domingo, 27 de janeiro de 2008

Silêncio

O Reboliço ferrou numa folga domingueira à antiga. Acordou de bexiga cheia e cabeça ainda atarantada de vozes diferentes. O diabo de Pascoaes, por exemplo, não era assustador e afinal volvia-se em anjo. Noutra voz, já quase calada, Do not imagine, because I am silent, that I am not present, and alive to all that is going on.* Soava-lhe tão acertado que, enquanto se aliviava, de perna alçada, junto ao limoeiro maior, deu por si a acenar de assentimento.

(*Samuel Beckett, palavras de Mrs Rooney na peça All That Fall. "Beckett?," interroga-se o Reboliço. "Quem raio é este agora?")

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Arquivo

O dossier pedagógico de Turismo Infinito está aqui.
A entrevista de António M. Feijó, responsável pela escolha dos textos para a peça, ao programa Pessoal e Transmissível, na TSF, aqui.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

O Marinheiro Antigo

(John Everett Millais, The North-West Passage, 1874.
Sete anos antes da morte de Edward John Trelawny,
modelo do marinheiro com a sua filha Laetitia.

Este homem foi estranho e contou histórias estranhas.)

Dafne, de novo

Ah!, este opúsculo deve ser uma maravilha: é sobre uma casa em Montemor, tem desenhos do arquitecto Miguel Figueira, análise da Maria e ilustrações da Marta Figueira (imagino que sejam filhas do arquitecto). Toca a desembarcar!

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Ter prenda

Não é muito hábito seu, mas às vezes o Reboliço veste uma blusinha para dormir. Ontem, ao acordar, viu que a tinha do avesso. "Cool..." pensou: "Vou ter uma prenda!" À medida que o domingo se esticou, foi-se esquecendo do avesso da roupa. Nem nada. Ao deitar, fechavam-se-lhe os olhos, entristeceu-se um bocadinho por, afinal, não ter tido prenda o dia todo. Foi só um pouco depois, já de dentro do sono, que se lembrou que vira nesse dia, pela primeira vez, The Apartment.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Excurso filológico-ético

Ele é deitar tarde, ele é erguer cedo, ele é dormir pouco e toss and turn toda a noite breve. O Reboliço anda num rebuliço. O que lhe vai valendo é que, volta não volta, recorda-se que é nas palavras, naquilo que se diz, que se ajusta o que se quer dizer. Anteontem foi a alma como vício (na voz muito calma e aberta do Manoel de Oliveira a passar as palavras lentas e não ditas da Agustina) o que o maravilhou. Hoje, incomodado por maldades e por bondades agitado, pensou que as palavras "malévolo" e "benévolo" não querem só dizer alguém que quer mal e alguém que quer bem. Querem dizer que bem e mal dependem da volição dos serzinhos. Ou seja, que ninguém é mau só porque nasceu assim e tem feitio para não sei quê, e que ninguém é bom só porque calha. Não é coisa do acaso nem de circunstância. Um gajo ou quer mal ou quer bem e mais nada.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

O Reboliço precisa...

... de ar.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Da tradução como inspiração

aqui o escrevi - Aníbal Fernandes é um dos meus tradutores predilectos. Foi por ele que li A Cidade Proibida (René Leys), de Victor Segalen, na primeira versão portuguesa, de 1983. A Assírio reeditou há um ano e pouco o livro: fez-lhe uma capa nova, inspirada na da edição francesa em que surgiu a primeira vez o relato em 1922 (depois já da morte de Segalen) e, sei lá se por iniciativa dele ou incitado pela editora, Aníbal Fernandes reescreveu o prefácio e reviu a sua própria tradução. De 1983 a 2006 vão 23 anos. É muito dia, muita hora a pensar no mesmo texto, nas palavras de um "livro que não há" (como diz a terminar o prefácio de 1983). Para já, confrontei apenas os dois prefácios (um pouco surpreendida com as diferenças neles e nas duas traduções, já que nada na edição refere "tradução revista"). O discurso de Aníbal Fernandes em 2006 soa mais maduro, mais comedido, mais rigoroso. Tem a mesma excelência do primeiro, mais seriedade. Mas perdeu - ou será uma tinta nostálgica emborcada em cima do papel da minha leitura anterior - uma rapidez, uma pressa que havia no de 1983. Uma pressa que, por exemplo, amachucava nisto parte da biografia do autor:

Literariamente marginalizado em vida, Victor Segalen é agora uma boa reputação póstuma com direito ao inquérito que apenas consegue dar realce, numa biografia neutra, à mãe autoritária, à miopia forte e à morte singular. Mal damos por ele nas suas viagens de fim de mundo, vinte e cinco anos depois de nascido em Brest, 1878, quando seis planetas em signos de terra lhe concertam no céu astrológico um «horror ao mar» que passa a ironia maior na sua carreira da Marinha.

