terça-feira, 31 de maio de 2005

A vara partida e as nuvens


(Foto: Ángel González em Março de 2005.
O Ángel foi o amigo que apareceu no moinho
e me apanhou a escrevinhar as primeiras notas deste blogue.)

segunda-feira, 30 de maio de 2005

Em Lisboa

"Sentei-me num dos bancos, e fiquei a saborear aquela paz, aquele isolamento, aquela claridade que a passagem de um eléctrico de quando em quando amarelava fugidiamente. Às vezes, percorrendo distraidamente certas porções de Lisboa, houvera à minha volta, ou deslizara a meu lado, alguma atmosfera como aquela. Outras vezes, numa rua modificada ou alargada, em que demolições inconclusas enchiam de escombros e de lixo, ou de paredes interiores semi-demolidas em que sinais de vida ainda se agarravam, um dos lados da rua, eu sentira que, do lado oposto e não atingido pelas modificações, um velho palacete, ou uma correnteza de humildes casas, projectavam uma aura semelhante àquela, apenas já marcada por uma condenação senil. Ainda outras vezes, como por exemplo, na Graça, na Estrela, nas Amoreiras, ou na Costa do Castelo, a atmosfera matinha-se, mas mais palpitante, como quando, ao silêncio que só os passos cortavam, se sobrepunha no ar um eco de vozes, de gritos longínquos, de burburinho feito da agitação tranquila em muitas ruas diversas."
(Sinais de Fogo, p. 491)

Não é possível congratular-me com isto: a leveza de ter usado um texto não meu para me dispensar de escrever eu mesma custa o castigo de me roer por não ter sido eu mesma a escrever estas palavras. Bendito, e humilde, Jorge de Sena...

sexta-feira, 27 de maio de 2005

Otelo

onizubmaG
(Esmalte sintético, Óleo, L-marker, punaises sobre tela; 110x90cm; 2004)
Há pessoas assim, a quem me rendo quase incondicionalmente. São carinhosas, sensíveis, e fazem-me lembrar, de cada vez que as encontro ou penso nelas, a expressão de Emerson para falar da capacidade poética: homens de atenção mais afinada, seres que viajam nas regiões "onde o ar é música" e conseguem trazer de lá para este mundo, mais infernal, os trechos harmoniosos que encontram. Frágeis, as melodias, sobrevivem intactas nas mãos dos poetas. Ou o contrário: levam-me a mim, também inteira, a visitar aquelas regiões. Seja como for, é por eles que as vejo e reconheço a justeza das imagens.

quinta-feira, 26 de maio de 2005

Patinhas, para que vos quero?

Quero-vos para calcar as pedras dos passeios de Lisboa.
Quero-vos para me levarem para baixo da terra de Lisboa, a andar no Metro.
Quero-vos para, daí de baixo, quererem subir a olhar também o rio, ali naquela nesga entre as ruas.
Quero-vos para descansarem junto ao cão do restaurante O Caracol, no Bairro Alto; quero-vos para darem meia volta no Cantinho do Bem-Estar (à cunha!) e me deixarem encostada ao mármore quente da Velha Gruta.
Quero-vos para passarem nos corredores estreitos da Sá da Costa, pararem frente às três senhoras que nem para cumprimentar se levantam, e irem à procura do Ibsen (ausente!) na prateleira breve do "teatro".
Quero-vos para me apressarem a sair do carro e correr para falar a 30 curiosos sobre o que se diz das grandes cidades na literatura.
Quero-vos, e por isso vos ofereço um par de sapatos...

sábado, 21 de maio de 2005

Imagens da Cidade ("Cidade triste e Alegre...")

Esta semana estarei na capital, a participar num curso sobre Imagens da Cidade. Desconfio das fotografias, suspeito que os poemas nunca dizem tudo o que as cidades escondem, e duvido que a arquitectura possa revelar alguma coisa mais. Apesar disso, sei que não viveria feliz sem essas desconfianças, sem tais suspeitas, sem dúvidas assim.

Esperança 2

Diz a Luísa: "Enquanto há D. Esperança, há vida!"

Esperança 1

O minimercado da D. Esperança chama-se O Futuro.

terça-feira, 17 de maio de 2005

Está quase...


... mesmo quase!

domingo, 15 de maio de 2005

Fantástico!

