira, 11 de agosto de 2006

Rafael

No topo do moinho, mesmo mesmo a encimá-lo, há um cata-vento. Tem a forma de um homem a cavalo numa égua (o Reboliço soube hoje, do Mestre Caetano, que é uma égua) e parece-se com um tal Rafael, que passava aqui no moinho. Ver o moinho sem tecto não lhe fez tanta impressão como ver o Rafael e a montada, por assim dizer, apeados...

(Foto: Reboliço)

"O moinho está careca!"

(Fotos: Reboliço. Obrigada à mana, pelo arranjo das imagens.)

O sarilho:
é raro ver-se assim iluminado pelo sol (como aquece, este vento...).
A estrutura nova:
estão montados quase todos os oitenta barrotes do telhado.
O início do mastro:
visto desde o carril de pedra, a dar para a planície, para Sul.

quinta-feira, 10 de agosto de 2006

Moinhos na poesia (6)

Continua a série que iniciei em Janeiro deste ano. Desta vez, quem me levou ao poema de Fiama Hasse Pais Brandão foi o cão do vizinho António. Obrigada, meu primo!

"Da voz das coisas"

Só a rajada de vento
dá o som lírico
às pás do moinho.

Somente as coisas tocadas
pelo amor das outras
têm voz.
(As Fábulas, edições Quasi, 2002.)

De parabéns

(Foto: Isa)

Diz a Pelota: "Olha, Tiaga, hoje estou assim para festas. Faço-me de mimosa..."
"O que houve?", pergunta a Tiaga.
"É o aniversário do Isaías. Dão-lhe a atenção toda a ele. Bem sabes como isso nos aborrece... Enfim, é uma criatura muito boa, por isso lhe perdoo. Mas ai dele se não me faz tantas ou mais festas do que nos outros dias!"
Responde a Tiaga, enquanto lambe os interstícios da pata dianteira direita: "Deixa-te de frescuras, Pelota. Tu até tens direito a andar livre por essa varanda. Já eu, ai, coitada de mim, o mais que consigo é dar uns passitos no parapeito da janela da cozinha..."
"Ora adeus, tenho que ir. A Misha está a chamar."
"Saudades para ela. Um beijo ao Isa, outro ao LM."

segunda-feira, 7 de agosto de 2006

Trabalhos

(Foto: Mano)

Trabalhos no moinho, final do primeiro dia

....Está a entardecer. Sento-me na rua, por baixo da videira frente à porta de casa. Já bole o vento fresco. Daqui vejo, em enfiada, as duas portas do moinho. A grande está aberta. A do fundo tem só aberto o postigo, um quadrado de luz a pôr-se na madeira já de encarnado indistinto.
....O moinho está esventrado. O piso intermédio não tem as mós postas – estão todas arrumadas à curva da parede, dispostas ao alto. Uma delas, vi hoje, está no moinho desde o fim dos anos cinquenta, foi quando os homens do Cineclube de Beja filmaram a operação de montagem. Na pedra, escritas a tinta vermelha, as mesmas iniciais que no filme se viam a preto: F.D.S.
....Além das mós e das cunhas de madeira, a escada que leva ao piso do telhado está também tirada, inútil, encostada às mós. Do piso de baixo, pelos buracos dos veios dos dois casais de mós, vê-se o piso de cima. Do vão da escada de baixo vê-se o vazio do piso intermédio, que não olho daqui, mas está lá.

