1. Mano: (sabes, 'tive a pensar, se calhar, se eu for já adiantando assim umas "conversas" parvas, tipo daquelas dos velhos, que não se percebe nada mas eles acreditam muito naquilo, se calhar, depois quando chegar a altura tenho conversas melhores, tipo alzaimér ao contrário)
2. Mano: Comprei um casaquinho de pôr.
Me: De pôr onde?
Mano: nos braços e nas costas e nos ombros, e no armário, ao colo quando se anda de comboio, por baixo de um cão quando estiver coçado, por cima do chão molhado, enquanto seca, quando for um farrapo, no lixo, quando já não der mesmo para mais nada, enfim, de pôr
Me: Ah, sim, já sei quais são.
quarta-feira, 31 de janeiro de 2007
terça-feira, 30 de janeiro de 2007
Sexta-feira passada (Monterey)
....Foi a segunda vez que saí de Palo Alto desde que aqui cheguei. Alinhei, de novo, com o Eelco - é boa companhia, não quer que eu conduza (ok, isso às vezes aborrece-me um bocadinho, vá...) e sempre ficam o carro e a gasolina por metade do preço. Na nossa saída anterior, tínhamos ido até Point Reyes. Íamos com intenção de ver baleias, desde o farol, mas chegámos lá uns míseros vinte minutos depois do último autocarro que levava ao farol propriamente dito. Com a estrada inacessível aos automóveis particulares, maldissemos a nossa sorte (muito bendita, aliás, depois de uma paragem para uma caminhada breve em Muir Beach e para um almoço repimpado em Stinson Beach) e retomámos a tortuosa estrada de regresso a PA. O sítio (Point Reyes) é lindíssimo, seja como for. (Fez-me lembrar certas paisagens dos Açores.)
....Desta vez, então, rumámos a Sul. Escolhi eu o lugar, não me desviei da toponímia real e fomos a Monterey. Íamos também ver baleias, mas o último barco saía à uma da tarde e a essa hora estavámos nós refastelados num restaurante sobre a marina de Monterey a comer umas belas tortilhas de camarão e a gozar com uma lontra marinha que se enrolava sobre si mesma dentro da água suja do óleo dos barcos e rodeada por gotas grossas da chuva que ia caindo. Implorei ao Eelco que não ficasse de mau humor com a contrariedade, e lembrei-me que a Diana (a minha senhoria, foto dela com o seu Mustang negro aqui) dissera que o Aquarium de Monterey valia uma visita. Valeu, sim senhora (querem fotos de alforrecas? Vão aqui.)
....As viagens de automóvel (foram mais de 400km) dão para uma pessoa ter uma impressão fugidia dos lugares. Retive a imagem de algumas árvores de tronco larguíssimo, que escureciam de repente a estrada, das ondas a misturarem-se com o cinzento da chuva a cair sobre o mar, na Highway 1, de caixas de correio descoloridas e gastas em sítios ermos, ao lado de carcaças de velhos automóveis. (Fiquei a pensar onde estarão os americanos que construíram estas estradas no meio das montanhas, ansiosos por chegarem ao mar. Serão os despojados das cidades novas, os vagabundos que se sentam nas paragens de autocarro, vestidos com dois ou três pares de calças, cordel de sisal a fazer de cinto, empestados nos bancos dos jardins? Eram deles os carrinhos de mão encostados, de borco, às paredes de madeira apodrecida nestas casas fora de cidade, subúrbio, zona de compras?)
....Desta vez, então, rumámos a Sul. Escolhi eu o lugar, não me desviei da toponímia real e fomos a Monterey. Íamos também ver baleias, mas o último barco saía à uma da tarde e a essa hora estavámos nós refastelados num restaurante sobre a marina de Monterey a comer umas belas tortilhas de camarão e a gozar com uma lontra marinha que se enrolava sobre si mesma dentro da água suja do óleo dos barcos e rodeada por gotas grossas da chuva que ia caindo. Implorei ao Eelco que não ficasse de mau humor com a contrariedade, e lembrei-me que a Diana (a minha senhoria, foto dela com o seu Mustang negro aqui) dissera que o Aquarium de Monterey valia uma visita. Valeu, sim senhora (querem fotos de alforrecas? Vão aqui.)