Tinha jurado não comprar mais nenhum número da Premiére francesa, por ter deixado de trazer as oito fichas dos filmes; apesar disso, este mês não resisti, é o número especial sobre Cannes. Tive um prémio, pela minha desobediência: a página 73, uma página de publicidade a uma marca de shampô, é toda ocupada pela imagem de uma savana - ao meio, na tradicional pose majestosa, um leão. Não reproduzo a imagem, não me apetece fazer publicidade. Mas só visto!

sábado, 14 de maio de 2005

Cena de filme

Mudo
O homem estaciona em frente da padaria. A mulher sai do carro, entra na padaria e o homem abre a porta da mala. O cão grande sai e ficam os dois no passeio, à sombra. A mulher sai da padaria e entra sozinha no café ao lado. O homem deixa-se ficar no passeio, com o cão. De dentro do café vê-se mal a rua. Ao fim de poucos minutos, a mulher volta a sair – traz na mão a chávena de café, que entrega ao homem. Deixa os sacos de pão dentro do carro e entra no talho de montra larga e alta, a seguir ao café. Da rua, o homem observa os quatro rapazes que atendem no talho. A mulher é a última cliente; quando a atendem, é a única na loja. Enquanto segura o cão grande, o homem repara na atenção, na seriedade com que os quatro rapazes atendem a mulher, que vai apontando de vitrina em vitrina o que pretende. Um dos rapazes está ao telefone. Outro, sem ter o que fazer, troca a perna, encostado ao frigorífico, e bebe um sumo. Os quatro vão conversando com a mulher – o que lhe prepara a carne vai espaçando as palavras com os golpes do cutelo. A mulher vai retorquindo, igualmente séria. Depois de atendida, despede-se dos rapazes com cortesia e sai do talho, com os sacos de carne na mão.

Sonoro
MULHER – Bom dia, queria dois pães de quilo, por favor.
EMPREGADA DA PADARIA – Ora bom dia. Aqui tem. É mais alguma coisa?
MULHER – Não, obrigada. São oitenta, não são?
EMPREGADA DA PADARIA – Sim senhora. Obrigada.
MULHER – Até prá semana.
EMPREGADA DA PADARIA – Até prá semana, obrigada.
*********
MULHER – Bom dia.
EMPREGADA DO CAFÉ – Bom dia. Diga.
MULHER – Era um café e um garoto.
EMPREGADA DO CAFÉ – É o quê?
MULHER – Um café e um garoto.
EMPREGADA DO CAFÉ – Diga?
MULHER – Um café, por favor. E um garoto.
EMPREGADA DO CAFÉ – (Aos fins-de-semana só me calham destas...)
MULHER – Obrigada. ... Toma, vê lá se queres açúcar.
HOMEM – Não, está bom assim. Obrigado.
MULHER – Quanto é tudo?
EMPREGADA DO CAFÉ – É um Euro certo.
MULHER – Então bom fim-de-semana e obrigada.
EMPREGADA DO CAFÉ – Obrigada, igualmente.
**********
MULHER – Vou ainda aqui ao talho, espera só mais um bocadinho.
HOMEM – Sim.
**********
1º EMPREGADO DO TALHO – Ora, agora a senhora. Bom dia, diga, se faz favor.
MULHER – Bom dia. Queria esse pedaço de lombo de porco, por favor.
1º EMPREGADO DO TALHO – Com certeza. E é mais alguma coisa?
MULHER – Olhe, sim. Se calhar, levo logo comida para o cão.
1º EMPREGADO DO TALHO – Muito bem. E de que raça é o canito?
MULHER – É um rafeiro alentejano.
1º EMPREGADO DO TALHO – Quer para quantas refeições?
2º EMPREGADO DO TALHO (ao telefone) – Febras, homem, febras! Não são presas! Chiça!
MULHER – Ele já é grande, come bem.
1º EMPREGADO DO TALHO – Leve assim. Se for pouco, junte-lhe umas batatinhas, ou umas sopas de pão.
MULHER – Ah, isso ele é muito esquisito. Às vezes ponho-lhe sopas de leite, de manhã, o bicho bebe o leite e deixa o pão. Mas, em sendo pouco, ponha mais um franguinho, faz favor.
3º EMPREGADO DO TALHO – Ah, ele é fino! Olhe, o meu não gosta dos frangos do Parente. Acha que têm pimentão a mais.
(...)
1º EMPREGADO DO TALHO – Eu cá tenho lá em casa uma canita... Dou-lhe café com leite e ela bebe o leite e deixa o café.
MULHER – Ah!...
1º EMPREGADO DO TALHO – Então e que mais?
MULHER – Já chega. Quanto é tudo?
1º EMPREGADO DO TALHO – É ali com o meu colega. Faz aí a conta à senhora.
4º EMPREGADO DO TALHO – São seis e noventa e cinco, faz favor.
MULHER – (...)
4º EMPREGADO DO TALHO – Sabe, é que ele dá-lhe o café em grão. Então, e já foi à feira?
MULHER – Ainda não fui, mas já ouvi que aquilo este ano está fraquinho.
4º EMPREGADO DO TALHO – Parece que sim.
MULHER – Bem, bom fim-de-semana.
EMPREGADOS DO TALHO – Então bom fim-de-semana e obrigado!