Começam os trabalhos no moinho

....“E agora?”, pergunta um dos homens, no piso intermédio – depois de estarem encostadas à parede as duas mós do casal de mós do lado Norte, retirados os calços de madeira que o ajustavam à mó de baixo e varridas as teias e o pó velho dos veios da mó. Entretanto, o discurso fora arqueológico: qual a razão que levara o avô a usar cunhas de madeira e a desprezar a mó de enchimento, armada com aro de ferro, que está arrumada à parede desde que me conheço.
....“Ainda só andámos cinco metros e quarenta e não chegámos a meio.” O mano anda com o pai no piso do topo, a tirar o diâmetro. O mais que agora se faz é tirar medidas, para que, quando as peças forem remontadas, tudo calhe certo como estava. “Não estás a segurar nisso, pai!” “Ó filho, tu é que tens de segurar na fita...” “Sim, mas tu também és a minha segurança.”
....O cunhado mexe-se como um árbitro no meio do campo. Vai fotografando sem ser visto, sem ser trambolho no caminho dos quatro mestres. O mestre capataz, o Ti’Caetano, vem com o filho e mais dois, os carpinteiros, o Sr Chico e o Sr Joaquim.
....A mó do lado Sul ainda está montada. Tem gravada uma data, 7-5-1961. Não havia nesse tempo Reboliço, nem Lobito. Haveria um Margot, o setter irlandês. Ou não, esse era o da infância do pai (que, em 1961, fazia 22 anos).
....As medidas que o pai e o mano tiraram estão ao milímetro, de fita métrica e calculadora. O mestre Caetano, a olho, fez outra conta, com os mesmos resultados.
....Passaram todos para o piso térreo. A Luca veio esta manhã com os donos e entra pela porta grande. Queda-se, para as festas do cunhado, e volta a sair do moinho pela porta de poente. A semana passada morreu dentro do moinho uma canita do vizinho. Tinha entrado para se refugiar da calma e não deu conta de se fecharem as portas e as janelas. Nem o pai deu por ela, escondida nalgum canto enquanto ele trancava o moinho. Mais tarde, o animal tentou sair, desceu à casa do motor pela passagem que existe na parede e serve de canal às correias do motor para a engrenagem. Na casa do motor, esgravatou o chão, espalhou as cebolas e os alhos ali dispostos para secarem. Mas não achou meio de sair. “Era p’ra morrer, já estava velha,” disse o vizinho, quando soube.
....“É de 1973 este calendário. Ainda a gente não havia,” diz a mana para o mano.
....Os manos lêem o que já mal se percebe, nas ombreiras da porta grande. “A Helena pesa 30 quilos” “Só podia ser a tia Lena.” A filha do vizinho António é Helena, seria ela? Por aquele tempo teria uns nove ou dez anos. Na parede grossa à entrada o avô apontava contas, as dos avios e, mais tarde, as outras, as que lhe vinham sem cessar à cabeça, já no tempo em que o moinho não moía, punha-se ele ao fresco a inventar cálculos.
....Há seis mãos de homens a agarrar a longa cunha de madeira, para retirar a roda dentada do piso térreo, a que transmite a energia do motor a gasóleo para o casal de mós do lado Sul. Esta é a roda mandada, é toda de madeira e fica na horizontal; atrás dela, a mandante, de madeira e ferro, está na vertical.
....“Tragam lá o macaco,” grita o pai. Diz o Sr Joaquim que o que ele quer é o aliviador, agora “macaco”... “Ah, isto não mexe. Tragam lá o spray.” “Já está solta, agora o problema é subir p’ra cima.” “Dê cá a alavanca de ferro. E agora dê-me a alavanca de madeira, p’ra isto levantar ao mesmo tempo.” Esta vai ser mais má de tirar que as mós. “Era sempre uma tourada...”, diz o pai. “Com estes macaquinhos, não vai lá.”
....A mãe veio da casa e sentou-se num banco a ver, no piso de baixo. Esta roda tem de ser tirada agora, para se desengrenar a mó do piso de cima.
....“Não há meio, não mexe. Aquilo era p’ra estar ali sempre,” diz o mestre Caetano a tirar a boina da cabeça e a coçar a testa. “Em vinte anos, ganham raízes.” As alavancas chiam e estalam, sob a força dos seis braços que tentam libertar a roda. Não há meio.
....É ainda de manhã cedo e com as duas portas escancaradas, uma em frente à outra, está-se dentro do moinho com o vento lá de fora. A diferença é que, dentro, as paredes grossas arrefecem o ar.
....Partiu-se a longa alavanca de linha direita. Era de madeira de azinho. Estas peças ainda matarão muita madeira. Um moinho com raízes sossegadas há quase trinta anos não se deixa desmontar à primeira.
....Há um conselho de mestres, de cada vez que tem de se mexer numa peça. O que deve sair primeiro, o que tem de ficar, o que não sai, onde se deixa a peça quando sair. É um enigma que se vai resolvendo à medida que se adensa e se adensa conforme se resolve.
....“Tira-te daí, moço, não te caia uma mó no olho.” “E há caixa de primeiros socorros?” “Não é preciso, façam uma promessa.”
....A Luca já não sai daqui. “O bicho quer é isto,” diz o pai. “Aceita as festas todas e não volta a unha?”, admira-se um dos carpinteiros. O mano tinha preparado um baraço para a prender no piso térreo. “Passei meia hora a atá-la, para ela não subir ao piso de cima.” Quando lá chegou, já a bicha lá estava.
....“Aqui neste buraquinho deve estar outro ninho de ferros.”
....Os homens estão todos no piso intermédio. Estou sozinha cá em baixo. Encostada à parede, ao alto e fechada, está a cadeira de lona verde-seco, onde o avô dormia as folgas frescas. Perto do chão, o tecido está carcomido por bolor. Prende-se à armação de madeira por uns fios reles, cinco ou seis, que resistem há anos, abanados sempre para o lado da rua, quando passa corrente de ar. Na parte de cima, uma mancha de humidade, redonda, da água que lhe tem caído. Ao lado há uma mesa velha, hoje coberta com garrafões de água, um pequeno contentor de vinho tinto e cestos, com figos e com pão. São os bornais dos mestres. Debaixo dos quatro pés da mesa, enrolada e atada, uma corda grossa, da espessura de um braço magro. Corda de prender as velas.
....Olho para fora, através da porta aberta que dá para a estrada. No enquadramento, vejo três ciprestes, para lá dos carros que passam, vinhedo, oliveiras e umas poucas casas, além dos postes da electricidade. Devia fechar esta porta. O vento que entra agora é já quente e, com a velocidade a que passa, não tem tempo de arrefecer. Mas não me levanto. A porta chia, move-se pouco. O postigo bate com a força do vento. Por cima do tecto, sobre mim, ouço martelar, as vozes dos homens, o pó e bocadinhos de madeira que vão caindo neste piso, enxotados pelas pisadas, marteladas e vassouradas no chão de cima. Quando paro de escrever, o vento levanta as folhas do caderno.
....Não deram tirada a mó. “Deixem-na ficar até que se almoce, que o que ela quer é isso.”