....As viagens de automóvel (foram mais de 400km) dão para uma pessoa ter uma impressão fugidia dos lugares. Retive a imagem de algumas árvores de tronco larguíssimo, que escureciam de repente a estrada, das ondas a misturarem-se com o cinzento da chuva a cair sobre o mar, na Highway 1, de caixas de correio descoloridas e gastas em sítios ermos, ao lado de carcaças de velhos automóveis. (Fiquei a pensar onde estarão os americanos que construíram estas estradas no meio das montanhas, ansiosos por chegarem ao mar. Serão os despojados das cidades novas, os vagabundos que se sentam nas paragens de autocarro, vestidos com dois ou três pares de calças, cordel de sisal a fazer de cinto, empestados nos bancos dos jardins? Eram deles os carrinhos de mão encostados, de borco, às paredes de madeira apodrecida nestas casas fora de cidade, subúrbio, zona de compras?)
Ultra desactualizado!
O Reboliço revolve-se todas as noites na cama, a pensar como é que há-de fazer para actualizar mais amiúde as cartas. Tal como estão, já tem um caixote de papéis para transcrever. É que foi Sexta, foi Sábado, foi Domingo, e já hoje houve assunto para Cartas... Hoje ao almoço, o fortune-cookie disse-lhe que a paciência é agora a sua maior aliada. E o Reboliço foi sempre um crente inveterado em fortune-cookies.
segunda-feira, 29 de janeiro de 2007
quinta-feira, 25 de janeiro de 2007
Entretanto, o mano...
... deve andar pelo Porto e por Montemor-o-Velho, para a apresentação do livro de Gabriele Basilico (e mais uns quantos "artistas"), Arquitectura em Portugal. A primeira apresentacao e ja hoje, quinta-feira.
"A Dafne Editora vai fazer duas pequenas festas de lançamento/apresentação do livro Arquitectura em Portugal de Gabriele Basilico (já em circulação desde Novembro) e teria um grande prazer em contar com a sua presença.
Os eventos terão lugar no dia 25 de Janeiro pelas 22 horas, na Fnac do Gaiashopping, uma sessão de apresentação do livro por André Tavares e comentário crítico de José Capela, e no dia 27 de Janeiro, na Galeria Municipal de Montemor-o-Velho pelas 16 horas, numa sessão de debate com a participação de Luís Marques Real (Presidente da Câmara Municipal de Montemor-o-Velho), José António Bandeirinha (arquitecto), João Soares (co-comissário da exposição Desenho nas Cidades), Júlio Sousa Gomes (quarteirão das artes) e Miguel Figueira (arquitecto).
Este livro resulta dos conteúdos da exposição apresentada na V Bienal de Arquitectura de São Paulo, Desenho nas cidades, arquitectura em Portugal, comissariada por Álvaro Siza, com fotografia de Gabriele Basilico. Centrado em 5 lugares, Porto, Montemor-o-Velho, Idanha-a-Velha, Évora e Lisboa, apresenta obras de Eduardo Souto de Moura, Adalberto Dias, Fernando Távora, OMA – Rem Koolhaas e Ellen Van Loon, GTL Montemor-o-Velho (coordenação Miguel Figueira), Atelier 15 (Alexandre Alves Costa, Ségio Fernandez, José Luís Gomes), Vítor Figueiredo, Álvaro Siza, Gonçalo Byrne e João Luís Carrilho da Graça.
FNAC Gaiashopping, Quinta-feira 25 de Janeiro, 22 horas.
Galeria Municipal de Montemor-o-Velho, Sábado 27 de Janeiro, 16 horas.
Pode encomendar o livro através da página Dafne no endereço www.dafne.com.pt"
"A Dafne Editora vai fazer duas pequenas festas de lançamento/apresentação do livro Arquitectura em Portugal de Gabriele Basilico (já em circulação desde Novembro) e teria um grande prazer em contar com a sua presença.