O talho

Bartolomeo Passerotti, c. 1580

sexta-feira, 13 de maio de 2005

O que apanha as rosas

Hugo Simberg, 1905

Os dias felizes...

... são como hoje: vai-se no carro a cantar com o rádio, apetece abraçar toda a gente e - acima de tudo - não se quer saber porque se está assim!

quarta-feira, 11 de maio de 2005

A época dos descobrimentos

Estou a arrumar os livros e encontro duas coisas: um pequenino desenho do João (uma das suas lagartinhas fatigadas a passear sobre a linha de tinta da China) e as Cartas do Daudet, traduzidas por Ricardo Alberty. Tenho também o original francês, mas há-de ser cedo... O livro começa com uma escritura notarial: um senhor Mitifio vende ao senhor Alphonse Daudet um "moinho de vento e de farinha". Declara o senhor Daudet que, "não obstante ... a mó partida e a plataforma onde a erva cresce entre os tijolos", acha o "dito moinho em condições e podendo servir para os seus trabalhos de poesia". O triste é não se poder fazer pão onde se faz poesia.

Outra descoberta, faço-a no número de Out/Nov/Dez do Jornal dos Arquitectos: um artigo de Eduardo Lourenço sobre o Livro do Desassossego. Já não durmo sossegada.

domingo, 8 de maio de 2005

Escrever o que é dos outros

Gosto muito de traduzir. Lembro-me de querer estudar tradução e passar o resto da vida a traduzir. Às vezes, traduzia (letras de canções, capítulos de livros que andava a ler) só pelo prazer de me sentir um pouco a escrever aquelas palavras, de as tornar um bocadinho minhas. Quando traduzo, as palavras ficam-me imprimidas na ideia mais a ferro do que quando apenas leio. Ironicamente (ou não), um dos meus autores favoritos só o li em português. Poderei dizer que o “incorporei”, se nunca li uma frase sua na língua em que a escreveu? Saberei exactamente o que quer dizer Ernst Jünger, quando leio que “O homem pode desafiar a morte, mas não a sua própria imagem”?

Tenho um tradutor favorito: Aníbal Fernandes. Não é nada “fiel”, é até muito polémico enquanto tradutor, mas imagino a partir das suas versões a paixão que o terá levado a trabalhar alguns textos.

Não falo sobre tradução de poesia.

sábado, 7 de maio de 2005

Açores 9 (Pico, 12 de Setembro 16h15)

....Paro no farol do Giraz, frente a S. Mateus. Andar sobre as pedras de lava faz um barulho estranho. As cores também são curiosas. Apanho três pedras pequenas: uma encarnada‑alaranjada, uma encarnada‑rosada‑acinzentada e outra cinzento‑esverdeada, todas com estrias de lava e pontiagudas. Todas estranhamente leves. A estradinha para aqui passa entre as famosas vinhas do Pico, plantadas dentro de cubículos em pedra de lava para se protegerem do ar salgado e do vento: preto e verde, verde e negro. Parei uns 100m ao lado do farol, perto de uma estrutura em pedra que se parece com um moinho (ou a sua ruína) mas que pode ter sido só a base sólida de um pequeno antigo farol, por exemplo. Há argolas de ferro a toda a roda, metidas pelas pedras, cinco pelo menos, e outra no chão. Todas estão ferrugentas. Mas não se vê qualquer abertura. A cantaria de topo tanto pode ser base para um telhado como remate de uma espécie de pedestal do moinho. Só uma face mais cimentada, que dá para o mar, pode indicar uma antiga porta, mas não é certo. Terá uns 2,5m de altura, um perímetro de 7 ou 8m e no topo, a meio, o resto de um mastro de madeira – encaixe de quê?

Açores 8 (Pico, 12 de Setembro 15h30)

....Estou mesmo dentro da nuvem escura. Paro o carro e deixo engatada a marcha atrás, que o declive é acentuado. Olho lá para baixo e vejo mais um cenário de magia. O vento quase não se ouve, e o mágico é a imagem da povoação ali junto ao mar: a nuvem abre‑se, lá, e faz brilhar o pedacinho de mar em frente às casas. É como se se abrisse uma lente sobre aquela película e ela se ferisse, deixando passar toda a luz: o verde muito verde, o azul do mar muito brilhante de prateado, tudo a brilhar e pequenino, longe, de cena irreal emoldurada pela nuvem castanho‑cinzenta da cor das pedras de lava. Desce a nuvem, apaga‑se o brilho; sobe, e resplandece! Desce outra vez e embacia o olhar; sobe outra vez, maravilha! Colhi e comi uma amora silvestre. Azedazinha, saborosa... Presa à porta do carro estava a asa de uma borboleta.