Na edição nova, A. Fernandes escolhe não incluir um poema de Segalen, "Cidade Roxa Proibida," que aparecia na anterior (o mais certo é ter tido razões de direitos de publicação, pois eu cá via sentido na chamada daqueles versos para antes do mergulho no relato). Mas compensa, com a citação de uma quadra do autor, cuja origem não identifica e que reza desta linda maneira:

Sinto-me em prazer até ao cimo. Com todos os instintos. Estimulo
Os sentidos dilatados além dos sentidos, mais veloz
Que o espírito, que o ar. Espalho-me sem limites.
Estendo os braços: e chego aos dois fins do Tempo.

Os fins do tempo, aqui, podem ser as datas de duas edições do mesmo texto, pelo mesmo tradutor.

domingo, 13 de janeiro de 2008

"Public service"

Dear Friends,

We are pleased to announce that Entitled Opinions will be starting up again next week. While the final schedule has yet to be confirmed by the KZSU programming department, we expect to have our regular time slot, namely Tuesday from 5 to 6 pm. Our first show will feature a discussion with historian Philippe Buc on the topic of religion and violence. That will be followed by a conversation with Orhan Pamuk, winner of the 2006 Nobel Prize for literature. Other guests include historian Aron Rodrigue (on the Ottoman empire); archaeologist Michael Shanks (on the origins of agriculture); classical scholar Andrea Nightingale (on love and beauty in Plato); philosopher and historian Hayden White (on the vocation of the Humanities); literary critic Laura Wittman (on the poet A.R. Ammons), and others. Unless you hear from us otherwise, our first show will air on January15.
(...)
Meantime, you can listen to the entire archive of the show on our website http://www.stanford.edu/dept/fren-ital/opinions/, or through iTunes.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

O Reboliço tem a impressão de que esta imagem tem direitos de autor. Mas decidiu à mesma mostrá-la, para saudar o seu amigo Moomin Troll, bicho narcísico como ele, blue e de loiça.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Opinião de Ofélia Queirós sobre Fernando Pessoa

O Fernando era um pouco confuso, principalmente quando se apresentava como Álvaro de Campos. Dizia-me então: «Hoje não fui eu que vim, foi o meu amigo Álvaro de Campos...» Portava-se, nestas alturas, de uma maneira totalmente diferente. Destrambelhado, dizendo coisas sem nexo. Um dia, quando chegou ao pé de mim, disse-me: «Trago uma incumbência, minha senhora, é a de deitar a fisionomia abjecta desse Fernando Pessoa, de cabeça para baixo, num balde cheio de água.» E eu respondia-lhe: «Detesto esse Álvaro de Campos. Só gosto de Fernando Pessoa.» «Não sei porquê», respondeu-me, «olha que ele gosta muito de ti.»
Raramente falava no Caeiro, no Reis ou no Soares.
(Daqui.)

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

(Alberto Caeiro sobre...

... o que o Reboliço gosta de fazer. E sobre como gosta de o fazer.)

31

Deito-me ao comprido sobre a terra com erva
E esqueço tudo quanto me ensinaram.
O que me ensinaram nunca me deu mais calor nem mais frio,
O que me disseram que havia nunca me alterou a forma de uma coisa.
O que me aprenderam a ver nunca tocou nos meus olhos.
O que me apontaram nunca estava ali: estava ali só o que ali estava.
(Daqui, p. 131.)