Os eventos terão lugar no dia 25 de Janeiro pelas 22 horas, na Fnac do Gaiashopping, uma sessão de apresentação do livro por André Tavares e comentário crítico de José Capela, e no dia 27 de Janeiro, na Galeria Municipal de Montemor-o-Velho pelas 16 horas, numa sessão de debate com a participação de Luís Marques Real (Presidente da Câmara Municipal de Montemor-o-Velho), José António Bandeirinha (arquitecto), João Soares (co-comissário da exposição Desenho nas Cidades), Júlio Sousa Gomes (quarteirão das artes) e Miguel Figueira (arquitecto).
Este livro resulta dos conteúdos da exposição apresentada na V Bienal de Arquitectura de São Paulo, Desenho nas cidades, arquitectura em Portugal, comissariada por Álvaro Siza, com fotografia de Gabriele Basilico. Centrado em 5 lugares, Porto, Montemor-o-Velho, Idanha-a-Velha, Évora e Lisboa, apresenta obras de Eduardo Souto de Moura, Adalberto Dias, Fernando Távora, OMA – Rem Koolhaas e Ellen Van Loon, GTL Montemor-o-Velho (coordenação Miguel Figueira), Atelier 15 (Alexandre Alves Costa, Ségio Fernandez, José Luís Gomes), Vítor Figueiredo, Álvaro Siza, Gonçalo Byrne e João Luís Carrilho da Graça.
FNAC Gaiashopping, Quinta-feira 25 de Janeiro, 22 horas.
Galeria Municipal de Montemor-o-Velho, Sábado 27 de Janeiro, 16 horas.
Pode encomendar o livro através da página Dafne no endereço www.dafne.com.pt"
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Mano
quarta-feira, 24 de janeiro de 2007
Ver o feltro
A mana e mais outras moças muito jeitosas de mãos mostram trabalhos seus feitos em feltro. A exposição já está na Casa da Cultura de Loulé, ali em frente à Câmara, visitável até 9 de Fevereiro. Foto mais tarde (sim, mana?).
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Mana
Continua o saque...
... de fotografias ao Eelco. Desta vez, para verem o Lane, dono da casa onde dormi os primeiros quatro ou cinco dias nesta Munchkinland. É bom tipo - na Sexta-feira passada levou-me a um restaurante português em San Jose. Nem vos conto... (Vá, uma pistazinha: de vinhos verdes, tinham Casal Garcia e Aveleda. Ok?)
Sweet Wicker
O Reboliço rende-se às evidências: não há melhor para curar saudades do que enganá-las com a companhia canina da Wicker. Ok, poderia ser outro canídeo qualquer. Mas esta cadela tem o seu quê de felina, na maneira carolíngea (manos!) como olha para o ar tristonho do Reboliço e lhe diz "O pá, mas que cena é essa? 'tás armado em parvo ou que? Vê mas é por onde andas, que o meu lugar favorito é umas ruas abaixo e ainda nem saímos do quarteirao. Anda, mexe-te. Tenho mais que fazer e a bexiga ainda cheia..."
A alma e o sentimento
Na magnífica novela Michael Kohlhaas, quando a personagem, enraivecida pela injustica social, está prestes a decidir-se pela vingança e a abandonar a sua conduta até ali exemplar, diz o narrador: "Esta era a primeira vez que a sua alma, bem educada pelo mundo, se preparava para suportar algo que não estava de acordo com os seus sentimentos." Grande Kleist.
segunda-feira, 22 de janeiro de 2007
Cenas Vivas; ou Moinhos na Poesia (9)
Só hoje o Reboliço soube da morte de Fiama Hasse Pais Brandão. Procurou entre os seus poemas, recordava-se vagamente de haver uma referência a algum moinho. É um "moinho de pás", mas um moinho. Num livro muito adequadamente chamado Cenas Vivas (de 2000).
Aquela saia roda
como o topo do moinho de pás,
o que em mim confirma agora
que o vento me reveste.
*
Quando depois do nascimento me vestiram,
a roupa então em mim resplandeceu.
Mas estava nua, sem cambraia
ou a memória simples dela nos sentidos.
Nua e solene, com a roupa alheia
em tomo do meu corpo. E ignorava
valor, matéria e as pompas
que entregam roupas e versos ao comércio.