domingo, 6 de agosto de 2006

A propósito de The Outsiders

Nature's first green is gold,
Her hardest hue to hold.
Her early leaf's a flower;
But only so an hour.
Then leaf subsides to leaf.
So Eden sank to grief,
So dawn goes down to day.
Nothing gold can stay.

Mais coisa, menos coisa, era isto que dizia Robert Frost em 1923:

É ouro o primeiro verde da natureza,
O tom que mais lhe custa manter.
A primeira folha, uma flor;
Mas por uma hora só.
Da folha, outra folha há.
Assim se afogou na dor o Éden,
Assim desce ao dia a aurora.
Nenhum ouro permanece.

Em The Outsiders, Coppola torceu o poema e fez gemer o desejo de o contrariar. Na cama do hospital onde morre, Johnny diz ao amigo, Ponyboy, "Stay gold". Lírico...

A A.R.

"Cantavas: sou gaivota e fui sereia". Gaivota que foi sereia não deixa jamais de o ter sido. Pode é melhorar. Por exemplo, eu há vinte anos não fazia a massa de peixe que hoje faço.

quinta-feira, 3 de agosto de 2006

De férias, em casa

A Dona Tiaga faz praia sobre os lençóis.
(Foto: Isa)

quarta-feira, 2 de agosto de 2006

Jünger

"A fotografia é, então, expressão da nossa maneira caracteristicamente cruel de ver. Em última análise, uma versão nova do olho mau, uma forma de possessão mágica."
(de "Photography and the 'Second Consciousness'", aqui, p. 209.)