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Interlúdio necrológico (título declamado em tom radiofónico-festivo)

Era Agosto do ano que findou e escrevia isto no blogue do Cineclube de Faro:

"Em conversa com o Hugo Ramos Alves, compararam-se João César Monteiro e Luiz Pacheco. De estilo próximo, incorrigíveis e sem serem para corrigir, cáusticos e maravilhados com o poder da sua acidez, ambos foram (o Pacheco está vivo, não me entendam mal) enraivecidos, lindos, a bardamerdar tudo e todos, centrados apenas nas suas dores de viver. Ambos fizeram (não me entendam mal, o dos livros ainda vive) das quotidianas mazelas de terra e ar, de corpo e espírito, obra visível, partilhada, oferecida. Serão sempre, os dois, marginais (porque sim!) e encantatórios. Mas têm uma diferença inultrapassável. Não que os traga de compita, nem que a algum deles isso desse grande abalo. Mas, chegando às vozes, não há como a do Monteiro, que lhe está assim como aqueles olhos (e, do lado contrário, o Pacheco tem garrafais lentes para uma voz de igual modo garrafal), clara, lenta, direita ao ouvido sem precisar de ajustes. Se calhar é por isso que, quando vejo os filmes em que Monteiro entra como actor penso que todas as coisas, incluindo as feias, são as mais belas do mundo. Ler Pacheco, pelo contrário, faz-me canalizar a boa raiva. Eu contra ninguém, que é como mais gosto."

Ficam actualizados os primeiros parênteses, que aqui anegritei. Isto era também para ter nas Cartas um exemplar do que tenho escrito no do CCF. Acho que o Pacheco não se importa.

Há tempo

....."Há muito tempo que não escrevo. Têm passado meses sem que viva, e vou durando, entre o escritório e a fisiologia, numa estagnação íntima de pensar e de sentir. Isto, infelizmente, não repousa: no aprodrecimento há fermentação.

.....Há muito tempo que não só não escrevo, mas nem sequer existo. Creio que mal sonho. As ruas são ruas para mim. Faço o trabalho do escritório com consciência só para ele, mas não direi bem sem me distrair: por detrás estou, em vez de meditando, dormindo, porém estou sempre outro por detrás do trabalho.

.....Há muito tempo que não existo. Estou sossegadíssimo. Ninguém me distingue de quem sou. Senti-me agora respirar como se houvesse praticado uma coisa nova, ou atrasada. Começo a ter consciência de ter consciência. Talvez amanhã desperte para mim mesmo, e reate o curso da minha existência própria. Não sei se, com isso, serei mais feliz ou menos. Não sei nada. Ergo a cabeça / de passeante / e vejo que, sobre a encosta do Castelo, o poente oposto arde em dezenas de janelas, num revérbero alto de fogo frio. À roda desses olhos de chama dura toda a encosta é suave ao fim do dia. Posso ao menos sentir-me triste, e ter a consciência de que, com esta minha tristeza, se cruzou agora - visto com ouvido - o som súbito do eléctrico que passa, a voz casual dos conversadores jovens, o sussurro esquecido da cidade vida.
.....Há muito tempo que não sou eu."

(Livro do Desassossego de Bernardo Soares, Apresentação crítica, selecção e sugestões de leitura de Maria Alzira Seixo, Apêndice bibliográfico de José Blanco, Lisboa, Editorial Comunicação, 1986, pp. 135-136.)

domingo, 6 de janeiro de 2008

Magia

"I need all the concentration I can have for the preparation of what may be called, figuratively, as an act of intellectual magic - that is to say, for the preparation of a literary creation in a, so to speak, fourth dimension of the mind."
(Fernando Pessoa [1929], "De uma carta a Aleister Crowley." Daqui, p. 292.)

sábado, 5 de janeiro de 2008

«THE TIMES»

Sentou-se bêbado à mesa e escreveu um fundo
Do «Times», claro, inclassificável, lido...,
Supondo (coitado!) que ia ter influência no mundo...
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Santo Deus!... E talvez a tenha tido!

(Álvaro de Campos. 16/8/1928. Daqui, p.352.)

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Ora bem...

Como mostrou ao Reboliço o seu grande amigo Rufia (o dono do Rafa, outro grande companheiro), os ABBA dizem à malta que se não tiver cada um as suas esperanças e vontade de as concretizar, mais vale encostar-se a um canto para morrer. Do que o Reboliço muito gosta é de se deitar aos cantos, mas já se sabe que é para alimentar os sonhos, engrandecer o espírito e reforçar as vontades. De preferência, ao olhinho de sol, ou então abrigado num alpendre qualquer a ouvir a chuva e a sacudir uma gota mais impertinente.