Acreditava só que o gesto amado
de me cobrirem de panos ao nascer
seria a minha glória
*
O pequeno velo de roupa é
o da imaginação. Vestiram-me
para me velar, como janelas afloram
nas casas ou como a palha envolve
medas. As escassas vestes
nas montras eram também
sinais da imaginação. E a linha
nas mãos da costureira assim
imaginada era.
*
Tão devagar cosia pelo traço do giz
a máquina que os pés moveram balançando
quanto os meus olhos devagar seguiram
o traçado dos pontos e o meu espanto
de ver a ordem surgir dos riscos soltos.
O rosto atento caía sobre o pano
que pouco a pouco me tomava a forma
do meu corpo tocado pela luxúria
de tão belos cetins, veludos
inverosímeis e, como tudo o que
a memória gera, fontes de dores.
*
O tépido calor cobre-me
por fora de tules em flor.
As folhas do loureiro ridentes
assemelham-se ao meu vestido
de verde cassa. Agradeço, pois, às bocas
de parentes os nomes ditos.
*
Todas as roupas usadas
próprias do Verão são aquele
vestido único, porque me haviam dito
que ao entrar pelos olhos
ele me cobria de fulgor.
*
Com a saia de tobralco leve passei
entre as nossas hortas, águas do poço,
coisas da quinta tão diversas todas.
E amei cada um dos vários nomes,
e também as palavras especiosas
que na retrosaria designam o belo fio
e aquelas que me mostravam os tecidos
em sequências de alucinações novas.
Saudades do moinho
O Reboliço quase (quase...) chorou ao ver as fotos que o Nikonman lhe mandou deste Domingo no moinho. Coisa linda, ai ai...
sexta-feira, 19 de janeiro de 2007
Revelações
et quomodo invocabo deum meum, deum et dominum meum, quoniam utique in me ipsum eum vocabo, cum invocabo eum? et quis locis est in me quo veniat in me deus meus, quo deus veniat in me, deus qui fecit caelum et terram? itane, domine deus meus?
(das Confissoes)
Iluminações
Ontem foi o primeiro dia de três dedicados a discutir questões de teologia (e) política na Idade Média. A primeira comunicação foi de Richard Harrison, uma espécie de tornado à vida, depois de um ataque de coração que praticamente o levou. Custa-me ainda crer no fulminante desse ataque, depois de o ver tão capaz e tão vivo ali a discursar, a discorrer com a clareza e a claridade dos iluminados geniais, sobre Dante, repúblicas, imperialismo político e religioso e as lições que podemos tirar para o presente de um passado cheio de ensinamentos. Só esta manhã lhe agradeci de voz viva pelo que disse e pelo modo como o disse.
Houve mais gente clara ao longo do dia longo, do dia que haveria de me deixar quase esgotada. Digo quase esgotada porque, no final, a perspectiva de ainda ter mais umas duas horas de discussão filosófica, desta feita sobre o pensamento de Pascal, começava a pesar-me. A única razão por que acabei por ir à reunião semanal do Grupo de Leitura de Filosofia foi que seria apresentada por Michel Serres, numa oportunidade que me pareceu imperdível de ouvir um especialista a falar sobre Pascal. Aconteceu, então, aquilo que só os génios conseguem causar (já sei, é a terceira ou quarta vez que uso "génio"... mas génios são génios, nada a fazer...) - às primeiras palavras de Serres, senti-me como se estivesse a despertar naquele momento; o cansaço foi-se, abria-se outra vez o céu de um conhecimento novo, de uma perspectiva brilhante e linda. Serres é um homem daqueles que não se esquece. Fez com que entendesse tão distintamente a razão de Pascal, as dúvidas, a grande transformação de um mundo noutro, de uma visão do Homem noutra, diferente, aquela em que hoje me reconheço. Diria, escreveria mais, se não soubesse serem diminutas estas palavras com que agora registo o que ontem ouvi.