Açores 7 (Pico, 12 de Setembro 15h15)

....Parei no Cabeço Gordo, por detrás da elevação, e estacionei entre ela e a montanha – assim, não vejo o mar. O carro balança com o vento e o espectáculo das nuvens a descer sobre mim, vindas do outro lado da ilha, é deslumbrante – mais ainda quanto mais escuras são, e quando cobrem o sol. O Pico ali está: só parece pequeno, mas agora o olhar diz como é imponente.
....No rádio consegui apanhar a Antena1 pela primeira vez desde que cheguei aos Açores – há um outro incêndio em Monchique e os serviços de saúde aconselham a não sair de casa nas horas de calor e a ingerir bastantes líquidos. Como me parecem irreais e distantes estas notícias! Falam‑me de um arquipélago nos antípodas, um lugar muito longínquo e desconhecido.

Açores 6 (Pico, 12 de Setembro 15h)

....Dentro do carro que aluguei na Madalena, paro a meio caminho entre o mar e a montanha do Pico. Faz uma tremenda ventania de sul. Estou mesmo por detrás da nuvem que tapa a montanha quando se avista da Horta – por isso aqui vejo tudo, limpo até ao cume. A estradinha por onde sigo, velha e estreita, tem um ar inconfundível de estrada de ilha e faz‑me lembrar os cenários de uma série que passava na televisão, Veterinário de Província. Não sei se a acção se passava numa ilha, mas a sensação e o tipo de imagens associaram‑se na minha memória. Dos dois lados há arbustos altos de hortênsias (neste quase outono, as flores são imperceptíveis) e muros de pedra negra. As vacas no caminho e as carrinhas de caixa aberta estacionadas de repente numa berma súbita, ou a passar com velocidade, ajudam a associação com a série. Ouvem‑se alguns pássaros, ou é um só, e o vento. Não ouço insectos. Daqui, a montanha nem parece muito alta, mas acredito que seja uma ilusão.

quinta-feira, 5 de maio de 2005

Coisas que não duram quase nada


A Luca frente a uma máquina fotográfica...


(Foto: Reboliço)

quarta-feira, 4 de maio de 2005

Sorna e os cães do pastor

O Sorna é um rafeiro do Alentejo. Quando o rebanho de cabras do vizinho se aproxima, temos de o prender. Não é pelas cabras, mas pelos cães. Vá-se lá saber porquê, este cão que cresceu num apartamento urbano sabe todinha a lição de pastorear. E parece que se ofende quando vê aqueles outros, minorcas e de pêlo ralo, a comandar o gado. À sua volta, nestas alturas, andamos todos a tapar as orelhas com as mãos.

Sorna e Luca

Este domingo, pela primeira vez o Sorna deixou que a Luca se instalasse na caixa do carro, junto dele. Dantes, rosnava-lhe e a bicha fazia o "sacrifício" de viajar aos nossos pés. Mas o pobre do Sorna é sorna, mesmo: deixou-a entrar e, depois, já não se conseguia deitar no chão da caixa, com medo de a magoar. Ela, descontraída no seu meio metro de comprimento peludo, ferrou a dormir. O bicho, gigantão mas muito digno, não se atreveu a baixar sequer a cabeça. Foi em pé os doze quilómetros da aldeia ao moinho. Ainda há cavalheiros!

segunda-feira, 2 de maio de 2005

A Em Cena do Verão passado

(Foto da capa que a Mana fez para o mini-número: Reboliço)

Revistas

Como aqui vou escrevendo cartas para mim (sendo que "mim", neste contexto quase majestático, significa "eu, a minha família de sangue mais a minha família de eleição; e, como a rede é livre, em última análise todos aqueles que o destino ditar"), deixo alguns auxiliares de memória: Les Inrockuptibles, Film Comment, Magazine Littéraire, Zero, Vice Magazine. Até ao mês passado, também incluiria a Premiere francesa - desde o final dos 80 que a lia e a colecção de exemplares já mal me cabe em casa; desgraçadamente para o meu entretenimento mensal e para a satisfação do meu pendor coleccionista, mas felizmente para a minha carteira e para as estantes lá de casa, a revista deixou de oferecer as oito fichinhas sobre filmes. Uma vez que, de há uns dez anos para cá, as fichinhas eram praticamente a única coisa na revista que me fazia gastar dinheiro nela, acabou-se! Nem mais um tostão para crítica banal de filmes mainstream. Os que me estão próximos sabem que isto é um marco histórico na vida do Reboliço.

Quanto à MELHOR REVISTA DO PLANETA, só pode ser encontrada em edição de papel, numa daquelas livrarias que só vende boa leitura. Por isso (chuif, chuif...), não posso linkar. A Em Cena é de folhas imprimidas, papel bom e colorido, letras quase tácteis. Mesmo assim, um universo.