Deixo de Serres duas "anedoctes", episódios, "fait-divers". Uma, contada por ele, revela bem a sua humildade e o génio humano (sim, está bem); contou-a na sequência de não saber a resposta a uma pergunta que lhe fizeram. Disse que uma vez um pequeno neto seu, chamado Raphaël, lhe pediu "Pépé, récite-moi le Pokemon". Responde-lhe o avô (coitado...), "Je peut te réciter la table des elements chimiques, par coeur, certains poèmes, mais pas - je suis désolé... - pas le Pokemon". É quando o puto lhe retorque "Voila, Pépé, tu ne sais pas tout!"
Segundo episódio: depois de o Sepp ter insistido por duas vezes que havia na sala uma portuguesa (éramos quarenta criaturas a ouvir o Professor), achei que deveria fazer uma pergunta a Serres. Era uma maneira de lhe mostrar gratidão e respeito. Dei o melhor que soube (perguntei-lhe pela teoria do equilíbrio e por se haveria em Pascal lições sobre harmonia musical, enfim...) e ele deu-me a resposta que também pôde (que a teoria do equilíbrio tinha sofrido evoluções históricas extraordinárias, desde Aristóteles, que "equilíbrio" em Pascal não significa necessariamente harmonia, entre o que mais não cabe aqui nem agora). Já fora da sala, dirigi-me a ele para o cumprimentar e agradecer-lhe o que ouvira. Agarrou a minha cabeça entre as suas mãos (tem as mãos grandes e cheias de rugas, mas muito macias) e beijou-me a testa. Ria e dizia-me "C'est toi la portugaise! Merci!, Merci!" Depois disse-me que estivera em Lisboa três semanas antes, que aquela cidade o animava como nenhuma outra. Eu estava ali e era como Lisboa. Depois de aquele homem me ter feito sentir como uma formiguinha a contemplar a pirâmide de Gizé.
terça-feira, 16 de janeiro de 2007
Tanto, imenso (3)
Love me
love me
love me
Say you do
Let me fly
away
with you
For my love is
like the wind
And wild is the wind
Give me more
than one caress
Satisfy this
hungriness
Let the wind
blow through your heart
For wild is the wind
You...
touch me...
I hear the sound
of mandolins
You...
kiss me...
With your kiss
my life begins
You're spring to me
All things
to me
Don't you know you're
life itself?
Like a leaf clings
to a tree
Oh my darling,
cling to me
For we're creatures
of the wind
And wild is the wind
So wild is the wind
Wild is the wind
Wild is the wind
love me
love me
Say you do
Let me fly
away
with you
For my love is
like the wind
And wild is the wind
Give me more
than one caress
Satisfy this
hungriness
Let the wind
blow through your heart
For wild is the wind
You...
touch me...
I hear the sound
of mandolins
You...
kiss me...
With your kiss
my life begins
You're spring to me
All things
to me
Don't you know you're
life itself?
Like a leaf clings
to a tree
Oh my darling,
cling to me
For we're creatures
of the wind
And wild is the wind
So wild is the wind
Wild is the wind
Wild is the wind
(Música composta por Dimitri Tiomkin e Ned Washington. Cantada primeiro por Johnny Mathis em 1957 e depois, entre outros, por Nina Simone em 1966, David Bowie em 1981 e Cat Power em 2000.)
Aha! Já pensavam que isto tinha morrido, não?
Pois é, o Moinho pode dobrar - porque o Reboliço não tem computador na casa onde está (diz a Diana, a senhoria "You must be the only one in the whole Bay Area without a PC!"), ou porque o Blogger quer à força que isto passe a BetaBlogger, mas quando o Reboliço tenta não dá - mas, para quebrar, há-de ser cedo!...
As notícias são:
1. Está um frio de rachar e fazer perder laranjas e outros citrinos, coisas boas aqui da zona (e garanto-vos que os produtos desta região são mesmo como se publicitam: com o tanto sol que apanham e bons ares, a fruta e os legumes são saborosos à antiga);
2. Finalmente, Sexta passada consegui encontrar casa onde ficar. Não tardou a saber que estava numa casa Eichler, coisa de estalo, melhorada ainda mais pelo facto de a senhoria guiar um Ford Mustang de 1965, onde já me levou a conhecer todos os supermercados da zona. O pessoal que mora nestas casas tem-se queixado do frio, ultimamente (pudera...), mas a casa onde estou tem aquecimento no chão, o que a torna muito habitável. O pior é durante os passeios matinais com a Wicker, a cadela. Até se me queimam as narinas por dentro! A Wicker é uma espécie de galgo de Ibiza (não sei se é assim que se chama em português), mas faz vida de gato. Só revela a sua "canidade" quando persegue os esquilos na rua. Aí, sim, é cão a sério e faz o Reboliço orgulhar-se de a levar pela trela.
3. Domingo fui com o Eelco passear a Point Reyes. O Eelco reservara um carro dos mais baratuchos, mas quando foi à agência de aluguer, deram-lhe um da categoria acima, pois tinham esgotado os económicos. Ou seja, lá vai o Reboliço, de cu tremidinho, como gosta, arrelampado no banco dianteiro de um... Ford Mustang de 2006! Fotos do bólide e da passeata domingueira aqui (e mais umas do jantar com o grupo de filosofia, Quinta passada).
Ui, que fomeca, Reboliço! Xau, logo venho!
quarta-feira, 10 de janeiro de 2007
Eelco Runia
Pode parecer o nome de uma companhia petrolífera, ou assim de um medicamento qualquer, mas é como se chama o professor holandês que vive este semestre na casa onde ocupei a parte de baixo de um beliche, por simpatia do senhorio e enquanto procuro poiso mais certo. Diz que não entende nada de blogues, o Eelco, e que só começou a escrever o seu por insistência do filho, para ir dando regularmente notícias. Começou o blogue em Dezembro, quando veio para cá, e agora já não quer outra coisa. Escreve em neerlandês (uma ou outra vez cita em inglês), por isso se calhar só Mr Pedro (you know who) entenderá aquele arrazoado. Mas olhem, tem bonecos! Num deles aparece yours truly e até se menciona o moinho (fica um som esquisito, windmolens).
Da terra dos Munchkin
De conversa com o mano, expliquei-lhe que sim, que aqui também havia "esquilos" como encontrara em 94, da primeira vez que pisei solo americano. Ele quisera saber se havia aqui em Stanford "esquilos-leitores" como os que atravessavam a sala de poesia da biblioteca de Dartmouth College, zuniam sobre os cadeirões, os braços e as cabeças dos leitores e saíam disparados para o grande carvalho em frente a porta. A seguir, esclareci-o: não são bem-bem esquilos-esquilos, mas chipmunks, um sub-género da família dos esquilos. Não houve maneira - "A sério?! Então mas isso é tramado! Uma grande desilusão, tipo aquela de sair o Euromilhões mas sem a parte do receber*! A última vez que tive uma assim tamanha desilusão foi quando soube que Plutão não era planeta e que o Pauleta era rabeta!" (*Esta roubou-a aos mocinhos do Gato Fedorento.) Guarde-se lá mas é o decoro, que o mano só deve ter escrito aquilo para rimar...
terça-feira, 9 de janeiro de 2007
Primeiras impressões
Quando cheguei a estas terras a primeira vez, há quase treze anos, só conheci a costa leste. Impressionaram-me os passeios largos de cimento liso e o tamanho dos automóveis. Nem a altura dos prédios me deixou uma ideia tão forte de diferença como a dimensão dos carros e camiões. Na costa oeste, que conheço agora, impressionou-me o facto de muitos dos edifícios terem telhados de telha. Além da origem da maioria dos funcionários que lidam com o público: sao quase todos orientais.
Ao telefone
"Hello, operator. I'm calling Portugal. Could you put me through?"
Who would you like to call, sir?
"(Uau!, 'sir'!...) I'd like to call Tiaga. (Quem mais havia de ser?)"
Hold on a second, sir. your call is being processed.
"(Nesta terra só me mandam segurar uns segundos...)"
"Sim? Está lá?..."
"Tiaga? Tiaga??? Tiaga!!! Tiaga!..."
"És tu, Rebolico?"
"Sim, sim!!! Sou eu! Ena, gandas saudades!..."
"Até parece... Então? Onde é que estás?"
"Ora, estou aqui. És mesmo parva."
"Vá, diz lá o que é que queres, que tenho mais que fazer."
"Nada - era só para saber se estás bem. O Goldmundo tem-te tratado como deve ser?"
"Ai, Rebolico, sim! Que coisa, então não havia de me tratar bem? Só para que saibas: passo os dias a lavar-me e a dormir, como que nem uma princesa. De noite, exploro-lhe a casa, isto se não estiver muito fatigadinha... É bem fixe."
"Cool, como se diz por aqui. Ouve lá, e já sabes da Maia?"
"Maia? Quem? A abelha?"
"Não, parva. Maia, a cadela."
"Hum... Uma cadela... O que é que há a saber sobre uma cadela?"
"Pensei que já a conhecesses. Havemos de passar muito tempo juntos. Um dia destes, mostro-te a pinta da bicha."
"Hum... Se é cadela, tanto me faz. Não deve chegar para ensombrar a minha beleza."
"Às vezes, Tiaga, às vezes... fazes perder a paciência a um cão-santo, quanto mais a quem é cão-pecador!..."
You have one minute left for your call, sir.
"Olha, está a acabar o tempo. Diz-me só se ficas bem."
"Sem ti por perto? Do melhorio! Saudinha, Rebolico, saudinha! (E volta depressa, meu canito...)"
"O que foi que disseste?"
"Nada, nada. Até depois."
"Até, Tiaga. Cheirinho*..."
(*Inspirado na mana Rosa.)
Who would you like to call, sir?
"(Uau!, 'sir'!...) I'd like to call Tiaga. (Quem mais havia de ser?)"
Hold on a second, sir. your call is being processed.
"(Nesta terra só me mandam segurar uns segundos...)"
"Sim? Está lá?..."
"Tiaga? Tiaga??? Tiaga!!! Tiaga!..."
"És tu, Rebolico?"
"Sim, sim!!! Sou eu! Ena, gandas saudades!..."
"Até parece... Então? Onde é que estás?"
"Ora, estou aqui. És mesmo parva."
"Vá, diz lá o que é que queres, que tenho mais que fazer."
"Nada - era só para saber se estás bem. O Goldmundo tem-te tratado como deve ser?"
"Ai, Rebolico, sim! Que coisa, então não havia de me tratar bem? Só para que saibas: passo os dias a lavar-me e a dormir, como que nem uma princesa. De noite, exploro-lhe a casa, isto se não estiver muito fatigadinha... É bem fixe."
"Cool, como se diz por aqui. Ouve lá, e já sabes da Maia?"
"Maia? Quem? A abelha?"
"Não, parva. Maia, a cadela."
"Hum... Uma cadela... O que é que há a saber sobre uma cadela?"
"Pensei que já a conhecesses. Havemos de passar muito tempo juntos. Um dia destes, mostro-te a pinta da bicha."
"Hum... Se é cadela, tanto me faz. Não deve chegar para ensombrar a minha beleza."
"Às vezes, Tiaga, às vezes... fazes perder a paciência a um cão-santo, quanto mais a quem é cão-pecador!..."
You have one minute left for your call, sir.
"Olha, está a acabar o tempo. Diz-me só se ficas bem."
"Sem ti por perto? Do melhorio! Saudinha, Rebolico, saudinha! (E volta depressa, meu canito...)"
"O que foi que disseste?"
"Nada, nada. Até depois."
"Até, Tiaga. Cheirinho*..."
(*Inspirado na mana Rosa.)
domingo, 7 de janeiro de 2007
Passagem por NY
O que teve de espantoso esta passagem breve por NY foi a cidade estar como às vezes nem na Primavera: temperaturas acima dos 16 graus, céu azul com algumas nuvens só a enfeitar, uma alegria nas ruas. Pode-se entrar nos restaurantes e deixar a porta aberta, não ficam as cadeiras atafulhadas de casacos, luvas, cachecóis, gorros e outros aquecedores da época, cruza-se a gente com joggers de calções e manguinha à cava e as flores dos canteiros* são visíveis em todas as cores, já não só no branco da neve ou no cinzento das geadas. É uma cidade linda e estranha, assim. Em mim, reforça ainda mais a ideia de que passarei este interregno na terra dos Munchkins. Quando regressar ao meu Kansas, será como acordar de novo para a vida.
(*Só está disponível por subscrição, mas a edição deste fim-de-semana do Wall Street Journal traz um artigo de Bart Ziegler sobre "Climate-Change Gardening", que é como quem diz "Jardinagem para os alterados tempos que já cá estão".)
sexta-feira, 5 de janeiro de 2007
Do lado de cá do moinho
Quando o Reboliço regressava para perto do avô, depois de visitar terras longínquas, sentava-se, entusiasmado, a contar-lhe tudo o que vira. O avô escutava-o, atento, as duas mãos uma sobre a outra, o queixo sobre o cajado, muitas vezes de olhos fechados. No fim dos relatos, abria os olhos e perguntava-lhe: "E o sol que lá viste, como era?", ao que o Reboliço, invariavelmente, respondia que era igual, igualito ao do Moinho. Então, o avô fazia um suspiro ligeiro com o corpo todo. Como se dissesse "Estou mais descansado."
>
Moinho
quinta-feira, 4 de janeiro de 2007
De malas aviadas
- Com que então, de abalada..., disse a Tiaga ao Reboliço. - Por isso andavas tão misterioso... E agora, como vai ser?
- Olha, respondeu-lhe o canito. - Toma bem conta de tudo. Eu darei notícias. Terás é que te habituar outra vez à falta de acentos e cedilhas. Sabes, Tiaga, o tempo é coisa pequena, como isso de acentuar as palavras. A gente sentes-lhe a falta, se os acentos não estão, mas entende-se à mesma as palavras. Coisa pequena, sabes?
- Sei. Ontem disse-me a menina de olhos de osga que era um abrir e fechar de olhos. Se for dos dela, abrem-se e fecham-se num instantinho. Quando os reabrir, vê-los-ei grandes, verdes e redondos como só aqueles. (Mas volta depressa, Reboliço, volta depressa, que terei saudades tuas.)
- Olha, respondeu-lhe o canito. - Toma bem conta de tudo. Eu darei notícias. Terás é que te habituar outra vez à falta de acentos e cedilhas. Sabes, Tiaga, o tempo é coisa pequena, como isso de acentuar as palavras. A gente sentes-lhe a falta, se os acentos não estão, mas entende-se à mesma as palavras. Coisa pequena, sabes?
- Sei. Ontem disse-me a menina de olhos de osga que era um abrir e fechar de olhos. Se for dos dela, abrem-se e fecham-se num instantinho. Quando os reabrir, vê-los-ei grandes, verdes e redondos como só aqueles. (Mas volta depressa, Reboliço, volta depressa, que terei saudades tuas.)
Língua Bífida
É o nome de um novo blogue do Pedro Afonso, um dos (senão o mais) responsáveis pelo Ler Alto. Poeta à séria.
quarta-feira, 3 de janeiro de 2007
Chão de tijoleira
O chão do quarto do avô é de uma tijoleira velha, muito esburacadinha e velha. É mais do que porosa. Tem a cor da terra e é má de varrer que só visto. Mas é o chão do quarto do avô. Foi esse chão que pisei, um dia de muitos. Tinha chegado ao monte era já manhã avançada e estranhara não ver o avô a pé. (Quando entrei na cozinha, o Reboliço, deitado à lareira, só abanou a cauda um bocadinho.) Disse-me a avó que ele estava “ali para o quarto, hoje não se quer erguer.” “Posso ir lá vê-lo?” “Vai, vai lá que ele ainda está deitado.” Encontrei-o sentado na cama, cabisbaixo. Não sei se tinha os olhos fechados, mas todo o rosto olhava o chão, a tijoleira já gasta. O cajado ainda estava encostado à cabeceira. Levantou a cabeça só o suficiente para me dar um sorriso pálido. “Então, avô? O que se passa hoje?” “Ai, filha...”, começou, com a voz triste. “Às vezes entra-me uma paixão pelo organismo...” Foi quanto bastou para me fazer rir, ele olhar para mim, os olhos sorrirem-lhe e passarmos adiante. Para mais aquele dia, para a vida.
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Moinho
segunda-feira, 1 de janeiro de 2007
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